Corações Feridos
56 Sinais.
Notas iniciais
Juliana estava deitada na cama, era de noite. Não conseguia dormir, tinha tantos pensamentos e estava se torturando com eles. Olhava para o teto, observando o ventilador soprar lentamente. Não conseguia dormir nem por cinco minutos. Já tinha se revirado na cama umas dez vezes, tentava encontrar a posição mais confortável possível...
Pegou o telefone sem fio em cima do criado-mudo, ao lado do abajur.
Precisava conversar com alguém. — A-alô? — Bia atendeu no terceiro toque, sua voz estava gasta e sonolenta.
– Oi amiga, como está? — Julie perguntou triste.
– Huh, Juh? Tem noção das horas?
– Sinceramente, não. — Deu um sorriso sem graça.
– São três horas e quinze da madrugada.
– Desculpe. E-eu vou desligar.
– Não. — Pausou. — Já me acordou. — Na sua casa, Bia se levantou. Tentando ser discreta para Félix não acordar. Foi até a sala, se deitou no sofá. — Agora pode falar. — Disse bocejando.
– Tá bom. — Respirou fundo. — Eu não consigo dormir, estou com insônia. Comecei a ter insônia depois que mexemos naquelas cartas. Agora eu não paro de pensar no relacionamento que eu e ele distruimos.
– Mais você do que ele, né Juh?
– Não! Nós dois! P-porque agora ele está noivo. — Pausou, suspirando. — E eu não sei, estou com raiva disso. E acho que é por causa disso que estou com insônia. Desde aquele dia, penso todas as noites nisso.
Beatriz também pensava como Julie. Achava que Daniel esqueceu sua ex, ou então, está fazendo o possível para esquece-la. Ela não queria ver sua melhor amiga e seu único irmão sofrer, e agora que Daniel estava noivo... O jeito era Julie seguir seu próprio caminho.
– Não sei amiga, de repente vocês não nasceram um pro outro. Acontece. — Bia disse balançando a cabeça. — Ele me parece feliz ao lado da noiva, apesar de não ter te esquecido completamente, ele quer te esquecer. E se ele vai noivar, é porque ama a noiva... Namorada... Sei lá.
– Eu sei. Você está certa. Mas eu me sinto tão confusa, tão perdida. Pode ser questão de orgulho, não sei. Talvez eu não queira que ele se case porque ele foi meu primeiro namorado e marido. Terminamos tão rápido e ele já está noivo. — Torceu seus lábios. — Estou sendo egoísta, não é? Eu não posso pensar assim, tenho que deixar pra lá.
– É Julie, deixa pra lá.
– Mas como vou deixar pra lá se eu vejo ele todos os dias? Preciso me demitir. Isso tudo está embaralhando a minha cabeça, pensei que estava feliz com a nossa separação, só que na verdade não estou. Ou estou mas não percebo... É muito estranho. Acho que estou feliz com a nossa separação, mas triste por saber que ele já encontrou outra pessoa e está feliz sem mim.
– Amiga. — Bia suspirou. — Como consegue ser tão complicada?
– Minha cabeça está um caos! É isso!
– Calma...
– Estou com vontade de gritar e mandar aquela namorada dele pro inferno por roubar o coração de um homem que estava casado com uma mulher que aparentemente amava! MAS QUE NA VERDADE NEM LUTOU POR ELA!
– Julie!
– Me diz o que eu faço?!
– Olha, essa parte de mandar a namorada pro inferno. Eu faço. — Bia disse rindo fracamente, ouviu Julie rir um pouco também. — É sério, sempre detestei todas as namoradas do Daniel, menos você, claro. E essa ai não vai ser diferente. Odeio ela. Talvez seja por isso que o Daniel não quer me apresentar à ela. — Pausou. — O que você tem que fazer é encontrar uma pessoa que goste de você.
– O JP?
– Eu estava pensando no Nicolas.
– Mas o Nicolas não gosta de mim... — Lembrou do beijo que trocaram no escritório. — Ou gosta?
– Eu não faço a mínima ideia. — Bia riu. — Admito que também estou confusa, não sei se quero vocês juntos ou separados. Porque agora... Acho que separados seriam mais felizes. Sei lá... Juntos aconteceu tantas coisas ruins, mas... Coisas boas também. — Pausou. — Quer saber Juh? Ignore o meu conselho. Faça o que quiser. É o sono... Eu estou com sono e não consigo pensar direito.
– Para Bia, está me embolando! Fiquei mais confusa!
– Desculpa, tenta dormir. Esse é o meu conselho. Dorme que passa. Eu... Preciso desligar... Boa noite.
Julie suspirou ao ver que sua amiga tinha desligado, pensou em ligar novamente, já que não ia conseguir dormir com essa conversa pendente. Mas achou melhor não, afinal, Beatriz estava grávida, precisava descansar bastante...
[...]
– E então, como foi seus dias de descanso? — Martim perguntou para Daniel.
Os dois conversavam na copinha.
– Ah, não gostei muito. Me trataram como se eu fosse um doente, incapaz de fazer as coisas. Passei dois dias deitado na cama, ganhando tudo nas mãos. — Revirou os olhos. — A única coisa boa foi que recebi a visita da minha noiva, até apresentei ela à minha mãe. Só que... Não sei... Ela continua reagindo estranho. — Suspirou. — Disse que deveria me internar... Porque é grave.
– Ela é um pouco sem noção, né? — Martim riu. — Se internar? Você deveria ter é uma enfermeira particular...
– Você também só fala merda.
– Sabia que esse mês é mês de observação? — Mudou de assunto.
– Observação? Não seria inspeção?
– É, isso ai. — Martim sorriu. — Demétrius disse que vai mandar uma pessoa pra observar a gente, como trabalhamos e se estamos fazendo as coisas certas... Eu vou ter que parar de azarar as clientes, pelo menos esse mês.
– Que triste pra você.
Daniel olhou para o longe, viu um rapaz da sua altura, moreno claro, cabelos lisos e castanhos, ele parou no balcão. Conversava com uma pessoa qualquer quando virou o rosto para a copinha. — Não... — Daniel sussurrou.
Ele reconheceria esse rosto em qualquer lugar. — Aquele não é o Nicolas? — Martim perguntou cutucando o amigo.
Daniel só assentiu com a cabeça, ainda sem acreditar.
Os dois viram que Nicolas se aproximava.
Disfarçaram, tomando café e conversando sobre outras coisas. Até que o moreno chegou e comprimentou os dois. — Bom dia Martim, Bom dia Daniel.
– Bom dia. — Só Martim respondeu, enquanto Daniel bebia um pouco de café e olhava para o lado oposto.
– Meu tio me mandou aqui. — Nicolas sorriu. Balançando a prancheta que pegou do balcão. — Vou ver como estão as coisas. Observar como todos trabalham aqui...
– Você não era advogado? — Martim perguntou sem entender.
– Ele tá fazendo bico, Martim. — Daniel sussurrou.
– Estou apenas fazendo um favor ao meu tio, não vou receber por isso. — Nicolas corrigiu.
– Vai trabalhar mas não vai receber dinheiro... Que porcaria.
– Tudo bem Daniel. — Ele anotou algo na prancheta, Daniel tentou ler mas Nicolas escondeu. Parecia estar com raiva. — Porque está aqui? Não deveria estar trabalhando?!
– Ele acha que eu devo satisfações à ele... — Daniel sussurrou para Martim.
– Sobe. — A voz autoritária de Nicolas não o intimidou.
– Ih, eu subo quando eu quiser. Não é você quem vai mandar em mim.
– Ah, é? — Ele riu. — Eu quero ver como você trabalha... Vamos.
O loiro revirou os olhos. Bebeu o restante do café e seguiu Nicolas.
Andavam pelo corredor, calados. Mas no fundo, os dois sentiam raiva. ‘’ Esse será um longo mês... ‘’ — Daniel pensou, desanimado.
Pegaram o elevador, que infelizmente estava vazio, os dois não tinham diálogo, não conseguiam conversar nem mesmo na base da falsidade. Se odiavam mais do que tudo. — O que escreveu sobre mim ai? — Daniel quebrou o silêncio, queria muito saber o que estava escrito na prancheta.
Nicolas a escondeu, mas não hesitou em responder. — Que você fica flauteando na copinha. — Deu um sorriso.
– E você vai mostrar isso para o meu chefe?
– Mas é claro. — Pausou, olhando para a prancheta. — Essa é a parte divertida do meu... Bico.
– Espera, o Martim também estava lá. Não vai anotar sobre ele?
– Não, eu vou deixar... Ele é uma boa pessoa.
Daniel se calou, os dois saíram do elevador. Nicolas o seguia. Chegaram na porta do escritório, ele passou o cartão chave e os dois entraram. ‘’ Acho que ele errou, essa é a parte mais divertida do bico dele... ‘’ — Daniel pensou.
– Julie?! — Nicolas sorriu ao ver Juliana ali, ela organizava alguns papéis.
Porém, levantou o rosto e notou o rapaz ali. Seu coração acelerou, Juliana logo lembrou da conversa que teve com Bia. E sobre o conselho da sua amiga em encontrar alguém. Ela não estava muito confiante quanto à isso. Mas agora se sentia diferente. ‘’ É um sinal. ‘’ — Ela pensou.
Abriu um sorriso e disse animada. — Nicolas! Quanto tempo!
– Ah! — Ele soltou a prancheta, a mesma caiu no chão, bem no pé do Daniel. — Vem cá me dá um abraço!
Os dois se abraçaram forte. Daniel cruzou os braços e olhou para o lado.
O abraço estava demorando mais do que o normal para todos, principalmente para Daniel que se sentia ‘’desafiado’’ com aquilo.
Ele puxou o braço de Nicolas, separando os dois. — Não tem mais nada para fazer, Juliana?
Julie deu um sorrisinho amarelo. — Acho que ainda falta algumas tarefas...
Daniel balançou a cabeça. — Então vai, trabalha!
– Juh? — O loiro revirou os olhos com a intimidade dos dois. — Você faz todo o trabalho aqui?
– Ah, mais ou menos. Não sei... Faço as coisas que ele me pede.
– E você Daniel, o que faz? — Nicolas se virou para ele.
– Eu atendo os meus clientes. — Se aproximou. — Algum problema com a forma como eu trabalho?!
– Não. Não é só com isso.
– E então Nicolas, o que veio fazer aqui? — Julie tentou terminar com a discussão.
E conseguiu.
Nicolas parou para encara-la, sorrindo. Respondeu. — Sabe Juh, meu tio me pediu um favor... Ele meio que quer fazer a ‘’limpa’’ na empresa, então ele me mandou aqui para observar e — Olhou para Daniel. — Descartar os funcionários que não prestam.
– Você também vai me inspecionar? — Perguntou levemente preocupada, não gostava dessa pressão.
– Não não Juh... Você não. — Sorriu. — Eu sei que você é perfeita, por isso não vou te reprovar em nada. — Ela sorriu com isso.
– Você vai cumprir com o seu trabalho ou vai ficar aqui conversando com a Julie?
Com essa pergunta o moreno riu. — Ele ainda sente ciúmes de você? — Apontou para Daniel.
– Não é ciúmes. — Julie abaixou a cabeça com a resposta de Daniel. — Eu só não quero perder tempo.
– Será que é isso mesmo, Daniel? — A morena cruzou os braços. — É sempre você que começa as brigas! — Lembrou da época do colégio, quando Daniel conheceu o Nicolas...
– Você não sabe de nada! — Ela mordeu os dentes com a resposta grosseira dele. — Foi o Nicolas quem começou! Ele que veio de gracinhas querendo mandar em mim... Pensa que é o que?! — Respirou fundo. — Sabe... Eu não quero passar mais tempo do que o necessário com você. — Olhou Nicolas de cima até embaixo e gesticulou com as mãos. — Vamos, a minha sala é ali...
Os dois entraram. Nicolas abraçava a prancheta enquanto fiscalizava tudo na sala de Daniel. Abriu as gavetas. Mexeu no computador, leu seus e-mails, analisou os retratos, leu uns contratos, viu sua agenda... — Também quer saber qual é a cor da minha cueca?
Eles se olharam com raiva. — Observação: Daniel é debochado. — Anotou isso na prancheta. — Você sabia que me deve respeito?
– Eu te devo um soco na cara.
– Tá bom cara, qual é o seu problema comigo?!
– Você estragou a minha vida, Nicolas. NÃO PERCEBE?!
Nicolas apenas levantou o rosto encarando Daniel de nariz empinado, cruzou seus braços e disse. — Do que está falando?
– Eu amo a Julie.
Ele riu. — Ama? Porque não lutou por ela?
– Eu não tive escolhas, ela não me queria mais...
– Está ai a resposta. Ela não te queria mais, Daniel. Acabou.
– Ela poderia ter me dado mais uma chance se não fosse você, com essa coisa da divórcio. — Cuspiu as palavras na cara de Nicolas. — Não se sente culpado por destruir nosso relacionamento?
– Não. Não sinto. — Sorriu. — Eu só sinto que a Julie está muito melhor agora. Sem você.
Aquelas palavras eram como facadas certeiras no peito de Daniel, ele não conseguia mais rebater. Não tinha mais resposta a não ser abaixar a cabeça e concordar.
[...]
Julie estava pensativa, sentada na cadeira, não sabia mais o que fazer, tinha tantas coisas para imprimir... Recados para dar. Mas não conseguia agir, só pensava nos dois homens que um dia já gostou. Claro que seu sentimento por Daniel ia muito além de um simples ‘’gostar’’.
Mas essa era a verdade, estava separada apenas dos seus dois amores apenas por uma porta.
‘’ Isso é um sinal... É lógico que é. ‘’ — Estava em conflitos com seus pensamentos. ‘’ A Bia me aconselhou sair com ele e depois de meses sem vê-lo, ele está aqui! ‘’ — Se sentia confiante o bastante para convidar Nicolas pra sair.
E aconteceu mais um sinal: Nicolas saiu do escritório do Daniel assim que Julie decidiu chama-lo para sair.
O moreno sorriu para ela. Seus olhos se focaram, Juliana se sentiu arrepiada ao perceber que os olhos de Nicolas eram azuis claros.
Era cegamente apaixonada por Daniel, tanto que nem notava nos outros homens... Nunca percebeu a linda cor dos olhos de Nicolas.
– Bom Julie. — Ele parou na sua mesa, ainda sorrindo. Nicolas não parava de pensar no beijo que trocaram no dia em que ela foi fazer o divórcio de Daniel, que aliais, foi o melhor dia da sua vida.
Daniel também não parava de pensar naquele beijo. — Quer descer para tomar um café comigo?
– Não. — Antes de Juliana responder Daniel interrompeu. — Ela tem muitas tarefas hoje. Precisa me ajudar em muitas coisas.
Julie suspirou. — É verdade Nicolas, tenho muitas tarefas. — Ele abaixou a cabeça com a resposta. — Mas... Podemos jantar hoje à noite, que tal?
– Claro, está marcado! Passo na sua casa às oito!
– Às oito está ótimo! — Os dois sorriram juntos. Nicolas beijou o seu rosto antes de sair.
Juliana continuou sorrindo até Nicolas sair...
– O que deu em você?! — O tom de voz de Daniel estava enfurecido.
Ela riu pelo nariz. — Como assim?
– Porque chamou ele para sair?
– Porque eu quis?
Daniel respirou fundo. Puxou forte o pulso de Julie. Aproximando seus corpos. — Não devia ter feito isso. — Disse entre dentes.
– Me solta! — Se afastou ao ver que Daniel a soltou. — Qual é o seu problema hein?
– Meu problema? SEU PROBLEMA! Porque chamou justo ele?! — Afrouxou sua gravata. — Queria me humilhar? É isso?
– Ah, quer falar de humilhação?! Tá bom... E que tal o fato de você ter me humilhado também?! Não pensou nisso?! — Se aproximou.
– Não sei do que está falando. — Deu alguns passos também.
– Estou falando da sua noiva!
– …
– Achou que eu não sabia que você ia se casar?
– Beatriz... — Revirou os olhos.
– Não. — Suspirou, se recostando na mesa. — Sua irmã não me disse nada. Foi você.
– Eu?! Eu não disse nada! Você está inventan-- Ela colocou o dedo nos seus lábios.
Se encararam, seus olhares refletiam o desejo que ambos sentiam um por outro, mas faziam questão de esconder.
– Foi você. — Respirou fundo. — Há cinco dias atrás, quando você saiu pra beber com o Félix. E a Bia te ligou, lembra?
Daniel estava calado. Se lembrava vagamente... Pois estava bêbado. Julie explicou. — E eu... Estava do lado da Bia, o celular estava no viva-voz e acabei ouvindo as palavrinhas ‘’estou noivo’’.
Os dois se calaram, um silêncio constrangedor se formou naquela sala.
Daniel olhou para baixo, para cima... Não sabia o que dizer... — Olha... Eu não sabia que você estava perto. — Começou. — E-eu... Nem me lembro muito disso... Mas eu não queria que você descobrisse... Não quero que pense que fiz isso pra atingir você. Porque... Jamais faria isso.
– Tá. Eu sei. — O cortou. — Só estou um pouco aborrecida porque esse assunto sobre você repercutiu de mais e... A nossa separação ainda está recente, pelo menos para mim. — Tentava encontrar a forma mais direta de dizer que se sentia incomodada com aquilo.
– Para mim também. — ‘’ Ele não entendeu. ‘’ — E-eu... Sinto o mesmo.
– Será mesmo? — O encarou. — Porque se fosse assim não teria noivado tão cedo.
– Eu tenho os meus motivos.
– Ótimo. — Sorriu. — Também tenho meus motivos para sair com o Nicolas. — Deu a volta até a mesa, onde se sentou na cadeira giratória. — Se não se importa, tenho trabalho para fazer.
– É. Está certa. — Pela primeira vez ele não sorriu torto. Julie o olhou desconfiada. Aquele sorriso era estranho... ‘’ Tem muito trabalho para fazer. ‘’ Esse pensamento foi o motivo do seu sorriso. Ele se virou e entrou para seu escritório.
Pegou algumas pastas, espalhou pela mesa. Juntou os dez contratos. Cada um tinha duas ou três folhas. Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo. Abriu a porta do seu escritório e saiu. Voltou para a sala de Julie, a mesma digitava no computador. — Já que está ai. — Daniel se aproximou da mesa. — Quero que me faça um favor.
Ela assentiu.
– Aqui. — Lhe entregou alguns contratos. Ela pegou, olhou sem entender.
Levantou a cabeça e perguntou. — Pra quê isso?
– Quero que digite tudo isso para o computador.
– O que? Deve ter... Umas vinte e duas folhas aqui! — Começou a ficar nervosa, já não aguentava mais ficar na frente do computador.
– São vinte e cinco folhas. Quero que termine tudo isso hoje.
– E porque hoje? Não vai dar tempo! Já são... cinco horas! Eu saio do trabalho as seis.
– Então é melhor correr. — Olhou para o seu relógio de pulso. — Porque você ainda tem o encontro com o Nicolas.
– É mesmo. — Fez uma careta. — Daniel, eu posso fazer isso amanhã.
– Não. Quero que faça hoje. — Sua voz era firme e autoritária. Julie abaixou os ombros. — É de extrema importância.
– É mesmo? — Levantou a sobrancelha. — Posso saber pra quê ?
– É para alguns clientes. — Se apoiou na mesa. — E você não sai daqui enquanto tudo isso não estiver pronto.
– Hã? NÃO! — Se levantou, nervosa com a situação. Ficava mais nervosa ainda ao ver o sorriso no rosto de Daniel. — E-eu... Eu não vou fazer... Devo demorar horas! V-vou... vou falar com o nosso chefe!
– Só vai complicar tudo. Ele vai achar que você não quer trabalhar, querida.
Ela se sentou na cadeira novamente, derrotada. Soltou um suspiro alto, olhando para a pilha de papéis que Daniel lhe deu. — Divirta-se. — Ele pegou sua mão e beijou.
– Daniel, espera. — Suspirou. Estava triste e no fundo Daniel se sentiu assim também, detestava ver Julie triste. — Pelo menos avisa ao Nicolas que eu não vou poder sair com ele. Por favor. — Sua voz falhava.
Ele assentiu. — Claro. — Caminhou até a porta e saiu.
Passava pelos corredores, avistou Nicolas ao longe, saindo do elevador. Tentou passar pelas pessoas que atrapalhavam seu caminho. — Dá lincença... Lincença, obrigado... Senhor... Licença... Sai da frente porra!
Com muito custo conseguiu passar pelo corredor lotado. Segurou o ombro de Nicolas e o mesmo se virou para o loiro. — Daniel? Porque não está no seu escritório?
– Larga essa prancheta. — A puxou dele. — Só vim te dar um recado. — Nicolas assentiu. — A Julie não vai mais sair com você. — Sorriu fracamente. — Ela disse que não gosta de você desse jeito e que o único homem com quem sairia seria eu. — Pausou. — Não adianta Nicolas, estamos separados. Mas ainda nos amamos muito. — Daniel não tinha certeza disso, mas falaria de tudo para tirar o Nicolas do caminho da Julie.
Ele voltou para o seu escritório. Viu que Julie digitava no computador, quase sem piscar, porém, parou um pouco o que estava fazendo para falar com o Daniel. — E ai, explicou a situação para ele?
– Expliquei.
– E o que ele disse? — Sorriu. — Vai marcar outro dia?
– Na verdade, ele disse que ia sair com você por pena. — Julie desfez o sorriso com isso. — Disse que sente pena de você porque... Parece que você está muito triste, sozinha... Precisando de alguém.
Ela abaixou a cabeça. Voltou a digitar. — Sabe, não preciso dele.
– Ninguém precisa dele. Juh...
Ela concordou com a cabeça. — Agora volte ao trabalho. — Daniel mandou. — Eu preciso ir para casa. Já está na hora.
– O que? E eu fico aqui?
– Claro. Até terminar tudo. — Sorriu.
– M-mas... Eu tenho medo de ficar sozinha aqui, Daniel...
– Relaxa, não existe essas coisas de espíritos e fantasmas.
– Fantasmas? — Se encolheu. — Porque está falando em fantasmas?
– Ah, você acredita certo? — Ela assentiu. — Então. Cuidado com os corredores... — Sussurrou.
[...]
02:17 A.M
Julie já não aguentava digitar. Sua mesa estava uma bagunça, cheia de papéis e canetas. Seu celular estava ao seu lado, junto com a caneca cheia de café frio... Acabou dormindo com a cabeça em cima da mesa, amassando aqueles ‘’ contratos importantes ‘’ que Daniel lhe deu.
Ela dormia profundamente. Tão profundamente que não conseguia ouvir os passos vindo do corredor.
Abriram a porta, avistaram a moça ali. Ela estava coma cabeça virada para o outro lado, roncava fracamente, estava exausta.
– Psiu. — Daniel afagou seus cabelos. — Julie...
– Huh. — Ela virou o rosto para o lado, abriu seus olhos avermelhados. Ainda bamba de sono. Viu Daniel.
– Vim te buscar.
Ela sorriu fracamente. Via aqueles cachos, o rosto e o sorriso angelical. — É um anjo... — Sussurou.
– É. Obrigado. — Tocou no seu rosto. — Acorda, vamos...
Julie levantou os braços. — Anjo, me carrega... Você pode voar...
– E você está doidinha.
– Estou com dor de cabeça.
– Tsc. — Passou a mão por seus cabelos. Beijou seu rosto. — Não devia ter te deixado aqui, digitando e firmando os olhos a noite inteira. — Se sentia arrependido pelo que fez. — Ciúmes mexe com a gente, não é? — Sussurrou.
– Anjo.
– Não sou anjo Julie, mas estou perto de ser. Sou eu, o Daniel. Acorda. — Suspirou. Viu que Julie estava extremamente cansada. — Eu não queria né... Mas o jeito é te carregar até o primeiro andar... Tenho que carregar você, uma moça linda... Que chato.
Puxou seus braços, mesmo sonolenta, Julie passou seus braços pelo ombro de Daniel.
Ele virou seu rosto e seus narizes se encostaram. — Agora vejo as vantagens de ir de escadas. — Daniel dizia, ela sorriu fracamente ao ouvir sua voz tão perto. Deitou a cabeça no seu peito, sentia o cheiro do seu perfume. — De escadas eu posso te carregar por mais tempo.
Daniel desceu com ela nos braços até o estacionamento. Julie já tinha acordado. Mas estava com sono. — São que horas?
– Acho que três...
– Huh, porque está me carregando?
– Porque você dormiu no trabalho.
Ela riu fracamente. — Vi fantasmas...
– Viu?
– Uhum.
– Sabia que você fica ainda mais doidinha quando está com sono? Hein? — Beijou seu rosto.
A colocou no chão, ela cruzou os braços, sentindo sua pele se arrepiar com o frio cortante daquela noite. Daniel subiu na moto, girou a chave e o barulho alto a fez acordar totalmente. — Sobe. — O loiro pediu sorrindo.
– Nada disso, não vou de moto Daniel, vou à pé.
– Aham, pra ser assaltada, estrupada e morta? — A abraçou por trás, ainda em cima da moto. — Vem cá... — Beijou sua nuca. — Está com frio? — Ela balançou a cabeça. — Sobe na moto. Eu te dou o meu casaco.
– Sendo assim... Eu subo. — Daniel a ajudou, Julie subiu na moto, na parte da frente. Ele a abraçou por trás enquanto tirava seu casaco. Ela vestiu, virou uma espécie de moletom. Era grande e quente. Batia quase nas suas coxas, já que Daniel era mais alto que ela.
– Melhorou? — Ela assentiu. — Tá quentinha agora? — Beijou seu rosto.
– Estou... To sim... — Tentava se esquivar dos beijos, que desceram para o seu pescoço. — Daniel, para!
– Lembra quando éramos casados? — Disse entre beijos. — Você me disse que gostava dos meus carinhos... — Continuou beijando seu pescoço.
– Quando éramos casados! Para! — Apertou seu peito, o empurrando levemente. — Você bebeu?!
– Só um pouco de vodka.
– Foi uma pergunta retórica! Quis dizer que você estava louco! M-mas... Você bebeu mesmo! Meu Deus... Você não pode dirigir essa moto bêbado! Já cansei de te dizer isso! Só vai parar quando sofrer um acidente e morrer né?!
– Olha essa boca!
– Só estou falando a verdade! — Revidou.
– Ah é? Eu vou dirigir essa moto. Não vou me machucar, porque você meu amor, é meu amuleto da sorte. — Beijou seu rosto novamente antes de acelerar.
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