Corações Feridos
22 O segredo.
Notas iniciais
Trocavam beijões de cinema, ele estava até apertando os peitos dela. Os dois estavam num agarramento sem fim. Mas pararam e tentaram disfarçar quando Daniel entrou. — D-desculpe. E-eu já e-estou indo... — Já ia abrir a porta da cozinha e sair.
– Não. — Heloísa afastou Raul de seus braços. — Daniel, você está vermelho! — Ela riu.
– E-eu n-ão queri-a inter-romper.
– Não interrompeu. — Disse ela, olhando para seu ex marido. — Acho que já está na hora de você ir...
Ele assentiu. Um pouco chateado. Passou por Daniel e saiu.
– Onw, me dá essa coisinha linda. — Pediu sua sogra, esticando os braços, Daniel lhe deu seu filho. Ainda envergonhado.
– Eu não sabia que vocês estavam juntos...
– Não precisa se explicar Daniel. — Pausou. — E não estamos, só... Estávamos conversando... Aí... Eu não sei o que deu na gente... — Balançou a cabeça, tentando esquecer aquele beijo. — Foi uma loucura. — Suspirou. — Ainda bem que você apareceu para nos interromper, poderíamos ter... — Corou. — Aff, não quero nem pensar nisso...
– Só achei muito estranho, são separados desde que a Julie era pequena.
– Também achei loucura. — Disse brincando com o seu neto, mas levantou o rosto para encarar Daniel. — Só não conte para a Julie.
– Ah, c-claro.
– Eu não quero que ela pense que estamos juntos, porque não estamos, ainda vamos conversar sobre isso. — Pausou. — E sabe como a Julie é, né? De repente pode pensar que todo o amor dura para sempre... Ou coisa parecida, mas não é bem assim.
– Tudo bem. Eu vou tentar não contar a ela.
'' Mas vai ser um pouco difícil. '' — Pensou, preocupado. Sabia que não conseguia esconder as coisas dela, ainda estava surpreso por conseguir ocultar as coisas que aconteceram entre ele e a Thalita.
[...]
Dois dias se passaram. Daniel estava cada vez mais fissurado em motos. Chegava do trabalho e a primeira coisa que fazia era entrar na internet e procurar por motos, preços, marcas, estilos.
Enquanto Juliana se sentia cada vez mais excluída pelo marido. Só tinha seu neném de companhia, se sentia um pouco carente, queria atenção de Daniel. — Amor. — Ela chegou por trás do marido, que estava sentado na poltrona. O abraçou, beijando seu rosto. — Como foi seu dia? — Perguntou tentando encontrar algum assunto.
– Aham. E você?
– O que?
Ele não tirava os olhos do notebook. Ela alisou seu peito e foi beijando seu rosto, Daniel apenas sorriu levemente, ainda hipnotizado pelas motos. Ela foi levando os beijos até a boca, ele retribuiu um pouco. — Olh-a! — Disse entre o beijo, virou o rosto. — Senta aqui amor. — Daniel pediu, batendo nas suas coxas.
Julie sorriu e se sentou no seu colo. Pensou que era para continuar com o carinho, mas Daniel lhe mostrou o notebook. — Essa moto está só cinco mil, bem mais barata do que nesse site, que a maioria estão sete mil. — Sorriu.
– Porque está assim comigo? — Ela perguntou, controlando as lágrimas. Estava carente e se sentia triste. — Agora só pensa nessa moto idiota, nem conversa direito comigo. — Se levantou do seu colo, secou as lágrimas que enxiam seus olhos. — Está estranho! Está me escondendo alguma coisa!
Daniel sentiu seu coração partir ao ver as lágrimas da esposa. Ele não queria trata-lá assim, mas se via obrigado. '' Não posso te contar Julie... '' — Pensava. Sabia que deveria se distrair com alguma coisa para não contar a ela sobre seus pais. E a única distração que conseguiu encontrar foi a moto.
– Me perdoa Juh. — Se levantou também, pegou sua mão.
– Fica com as suas motos. — Respondeu com indiferença. — Eu vou subir, tenho mais o que fazer... — Se soltou bruscamente dele e subiu as escadas.
Daniel continuou na sala por um tempinho, não queria segui-lá até o quarto e piorar ainda mais a discussão, afinal, Julie era bem esquentadinha e ele sabia disso. Se passou meia hora, ela estava no quarto, ninava o neném enquanto sua mente se enxia de pensamentos. '' Ele queria que eu mudasse... Estou tentando, mas agora ele não me dá atenção. Não entendo isso... '' — Pensava. '' Até deixei ele comprar a tal moto. Tudo isso para ele perceber que estou mudando. '' — Colocou seu filho deitadinho ao seu lado, o mesmo já estava dormindo, Julie beijou seu rostinho com carinho, fechou os olhos sentindo o cheiro de talco de maçã no pescoço dele. O deixou ali e se abaixou, pegou o álbum de fotos que estava na última gaveta do criado mudo.
Sorriu, vendo as fotos dos melhores momentos da sua vida. A formatura... Seu casamento... Tirou uma foto especial, uma foto que estava ela e Daniel, no dia do casamento deles. A foto foi tirada logo depois do beijo. Ele segurava sua mão, os dois mostravam a aliança de casados. E atrás da foto estava escrito '' Te amarei para sempre '' — Seus olhos brilharam com aquela simples frase escrita por Daniel.
Beijou a foto e guardou no álbum de novo, foi revendo outras fotos, até que chegou na lua-de-mel. Tiraram várias fotos, fotos na praia, no quarto, dentro do táxi, na rua, no mar. Estavam tão felizes.
Seu coração disparou de alegria, como se ainda estivesse na lua-de-mel. Lembrou dos mínimos detalhes daquele lugar.
Até que lembrou da tal entrevista que viu na TV, quando ainda estava na viagem com o marido.
Fechou seus olhos, como se voltasse para o tempo.
Julie foi para a sala, ligou a TV enquanto via as fotos que tirou com Daniel: Ria de algumas delas. Principalmente da que tirou de Daniel dormindo na areia, lembrando que jogou água no seu rosto para acorda-lo. — Já vi que esse casamento vai ser uma comédia. — Disse rindo. Mas ai foi prestando a atenção no programa que passava na TV.
Era uma matéria sobre casamento e separação. — Então mais de vinte por cento dos casais que se casam acabam se separando. — Dizia a repórter, que entrevistava algumas mulheres. — Me diga, por que se separou do seu marido?
– A gente brigava muito, quase não chegávamos a um acordo. Ele não gostava das coisas que eu fazia... — Julie começou a se sentir incomodada com aquilo, era como se seu coração se apertasse. — Até discutimos um pouco na lua-de-me--- Julie desligou.
Abriu os olhos novamente, sentia seu coração completamente acelerado. '' Porque liguei a TV naquele dia? '' — Se perguntava, Julie não era muito de assistir jornais ou coisas do gênero, normalmente assistia só filmes e séries. — '' E foi na lua-de-mel... e porque justo uma matéria sobre separação? '' — Continuava com os pensamentos loucos.
A gente brigava muito, quase não chegávamos a um acordo. Lembrou das palavras da mulher na entrevista. '' Será que isso foi um sinal? '' — Julie imaginava, já que se identificava com aquilo. Era o que passava agora: Eles brigavam, mesmo sendo discussões bobas, mas brigavam, quase não chegavam a um acordo... '' Será que eu não deveria ter me apaixonado pelo Daniel, e não deveria ter me casado com ele? '' — Esses pensamentos a torturavam profundamente.
Escutou uma batida na porta e antes de responder Daniel entrou. — Oi. — Disse.
– O que faz aqui?! — Julie rosnou.
– Hum, minha casa... Meu quarto...
– Nossa casa, nosso quarto. — Corrigiu. — Daniel, sai daqui, não quero te ver... Saí! Me deixa sozinha!
– Jamais. — Se aproximou. — Me perdoa Juh. — Sussurrou no seu ouvido, lhe causando arrepios. Mas não recebeu resposta. Viu que Julie estava calada de mais, quieta de mais. — Huh, aqui está calmo de mais. Que tal fazermos um pouco de barulho? — Piscou o olho e jogou aquele olhar que fazia Juliana se derreter.
– Porque não vai fazer amor com a sua moto?! No sofá! — Mas ela não dava o braço a torcer.
– Que isso Julie, é assim que trata o seu marido... — Tentou se aproximar para roubar um beijo, mas Julie virou o rosto.
– E como você me tratou esses dias, hein?! — Se levantou. — ME TRATOU COMO SE EU FOSSE UMA... — Parou de gritar quando viu o neném se remexer no colchão, ela também escutou um chorinho fraco, provavelmente assustado. Ela o pegou e colocou cuidadosamente no berço. O colocou deitadinho com a barriga para cima e os braços esticados, era a posição que ele mais gostava. Ela sorriu fracamente ao ver seu filho. Mas quando se virou para Daniel desfez o sorriso e o brilho dos seus olhos se ofuscou.
Ele percebeu o olhar triste de Julie. Não queria vê-lá assim. — Senta aqui, Juh. — Pegou sua mão e pediu para que ela se sentasse na cama. — Vamos conversar.
– O que? Acha que eu vou te perdoar?! Anda me desprezando a semana tod--- Ele a calou com um beijo. Um beijo lento e calmo, ela fechou os olhos, não queria demonstrar que estava gostando ou retribuindo. Então virou o rosto e limpou seus lábios.
– Eu só quero que me escute. Só isso. — Pediu, ela ficou calada e Daniel decidiu continuar. — Eu... Quero comprar uma moto, mas não estou tão empolgado assim. — Disse, ela o encarou sem entender. — Só estou tentando encontra uma maneia de... Te ignorar...
– M-mas você ainda tem a coragem de falar isso na minha cara! — Lhe deu um tapa no ombro.
Ele segurou suas mãos. — Calma, ainda não terminei de falar. — Pediu, calmo e educadamente. Enquanto Julie estava totalmente enfurecida. — Eu não queria te ignorar nesse sentido, amor. É que...Eu nunca te escondi nada, sempre te contei as coisas, e é um pouco difícil para mim guardar segredo com você.
– Que segredo?
– Julie, eu não posso te contar, por favor... Eu prometi...
– Não me interessa o que prometeu, eu quero saber e ponto.
Ele suspirou. — Depois do almoço na casa da sua mãe, você foi se deitar e me pediu para eu levar o Diego para a minha sogra. — Ela ouvia atentamente. — Eu procurei ela pela casa toda e quando entrei na cozinha ela e o seu pai estavam se beijando. Ela me pediu para guardar segredo...
– Ela e o papai estão juntos? Nossa, é um pouco estranho... — Admitiu. — Nunca tinha visto os dois juntos, nem mesmo como amigos. Porque ela quer esconder isso de mim?
– Eu não sei. — Daniel sorriu. — Mas agora me sinto mais leve te contando isso.
Ela também sorriu, o abraçando. — Dan, prometo que nunca vou te deixar.
– Também prometo que jamais vou te deixar.
– Ah, é? — Sorriu. — Então me dá um beijo para oficializar essa promessa.
– Claro, como quiser. — Disse colocando suas madeixas negras para trás, ele a beijou com carinho. Juliana sorriu entre o beijo e foi puxando sua nuca enquanto procurava outra posição melhor para ficar, decidiu se apoiar com os joelhos no colchão. Ainda se beijavam, ele segurou sua cintura e a fez se sentar de pernas abertas no seu colo. Daniel tirou seus sapatos com os próprios pés, e ainda trocando beijos foi se deitando mais no colchão. Julie tirou a camisa de Daniel e ele a imitou, retirando a camisa dela. Ele desceu os beijos para seu pescoço, Juliana recuperava o fôlego perdido, tirava o cinto da calça de Daniel.
Os dois faziam as coisas rápidas, não queriam perder tempo. Estavam desesperados, desesperados para se amarem. Ele retirou o sutiã de Julie, beijou seus seios. — Huh, estão grandes... — Sussurrou isso no seu ouvido, mordendo levemente sua orelha e descendo os beijos para o pescoço e para o seio novamente.
Foram se deitando no colchão, ainda trocando carinhos intensamente.
E o que era para ser apenas um beijo de promessa se tornou uma noite inesquecível para os dois.
[...]
No dia seguinte, os dois acordaram de bom humor. Julie foi a primeira a acordar, sorriu ao relembrar da noite passada. Apesar das brigas, essa tinha sido uma das melhores noites para ela.
Foi para a cozinha fazer o café da manhã e ao mesmo tempo tomava conta do seu neném, que estava deitadinho no carrinho.
– Bom dia. — Daniel apareceu na cozinha, ajeitando a gravata do seu uniforme.
Julie se virou para ele, deixou a panqueca na frigideira e se jogou em seus braços. — Bom dia meu amor! — O beijou apaixonadamente, Daniel retribuiu. Ele chegou até a levanta-lá do chão. — Estou fazendo seu prato favorito! — Disse animada.
– Hum, estou vendo. O cheiro parece ótimo. — Ele sorriu e se sentou na cadeira, puxando o carrinho de neném. O bebê era esperto e já estava mais risonho, não podia ver seu pai que já sorria. O mesmo fazia com Juliana. — Cadê o papai? — Daniel tampou seu rosto com as mãos. — Achou! — Brincava com seu filho, o mesmo gargalhava das palhaçadas, era uma risada gostosa e contagiante. — Que delícia de risada. — Beijou a barriga do neném, o fazendo rir ainda mais.
Ele o pegou no colo, comendo as panquecas frescas e tomando o café. — Me dá ele aqui! — Julie pediu.
– Deixa ele comigo Juh, eu não me importo.
– M-mas sei lá... Você tá segurando ele, enquanto tá bebendo café, esse café está quente... E se de repente cair nele?
Daniel suspirou. Queria passar mais tempo com o seu filho, mas não queria discutir com Juliana, já que tiveram uma noite tão linda. Decidiu entregar Diego para a mãe. A mesma foi para a sala, se sentou no sofá. Não tirava os olhos do seu filho, tão lindo...
Lembrou dos pensamentos de ontem, antes de fazer as pazes com o Daniel. '' Ele tem razão, preciso parar de pensar que tudo é um sinal '' — Pensava. Lembrando que achou que a entrevista que viu na TV sobre separação era algum tipo de sinal, era como se fosse uma indireta do destino, dizendo que os dois iriam se separar. '' Vamos nos amar para sempre. '' — Sorriu com aquilo. '' Afinal, acho que não existe essa coisa de separação, se ama, ama para sempre. '' — Pensou nos seus pais. '' Um dia eles se amaram e para mim eles continuam se amando. Tanto é que estão juntos, mesmo depois de... Quase vinte anos de separação. O amor deles não se apagou. ''
– Juh, vou indo trabalhar. — Daniel interrompeu seus pensamentos, chegando na sala.
– Ah, claro meu lindo. — Se beijaram, ele beijou o neném também.
'' Olha para mim e para o Daniel, somos tão felizes, mesmo com nossas brigas o nosso amor é sempre mais forte. É, está decidido. O amor dura para sempre. Para mim não existe essa coisa de separação. '' — Estava decidida, até que acordou dos pensamentos. — Quer que eu te leve até a garagem?
– Seria bom. — Daniel segurou sua mão e foram juntos para a garagem, ele entrou no carro enquanto Juliana abria o portão automático. — Hoje não vou demorar de chegar, devo chegar as cinco da tarde.
– Tá. — Disse se encostando no vidro. — Eu vou para a casa da minha mãe daqui a pouco. — Daniel assentiu, eles se beijaram novamente.
Julie tomou seu café da manhã, arrumou seu filho e levou sua bolsa. Pegou um táxi e foi para a casa da sua mãe. A mesma ficou surpresa com a visita inesperada da filha. — Vem querida, entre! — Beijou a testa de seu neto. — Já almoçou?
– Mãe, ainda são nove e meia da manhã.
– Vem filha, vem comer um pedaço de torta de frango. Acabei de tirar do forno. — Foram para a cozinha. Julie cortava um pedaço de torta para ela, sempre gostou da comida que sua mãe preparava.
Elas comeram na mesa. Julie comia a torta com rapidez, estava louca para perguntar. — Mãe! Você e o papai se reconciliaram?
Heloísa ficou paralisada. — Já vi que o Daniel não consegue guardar segredos de você... — Sorriu fracamente. — Isso é bom. Vocês não podem ter segredo um com o outro...
– Responde mãe! — Sorriu.
Heloísa suspirou. — Não filha, não estamos juntos.
– Ué, mas vocês se beij...
– É, mas não significou nada. — Interrompeu. — Por isso eu não queria que você descobrisse... Não queria que... Criasse expectativas... Filha, eu estou feliz assim, solteira. Você já me faz feliz o suficiente. — Segurou sua mão.
Julie sorriu fracamente. Mas por dentro seus pensamentos se misturaram novamente. '' É, acho que não adianta... Um dia o amor acaba. '' — Juliana concluiu.
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