Corações Feridos
33 Lágrimas
Daniel não conseguia pegar no sono, mesmo ao lado da mulher que amava. '' Eu... te adoro muito, amigo. '' — As palavras da morena ainda ecoavam em sua mente. Ele fitava Julie dormindo, sua respiração estava calma... Parecia estar tendo um sonho bom.
Ele não deixou de sorrir com isso, mesmo que por dentro se sentisse mal... A amava de mais e faria de tudo para vê-lá feliz. Mesmo que isso venha lhe custar sua própria felicidade.
Passou a noite inteira acordado, alisando o rosto e cabelo de Julie. Até que pegou no sono lá pras cinco da manhã.
Juliana acordou as seis com o barulho da campainha. — Hunf. — Se despreguiçou na cama, virou o rosto e viu Daniel dormindo.
Suspirou. E lhe deu um beijo no rosto. Se levantou, se trocou ali mesmo, afinal, Daniel dormia.
Saiu do quarto, desceu as escadas e foi atender a porta. — Bom dia. — Nicolas a cumprimentou sorrindo.
- Ai, b-bom dia... Porque veio tão cedo?
- Tenho muitas coisas para fazer.
- Hm, q-quer entrar?
- Não não, estou é atrasado... — Abriu sua pasta na varanda mesmo e lhe deu o papel. — Só precisa da assinatura dele.
- Vai ser fácil. Obrigada.
- De nada, e se precisar de mim é só me ligar... — Julie sentiu uma pitada de duplo sentido naquela frase: Precisar dele... Para quê?
- Hm, tá bom. — Deu um sorriso amarelo e corou um pouco.
Lembrou do tímido toque de lábios quando foi no escritório de Nicolas. Para Julie, aquilo não passava de carência, mas era bem mais do que isso.
Ele saiu. Enquanto a morena fechava a porta e entrava para a sala. Lia o papel. Divórcio. Seria um grande passo na sua vida. Sentiu um toque de insegurança, afinal, passou os melhores anos da sua vida ao lado de Daniel.
Como seria sua vida depois que ela o tirasse completamente de seu coração?
Resolveu assinar logo o seu nome no divórcio. Já tinha feito a parte mais dolorosa, que era contar para o Daniel sobre sua decisão. Felizmente, ele não discutiu mais profundamente sobre isso... '' Ainda bem... A pior coisa seria ter uma briga antes da separação... '' — Pensava. '' Poxa, que bom que ele aceitou bem... '' — Por um instante se sentiu mal por Daniel ter aceitado tão rapidamente.
Balançou a cabeça e subiu as escadas, deixou o papel em cima do criado-mudo, ao lado da cama. Viu Daniel ainda dormindo.
Se sentou na cama, o olhando fixamente... '' Como é lindo... '' — Afastou logo seus pensamentos, mesmo sabendo que era a mais pura verdade.
- Acorda. — Pediu, ficando de joelhos no colchão e alisando os cachos dourados do rapaz.
Ele abriu os olhos e virou-se para o outro lado, puxando Juliana. Ela pediu para que ele a soltasse, mas Daniel a puxou, fazendo com que a morena caísse sobre ele, sentada na sua barriga. Com uma perna em cada lado. Ele levantou seu rosto de um jeito rude, deixando seus lábios perigosamente próximos.
Julie virou o rosto. — Sonhei com você hoje. — Disse Daniel, sorrindo. Ele alisava levemente a bochecha de Julie, lhe deu um beijo delicado no rosto. — Quer saber como foi o sonho?
- Quero. M-mas... Me solta... — Mudou aquela posição, saindo de cima do colo dele. Se sentou na cama.
- Eu sonhei que você engravidava de novo. Só que era uma menina, e você ficava feliz... Eu também. — Sorriu, pegou sua mão e lhe deu um beijo. — Eu sei que um dia esse sonho vai se tornar realidade, ainda seremos uma família muito feliz, eu, você... — Beijou novamente sua mão. — E quantos filhos você quiser...
- Pare com isso, Daniel... — Disse se soltando e se levantando também, estava um pouco corada com as palavras. — Nem sei se quero ter filhos. P-pelo menos... Não por enquanto.
- Quando você quiser...
- Hm... — Ela coçou a nuca, um pouco nervosa. Olhou para o criado mudo e o papel por cima dele. Não sabia como dizer para Daniel sobre o divórcio, na verdade, deixou o papel sobre o criado mudo justamente para ele encontrar sozinho e tirar suas próprias conclusões, mas o problema era que Daniel não tinha percebido, ele nem ao menos tirava os olhos de Julie. Ela pensou em uma coisa: — Eu acho que na noite passada essa luz do abajur queimou. — Apontou com a cabeça para o abajur no criado mudo.
- Não queimou. — Respondeu, sem olhar para o móvel, se abaixou. — Deve ser a tomada, está com um pouco de mal contato... — Respondeu retirando a tomada.
- Não! É... É o abajur, ai em cima! Vê!
Ele franziu a testa, encaixou a tomada no lugar, se levantou e assim que pegou o abajur encontrou o papel. Leu, calado. Só leu algumas estrofes e já sabia o que aquele papel representava. Seu mundo caiu.
Viu a assinatura de Julie. — Como é que chegamos nesse ponto? — Perguntou, ainda calmo. Mas assim que olhou para Julie, viu o quanto era linda... Queria passar o restante da sua vida ao seu lado, era seu único e maior amor. Foi ai que se irritou. — Eu pensei que ficaríamos juntos até que a morte nos separe! O que aconteceu com os seus votos? Hein?
- Daniel, eu não quero discutir... Eu tinha dito ontem que te via só como um amigo agora.
- E-eu... Eu pensei que não estava falando sério, pensei que fosse uma das suas... Doideiras, sei lá! Eu não concordo com isso! — Balançou o papel. — Eu não aceito a nossa separação, eu não quero!
- Pare de gritar e assina logo isso!
- Porque? — Ele foi se aproximando. Prendia o choro. — Eu não quero me separar de você... Por favor... — Afagou seus cabelos negros azulados.
- Para de drama. — Se soltou.
- Drama? Eu? É você que quer se divorciar de mim! Por causa de uma bestei-- Parou de falar, mas Julie já tinha entendido.
- Besteira? Acha que o nosso bebezinho é besteira?
- Não... O que eu quis dizer é que podemos superar isso, juntos...
- Eu cheguei a pensar assim nos primeiros dias, mas não... Não dá... E-eu... Vou dar uma passadinha na casa da minha mãe. Enquanto isso você... Lê isso ai e assina.
- Eu sou obrigado a assinar agora? — Olhou para o papel. — E como é que você manda fazer um divórcio assim... Do nada! Sem ao menos falar comigo! Tudo na encolha...
- Ah. — Sorriu. — Que nem você me escondendo sua secretária...
- Eu escondi a Thalita justamente para você não pensar besteira de mim...
- Então não adiantou você esconder ela, porque eu penso besteira do mesmo jeito... — Prendeu o cabelo com um coque mau feito, passou um batom vermelho. — Tchau. — Beijou seu rosto. — Se cuida, mais tarde eu volto. E quando eu voltar quero seu nome assinado aí...
[...]
- O Daniel é muito teimoso! — Julie reclamava, sentada no sofá da sala da sua mãe. Heloísa apenas ouvia, balançava a cabeça de vez em quando. Não falava nada, só comia os biscoitos de gotas de chocolate. — Eu não queria discutir com ele... Mas ele pediu! Parece que gosta de me irritar... — Pausou. — Mãe, a senhora não vai falar nada?
- O que quer que eu fale? — Perguntou deixando seu sétimo biscoito de lado. Julie ainda estava com o primeiro nas mãos. — Você pede conselho, mas não segue! Conselhos são para seguir! A Bia, sua amiga, cunhada... Sei lá... Te deu um bom conselho, e o que você fez? Fez o contrário disso! Em vez de tentar salvar seu casamento com o Daniel, quis se separar! E foi uma péssima escolha, Juliana! Péssima! Ele foi seu primeiro e único namorado, é ou era o seu marido... Você... Acha que é fácil assim se separar?
- M-mas...
- Esse divórcio... Esse pedaço de papel, na verdade! Só diz que serão separados por lei. Mas e aí? Isso muda alguma coisa em relação ao seu sentimento por ele? Ou os sentimentos dele por você? Acha que esse papel vai te fazer esquecer as boas lembranças de vocês dois juntos? Os momentos bons ou ruins? Melhor... Acha que o divórcio vai te fazer esquecer a morte do bebê? Me diga.
- Acho que vou conseguir superar a morte do bebê sozinha... Sem o Daniel. — Julie respondeu apenas a última pergunta.
- Superar até pode ser... Mas você não vai esquecer, minha filha. Nem o Diego e nem o Daniel.
- Quem disse que não vou esquecer o Daniel? Hein? — Se irritou. — Eu pedi divórcio! Mãe! Divórcio! Eu já esqueci ele! — Cruzou os braços, e disse sem se sentir insegura com as palavras. Olhou para Heloísa e viu que a mesma apenas a observava profundamente, sua mãe só balançou a cabeça para os lados.
- Eu pedi divórcio do seu pai há vinte anos atrás... — Sussurrou.
Julie foi se acalmando, abaixou o ombro e olhou triste para sua mãe. — E a senhora não esqueceu ele, não é?
Heloísa não respondeu, apenas disse. — Ele foi meu primeiro namorado, meu único marido... Nos casamos cedo... — Tudo coincidia com a vida de Julie. — E nós temos algo que vai nos unir para sempre...
- O que?
- Você, filha.
Ela sorriu fracamente. — Mas aí está mamãe, eu estou viva, e o Diego não... Ou seja...
- Isso não significa que ele deixou de ser o seu filho e o filho do Daniel.
Julie se calou.
[...]
Abriu a porta de casa, entrou e viu Daniel deitado no sofá da sala, ele comia um pacote de Doritos enquanto bebia refrigerante quente. Estava só de cueca, ainda não tinha se trocado... Assistia a TV Senado... Parecia estar em depressão.
Julie parou na sua frente, ele a olhou mas continuou comendo.
- Tire os pés do sofá. — Ela pediu.
- Desculpe, mas o sofá eu comprei com o meu dinheiro, ele é meu e eu faço o que eu quiser.
Ela se irritou com a resposta. — Ah, é? O biscoito e o refrigerante comprei com o meu dinheiro! — Disse pegando de suas mãos.
- Tá bom. Eu desisto. — Daniel se sentou. — Tirei os pés do sofá, pronto. Agora devolva o meu lanche, por favor, eu estou com fome, se quiser até te pago depois...
Juliana suspirou e fechou os olhos. Ficou com pena. — Não quero que me pague nada. — Devolveu o biscoito e a bebida. — Só vista uma roupa... — Pausou, olhando para a cozinha, parecia estar do mesmo jeito que ela deixou quando saiu... — Não almoçou?
- Não...
- Mas, eu deixei lasanha para você! Arroz... Salada! Era só esquentar no microondas.
- Não sei mexer em microondas, fogão... Lembra quando te fiz comida e você disse que eu não sabia cozinhar? — Ela assentiu. — É, você tem razão... Está certa em tudo e eu sou o errado, o vilão da história... Me desculpe Julie, se eu feri o seu coração de alguma forma... Mas eu... Não sei cozinhar, não sou um bom marido, não te dei carinho suficiente para você tomar essa decisão tão drástica. E sim, já fumei cigarros no colégio, já pisei na patinha de um cachorro sem querer e me senti a pior pessoa do mundo, já li o seu diário uma vez quando éramos da escola, deixei o molho de chaves cair no vaso na semana passada, E lembra aquele celular que te dei quando completamos cinco meses juntos? Eu disse que era novo, mas na verdade era usado... porque eu não tinha dinheiro suficiente para comprar um novo... E principalmente, já bebi leite direto da caixa! Mas eu te peço, te suplico que venha me perdoar de alguma forma... Sei que não sou digno do seu perdão, mas tenha um pingo de piedade...
- Meu Deus, pare com isso Daniel. Vem, levanta... Vai vestir uma roupa... Vai andar de moto... Parece um louco...
- É que esse é o pior dia da minha existência!
Ela revirou os olhos. Até que perguntou. — Já parou para pensar como vai se virar sem estar comigo por perto? Não sabe fazer comida... Nem mexer na máquina de lavar...
Ele a encarou, sério. — Você... — Balançou a cabeça. — Está mesmo disposta a se separar de mim? Não me ama mais, não me quer mais?
- Cadê o divórcio? Você assinou? — Por algum motivo, Julie fugia daquelas perguntas...
- Está no quarto...
- Assinou ou não?
- Não. E nem vou.
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