Corações Feridos

19 Chegou a hora.


Julie respirou aliviada com a resposta do marido. Se sentia mais protegida ao seu lado e Daniel sabia disso, por isso prometeu o que não deveria. Passaram por vários momentos juntos: Julie estava com o Daniel quando os pais dele se separaram e quando o pai de Daniel se mudou para os Estados Unidos, estava com ele no casamento da irmã com o Félix. Foi com Daniel para a entrevista de emprego. Estavam juntos também na formatura, na compra da casa nova... e até quando Bia teve sua primeira filha, uma semana depois que completaram um ano de namoro. — Posso ficar com o celular comigo? — Julie pediu e Bia deixou.

Juliana se ajeitou na cama, já se sentindo mais calma. Estava quase fechando os olhos para relaxar quando o doutor se aproximou do seu braço com uma agulha. — O que é isso?!

– Sua anestesia. — Respondeu. — Precisa ficar inconsciente para fazer o parto.

– M-mas... Agora doutor?

– Como agora? É lógico que é agora! A bolsa já estourou e você está sentindo as contrações.

– Diminuíram um pouco.

Ele ignorou sua resposta. Segurou o braço de Julie, já ia aplicar a agulha na sua veia quando ela desviou.

– Por favor, podemos esperar meu marido?

– Hum. — A olhou torto. — Onde ele está?

Julie e Bia se entreolharam, sabiam que Daniel estava no centro da cidade. — Ele está do outro lado da cidade... — Bia decidiu responder de uma vez. O médico a olhou com reprovação, não poderia esperar Daniel chegar.

– M-mas... Ele não vai demorar!

– A questão não é essa! Ela já está sentindo dores! Precisamos fazer o parto logo!

– Por favor doutor. — Julie segurou sua mão, seus olhos estavam marejados. — Sabe como eu sou, não é? — Ele respirou fundo, conhecia Juliana desde o inicio de sua gravidez, sabia que ela era cheia de manias. — Ele não vai demorar, eu prometo.

– Hum, promete?

– Prometo!

– Tá bom, Juliana. Espero um pouco. — Disse pegando alguns exames e saindo.

A morena olhou para a Bia, as duas não tinham certeza se Daniel chegaria rápido.

[...]

'' O que eu faço? O que eu faço para chegar a tempo? '' — Daniel pensava, tentava encontrar um jeito para cortar caminho, entrava com o carro em outras ruas, ruas que ele nem conhecia. Só conseguia imaginar Julie, gritando, sofrendo com as dores do parto. Daniel estava tenso. Para ele aquela coisa de sorte ou azar era tudo besteira, mas sabia que para Juliana isso era algo importante. Era como uma crença para ela.

Também estava nervoso com o neném, sabia que se os médicos não fizessem o parto direito ele poderia morrer enforcado. Se sentia preocupado quando conseguiu fugir do trânsito. Suspirou, um pouco mais tranquilo. Pelo menos o problema do trânsito já estava quase resolvido, só faltava esperar o sinal abrir.

Porém, mesmo sem o trânsito, Daniel ainda estava muito longe do hospital. E o combustível já estava quase no fim.

Passaram-se meia hora. Julie ainda esperava Daniel chegar, não iria conseguir fazer o parto sem ele. Os trinta minutos que passou eram uma tortura para a morena, as dores alternavam. As vezes aumentava e poucas vezes diminuíam. Ela sentia fortes contrações. O médico estava no andar de baixo, foi chamado para ajudar em uma hemorragia no parto de outra mulher. E como o doutor sabia que Julie estava esperando seu marido para fazer o parto, resolveu ajudar com o problema da outra mãe.

'' Ela disse que as dores diminuíram... Cuidei dela durante toda a sua gravidez e sei que ela é uma moça forte... '' — O doutor pensava, enquanto pegava o elevador. — '' Ela vai aguentar. '' — Se sentia seguro quanto à isso, mas o que o médico não sabia é que Julie mentiu quando disse que as dores diminuíram, mentiu apenas para ter alguma chance de conseguir ver o Daniel antes de ser anestesiada.

Na verdade, suas dores estavam aumentando. Ela segurava forte a mão de Bia, suava frio, seus olhos estavam cheios de lágrimas. — D-ói muit-o. — Gemeu. Respirando com dificuldade.

– Eu sei. — Alisou seus cabelos. — Calma tá? Tenho certeza que o Daniel já está chegando.

– Huh. — Ela se retorcia na cama. Seu rosto estava vermelho, seu corpo estava trêmulo. Bia começava a se preocupar. — Li-ga para e-le, por fa-vor Bi-a, li-ga. — Implorou, soltando a mão da amiga para que ela pegasse o telefone.

Bia discou os números de Daniel. Julie a olhava com os olhos brilhando, na esperança de receber uma resposta boa, como: '' Já estou chegando! '' ou '' Só vou estacionar o carro, já estou no hospital. '' Mas se desanimou quando viu Bia colocar seu celular no bolso. — O qu-e ho-uve?

– Acho que o celular dele está desligado.

– N-não é poss-ivel... — Reclamou. E com o nervosismo sua dor aumentou mais.

– Calma amiga, tenho certeza que o Daniel está fazendo uma coisa muito importante para desligar o celular. Te garanto. — Bia disse balançando a cabeça.

– N-não aguento mais. — A dor era tão forte que Julie não conseguia segurar as lágrimas. Sua respiração estava ofegante e seu coração disparava.

– Então eu vou chamar o médico, tá?

– N-n-não!

– Julie! Você não pode continuar sofrendo assim! — A repreendeu. — Precisa ter o neném e não sabemos quando o Daniel vai chegar.

– S-só esp-e-ra mais um pouc-co, por f-av-or, Huh... — Bia bufou com o pedido da amiga, já estava agoniada só de ver a Julie ali.

– Só mais dez minutos, dez! — Se sentou em um banquinho, queria esquecer um pouco a dor de Julie, então pegou seu celular e jogou um pouco de Sudoku para se distrair.

Colocou no nível difícil, só assim conseguiria tirar a Julie, o seu irmão e o neném da sua cabeça.

jogou bastante, acertava todos os números. Já até tinha perdido a noção do tempo. '' Estranho não escutar mais a Julie reclamando... '' — Pensou e resolveu deixar o celular, se levantou e olhou para o lado.

Viu Julie respirando com ansiedade, ela olhava para o teto. — Julie? — Bia estava com medo da expressão de sua amiga. Juliana estava com os olhos arregalados e o olhar parado para cima. — Julie?! — A sacudiu, só assim a morena ''acordou''. Não conseguia dizer nada, apenas gemia de dor. Passando a mão trêmula por sua barriga. Beatriz suspirou.

– O Daniel não vai chegar a tempo Julie, não vou esperar mais! Vou procurar um médico! — Bia saiu.

– T-te-m qu-e se-r o dout-or Mi-guel. — Juliana avisou gemendo.

Ela passou pelo corredor praticamente voando, estava nervosa, sabia que Julie já tinha enrolado de mais nesse parto e que não poderiam esperar mais nem um só minuto. Ela passou por sua mãe, mas estava tão avoada que nem parou para conversar. Bia precisava encontrar algum médico desocupado urgentemente.

[...]

Bia demorou quase trinta minutos para encontrar um médico. Mas mesmo com a demora, estava toda satisfeita por ter ajudado . Enquanto passavam pelo corredor. Ele se virou para a Bia. — É a primeira gravidez dela? — Perguntou.

– É sim, doutor. Ela disse que eu deveria chamar o doutor Miguel, mas eu não encontrei...

– Sim... Ele está fazendo um outro parto, um parto bem mais arriscado. — Disse balançando a cabeça. — E a sua amiga? Vai fazer o parto normal?

Bia ficou em dúvida com aquela pergunta, realmente não sabia que tipo de parto Julie tinha combinado de fazer. Mas lembrou que quando teve sua primeira filha, fez o parto normal e deu tudo certo. — É, é o parto normal. — Sorriu.

O médico entrou no quarto de Julie, fechou a porta enquanto Beatriz e sua mãe estavam pelo lado de fora, no corredor. — Então você é a Julie...

– U-uhu-m. E v-oc-ê nã-o é o meu médi-co.

Ele riu. — Não tem problema, continuo sendo médico e sou um médico muito bom. Vou fazer o seu parto. — Lavou as mãos e colocou as luvas.

Ele ligou alguns aparelhos, aparelhos que mediam sua pressão, os batimentos cardíacos. Juliana estava um pouco atordoada, ainda sentia dores e sentia algo mais forte do que qualquer dor: Sentia medo. Daniel não estava ao seu lado e aquele sonho estranho que teve só a deixou mais preocupada.

O médico levantou seu vestido. Afastou suas pernas. — Quando eu mandar, quero que respire fundo, faça força e empurre, certo?

Ela só assentiu. Um pouco confusa. Não sabia que seu parto seria assim. Na verdade, Julie não entendia muito dessas coisas de medicinas... As vezes até confundia o parto normal com o cesariano. Então se limitou a obedece-lo.

[...]

Quase uma hora se passou, Beatriz e sua mãe estavam no corredor. Ambas não escondiam a ansiedade e o nervosismo do momento. — Eu não sabia que uma cesariana demorava tanto... — Comentou dona Marta, e Bia concordou.

As duas foram surpreendidas ao ver Daniel chegar no corredor. Ele estava suado, a respiração ofegante... Parou ao vê-las, respirou fundo, apoiando suas mãos no joelho. — E-eu... Eu subi as escadas correndo. — Explicou. — Cadê a Julie?

– Está no quarto. — Bia apontou para o quarto ao lado. — Porque?

– Ela já teve o neném?

– Não.

– Ainda bem... — Passou a mão por seus cachos, sorriu fracamente. — Eu preciso dar um beijo nela...

– Agora já é tarde meu irmão, o doutor Rodrigo está fazendo o parto dela.

– Doutor Rodrigo? Pensei que fosse o doutor Miguel...

– Seria ele, mas a Julie ficou enrolando, disse que queria te esperar antes de ter o neném... Agora é outro médico. O Miguel desistiu.

– Hum. — Suspirou. — Mas o parto é cesária, né?

Bia e sua mãe se entreolharam, estavam assustadas com a pergunta de Daniel. — Porque? — Bia perguntou de volta.

– Beatriz, me diz que o parto é cesariano! — Gritou.

– Não. — Respondeu com remorso. — Não, não é... O médico me perguntou se o parto... — Daniel nem esperou Beatriz terminar de explicar. Se aproximou do quarto de Julie e tentou abrir a porta.

Mas estava trancada.

Daniel olhou para dentro do quarto, já que a porta tinha um visor. Não dava para ouvir, mas ele conseguia ver nitidamente Juliana com as pernas abertas, enquanto olhava para cima, parecia gritar, pois seu rosto estava vermelho, e as veias do pescoço estavam altas. O médico também não estava calmo, controlava a pressão e os batimentos cardíacos de Julie com a ajuda de uma enfermeira, que tentava acalma-lá. — Droga... — Ele sussurrou, tentando girar a maçaneta da porta. — ABRE ESSA PORTA! — Gritou, mas do lado de dentro do quarto também não se escutava nada que vinha de fora. — ABRE! — Ele chutou com força, bateu, gritou mais alto, deixando sua voz rouca.

– Filho! Filho, calma! — Sua mãe segurou seu braço, ficou tensa ao ver Daniel nervoso.

– Não entende... — Ele balançou a cabeça. — Ela não deveria fazer o parto normal... — Suspirou. Julie e Daniel ainda não tinham contado sobre o problema do neném. — O bebê estava com o cordão umbilical agarrado no pescoço... — Abaixou a cabeça. — O parto deveria ser cesariano. N-não... — Balançou a cabeça, estava desolado.

– Sch, vem... Senta aqui. Parece cansado... — Sua mãe tentava acalma-lo, Daniel se sentou na cadeira, mas não tirava os olhos do quarto de Julie.

Ele se levantou novamente, atordoado. Olhou para o quarto de novo. — Ela está sentindo dores! ABRE! — Bateu com força na porta com as duas mãos. — ABRE ESSA PORTA! — Gritava com todas as forças que tinha.

Dentro do quarto, a enfermeira foi a primeira a ver Daniel. Julie viu também, mas estava concentrada em fazer força para ''empurrar'' o neném.

A enfermeira deixou os aparelhos por alguns minutos e abriu a porta, ficando entre ela. — Me deixa entrar! — Ele pediu, tentando empurra-lá.

– Sinto muito, mas não pode entrar.

– É a minha esposa!

Ela balançou a cabeça. — Não adianta insistir...

Daniel passou a mão por seus cabelos de um modo desesperado, agora com a porta aberta conseguia escutar os gritos. Eram gritos de desespero, que o deixava ainda mais agoniado. — E-ela está gritando... Por favor, eu só quero falar com ela... E depois eu saio... — A enfermeira fechou a porta na sua cara. Ele mordeu seus dentes.

– Daniel... — Sua mãe o abraçou. — Não se preocupe, eles são médicos, sabem o que fazem...

– Acontece que esse médico aí não sabe de nada, nem conhece a Julie...

Sua mãe segurou sua mão, o fez se sentar novamente. Tentava acalma-lo, até contou que quando subiu para o terceiro andar, não soube mexer no elevador. Queria descontraí-lo, mas Daniel continuava tenso.

Ela alisava a mão do seu filho, foi assim durante meia hora. Ele não tirava os olhos do quarto de Julie, só pensava nela. Mas parecia um pouco mais calmo, estava quietinho... — Olha Bia... — Marta sussurrou, chamando sua filha. — Ele dormiu.

Bia sorriu. Também não gostava de ver Daniel nervoso. — Acho que ele estava muito cansado... — Comentou alisando os cabelos do irmão.

Enquanto sua mãe ainda segurava a mão dele. Ela viu a tatuagem que Daniel fez com o nome da Julie. — Ele ama muito ela...

A enfermeira abriu o quarto da Julie, segurava um pano azul clarinho, as duas se olharam, se levantaram ao mesmo tempo. — Ela teve o neném?

– Teve. — Disse a enfermeira, sorrindo. — Está aqui... — Abaixou um pouco o pano e mostrou o rostinho do neném, ele ainda estava sujo de sangue, os olhos fechados, não dava muito bem para vê-lo direito.

As duas sorriram juntas. Mesmo sem conseguir vê-lo direito, sabiam que ele era lindo.

Notas finais
É, tudo deu certo no parto. *-*
Gostaram? s2