Corações Feridos
63 Barreiras
Notas iniciais
Cinco horas da manhã.
Julie ainda alisava os cachos de Daniel com os dedos, não conseguiu dormir essa noite. Não apenas porque fez amor com Daniel e sim porque sua cabeça estava rodeada de pensamentos.
Desde sua formatura, Julie queria fazer um intercâmbio. Era o sonho do seu pai e com o tempo acabou se tornando o seu sonho também. Ela conseguiu uma oportunidade. E já que o intercâmbio foi uma das coisas que estavam na sua lista de tarefas. Ela pensou em se cadastrar para conseguir ganhar uma vaga.
Planejava isso.
Mas agora se sentia na dúvida.
Ela olhava para Daniel que dormia calmamente sobre si. Sua respiração estava lenta e calma.
Juliana suspirou. Sabia que não ia mais conseguir dormir. Porém, continuou deitada ali por alguns minutos, recordando como foi a sua noite.
Primeiro a festa e a grande surpresa: Daniel era o noivo da sua prima. Foi um grande choque para Julie e continuava sendo. Ela simplesmente não conseguia enxergar os dois juntos, como um casal. Ela só imaginava Daniel com ela. Só com ela e mais ninguém...
Depois da festa passou mal e quem ficou a noite com ela foi ninguém menos que o próprio Daniel.
O amor dos dois venceu qualquer barreira, pelo menos essa noite. Eles se renderam ao sentimento que os ligavam.
Ela sorriu fracamente, continuou brincando com os cabelos do rapaz. — Huh. — Daniel abriu os olhos, porém, os fechou quase imediatamente.
Julie riu com isso. Desceu suas mãos quentes para o rosto dele, alisando sua bochecha. Ele se despertou totalmente com isso.
Levantou a cabeça e os dois se olharam, sorriram juntos lembrando da noite que passaram. Ele segurou seu queixo e avançaram para um selinho. Julie fechou os olhos, viajando em pensamentos enquanto sentia os finos lábios de Daniel nos dela. Ela levou suas mãos para a nuca dele. Começaram o dia com um beijo de língua. Mas Julie virou o rosto. Sentindo suas bochechas corando, percebeu então que usava só uma calcinha.
Ela o empurrou levemente, Daniel entendeu e saiu de cima dela. Julie se levantou, vestindo rapidamente a primeira roupa que encontrou no chão. Era uma blusa social branca, que fazia parte da roupa que Daniel usou ontem. Ela vestiu, a blusa bateu até as suas coxas, se transformando em um vestido curto.
Correu para o banheiro e Daniel se deixou levar pelo cansaço novamente, se deitou para o outro lado, agora apoiando a cabeça em um travesseiro, seus olhos se fechavam involuntariamente e ele voltou a dormir.
Julie tomou um banho quente, enquanto se lavava, não tirava os olhos da sua barriga. Se imaginava grávida. Sorriu.
Seria lindo, mas ela não tinha mais certeza de que queria isso. Afinal, quando ganhou o Diego também não planejou, não pensou duas vezes nas suas escolhas, se casou com Daniel e o amor deles era tão forte que na lua-de-mel ela engravidou. A verdade é que ela não esperava um bebê e não se sentia diferente de agora.
Achou loucura, mas pensava que o segundo filho deles poderia ter o mesmo fim que o primeiro.
Afastou esses pensamentos balançando a cabeça, e foi se secar.
Se aproximou no espelho do armário de utilidades. Encarou seu rosto, notou pequenas olheiras que só era visível se reparasse muito bem por um bom tempo. Pelo pescoço, encontrou várias marcas, de pequenas à grandes. Vermelhas e roxas, escondeu os chupões do pescoço com o seu cabelo molhado.
Passou os dedos nos seus lábios, lembrando dos beijos que eles trocaram essa noite, até o beijo de agora pouco.
Saiu do banheiro usando um roupão e uma roupa simples por baixo, olhou para a cama e viu que Daniel dormia em meio a bagunça dos travesseiros, cobertas e roupas espalhadas.
Ia até arrumar, mas já que ele ainda dormia. Resolveu descer e fazer um café reforçado para conseguir energia o dia inteiro. Chegou na sala, reparou um celular LG preto em cima da mesinha.
Tinha certeza de que era do Daniel.
Só se aproximou pois percebeu que estava ligado.
Pegou, e encontrou uma nota avisando sobre as chamadas perdidas. — Débora... — Ela sussurra indiferente ao ver que a prima quem ligava.
Foi mais um motivo, ou melhor dizendo, um sinal para ela parar, se sentar no sofá e repensar as escolhas que fez.
Ela era a noiva dele agora.
O que sua família ia pensar se percebesse que sua barriga ia começar a crescer, o que iam perguntar. E se perguntassem quem é o pai? O que ela ia responder? É o noivo da minha prima.
E mesmo se ocultasse isso, todos pensariam que ela se perdeu com outro homem qualquer...
As lágrimas voltaram a cair, irritando seus olhos. Julie não queria isso...
[...]
Daniel descia as escadas, por um momento achou que ainda estava casado com Julie. Acabou sorrindo com isso, mas seu sorriso se desfez ao voltar para a realidade. Lembrou que passou a noite com ela, mas tinha medo de não conseguir mais momentos assim.
Chegou na sala e olhou para a cozinha.
Sorriu torto.
Encontrou Juliana lavando alguns pratos na pia. Se aproximou devagar e sutilmente. Ela só sentiu dois braços a envolvendo pela cintura. Ela tratou de disfarçar e limpar as lágrimas. Daniel a abraçava por trás, não conseguia ver seu rosto. Mas a conhecia muito bem e só de ver ela quieta, já estranhou.
– O que foi? — Ele pergunta beijando o seu ombro.
Julie se solta.
Indo até a mesa, ele a segue pelo olhar e se depara com seu café da manhã preferido: Bolachas, suco de laranja, café, leite e panquecas americanas.
Apesar de sentir fome, ele queria antes de mais nada descobrir se ela estava bem.
– O que foi? — Pergunta novamente. — Me conta. — Pede agarrando sua cintura. Julie pensa em abraça-lo, mas ignora seus pensamentos.
– Pegue um pouco de água para mim. — Ela pede e Daniel se afasta, abre a geladeira. '' Será que está passando mal?'' Ele serve a água.
Julie pega em cima da geladeira um comprimido. — Foi o calmante que o médico te passou? Você está bem?
Ela nega a primeira pergunta, bebe a água junto com o comprimido. — É uma pilula. — Explica.
– M-mas... Eu pensei que...
– Nós não pensamos Daniel, não estou preparada para cuidar de mais um neném. — '' Foi como a Débora disse, se não consegui cuidar nem do primeiro, como pude achar que vou dar conta do segundo? '' Pensou enquanto Daniel abaixava a cabeça. — E também, seria tudo tão complicado... — Dizia imaginando. — A gente divorciado e você noivo...
– Eu largaria tudo para ficar com você. — Segurou seus ombros. — Será que não entende Julie?
– Tá. — Ela se soltou, se afastando. — Mas você está noivo.
Daniel bufou, puxou seus cachos com força. — Mas eu quero você e não ela!
– Daniel, chega. — Julie pede, se sentando. Ela respira fundo. Sua manhã não começou muito bem… Ainda estava feliz antes de pegar o maldito notebook. — Vamos conversar? — Julie alisa a cadeira ao lado dela, o convidando para se sentar.
Ele aceita cabisbaixo e a interrompe antes de Julie começar a falar. — Já sei. Você vai me pedir para esquecer essa noite. — Julie se calou. — E o que eu te disse? Você se lembra?!
Ela fechou os olhos. — Você me disse muitas coisas… — Sussurrou.
– Eu disse que o que eu mais queria era que todos os dias fossem como essa noite. Eu só quero você de volta, meu amor.
Juliana sorriu e segurou a mão de Daniel que estava sobre a mesa. Ele aproveitou para entrelaçar seus dedos e ela suspirou. — Sabe ontem quando eu estava chorando e você me perguntou o que era e eu disse que era por causa do Diego? — Daniel assentiu. — Na verdade, eu nem estava pensando nele.
– Então o que era?
Ela hesita em responder, mas já que começou com o assunto, precisava terminar. — Há um mês atrás, eu entrei no meu facebook, estava sem trabalho, entediada… E quando estou assim passo mais tempo na internet. Lá acabei encontrando um anuncio de intercâmbio, isso me chamou a atenção então eu cliquei.
– Porque? Pode ser um golpe.
– Mas não era, fui redirecionada para um site, eu li todas as informações e regulamento. Me cadastrei. — Explicava. — Fiz a prova e hoje… Quando peguei o notebook, recebi um e-mail, na verdade, recebi o e-mail há três dias atrás. Mas só vi hoje. — Daniel estava calado, conforme Julie falava, ela pensou bem, era uma oportunidade única! Não podia deixar passar! — Eu… Tirei dez na prova! — Diferente do inicio da conversa, Julie já estava mais empolgada.
– … — Ele soltou suas mãos.
– Daniel. — Julie tocou no seu rosto, mas ele se levantou.
– Eles podem ter se enganado de prova, de repente deu o resultado errado. — Respondeu cabisbaixo.
– Não. A prova estava fácil, eu estudei bastante.
Ele balançou a cabeça. — Pode ser um golpe do mesmo jeito.
– Não era um golpe Daniel.
– Você não pode se deixar levar por anúncios de internet!
– Mas era tudo certo!
– Vai viajar para onde?
– Noruega.
Ele tenta não se irritar com a resposta. — E… Por quanto tempo?
– Seis meses.
Ele ri pelo nariz, abaixa a cabeça, sentindo seus olhos se enxerem de lágrimas. — Você está brincando comigo. Só pode ser isso… N-não é verdade…
– Lembra do que eu te disse na formatura? Que queria fazer um intercâmbio?
– Não, eu não lembro. Você não disse nada disso. — Na verdade, ele se lembrava muito bem. — Você não fez nenhuma prova, não recebeu nenhum e-mail e nem vai viajar para lugar nenhum. — Tentava colocar isso na sua cabeça.
– Você quer ler o e-mail?
Ele negou. — Como você acha que eu vou me sentir sem você por perto?
– Eu sei. — Julie suspirou. — Eu também pensei sobre isso. Não no dia em que fiz a prova porque… A gente não se falava muito até nos encontrarmos ontem a noite. M-mas se pensar bem, seis meses não é muita coisa.
– Estamos no meio do ano, vai passar o resto do ano lá! Não vai mais ver a sua mãe, seu pai, a Bia… — Ele tentava convence-la de ficar.
– Eu pensei em tudo isso quando fiz a prova, estou preparada. — Pausou, percebendo a expressão triste no rosto de Daniel. — Eu quero que você me prometa que vai ficar bem até eu voltar.
– Não. Eu não vou ficar bem não!
– Daniel…
– NÃO VOU!
– Assim você vai me deixar preocupada. — Seus olhos se enxeram de lágrimas, Julie se importava muito com ele.
– Que fique! Fique preocupada! Eu não vou ficar bem, se quer saber… Eu vou fazer questão de sofrer um acidente! Quem sabe eu não entro em coma e os seis meses passam mais rápido!
– Você não pensa antes de falar… Ouviu o que disse? — Uma lágrima caiu. — Não vai acontecer isso!
– Claro que vai! Eu faço questão de acontecer!
– PARA!
Ambos estavam nervosos, mas Daniel não gostava de ver Julie assim. Mesmo com raiva, ele a abraçou. Ela levantou seus braços, agarrando sua nuca. Os dois levantaram seus rostos ao mesmo tempo, Daniel alisou sua bochecha. — Eu te amo, eu não vou suportar isso… — Ele avança, roçando seus narizes. A respiração de Julie pesou na hora com o quase beijo. — Eu sei que você ainda me ama. — Ela sorri fracamente e eles trocam alguns beijinhos. — Você vai mesmo?
– Eu vou.
Ele a solta. Sente raiva. Julie percebe e toca no seu rosto, mas Daniel vira para o lado. Ela beija o seu rosto e volta a abraçar sua nuca.
Foi quando Débora chega na cozinha gritando, os dois se soltam na hora com o susto. — Solte o Daniel AGORA! — Ele vai para cima de Julie.
Mas ele segura Débora. — Para, não encoste nela! — Ele disse, ainda segurando a prima de Julie.
Débora tentava se soltar a todo o custo mas Daniel era forte. — Me solta! — Ela chorava. — ME SOLTA AGORA!
– Só solto quando você se acalmar! SE QUER BATER EM ALGUÉM BATA EM MIM E NÃO NELA!
Débora consegue se soltar, vai para cima de Julie mas Daniel se coloca no meio. Ele leva vários tapas e socos no peito. — Eu já sei de tudo!
Todos param depois da revelação de Débora. — E você ainda quer bater em mim?! Você que está errada Débora, ele era meu.
– ERA! ERA SEU! — O rosto de Débora estava completamente vermelho. — Acha que eu não sei que passaram a noite juntos?!
– …
– Você ama a sua ex ou a sua noiva?! — Débora pergunta. — Ou melhor… Você… Você é um mal agradecido! — Daniel estava calado. Só ouvia as patadas de Débora. — Eu sempre fui boa com você! — Jogava na cara. — E-eu até aceitei a sua… — Ela para de falar.
– A minha o que? — Ele pergunta fraco, não se importava com as palavras da sua noiva, apenas pensava no que Julie disse à ele.
– Eu… Até aceitei seu problema. — Ela reformulou suas palavras.
Daniel ficou calado, mas Julie entendeu o que ela quis dizer, era sobre o problema de Daniel. — Você é uma idiota Débora. Se amasse ele de verdade não se sentiria obrigada a aceitar! Você ia querer aceitar!
– Cala a boca sua ridicula, não estou falando com você! — Esperneou sem paciência, cruzou os braços e disse. — Daniel, você quem vai tomar a decisão. Escolhe: EU OU ELA?
Ele acorda dos seus pensamentos, mas seu coração bombeava raiva. Julie ia viajar… Ficar seis meses fora…’’Ela nem pensou em mim quando aceitou fazer essa tal prova…’’ — Ele pensava, enquanto fixava o olhar nos olhos de Julie. Ela percebeu e os dois se focaram no olhar um do outro por um bom tempo, se sentiam ligados, era uma atração incomum. Mas apesar de todo o amor que sentia, não conseguia deixar de pensar na tal viagem que Julie faria. ‘’Preciso esquecer ela de uma vez… Seis meses fora é muita coisa… Não sei como vou suportar’’
– Não tenho dúvidas, Débora. Eu escolho você. — Disse com tanta certeza que fez o coração de Julie ser picado em pedacinhos.
Ela correu para abraçar seu marido, desejava tanto Daniel que até o perdoou pela traição.
Enquanto se abraçavam, ele tentava não olhar para Julie, porém, seus pensamentos se resumiam apenas nela. — Por favor, saiam. — Julie pediu com a cabeça erguida, apesar de se sentir triste por dentro.
‘’ Ninguém precisa saber. ‘’ — Ela pensava, ainda mantendo sua postura superior e seu orgulho lá no alto. ‘’ Agora sim que estou decidida a viajar. ‘’ Daniel e Débora passaram por ela, enquanto saiam da cozinha… Daniel virou o rosto por cima do ombro, segurava a mão de Débora, mas não deixou de dar mais uma última olhada para Juliana.
Os dois se lembraram da noite que tiveram juntos, pareciam que suas mentes estavam conectadas. Mas sabiam que aquela noite ficaria a partir de hoje, apenas na memória.
[...]
~ Três dias depois ~
Julie tirou seus chinelos e se deitou exausta no sofá da sala. Olhou para o teto, observando o pisca-pisca da lâmpada, pegou seus fones de ouvido, colocou uma música lenta para acalma-la, fechou os olhos ali, de tão cansada, quase adormeceu. Até que sua mãe veio correndo, descia as escadas quase voando.
Com força, chutou um dos chinelos de Julie. A mesma se levantou, se sentando no sofá assustada. — Mãe!
– Quer me matar?! — Julie percebeu então que deixou o chinelo virado.
Ela suspirou e acabou rindo. — Ai mãe… Não foi a minha intenção. — Se explicou. — Sabe que eu sempre viro o chinelo.
Sua mãe riu também. — Eu só estou… Cansada. — Julie disse deitando sua cabeça na almofada de novo, abaixou o som dos fones ao ver que sua mãe se sentou no braço do sofá.
Heloísa olhava com uma expressão séria para ela. — Filha, tem certeza do que quer?
– Claro que tenho. — Disse confiante. — Acha que eu ia arrumar todas as minhas malas se ainda estivesse na dúvida?
– É, está certa. — Sua mãe balançou a cabeça. — Sei que já é madura para decidir o que quer. M-mas eu não sei… Estou te achando tão triste, desanimada…
– Isso é verdade… Estou me sentindo péssima.
– Tem a ver com o Daniel. — Afirmou e Julie assentiu.
– Quem ele pensa que é para fazer isso comigo? Eu… Ainda estava um pouco na dúvida quanto à viagem mas ele fez questão de falar na minha cara que preferia a Débora! — Se irrita. — Mãe, logo a Débora? — Julie faz uma careta. — Eu não sei, pode até ser um pouco de ciúmes, admito, mas ela nunca vai amar ele como eu amei… Se quer saber, ela ainda jogou na cara dele que ele é doente. E mesmo assim ele preferiu ela.
– Sabe, ele estava com raiva. Filha, ele te ama muito. Acho que ele… Faria qualquer coisa para ter você de volta e isso ele deixa bem claro, mas ele é homem. Ele não vai ficar de quatro pra você o tempo todo. Ele também tem o seu orgulho, apesar de te amar tanto que até deixa o orgulho de lado para ter você… Mas tem uma hora que cansa.
– Está defendendo ele? — Sua mãe se cala. — Depois de tudo o que ele fez? Ele… Noivou com a minha prima!
– Huh, e o que mais ele fez? — Heloísa cruzou os braços, deixando bem claro para a sua filha que dessa vez estava do lado dele.
– Isso já não é o suficiente?! — Revida. — Ah, e ele matou nosso bebê! Ele foi o culpado de tudo, se não deixasse o bebê no maldito carro naquele dia nada disso teria acontecido a gente ainda ia ficar juntos! O bebê ainda ia estar com a gente!
– Espere aí, moça! Não foi ele quem não quis comprar uma moto! Talvez se… Ele estivesse de moto no dia, não esqueceria o bebê!
Julie olha para os lados, se sente atordoada… Enlouquecida.
Então era isso? Era por causa do carro. Do carro que ela insistiu em comprar no lugar da moto. Será que sua mãe estava certa? Será que se Daniel estivesse de moto no dia nada disso teria acontecido?
‘’ Eu sou a culpada? ‘’ — Por alguns segundos esse pensamento rodeou sua mente. Mas ele foi substituído pela raiva e a adrenalina que sentia por aquela discussão. — Não tente por a culpa em mim! A CULPA É DELE! DELE E DE MAIS NINGUÉM! ELE É O CULPADO DE TODAS AS DESGRAÇAS QUE NOS ACONTECEU, DESDE O DIA EM QUE ELE ME PEDIU EM CASAMENTO NA CHUVA!
– Abaixe seu tom de voz agora!
Julie suspira. — Quer saber? Um dos meus reais motivos para ir pra Noruega é que assim vai ser mais fácil esquecer tudo o que passamos, inclusive ele. É isso. E-eu… Não quero mais falar no Daniel. Não quero mais saber dele… Nem pensar nele. — Pausou. — Ele e a Débora se merecem, já está na hora do Daniel perceber que eu sou a única que amei ele de todos os modos, não me importava com doença… Com merdas nenhuma! — Passou por sua mãe e subiu as escadas.
Heloísa viu sua filha ir até o quarto e fechar a porta com força. Se trancando lá dentro.
Agora se sentia confusa. Não sabia a quem dar razão. Em um certo ponto sua filha está certa. Se Daniel a amasse mesmo não teria noivado com a prima da sua ex-esposa. Parecia sim que ele fez isso de propósito, só para atingir a Julie.
Ou será que a Débora era a vilã? Será que ela sabia do passado dos dois e quis conquistar Daniel para fazer inveja na Julie?
Ela precisava perguntar, sabia que não ia se sentir bem acusando sua filha ou até mesmo o Daniel. Heloísa nunca se deixou levar pelas loucuras que Juliana falava ou fazia sem pensar, sempre acreditou que Daniel era um bom rapaz.
Pegou o notebook e o telefone, já que sabia o número de Daniel resolveu ligar antes que Julie descesse…
Ele estava deitado na cama do seu quarto, olhava para o teto quando viu seu celular vibrar. Pegou o telefone, hesitando em atender pois no visor dizia Julie: ‘’ Será que ela desistiu da viagem? ‘’ — Com esse pensamento, ele atendeu no quinto toque. — Alô? — Disse não muito animado.
– Oi Daniel.
Ele reconheceu aquela voz. — Heloísa?
– Sou eu sim.
– Tudo bem? — Ele estranhou.
– Ah, eu vou levando… Eu só te liguei porque queria conversar com você.
– Hm. Se for algo sobre a Julie eu…
– Não, por favor. É sobre a Débora. — Ele suspira com isso também, não queria falar na noiva, mas educadamente, ele pede para Heloísa prosseguir. — Posso parecer um pouco indelicada mas, ela realmente gosta de você?
Cada vez mais ele estranhava aquelas perguntas, mas respondeu naturalmente. — Gosta. — Pausou. — Por quê?
– Quer saber a verdade Daniel? Ela é minha sobrinha, conheço ela muito bem e eu não estou exagerando quando digo que ela é… Preconceituosa.
– Como assim?
– Ela já teve muitos namorados… Mas ela é fresca, acho que nunca gostou de nenhum deles a não ser um tal de Alexandre… Ela pensa que os homens tem que ser perfeitos. — Explicava e Daniel ouvia com atenção. — E eu fico aqui me perguntando… Ela está com você para atingir a minha filha? Porque… Me desculpe, mas sinceramente não sei se ela te ama.
– Eu também não amo ela. Mas para esquecer a Julie eu faço de tudo.
– Só me diz… Se ela sabe sobre o seu problema? — Heloísa já sabia da história, afinal, Juliana acabou contando, mas ela queria ouvir isso dos lábios de Daniel.
– A-ah… Sabe e para ser sincero ela não reagiu muito bem. E-eu… Não sei…
– Tudo bem, eu só acho que você merece alguém melhor.
– Porque a senhora está me dizendo isso?
Ela suspirou. — A Julie está louca aqui. Ainda está com raiva do que você disse para ela.
– Só a Julie mesmo para achar que eu não amo ela.
– Ela é teimosa. — Heloísa coloca o telefone entre a orelha e o ombro, começa a digitar no notebook. — Mas apesar de todas essas loucuras dela, acho que ela sempre amou você. Independente de tudo.
– Porque acha isso? Se me amasse mesmo ainda estaria comigo!
– Acredite, ela me disse. Me disse hoje. — Daniel sorri fracamente. — Acontece que o problema de vocês dois é o orgulho.
– Esse problema é só dela, eu não faço questão em dizer pra ela que ainda a amo. Mas as vezes me canso de correr atrás. — Tudo o que ele dizia foi o que Heloísa falou para a filha. — Como a Julie está?
– … — Heloísa encara surpresa o notebook.
– Alô?
– Ah, Daniel! Oi!
– E a Julie?
– Tirando tudo isso ela está bem…
Ele torce os lábios, enquanto do outro lado Heloísa ainda pesquisava na internet. — Quando ela vai viajar?
– Hoje mesmo, Dani.
Ela escuta Daniel suspirar. — Ela vai vir aqui em casa para falar comigo?
– Olha… — Ainda lia o artigo no computador. — Não quero te desanimar mas ela não me disse nada disso.
– Vai viajar sem se despedir de mim, que lindo. — Sussurrou.
– Eu vou falar com ela, ela tá no quarto terminando de arrumar as coisas. Ela vai falar com você sim. — Assegurou. — Preciso desligar.
– Claro, obrigado.
Eles desligam ao mesmo tempo. Ela continuava surpresa com o que lia no artigo médico. — É mais comum em homem, nas mulheres é quase raro de acontecer. — Continuava lendo. — Pode ser passado para os filhos! Hm... É por isso que o Daniel sempre quis ter menina?
– Eu não entendo isso! — Julie desceu as escadas, sua mãe tratou de fechar o notebook. — Ele sempre quis ter menina mesmo, mas nunca me disse o porque. Ele acha que eu engolia a desculpa de que as meninas davam menos trabalho! — Revira os olhos. — Ele nunca gostou do Diego, essa é a verdade!
'' Então tinha chances do Diego ter o mesmo problema do Daniel? '' — Heloísa pensava.
– Mãe! Está me ouvindo?!
Ela se levanta. — Não diga besteiras Julie! — Sim, ela ouvia.
– Mas faz sentido! Ele mau brincava com o Diego, ele não gostava do neném!
– Se continuar falando eu juro que dou uma chinelada na sua boca! Não pode sair julgando os outros!
Juliana amarrou a cara.
– Com certeza ele tem os seus motivos para gostar mais de menina do que de menino, qual é o problema?!
Julie se cala. Revira os olhos e suspira fracamente. — Já liguei pro papai e me despedi. Vou passar na casa da Bia pra falar com ela. — Muda de assunto.
– Você vai na casa do Daniel?
– Pra quê? Para ouvir a mãe dele falar no meu ouvido?
– Olha, eu acho que ele estava sozinho em casa.
– Ah, pobrezinho... É tão sozinho... Nem parece que tem uma NOIVA!
– Como pode ser tão rabugenta?
– Não sou rabugenta! Só estou com raiva dele! E chega, acabou! Só vou na casa da Bia e depois chamo um táxi para o aeroporto. Não vou me despedir de mais ninguém!
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