Coração selvagem
2 II - O "não beijo"
Quase duas semanas depois que as aulas começaram e eu não queria ir para o colégio. Tanto porque era chato, como porque eu detestava acordar de manhã. Já eram mais de sete horas e eu ainda estava deitada na cama com a coberta me cobrindo. Minha porta se abriu, mas eu não me importei, apenas virei para o lado e voltei a dormir.
— Tsubaki. – Yuka disse – Anda logo se não vai se atrasar.
— Hmm...
— Anda.
— Não. – Disse – Quero dormir.
— Como você pode estar com sono se dormiu cedo ontem?
— Pode ir, quero ficar na cama hoje. – Disse sonolenta.
— Como sempre... – Ela suspirou e se virou – Tudo bem. Eu vou chamar mamãe pra te levantar.
Ela passou pela porta e eu arregalei os olhos, levantando rápido e saindo do quarto, correndo para o banho. Não era uma boa ideia chamar nossa mãe para me acordar! Ela iria, na melhor das hipóteses, jogar água no meu rosto para me acordar ou, na pior das hipóteses, me botaria na frente de casa ainda vestida de pijamas para eu aprender a acordar cedo. Tomei banho e me arrumei, me olhando no espelho e odiando meu uniforme. Minha saia era quadriculada, típica de colegial, e num tom vermelho escuro. Podiam ter mais imaginação... Como era primavera, nossas blusas brancas eram de mangas curtas e o colete claro de malha por cima sendo obrigatório, assim como o blazer vermelho escuro e a gravata do uniforme. Eu fazia cara de tédio para o espelho, me sentia ridícula. Ainda mais com aquela gravata!
— Você deve estar linda, Tsubaki. – Yuka disse da porta do meu quarto.
— Por que diz isso? – A olhei, desconfiada.
— Por que sempre quando você fica em silêncio quer dizer que está se achando feia, mas está linda.
Fiz cara de tédio. Yuka se aproximou e pegou no meu cabelo, que estava preso em um rabo-de-cavalo baixo.
— Mas com esse cabelo aí sim você está feia.
— Run... – Resmunguei – Odeio meu cabelo.
— Nande?
— É marrom avermelhado. – Disse – Queria que fosse só marrom.
Ela sorriu, achando graça.
— Pelo que me lembro das cores, essa cor é bem bonita. – Ela disse, soltando meu cabelo.
Fiz cara de tédio. Yuka andou com os braços esticando, procurando por uma cadeira e quando a achou, pôs ao meu lado e subiu nela, começando a mexer no meu cabelo. Isso fazia minha autoestima baixar ainda mais, ela precisava pegar uma cadeira para alcançar meu cabelo!
— Pronto. – Ela disse alegre – Deve estar melhor.
Me olhei no espelho e meu cabelo estava solto. Ele era liso e longo, chegando na altura da minha cintura.
— Arigatou... – Disse quase inaudível.
Ela sorriu e desceu da cadeira.
— Vamos logo, se não mamãe vai vir aqui.
— Hum. – Concordei.
O caminho para o colégio foi o de sempre e as aulas chatas também. Todos os dias e todas as aulas eu tinha que ficar sentada ao lado daquele garoto. Comecei a reparar que ele me olhava demais às vezes e que durante as aulas ele apenas dormia, debruçado na mesa. Baka... Eu apenas olhava pela janela, vendo a pista do campo de futebol. Às vezes eu assistia às aulas de ginástica dali e me distraía um pouco. A garota morena dos cabelos cacheados me olhou em uma das aulas e viu meu interesse pelo futebol. Na verdade não era interesse, estava mais para “não tenho outra coisa para fazer”. O sinal para o almoço soou e o sensei saiu de sala em seguida. Grande maioria dos alunos saiu e quando o garoto de cabelo verde levantou e foi em direção à porta, eu ia falar com Yuka, mas a morena da cerimônia de abertura sentou na carteira a minha frente com um sorriso no rosto quando eu me levantei.
— Ohayou. – Ela disse parecendo animada pelo seu olhar.
— Ohayou. – Disse de pé – Nani?
Ela deixou uma risada escapar.
— Nee, eu queria saber se você quer entrar para o nosso clube.
— Eh?
— O clube de futebol.
— “Clube... De futebol”? Meninas jogando futebol? Não sabia que isso acontecia mesmo.
— Hum. – Ela fez uma expressão desconfiada – Mas pelo que vi você se interessa pelo futebol um pouco. – Ela sorriu.
— Não. – Disse simplesmente.
— Eh? – Ela disse em dúvida – Mas... Você fica vendo a ginástica.
— E a corrida, e os exercícios cardiovasculares... Só não vejo a natação pela piscina não ser ao lado do prédio.
Ela fez cara de tédio.
— Tsubaki. – Yuka me chamou – Vou na frente.
— Hai. – Disse.
Yuka andou em direção à porta. Com as duas semanas de aula ela já estava familiarizada com a arrumação da sala e sabia onde ficava a porta sem usar a vara. Ela andava para a saída da sala e o garoto de cabelo roxo estava na outra porta com o que parecia ser seu amigo de cabelo verde. Outro garoto da nossa sala, de cabelo azul escuro, também estava ali assim como um garoto loiro, porém que era da sala ao lado. Havia três garotas conversando enquanto eu conversava com a morena. Elas riam animadas, mas Yuka sem querer esbarrou em uma delas quando essa foi para trás.
— Etto... Gomen. – Ela disse voltando a cabeça em sua direção.
— Presta atenção. Você é cega? – A garota disse irritada.
Yuka virou o rosto e voltou a andar.
— Oe, estou falando com você. – Ela pegou no braço de Yuka.
Quando ela a olhou, a garota viu seus olhos e arregalou os dela.
— Ela é mesmo cega. – Sua amiga disse surpresa – Olha os olhos dela!
A garota falou tão alto que todos que ainda estavam na sala olharam para Yuka. Ela abaixou o olhar, envergonhada. A única coisa que ela não gostava de verdade era que reparassem na cor de seus olhos: brancos e opacos.
— Nee, meu nome é Mizuki Madoka. E o seu...? – A morena ainda conversava comigo.
Eu não prestava mais atenção nela desde que a garota chamou Yuka de cega. Franzi o cenho e desencostei da carteira onde estava escorada enquanto a morena falava comigo. Andei como se fosse para a saída, onde os quatro garotos estavam, mas parei no meio do caminho, na direção da fileira vertical onde as três garotas estavam. Elas olhavam para Yuka, abismadas e ao mesmo tempo querendo rir. Isso foi o que mais me irritou. Por que queriam rir dela?!
Eu levantei a perna e empurrei com força a fileira das cadeiras. As garotas se assustaram e uma delas caiu quando a fileira a atingiu. Yuka ouviu e sentiu o estrondo, arregalando os olhos. Todos olharam pra mim enquanto eu abaixava lentamente a perna depois do ato.
— Oe, sua louca! – Uma das amigas da garota a ajudava a levantar.
— E se eu risse agora da sua amiga manca? – Disse séria.
Elas arregalaram os olhos e eu saí da sala, passando pelos quatro garotos. Eles me olharam pasmos e o de cabelo verde olhou para Yuka, que recuou quase paralisada e saiu da sala. A morena ficou pasma, principalmente com a força que eu pus contra toda a fileira de carteiras.
Era típico isso em mim. Se caçoavam da Yuka, eu fazia alguma besteira para transferir a atenção pra mim. Perdi a conta de quantas vezes minha mãe veio no colégio por isso. Agora me sentia um pouco arrependida por ter feito aquilo. Acho que machuquei aquela garota e se algum professor descobrir isso seria anexado no meu histórico. Yuka não gostava quando eu fazia isso e agora eu estava com receio de encará-la. Eu andei e saí do prédio, indo para a primeira coisa que fitei: o ginásio. Me escondi lá, sentando em um dos bancos enquanto Yuka me procurava.
Ela andava pelos corredores, ofegante e desdobrou a vara para ser mais rápida. Quando saiu do prédio, jogou a vara com raiva e se ajoelhou no chão, tampando os ouvidos.
— Nande...? Nande?
Yuka sentiu alguém pôr a mão em seu ombro e se assustou, levantando rápido.
— Quem...?
Era o garoto de cabelo verde, que ficou pasmo ao vê-la assustada e ver seus olhos.
— T... Tsubaki?
Ele não respondeu, não tinha reação.
— Tsubaki, baka! – Ela exclamou – Não devia ter feito aquilo! Eu sei me defender!
— Iie... – Ele disse.
Ela arregalou os olhos, vendo que a voz era masculina.
— N-Nani?
— Gomen. – Ele disse – Sou da sua sala. Midorima Shintarou.
— Por que não respondeu quando perguntei quem era? – Ela perguntou.
— E-Eh... Gomen, não... Tive reação.
Ela abaixou o olhar.
— Você viu Tsubaki?
— Quem?
— A garota alta que derrubou as carteiras. Ela é um pouco menor que você.
Ele ficou surpreso.
— Como...?
— Eu sei a altura que sai o som da sua voz, você é um pouco mais alto que ela. – Ela disse séria.
— G-Gomen. – Ele disse envergonhado – Ela saiu do prédio.
— Arigatou... – Ela disse – Você... Anou...
— Uh?
— Joguei minha vara... – Ela disse sem jeito.
— Ah...
Ele a procurou e a viu no gramado, indo até lá e pegando-a. Voltou até Yuka.
— Aqui. – Ele disse, entregando-a.
Yuka esticou o braço e sentiu a mão dele ao pegar a sua vara. Ela corou e abraçou a vara, se encolhendo.
— A-Arigatou.
— Hum. – Ele disse – Você não me disse seu nome.
Ela arregalou um pouco os olhos, surpresa.
— K-Kayou Yuka.
— Hum, prazer Kayou-san.
— H-Hum. A-Arigatou.
Ela se virou e começou a tatear o chão com a vara. Midorima a viu sumir de vista, entrando em outro prédio.
— Oe, Shintarou. – O garoto de cabelo azul chegou – Baka, some do nada.
— E por acaso somos um casal pra você ficar atrás de mim, Aomine? – Ele perguntou sério.
Aomine fez cara de tédio.
— Nee, você viu aquilo? Aquela garota quase quebrou a perna da Seiko.
— Vi.
— Será que ela é a protetora da garota cega? – Ele riu.
— Cala a boca.
— Eh? – Ele o olhou, vendo que Midorima estava sério.
— Vamos voltar logo. – Ele disse.
— Hum. – Aomine concordou, mesmo sem compreender.
Os dois voltaram para a sala e quando o intervalo estava quase no fim, eu saí do ginásio. Me sentia envergonhada e como se tivesse humilhado Yuka. Precisava pedir desculpas a ela, mas acho que pediria na hora que fôssemos para casa. Eu dei a volta no prédio, vendo se ninguém me veria, mas quando me virei, me choquei com alguém.
— Ett...? Eh...? – Disse surpresa, olhando lentamente para cima.
Eu realmente nunca vi um garoto tão alto na minha vida. Arregalei os olhos, era o garoto de cabelo roxo da minha sala.
— G-Gomen. – Disse, desviando dele e continuando a andar.
— Ela era sua amiga? – Ele perguntou com aquela voz arrastada.
Parei e o olhei em dúvida.
— Minha irmã.
— Oh? Sério? Não são parecidas.
Franzi levemente o cenho, não interessa a ele nada da minha vida.
— Com licença. – Disse, me virando.
— Eh? – Ele segurou meu braço.
— Oe...! – Ia exclamar.
Ele me segurou, me pondo contra a parede e pôs uma bala na minha boca, porém segurando com a boca dele. Não foi exatamente um beijo, mas nossos lábios roçaram levemente. Corei, arregalando os olhos e o empurrei, tampando a boca com a mão.
— É de morango. – Ele disse calmamente.
O olhei, indignada.
— Você não pode beijar as pessoas do nada! – Exclamei.
— Eu não beijei você. Só te dei uma bala. – Ele disse com simplicidade – Não é sempre que eu vejo uma garota alta assim.
Franzi o cenho, pra mim aquilo não foi um elogio. Me virei e voltei a andar, indo embora. Quando o sinal soou, eu estava sentada na minha carteira, as carteiras que eu havia empurrado estavam arrumadas novamente e Yuka estava em seu lugar. Abaixei o olhar e percebi o garoto de cabelo roxo sentar em seu lugar, infelizmente ao meu lado. Desviei o olhar, corando. Aquilo não foi um beijo, não foi um beijo!
...
No meu quarto, eu estava deitada na cama e olhava para o teto. Não conseguia tirar da cabeça aquele garoto me dando a bala de morango daquele jeito. Abracei o travesseiro. Aquilo não foi um beijo! Pois se foi... Foi o meu primeiro beijo. E não podia ser assim! Eu nunca beijei ninguém, ninguém nunca reparou em mim! Ele é louco!
A porta do meu quarto se abriu e eu vi Yuka. Me sentei na cama.
— Tsubaki?
— Hai.
Ela se aproximou e se sentou na minha cama. Aquilo me assustou tanto que me esqueci de pedir desculpas a ela na saída.
— Por que fez aquilo?
— Gomen. – Abaixei o olhar, abraçando o travesseiro – Foi o que eu pensei na hora pra não bater nelas.
Ela sorriu levemente.
— Não faça mais isso, por favor.
— Não posso prometer.
Ela deixou uma risada leve escapar.
— Foi muita sorte eles não ligarem pra cá pra contar o que houve. Aquela garota torceu o pé e vai ser sorte se os pais dela não quiserem processar.
— Hum. – Assenti – Gomen.
— O que você tem? – Ela perguntou de repente.
— Eh?
— Sua voz está estranha.
Corei.
— Uhm... Não é nada. – Disse, tentando não gaguejar.
— Tsubaki.
Abaixei a cabeça e a afundei no travesseiro.
— Acho que um garoto me beijou. – Disse com a voz abafada.
— Hã?
A olhei.
— Eu acho... Que fui beijada. – Disse envergonhada.
— Por quem? E como assim você acha?
— Pelo garoto que senta do meu lado na sala. – Disse – E... Eu não sei. Ele me puxou do nada quando eu estava voltando para o prédio e pôs uma bala na minha boca com a boca dele. – Disse indignada.
Yuka riu, tampando o rosto.
— Não tem graça! – Exclamei.
— Tem sim. – Ela disse – Você é durona, mas quando beija um garoto, fica assim.
— Eu não o beijei.
— É. Ele te beijou.
— Ele não me beijou! Aquilo não foi um beijo! Ele é maluco.
— Relaxa, sua virgindade ainda está intacta.
— Uhm...! – Corei – Eu...! Baka!
Ela riu e levantou.
— Boa noite e não sonhe com aquele “não beijo”.
Fiquei emburrada e ela saiu do meu quarto, rindo. Balancei minha cabeça, aquilo não foi um beijo!
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