Coração de lobo
46 Quase o fim/Esperanças
A morte de Theo tinha a marca de uma pessoa. Não que Derek tenha visto Peter em seus anos de criminoso, afinal de contas Talia apenas havia contado sobre a adolescência de Peter e tudo que eles tiveram que fazer para não deixar a polícia levar o homem.
Pensar que ele tinha uma queda pelo Xerife era ainda mais maluco naquela situação. Na verdade, Peter apenas tinha dado acônito para Theo, pra que se finalizasse o seu desejo. E agora o homem não poderia incomodar ninguém, mas também deixaria suas crianças sozinhas no mundo, e Derek não queria pensar naquilo.
Na verdade, ele não queria nem estar na delegacia para lidar com isso, porque ele queria ir junto com Stiles para o médico, saber se tudo estava bem mesmo. Pelo menos Laura havia decidido vir para Beacon Hills de última hora, para ajudar a Derek.
Stiles estava muito estranho nesses últimos dias, e Derek não sabia porque. Talvez fosse o choque de tudo o que aconteceu. Talvez fosse o final da gravidez, que estava chegando. Derek só queria achar um jeito de trazer de volta aquele Stiles mais alegre, mais sensual, que sempre queria Derek por perto e que não tinha medo do mundo.
Pois tudo aquilo começou depois do ataque, e foi rápido. A mudança em Stiles foi muito grande.
“Derek?” O Xerife o chamou. Derek estava olhando para os papeis na mesa dele.
“Sim?”
“Eu quero que você vá ver o Stiles. Quero que você vá checar ele, ver como foi de consulta, passe o resto do dia com ele.”
“Mas ainda tem…”
John o interrompeu.
“Ainda tem um monte de coisa a ser feita por aqui, eu sei, mas eu já tirei você da sua família por tempo demais. Eu quero que você vá ver como o Stiles está e me depois me ligue. Sei que esses últimos dias tem sido complicados, mas se tem alguém que pode ajudar ele, é você. Não sei, descubra algo importante dessa ligação de vocês e traga o Stiles de volta.”
Parecia que aquilo era uma ordem, ou um monte de palavras jogadas em cima de Derek, e ele nem sabia o que fazer. A confiança do Xerife era muito grande, mas Derek se sentia na obrigação, especialmente com o jeito que o homem o olhava, colocando uma mão no ombro de Derek.
Derek assentiu.
“Bom homem. Eu acho que o Stiles já deve estar em casa porque Laura me ligou dizendo que ele expulsou ela da casa de vocês porque queria ficar sozinho.”
E Derek não precisou ser avisado duas vezes. Ele pegou seu casaco e saiu pedalando para o apartamento deles. Derek chegou rápido, e foi logo entrando. Stiles estava no balcão da livraria, mas era bom que não tinha ninguém por ali. Se bem que com a cara de Stiles era difícil de imaginar que alguém iria entrar na loja dele.
“Derek?” Stiles pediu assim que o Alfa entrou.
“O que aconteceu?” Derek pediu. “Seu pai me disse que você mandou Laura embora.”
Stiles suspirou.
“Claudius está pronto pra vir. Deaton me falou que as últimas semanas são diferentes para cada um, e no meu caso o bebê está pronto, mas ele não vai sair.” Stiles despejou aquilo em Derek, que quase não entendeu nada.
“E isso está acontecendo por que?”
Ele caminhou para o outro lado do balcão e chegou perto de Stiles. O ômega se encostou em Derek, respirando fundo.
“Deaton falou que é porque eu não quero deixar ele sair. Que eu não confio no mundo, ou qualquer coisa assim. Aí o bebê não vem. O problema é que ele não pode ficar lá dentro por tanto tempo além do seu tempo. E isso é muito informação pra mim no mesmo dia. Eu nem sei o que pensar.”
Stiles suspirou. Derek sentia a angústia dele em suas veias.
“Eu sei que muita coisa aconteceu com a gente. Mas tudo vai voltar ao normal,” Derek disse.
“E as crianças do Theo, quando vai voltar o normal delas, Derek? Cadê o resto da família, e a mãe delas, e agora sem pai?” Stiles tremeu. Uma de suas mãos foi acariciar a barriga, acariciar o filho lá dentro.
Derek também não poderia imaginar fazer isso com as crianças, mas ele não queria admitir que ele tinha que agradecer ao seu tio por ter feito aquilo. Derek queria resolver isso também, mas não só por ele, por Stiles e pelo filho. Derek queria terminar com esse sofrimento de Stiles.
“Mas e Deaton não falou de alguma solução para você?”
Stiles se virou para olhar para Derek.
“Ele falou que existe uma cesariana para homens, mas que ela não funciona todas as vezes porque é arriscado. Se eu fosse um lobo seria mais fácil, ou uma mulher. Mas eu não sou nenhum, então ele disse que a gente teria que encontrar uma maneira de fazer ele sair naturalmente.”
Stiles bufou.
“E aquela maneira comum de induzir partos?” Derek pediu.
Stiles balançou a cabeça.
“Eu não consigo ter ânimo para sexo Derek, nem sei se ia funcionar. Deaton disse que é complicado ter depressão pré-parto. E que nem remédios eu posso tomar até dar a luz e…”
Uma lágrima escapou dos olhos de Stiles.
“Eu não sei o motivo, mas eu estou cansado. Exausto, pra falar bem a verdade. Tudo na minha vida tem sido uma montanha russa de emoções, e ao invés de a gente chegar ao fim, parece que constroem uma nova parte nessa pista e eu nunca consigo descer do carrinho.”
Derek quase riu com a analogia.
“Mas meu amor, a gente tá no fim, é só você conseguir relaxar, conseguir se controlar que a gente ajuda o Claudius a chegar entre nós. E não vai ser lindo depois? Ter ele aqui em casa, poder brincar com ele e ver o nosso bebê crescer, hein?”
“E se alguma coisa acontecer com ele?” Stiles pediu.
Derek pegou ele pela cintura e colocou no balcão, sentado para Derek. O Alfa colocou suas mãos nas perna de Stiles e acariciou ele. Assim como disse o Xerife, Derek tentou usar sua ligação com Stiles para pensar em uma forma de o ajudar. Mesmo que fosse por nada, Derek pensou em coisas boas, neles dois nos momentos de felicidade, nos momentos calmos juntinhos no sofá.
O Alfa deixou uma criança se formar em sua cabeça, pintar ela correndo pelo mundo nas mãos de Stiles e Derek, deixou a imagem tomar vida. Derek tentou pensar no que de bom ele sentia e que tinha em sua mente. Bem devagar, ele sentiu o corpo de Stiles relaxar, um pouco só.
Talvez estivesse funcionando, talvez não.
“Sabe,” Derek pigarreou para limpar a garganta. “Eu acho que a gente tem um futuro grande pela frente, e não faz sentido a gente ficar esperando pelo fim. Ou pela coisas ruins. Se a gente chegou até aqui, acho que é por um motivo, não?”
Derek esperou Stiles fixar seus olhos nele e assentir antes de seguir em frente.
“Nós somos Almas Gêmeas, algo quase impossível de se achar. E nós temos a chance de viver esse sentimento, de fazer a nossa família ser a mais feliz do mundo, porque nós estamos juntos aqui, temos a vida pela frente.”
Stiles deixou cair outra lágrima. Derek limpou ela com seus dedos.
“Você acha que se a gente fosse feito um pro outro e o universo não quisesse a gente junto, estaríamos aqui? Quem sabe todas essas atribulações é pra fazer a gente ter certeza de que a escolha de ficar juntos foi a certa, foi o que tinha que acontecer.”
Stiles suspirou.
“Mas e o universo precisar testar a gente a todo o momento? Derek, eu tô cansado. Eu quero descansar a cabeça, quero conseguir relaxar. Quero ver a vida com outros olhos, e não com medo.”
Derek abriu seus braços e deixou Stiles se aconchegar nele.
“E o que tá te proibindo de fazer exatamente isso? De fechar os olhos e dormir? Eu estou aqui, sou o seu Alfa e vou sempre te proteger. Não importa quando, onde ou como. Existe uma ligação entre nós e sempre vai existir. Acho que eu sentiria você até do outro lado do mundo, mas não vamos esperar que o tempo nos separe tanto assim.”
Stiles assentiu.
“Eu nunca quero me separar de você. De vocês dois,” Stiles completou com uma mão em sua barriga.
Derek colocou uma de suas mãos sobre a de Stiles.
“Então não se separe, meu amor. Não se distancie de nós agora, porque eu e o nosso filhote precisamos de você aqui conosco, e não longe dentro dos seus pensamentos. Não que você não possa, mas se quiser ajuda para abrir os olhos e enfrentar o mundo, peça pra mim. Me dê a mão que eu vou sempre agarrar na sua. Nunca vou deixar você caminhar sozinho, meu amor.”
Derek respirou fundo.
“Meu ômega.”
Stiles relaxou completamente contra Derek.
“Meu Alfa,” Stiles suspirou, logo antes de o sono se abater sobre ele. Derek respirou aliviado.
~*~
John ainda estava na delegacia. Era tarde da noite, mas ele ficou revendo papeis sobre o desastroso caso de Theo Raeken. A ligação anônima dizendo que Theo iria pagar pelo que fez surpreendeu John no outro dia, mas para uma resposta assim rápida, ele estava surpreso.
Se bem que nem tanto, especialmente depois que Talia o alertou sobre a possibilidade de algo acontecer. Mas não haviam provas de nada. Era como se Theo tivesse o veneno com ele quando foi para a cela, e ele simplesmente morreu. Como era um criminoso e um lobisomem, ele não fez parte dos jornais ou das manchetes, e como não tinha família além dos filhos, John não sabia nem o que fazer.
Pobres crianças.
Um som na sala o fez levantar os olhos. Peter estava no canto da sala dele, quase escondido no escuro.
John suspirou.
“Não basta você querer fazer justiça com as próprias mãos, ainda tem que vir aqui e se vangloriar?” John pediu.
Peter sorriu.
“Quem disse que vim para me vangloriar? Eu vim é pra saber como está o Stiles.”
O Alfa se sentou numa das cadeiras à frente de John. O Xerife colocou a cabeça por sobre as mãos.
“Eu não sei. Meu filho sentiu demais o que aconteceu.” O Xerife continuou apoiando os olhos nos punhos. Ele não olhou para Peter.
No entanto, ele sentiu a mão que correu por sobre seus cabelos e parou no seu pescoço. John nem sabia como Peter tinha chegado tão rápido do outro lado da mesa, ao seu lado.
“Por isso mesmo foi bom cortar a fonte do mal pela raíz,” disse Peter no ouvido de John. “De nada.”
John não sabia nem o que ele queria fazer. Ele levantou a cabeça e se virou para ver Peter perto dele. Perto até demais.
“O que eu faço com você, Peter?”
“Você quer que eu te dê opções?” O homem abriu o sorriso de novo.
John balançou a cabeça, fazendo Peter tirar suas mãos dele.
“Eu não sei o que você quer de mim, Peter. Acho que ficou mais do que claro que nós temos vidas diferentes, que você pertence a algo que eu não tenho nada que ver, e que não temos quase nada em comum.”
Peter virou sua cabeça para o lado. Ele se abaixou para ficar frente a frente com o Xerife.
Era quase estranho ver Peter de joelhos para alguém.
“Eu salvei a vida do seu filho e do meu sobrinho. Dei uma chance para eles viverem sua vida em calma. E como braço direito do Alfa da minha família, esse é meu dever. Assim como proteger a todos, até você. Ou os outros lobos da família, mesmo os perdidos que nem o nosso sangue tem. E por anos eu não precisei fazer nada, mas agora eu voltei, porque senti que teria que proteger vocês.”
John apenas olhou para Peter por uns segundos.
“Mas e a que preço, Peter? Duas crianças agora não tem mais uma família.”
O Alfa parecia pensativo por um instante. Quando ele abriu sua boca, o mundo parecia mudar de cor.
“Então você aceita ser meu ômega, e nós dois adotamos as duas crianças. Tenho certeza que até eu posso ser um bom pai para elas. Assim como você.”
Peter falou aquilo com tanta seriedade que ele parecia até querer aquilo.
John estava incrédulo.
“E você vai contar a elas no jantar como você matou o pai delas?” Ele pediu.
Peter sorriu para John.
“É aí que você se engana. Eu só completei o que o próprio homem queria fazer, de uma maneira bem menos complicada do que ele planejou. Sem falar que ele assinou sua própria sentença de morte quando ameaçou a minha família.”
John podia apenas balançar a cabeça
Peter não insistiu, se levantando do chão e caminhando em direção à porta.
Ele parou antes de sair.
“Eu falo a verdade, John. Se você disser que sim, eu faço de você o ômega mais feliz que você pode ser, mesmo que não seja a sua amada esposa. E eu adoto os filhos. Ou cuido deles. Qualquer coisa pra fazer você não perder a esperança em mim.”
Peter saiu.
John balançou a cabeça.
“E será que algum dia eu tive esperanças em você, Peter…”
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