O fim de fevereiro marcou o final do oitavo mês da gestação de Stiles. Os últimos tinham sido praticamente normais, ou o quão normal eles poderiam ser com Stiles carregando uma enorme barriga por todo o lugar e com o loft deles em reforma — sim, pois eles decidiram comprar o apartamento ao lado e contrataram uma empresa para fazer a reforma — eles estavam indo de um lugar a outro para conseguir viver junto.

Uns dias Stiles estava na casa dos Hale, outros dias no apartamento do seu pai, e alguns ele ficava em casa, mas era uma bagunça. Pelo menos a gravidez dele não incomodou Stiles mais, não que fosse um incômodo, claro. Mas as coisas era mais complicadas com ele sendo um homem grávido com um barriga enorme.

Stiles tinha que confessar que alguns dias ele se sentia nojento e feio, porque por mais lindo que fosse a dádiva de se ter um filho, Stiles não tinha vontade de tomar banho às vezes, não queria levantar do sofá pois se sentia como uma orca e também tinha até medo de se mostrar para Derek, ainda que o homem amasse a barriga de Stiles.

E era estranho de imaginar que um homem como Derek, lindo e gostoso daquele jeito fosse gostar de Stiles como ele estava agora. Era algo temporário, ele sabia, mas o fato de estar gordo daquele jeito, suando mais, sem vontade para se arrumar, pra se depilar ou fazer a barba, fazia ele se sentir feio.

Derek ainda disse que ele adorava Stiles com seus pelos e barba malfeita, mas Stiles tinha suas dúvidas. Sem falar que Peter não ajudava muito. O homem sempre estava em volta, pelos cantos, querendo dar seus comentários sobre como o Stiles “prenho” estava tão lindo, como ele deveria fazer uns filhotes saudáveis porque o lobo de Derek precisava de uma família, como ele sempre deveria se apresentar para seu lobo e sempre estar fértil, e Stiles não queria nem ouvir o homem.

Não que ele incomodasse, Peter só fazia aquilo com o ele, mas Stiles já tinha pressão demais em carregar um filho, ele não queria se preocupar em perder o homem dele também. E eles eram Almas Gêmeas, aquilo nem era possível, mas fala isso pra cabeça do Stiles.

No final de mais uma semana Stiles estava trabalhando na livraria e ouvindo martelos batendo no segundo andar. Já era uma coisa comum ele ouvir os barulhos, e ainda bem que a livraria não tinha perdido clientes, porque Stiles já estava irritado com tudo. Mas era só o filhote dele se mexer lá dentro que uma onda de ocitocina iria lavar seu corpo todo e Stiles se sentiria bem.

Pelo menos o filho deles podia fazer aquilo com Stiles.

O filho deles que ainda não tinha nome.

Pelo menos não oficialmente. Na noite de Natal Stiles queria ter dado a ideia que ele teve para Derek, mas um comentário do homem fez Stiles não falar nada. Não foi um comentário ruim, mas Derek disse que ele gostava da ideia de escolher um nome diferente do que eles tinham na família, pois ele não queria que o filho fosse comparado a ninguém.

Só que o nome que Stiles tinha pensado era da família dele, e se Derek não queria, Stiles não tinha vontade nem de falar a sua ideia. Ele estava com os hormônios por todo o lado, e criar uma discussão sobre nomes não estava em sua lista. Era desconfortável ir ao médico e não poder chamar o bebê de nada, mas Derek não insistia com Stiles, mesmo que toda a família deles quisesse.

Derek, na verdade, parecia a pessoa mais compreensiva do mundo, e aquilo deixava Stiles com um pouco de medo. Não que tivesse algum problema em ser compreensivo, mas aquilo parecia coisa que os maridos faziam quando não queriam mais as esposas/esposos. Ser compreensivo porque você vai quebrar o coração da pessoa e tal…

E sim, as ideias na cabeça de Stiles corriam à solta e ele quase nunca conseguia controlar elas e…

O telefone tocou. Stiles saiu de seus pensamentos, olhou em volta da loja vazia e então apenas atendeu o telefone. Era Derek.

“Oi, amor?” Ele falou.

Derek suspirou do outro lado da linha antes de falar alguma coisa.

“Você pode se acalmar um pouco, Stiles.” Aquela palavras tinham efeito imediato nele. Derek realmente sabia de tudo que se passava com ele. “A nossa conexão tá pirando dentro de mim porque eu sinto você confuso e descontrolado. Tem algo acontecendo com você?”

Stiles sacudiu a cabeça em silêncio, mas só então percebeu que Derek não poderia ver ele.

“Não, eu tô só pensando.”

Derek não disse nada por um momento.

“Mas você está pensando no que — que tudo está confuso entre nós?”

“Eu não sei Derek. Acho que meus hormônios estão meio descontrolados, o que não é nenhuma novidade,” Stiles subitamente sentiu a primeira lágrima saindo de seu olho. Ele suspirou, sentindo mais lágrimas caindo.

“Não precisa chorar, meu anjo. Eu estou aqui com você, sempre vou estar, você sabe disso. Nosso vida está se arrumando, o apartamento vai ficar pronto, as coisas pro nosso bebê estão compradas e a nossa família inteira quer ele por aqui. E eu te amo, não tem porque pirar agora. É só esperar o bebê nascer e escolher um nome,” disse Derek, tentando falar com um tom alegre, dizendo que não havia porque se preocupar.

Mas assim que o homem falou em escolher o nome, aquilo aumentou ainda mais a angústia de Stiles, e ele se abriu no choro.

“O que foi, Stiles?” Derek pediu. “Você está me preocupando, eu disse algo errado?”

“Não,” Stiles tentou falar, mas as palavras não queriam sair. O choro não passava.

“Eu vou sair do trabalho agora, Stiles, me espere por aí que eu já chego em casa, okay?”

Ele não queria que Derek deixasse o seu posto só por aquilo, mas Stiles não conseguia falar por causa das lágrimas. Ele tentou expressar o que queria dizer com movimentos de cabeça, mas aí pra ele conseguir era outra coisa.

Quando ele viu a ligação tinha terminado, e Derek provavelmente estava vindo para casa. Stiles nem sabia o que fazer, mas ele conseguiu ao menos virar a placa na entrada da livraria. Ele poderia ter ido fechar a porta pro loft, assim nenhum dos carpinteiros iria descer para falar com ele, e os dois poderiam conversar na salinha de trás da livraria, o lugar onde era o quarto deles no momento.

Mas Stiles se sentia culpado por Derek ter que sair do trabalho por causa dele. Momentos atrás ele tinha pensado em como ele poderia estar perdendo Derek, e aquilo só piorava as coisas. Mas quem sabe era só as emoções de Stiles, e ele rezava pra que fosse apenas aquilo.

Graças aos deuses Derek chegou em pouco tempo. Ainda era cedo para Derek vir pra casa, pois a tarde estava apenas chegando a seu fim, e Derek chegava a noite geralmente. Independente disso, assim que Derek abriu a porta para entrar, Stiles foi correndo até ele, e abraçou o homem. A barriga atrapalhava um pouco o abraço, mas Stiles se virou de lado um tiquinho para poder se aconchegar ao seu Alfa.

Derek era um porto seguro para Stiles, e ele se desabou no choro assim que o homem o abraçou forte.

“Eu estou aqui, Stiles. Estou aqui.” Derek beijou a cabeça de Stiles. “Eu sinto que a saúde de você e do bebê estão perfeitas, mas as suas emoções estão completamente fora do lugar, e eu não sei o que causou isso, mas eu estou aqui e tudo está bem. Tudo vai ficar bem, não se preocupe.”

Stiles tentou falar algo, mas nada saía de sua boca, por isso ele apenas assentiu, esfregando seu rosto no pescoço de Derek. O cheiro do homem ajudava Stiles a se acalmar, e o filhote se mexendo dentro dele ajudava também. Com sua família toda ali as coisas pareciam melhores.

E naquele momento também, Stiles percebeu como ele era fraco como um ômega. Parecia até um clichê que ele se sentia assim dependente de Derek para o ajudar, para dizer que ele está bem, mas era verdade. Só o cheiro do homem já era o bastante para fazer Stiles relaxar, para fazer ele se sentir melhor. E aquilo era mais do que bom.

Ainda assim, Stiles sentia seu coração pesado, mas ele ainda não conseguia falar nada, apenas respirar o cheiro de Derek. Eles dois ficaram um bom tempo lá apenas abraçados. Era bom para Stiles conseguir se acalmar, e ele conseguiu, mas só depois de um tempo.

Derek os guiou para o quartinho deles atrás da Coração de Lobo, que era pequeno e uma bagunça, mas tinha o cheiro dos dois, e Stiles se sentia bem lá. Derek o colocou na cama, mas depois soltou Stiles para ele poder se sentar também. O Alfa se encostou na cabeceira, abriu suas pernas e depois puxou Stiles para si, fazendo ele relaxar contra seu corpo.

O contato entre os dois fazia Stiles conseguir pensar melhor. Por uns instantes eles ficaram em silêncio. Derek colocou suas mãos sobre a barriga de Stiles e acariciou o filho deles, sentindo o bebê se mexer. O movimento interno causou um pouco de formigamento na perna de Stiles, mas era bom demais estar ali, tanto que ele fechou os olhos e quase caiu no sono.

Se não fosse Derek chamando por ele, Stiles teria dormido.

“Você acha que agora você consegue me dizer o que aconteceu?” Stiles tremeu com as palavras, mas ele sabia que teria que dizer alguma coisa. Derek saiu do trabalho para ajudar Stiles, e ele devia algo ao homem. Nem que fosse uma dose de sua sinceridade.

Stiles suspirou antes de falar, e quando a voz dele saiu ela estava baixinha e rouca.

“Minhas emoções estão daquele jeito, você sabe. E falta só um mês, nosso apartamento ainda tá uma bagunça, eu tô uma bagunça. Me sindo feio, indesejável.” Enquanto Stiles falava, Derek não disse nada. O homem sabia que aquilo era um momento importante. “E às vezes parece que eu sou tão estranho pra você, um ômega fracote que agora está todo gordo e nojento, ah… Sem falar que você falou do nome do bebê e…”

Com aquilo, Stiles sentiu um soluço subindo pela garganta ele, e tentou de controlar. Derek abraçou ele forte, mas ainda não falou nada, apenas esperando Stiles completar seu pensamento.

Ele teve que respirar fundo antes de conseguir falar o que queria.

“Eu tive a ideia de um nome lá no Natal ainda, mas daí você disse que não queria nomes de família, e eu também tinha dito, mas… Sabe, eu lembrei da minha mãe e o nome apareceu na minha cabeça.” Stiles parou.

Derek beijou a cabeça dele.

“E que nome seria?” Ele pediu em um sussurro.

Stiles esperou uns segundos, medroso. No fim das contas ele falou.

“Claudius. Claudius Hale,” Stiles completou.

Derek não disse nada por um instante, e Stiles gostaria de ser um lobo para saber exatamente o que o homem sentia ao ouvir aquelas palavras. O coração de Stiles quase palpitava enquanto ele esperava por uma resposta, e ele já estava pronto para desabar no choro de novo.

A resposta de Derek o surpreendeu.

“Claudius Stilinski-Hale. É assim que nosso filho vai se chamar,” disse o Alfa. Stiles não conseguiu se controlar.

Como se a tempestade tivesse passado, ele sentiu um alívio ao ouvir aquilo. A voz de Derek parecia sincera, e aquilo era o que ele mais queria.

“Você não tá dizendo isso só pra me agradar?” Stiles pediu.

Derek fez ele se virar um pouco para eles poderem se olhar no olhos.

“Stiles, eu não preciso mentir pra você. O nome é lindo, mas eu quero nossos dois sobrenomes. O nosso filho é um pouco de cada um de nós, ele tem que ter a nossa marca nele.” A voz do Alfa chegou a ficar emocionada, provavelmente afetado pelas emoções de Stiles.

Por um momento eles apenas se olharam, e então Stiles chegou perto dos lábios de Derek e beijou ele com calma. Logo ele se separaram e Stiles se aconchegou no peito dele. A vida dos dois não estava resolvida naquele momento, mas Stiles se sentia muito melhor.

Ele conseguia respirar melhor, conseguia se sentir mais leve, especialmente com o jeito que Derek começou a acariciar ele na sua barriga, indo com calma até ele chegar perto da virilha de Stiles.

O toque de Derek era libertador.