Coração de lobo
3 Medos
Notas iniciais
Stiles não sabia direito o motivo de ele não querer aparecer na frente do outro garoto, do seu novo vizinho — Derek era o nome dele. Quando seu pai disse que havia comprado um prato de cookies na padaria da esquina para eles levarem para os vizinhos e dar as boas vindas para eles, Stiles gelou por dentro, ficando com medo na hora do que poderia acontecer.
Não era também um grande problema ele ir até a casa logo ao lado de onde ele morava, afinal Stiles conhecia ela por dentro, mas agora haviam outras pessoas ali. E Stiles não tinha certeza, mas ele sentiu uma energia diferente quando ele viu o Derek. Alguma coisa com os olhos dele, ou talvez o jeito dele olhar para Stiles ou o seu rosto, Stiles não sabia. Mas algo nele dizia que o novo vizinho era uma pessoa diferente.
Na verdade, todas as sensações que Stiles teve ao entrar na casa fizeram alguns alarmes começarem a tocar na mente dele. Não só o Derek, mas as irmãs dele e a mãe também, a presença deles fez uma… uma coisa pairar sobre o ar.
Mas Stiles não sabia o que era. Por isso ele ficou assim escondido por trás das pernas do pai. Ele só relaxou quando os dois saíram de lá, com o pai de Stiles abraçando ele e rindo ao pedir se Stiles estava com medo dos novos vizinhos.
“Não, pai.” Ele falou, seguindo o Xerife para a porta de casa. “Eu só senti uma coisa estranha…”
“Bom, pode ser o fato de eles serem uma família de lobisomens,” John respondeu.
Stiles virou para olhar para o pai, surpreso.
“Eu sei de todas as pessoas que se mudam pra cá, especialmente porque novos bandos de lobos precisam ser registrados. E o registro deles foi confirmado não faz muito tempo. É normal a gente sentir uma coisa diferente quando estamos na presença de um lobisomem.” O Xerife explicava tudo com calma. Ele abriu a porta para os dois entrarem antes de continuar. “Por isso que eu fui comprar alguma coisa para receber eles por aqui. Hoje os bandos de lobos não se comportam mais como antigamente, mas faz bem a gente oferecer alguma coisa em troca da aceitação de um novo bando.”
Stiles apenas assentiu.
“Mas também tem o fato de que eles moram na casa que era do Scott, não? É uma reação normal, você sabe?” O Xerife falou, fechando a porta de casa.
Stiles assentiu outra vez.
“Ele era meu amigo, papai.”
“Eu sei. Mas você vai entrar na escola das crianças mais velhas agora, então tem a chance de você encontrar novos amigos, não tem?”
O garoto não queria admitir que ele não sabia se iria encontrar outros amigos agora, afinal de contas grande parte da relação dele com Scott tinha a ver com o fato de eles viverem perto, e ser Alfa e ômega. Mas Stiles também era apenas uma criança, havia ainda muito da vida dele para ser vivido, então ele não saberia como ia ser o futuro.
Pelos próximos dias ele tentou não se sentir tão afetado pela chegada dos novos moradores ao lado, mas Stiles não conseguia se concentrar. A janela dele dava para a casa ao lado, e Stiles conseguia ver muitas das coisas que aconteciam por lá, ainda que ele tentasse não ver.
Logo no primeiro dia de aula, ao acordar, Stiles foi até a janela, só para ver três lobos dando voltas pelo quintal dos novos vizinhos. Aquilo o deixou bastante surpreso, tanto que Stiles ficou vidrado naquelas criaturas pelo pátio. Ele sabia o quanto os lobisomens tinham que se controlar para poder ficar em uma escola cheia de outras pessoas e cheia de sons e cheiros diferentes — e isso ficava pior para aqueles três lobos porque eles eram novos na cidade.
Era comum que os lobisomens da cidade corressem pelas florestas no final de semana para poderem libertar seus instintos animais, por isso ver os três lobos ali correndo antes de irem para o primeiro dia de aula fazia sentido. Eles tinham que liberar a energia antes de irem para a escola.
Stiles ficou assistindo eles por um bom tempo, pelo menos até o pai dele o chamar por várias vezes. Ele não podia se conter, especialmente quando o lobo mais escuro dos três, um animal completamente preto das patas ao focinho e com olhos azuis brilhantes não parava de olhar para Stiles. Aquilo só o atraía ainda mais.
Mas ele teve que descer para ir se arrumar e depois ir à escola.
Claro, durante o dia todo ele ficou prestando atenção para o outro prédio da escola, onde os maiores estudavam, o que ficava do outro lado da cerca, para ele pelo menos tentar ver um de seus vizinhos. Se bem que ele não precisava ter tentado muito, afinal a garota mais nova, Cora, iria estudar junto com Stiles em várias de suas aulas.
Ela era bastante retraída e quieta, bem educada e calma, mas Stiles conseguia ver ela como um lobo por trás da feição dela, pronta para correr ou avançar em alguém. Stiles tentou não prestar muita atenção nela, mas ela sentiu algumas das olhadas que ele deu na sua direção, afinal de contas era provável que ele fosse o único garoto que ela conhecia e que tinha olhado para ela mais de uma vez.
A atração que havia entre Stiles e o irmão dela não se repetia com Cora, no entanto. Stiles nem sabia se ele poderia chamar aquilo de atração, afinal de contas aos onze anos de idade ele nem sabia direito o que era aquilo. O sentimento apenas existia no peito dele e fazia com que Stiles quisesse ficar com um olho sempre voltado para Derek.
Era um sentimento estranho, ele não poderia negar.
No final do primeiro dia, quando Stiles voltou para casa em sua bicicleta, ele sentiu um leve frio correndo por sua espinha, e em alguns momentos ele tentou olhar para os lados para ver se havia alguém o seguindo, mas não tinha qualquer pessoa por ali. Stiles sempre tentava cortar caminho pela floresta que se espalhava pela a cidade, mas raramente apareciam animais grandes por lá, por isso ele não tinha medo.
Pelo menos o pai dele não sabia daquilo, afinal ele não iria gostar de saber que o próprio filho andava pelo matagal sozinho.
Mas ele não precisaria saber, claro.
Não que Stiles fosse irresponsável, pois ele sempre tomava bastante cuidado, e até agora nada tinha acontecido, mas naquele dia ele sentiu um pouco de medo. Contudo, ele não disse nada para o pai quando o homem chegou em casa, trazendo consigo o jantar para a noite.
Quando Stiles foi para seu quarto, ele sentou à mesa para fazer seu tema de casa, pois ainda que fosse o primeiro dia alguns dos professores já lhe deram trabalhos a fazer, e Stiles não era um para deixar as coisas de lado. Ele sempre fazia tudo. E já era quase uma tradição ele fazer seus temas à noite, então era bom ele retomar aquilo antes de as coisas piorarem durante o ano.
Às vezes ele se sentia maduro demais para a idade, principalmente com aquelas atitudes, mas Stiles não conseguia ser de outra forma. Sem falar que alguns médicos que ele havia consultado tinham dito que Stiles poderia desenvolver alguma forma de distúrbio de atenção durante a adolescência, o que fez com que ele começasse fazer uma rotina na sua vida desde bem novo.
Enfim, durante aquela noite, enquanto ele estava sentado, Stiles podia sentir o olhar de alguém, da mesma forma que ele sentiu na floresta. Ele olhou para fora, vendo as luzes no sótão da casa ao lado acesas, e lá não era o quarto de ninguém antes de os novos vizinhos se mudarem, por isso Stiles tinha a curiosidade de saber quem estava lá. Mas a janela era alta demais para ele poder ver alguma coisa dentro do cômodo além da luz. E todas as vezes que ele se virava para olhar para lá ele não conseguia ver ninguém na janela.
Porém, aquela sensação não era ruim, a de ser assistido. Pelo menos não nessa instância. E olha que Stiles era filho de um policial que sempre havia ensinado ele a ter cuidado com olhares de estranhos.
Ele não viu ninguém naquela noite e nem nas seguintes. E todos os dias seguiam da mesma forma. Ir para a escola, ter aulas com Cora, ainda que os dois não se falassem, tentar ver o Derek por trás da cerca na escola, voltar para casa sentindo o olhar de alguém nele, chegar em casa e jantar com seu pai antes de ir para o quarto e fazer seu tema, sentindo a mesma presença ao seu redor.
Era uma coisa estranha, porque ele não conseguia entender o que era. Sem falar que Stiles era uma criança, então não tinha como ele realmente perceber as coisas que aconteciam durante aquela idade com ele. Ainda teria tempo para os feromônios de seu corpo se liberarem para ele se desenvolver, mesmo que ele soubesse o que iria acontecer.
Todos nasciam já sabendo se seriam ômegas ou Alfas, ou se não teriam o gene, o que era muito raro. A partir de então, todos iriam crescer sabendo como os genes iriam influenciar sua vida quando ele chegassem a fase da adolescência, quando os Alfas iriam crescer e expandir seus músculos, fazer os sentidos se aguçarem e transformar os Alfas em criaturas fortes o bastante para defender sua família, enquanto os ômegas iriam preparar seu corpo para futuramente ter filhos, se transformarem em criaturas cheias de carinho e ternura para lidarem com o humor de um Alfa e as loucuras de seus filhos. Claro, nada impedia de um ômega querer virar musculoso depois e poder defender sua família também, assim como nada impedia um Alfa de ser amoroso com os filhos e os criá-lo.
A natureza fazia o corpo de cada um ter a facilidade de alcançar aquilo, mas cada um poderia escolher como iria fazer sua evolução. Stiles, por exemplo, tinha vontade de praticar esportes quando chegasse ao Ensino Médio, mesmo sabendo que nem todos os médicos indicavam alguns tipos de atividade física, pois os ômegas depois poderiam ficar estéreis. Bom, de uma certa forma, o corpo humano ainda era um mistério.
Mas naquela idade, nem todos ainda pensavam em filhos, aquilo era óbvio. Stiles, no entanto, já tinha em sua mente a vontade de os ter um dia, e aquilo era uma loucura, pois ele ainda era muito novo, e ele sabia que teria tempo para aquilo.
Entretanto, ele ainda era uma criança, para todos os efeitos. Por isso que naquele final de semana, logo depois dos primeiros dia de aula, o pai de Stiles tinha dito que alguém iria vir para tomar conta de Stiles, pois o Xerife tinha que ir para uma conferência fora da cidade durante os dois dias.
Stiles no começo nem pensou muito naquilo, afinal de contas o pai saindo para eventos da polícia era algo normal, e Stiles sempre havia ficado com Melissa e Scott. Porém dessa vez não teria eles para Stiles passar os dias. Claro, ele poderia ficar em casa, afinal era apenas uma noite e não teria mistério nenhum.
Mas o pai de Stiles não poderia deixar uma criança sozinha por tanto tempo, e Stiles sabia disso.
“Você pode pedir para a Sr. Thompson passar por aqui para checar em mim, não pode?” Stiles deu a ideia.
“Filho, eu sei que você tem medo de ficar sozinho durante a noite, não tem?” John disse, pedindo para Stiles com carinho enquanto os dois jantavam.
Stiles apenas suspirou.
“Mas talvez o medo já possa ter passado, não?” Stiles disse, esperançoso. Mas ele sabia que aquilo não era verdade.
E o olhar que o Xerife lhe deu dizia aquilo também.
“Eu conversei com algumas pessoas do departamento para ver se algum deles poderia ficar com você pela noite ao menos, mas ninguém tinha os turnos de folga, afinal de contas eu vou sair e deixar eles trabalhando sozinhos,” o homem disse. “Por isso que eu conversei com a Sra. Hale.”
Assim que o pai de Stiles falou aquelas palavras, Stiles arregalou os olhos, sentindo sua respiração se acelerar um pouco.
“E?” Stiles perguntou. Ele se sentia estranhamente excitado com aquilo, ainda que houvesse um pouco de medo em seu peito.
“Ela vai me dar uma resposta hoje à noite, depois que ela chegar do trabalho, afinal ela ainda tinha que falar com o marido dela. Mas ela disse que estava quase certo que a gente poderia combinar alguma coisa.”
Stiles assentiu, um pouco indeciso.
“Não vai ter algum problema em você ficar com eles, pelo menos durante a noite, vai ter?” Quando Stiles não respondeu nada, o Xerife continuou. “Eu vou dar dinheiro para você comprar o seu jantar ou sair para comer alguma coisa aqui na rua se quiser, e você só vai dormir lá com eles se você tiver medo. Ou eu posso pedir para um deles vir dormir aqui em casa, só pela noite.”
Stiles respirou fundo.
“Qualquer coisa que for mais fácil, papai,” Stiles sussurrou. Ele não queria causar problemas, e só de ouvir tanta opções que o pai deu pra ele, a cabeça de Stiles virou um pouco do avesso. E ele não queria ser um empecilho para a família que tinha acabado de chegar.
O Xerife olhou para ele com carinho, oferecendo uma mão para Stiles pegar.
“Tudo seria mais fácil se a mamãe ainda estivesse aqui, não seria?” O homem disse. Stiles apenas assentiu, sentindo seu coraçãozinho se apertar com a falta da mãe dele. “Mas nós sempre vamos dar um jeito, certo?”
Stiles assentiu para o pai, que sorriu para o filho. Ele iria aceitar o que fosse acontecer naquele final de semana, afinal iria acabar passando logo. No final das contas, Stiles iria ter que passar aqueles dias com alguém. Se fosse os novos vizinhos, o bando dos Hale, tudo bem.
A ideia de que ele poderia passar uns dias com Derek, no entanto, fizeram o coração dele se apertar um pouco por dentro. E Stiles não tinha certeza se aquilo tinha a ver com o medo que ele tinha de dormir sozinho ou com o fato de ele iria ter que passar um tempo com Derek.
Stiles não tinha ideia.
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