Coração de lobo
44 Estopim
Uma das últimas consultas com Dr. Deaton confirmou que tudo estava bem com Stiles e com o bebê deles. Agora era só esperar pelo dia em que o corpo do ômega iria estar pronto para dar a luz e ir pro hospital. Derek quase nem podia acreditar que eles chegaram tão longe em tão pouco tempo.
Derek deixou Stiles em casa para ele abrir a livraria, que por mais que Derek pedisse Stiles não queria fechar, e depois foi para o seu trabalho. Derek tinha seu turno até mais tarde, então ele chegaria já tarde em casa, mas era assim que tinha que ser.
Pelo menos agora o apartamento já estava pronto, então Stiles teria o conforto de volta na sua vida. E ele precisava. Mas agora já era mais do que conforto, era uma casinha só deles. Depois da reforma o apartamento ficou com três quartos, sala e cozinha grandes e interligadas, um escritório e dois banheiros, um no quarto de Stiles e Derek e outro que serviria a casa. Tudo bem espaçoso, o que eles mais queriam.
Sem falar que o dono do prédio pediu ainda se eles não queria comprar os outros apartamentos no futuro, os dois andares acima deles, para depois venderem se quisessem, e aquilo era tentador, porque daí eles poderiam ter acesso ao pátio interno e a mais um pedaço de terra que poderia ser só deles, mas quem sabe aquilo seria algo para o futuro.
Derek tinha dinheiro, mas também nem tanto assim, e Stiles não iria querer que seu Alfa pagasse por tudo, ainda que Derek quisesse.
Agora na sala da casa deles Stiles podia pendurar o quadro da mãe dele, que não era grande e nem chamativo, mas era uma coisa que importava a ele. E agora também a Claudius, pois era um prêmio que a mãe de Stiles recebeu por seus estudos na linhagem ômega.
Derek estava feliz. E isso comentaram na delegacia quando ele entrou. O trabalho naquele dia foi calmo, ou o tanto calmo que iria ficar na delegacia da cidade. Como era normalidade, Derek lidou com casos de pequenos protestos bobos contra os genes, algo que já era tão comum que nem mais abalava ele.
Mas naquele dia algo aconteceu que acabou abalando a cidade. Derek estava em sua mesa quando o Xerife saiu de sua sala e começou a falar com todo na delegacia.
“Eu quero todos os agentes à postos. Nós temos uma emergência.” A cara do homem estava fechada, instintivamente, Derek já pensou em Stiles, mas a ligação deles não se movimentou, o que significava que nada acontecia do outro lado.
“O que aconteceu?” Um dos policiais pediu.
“Nós temos um homem ameaçando pular da ponte da divisa do condado, amarrado á seus dois filhos.”
E foi só com aquelas palavras que todo mundo saiu correndo. Em um minuto Derek já estava no seu carro com Parrish, e os dois seguiram o Xerife rapidamente para o local. Não era tão longe, mas ainda assim eles levaram pelo menos quinze minutos para chegar à ponte, onde uma viatura da polícia já estava parada.
De longe Derek conseguia ver o homem com cordas em volta dele e suas crianças amarradas a ele. A ponte não era tão alta, mas o rio era muito caudaloso. Para uma pessoa que não sabe nadar, a queda seria bastante complicada. Mas Derek conseguia sentir que o homem era na verdade um lobisomem, um Alfa, nada menos.
Seria impossível morrer daquele jeito.
No entanto, Derek também percebeu outra coisa, as crianças era humanas. O homem iria sobreviver a queda e ao afogamento, mas as crianças não, e aquilo sim era motivo de preocupação.
Até que todas as viaturas chegaram pelos dois lados da ponte, Derek ficou esperando. O Xerife deu uns breves comandos a eles e todos foram para seus lugares, seguindo o treinamento para esse tipo de situação. Mas claro, o treinamento não dizia nada a respeito da realidade.
Agora que a polícia estava ali, seria óbvio que nada de ruim aconteceria com as crianças, mas era melhor se eles conseguissem dissuadir a situação sem causa trauma a elas, afinal de contas deveria haver um motivo grande para o homem estar ali.
Derek até sentiu um leve aperto em seu coração, mas ele atribuiu aquilo apenas à situação do momento. E eles tinham que trabalhar agora para fazer com que aquelas crianças ficassem bem.
Enquanto Derek esperava ele ouviu o telefone do Xerife tocando em seu carro, mas ele não foi ver o que era. Ele ainda não sentia nada demais pela ligação dele com Stiles, nada que não fosse relacionado ao momento, por isso ele também não se importou muito.
Mas quando o seu telefone tocou ele teve que atender, pois era Stiles.
“O que foi meu amor?” Derek pediu. Ele ouviu a respiração de Stiles do outro lado.
“Você ainda vai demorar pra chegar em casa?” Ele pediu. Havia algo na voz de Stiles, um pouco de preocupação, mas nada grave. Talvez fosse o humor dele.
Derek não iria mentir. “Eu acho que sim, nós estamos aqui atendendo uma tentativa de suicídio na ponte do condado, e, eu não sei o quanto isso vai demorar. Aliás, eu até tenho que…” Derek ia completar a frase, mas então gritos vieram da ponte.
Quando Derek virou para olhar o Xerife estava chamando a todos os agentes lobisomens para que pulassem da ponte, porque o homem tinha acabado de se jogar. Derek desligou o telefone e jogou no carro do Xerife, correndo para a ponte.
Ele foi o segundo policial que chegou por lá, mas logo pulou no rio sem nem pensar. Johnston estava nadando para uma das crianças que estava sendo levada pela corrente, e Derek foi atrás da outra. Ele chegou rápido á criança e logo colocou ela acima da água, nadando com dificuldade, por causa das roupas, para perto de um dos pilares da ponte, onde ele poderia se suportar até conseguir ajuda. Seu colega de trabalho também tinha feito o mesmo, e as duas crianças estavam á salvo.
Dois outros lobisomens policiais foram atrás do homem que havia pulado da ponte, e com ainda mais dificuldade estava levando ele até a margem, já que eles tiveram que nadar para mais longe. O homem estava desacordado, mas pelo menos as crianças estavam bem, mesmo que chorando.
Com uma menina em seus braços, Derek prestou atenção a ela e tentou a acalmar.
“Você já está a salvo e agora tudo vai ficar bem, não se preocupe. O resgate vai chegar e vai tirar a todos nós da água.” As palavras de Derek pareciam não registrar nela, pois a garotinha continuava a chorar.
Derek então abraçou ela contra seu corpo, e fez aqueles sons característicos quando se quer que uma criança cesse o choro. Ele colocou a pequena cabeça dela contra seu pescoço e apertou ela em seu braços. A menina aceitou o abraço.
Era quase como um instinto, porque ele quase se sentia um pai no momento, e ele só poderia imaginar o que iria fazer se ela fosse uma filha sua.
Não tardou muito para o helicóptero com a ajuda chegar, ainda que na ponte outra equipe de resgate trabalhasse para os tirar do rio. Paramédicos já ajudavam o pai delas na margem, e Derek esperava que ele estivesse bem, porque dois desastres em um dia só seria ruim. Mas era estranho ele estar desacordado só com a queda. Ele deve ter tomado algo, Derek pensou.
Quando todo mundo já estava de volta à ponte, ambulâncias começaram a levar as crianças para o hospital. Derek estava com uma toalha em volta dos ombros, mas teve que ir com a menina que ele resgatou, pois ela não queria largar dele.
A garota não queria conversar, mas pelo menos ela disse seu nome para ele: Alicia.
A viagem ao hospital foi rápida, e logo Derek teve que acompanhar a pequena para a sala de observação para que ela fosse verificada pelo médico de plantão. Ele queria informações sobre o pai para poder falar alguma coisa para ela, pois Derek percebeu que ele deveria estar oferecendo mais suporte, mas naquele momento até ele estava um pouco mudo.
Ser pai colocava as coisas em perspectiva.
O médico conseguiu tirar mais umas palavras da menina, mas nada muito promissor. Pelo menos ela estava bem, assim como seu irmão. Os dois apenas teriam que encontrar roupas novas para se trocarem.
Derek conseguiu sair do lado da menina apenas quando ela se juntou ao irmão, mas ainda assim, os dois sentava enrolados no sofá da recepção, apenas esperando notícias do pai, que ainda estava sendo analisado.
Ele tirou um momento para ver se conseguiria roupas secas para si e se poderia ligar para Stiles e saber como ele estava. O emocional de Derek estava abalado, mas ainda assim ele sentia que havia algo na ligação entre Stiles e ele. Não que fosse algum desastre, ou coisa parecida, mas Derek queria ligar para Stiles para saber se ele estava bem.
Quando Parrish apareceu, Derek pediu se ele estava com o telefone de Derek, mas o homem disse que não. No entanto, ele falou que o Xerife estava chamando por Derek.
“Eu quero que você se acalme, pois todo mundo está bem, ouviu?” Parrish disse. Aquelas palavras só tiveram o efeito contrário.
“O que aconteceu?” O coração de Derek começou a bater mais forte.
“Houve uma explosão na Coração de Lobo. Por sorte, Stiles não estava lá no momento e só houve um pouco de dano a fachada da loja, nada demais. Alguns livros a serem jogados fora, porta pra consertar e tinta nova na parede.”
Parrish explicava alguma coisa, mas Derek nem conseguia ouvir direito. Ele só entendia a parte da explosão e dali pra frente sua mente entrava em curto. Ele nem ouviu o discurso de seu colega até o fim e começou a caminhar para a saída. Parrish o pegou pelo braço.
“Eu levo você até lá, você não tá em condições de dirigir coisa alguma. Sem falar que nós precisamos achar roupas novas pra você antes que você pegue um resfriado de lobisomem, ou coisa parecida.”
A piada ficou sem graça aos ouvidos de Derek, mas pelo menos Parrish o levou rapidamente para a Coração de Lobo.
Derek não pode conter as lágrimas quando viu o estrago. Poderia ter sido algo apenas estrutural, mas a frente da loja estava detonada. Vidro quebrado, marcas de chamas. Se Stiles estivesse perto ele certamente teria se machucado, ou coisa pior. Derek ainda não conseguia ver ele, e sua mão já estava na porta para abrir.
Ainda bem que Parrish era esperto e parou o carro antes de Derek pular pela janela.
O Alfa correu para a frente da loja, vendo o carro do Xerife já por lá. Os olhos de Derek não o achavam, mas pelo menos seus ouvidos conseguiam escutar a voz de seu ômega. Stiles estava dentro do carro do Xerife enrolado em um cobertor. Ele tinha uma xícara térmica em suas mãos e estava conversando com o policial Garcia dentro do carro.
Assim que ele viu Derek, Stiles abriu a porta. Os dois se encontraram num abraço.
Naquele momento nada importava, porque Stiles estava ali e o bebê também. Os dois estavam á salvo e era o mais importante. Derek podia sentir o cheiro da preocupação de Stiles começando a desaparecer, ao mesmo tempo em que seu corpo também se livrava dela.
“Meu amor, você está bem?” Derek pediu.
“Sim, sim. Nada aconteceu comigo.”
Derek se separou de Stiles e pegou seu rosto entre as duas mãos. “Mas poderia ter acontecido. Eu…” Derek ficou sem palavras.
“Derek, isso foi mais uma daquelas brincadeira de adolescente, ou coisa parecida. Eles não tinham a intenção de me machucar, acredito eu.” As palavras de Stiles eram só para convencer Derek, porque nem o ômega parecia acreditar muito nelas.
“Isso não importa. Mas nós vamos blindar todas as janelas. Vamos proteger a nossa casa, nossa casa que apenas foi reformada,” Derek suspirou.
Dessa vez Stiles colocou suas mãos no rosto de Derek.
“Meu amor, estamos à salvo, tudo está bem. Agora é reconstruir de novo e deu. Não tem porque pensar no que poderia acontecer.” Dessa vez a voz de Stiles tinha mais certeza, mas ainda assim, a desconfiança era grande.
Talvez eles conseguissem se proteger do mundo, mas certamente eles não iriam conseguir mudá-lo assim tão cedo. E era aquilo que Derek mais temia.
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