Coração de lobo
7 A presença de um lobo
Notas iniciais
Stiles acordou no domingo de manhã com a memória pregando truques nele. Não que ele não estivesse se lembrando exatamente do que havia acontecido na noite passada, mas parecia que agora tudo não tinha se passado de um sonho, ou algo que ele não conseguia lembrar se era verdade ou mentira.
Claro era só ele olhar para o chão, vendo a camiseta dele que estava ao lado de sua cama para as memórias da noite passada voltarem a ele. Stiles conseguia ver em sua mente o jeito como ele se tocou em sua cama, pensando em Derek que estava no outro quarto. Como ele quase desejou que o garoto estivesse ali com ele, com um desejo que ele nem sabia que poderia sentir.
Foi tudo novo. Stiles sabia que um dia ele começaria a sentir esses tipos de desejos, mas era como se a presença de Derek na casa dele trouxesse tudo para frente, fez todos aqueles desejos aparecer bem na fronte de sua mente. E Stiles não sabia o que fazer para lidar com eles. Enquanto ele se tocava, imagens de Derek apareceram em sua mente, mas agora ele não conseguia pensar no garoto daquele jeito.
Ao levantar da cama, Stiles achou estranho que ele tenha conseguido jogar a sua camiseta naquela direção durante a noite, mas ele não conseguia nem pensar direito enquanto se tocava, então Stiles não tinha nem como achar tudo aquilo estranho.
Mas então ele foi colocar outra camiseta para procurar por Derek, e apenas achou um quarto vazio. A cama onde Derek havia dormido na noite passada estava arrumada, e a presença dele não poderia ser notada ali. Era como se ele tivesse desaparecido por completo, apenas restando a sensação de que ele havia estado ali.
Stiles pensou em se jogar na cama, ou chegar perto dela para tentar sentir o cheiro de Derek, mas ele não queria imaginar que os seus pensamentos sexuais que estavam começando a aparecer iriam tomar conta dele daquele jeito. Era uma coisa boa que Derek estava em outro quarto na noite passada e que ele não poderia sentir o cheiro e nem ouvir Stiles.
Mas foi aí que Stiles se lembrou do que o pai dele havia dito sobre os Hale. Todos eram lobisomens. E então era certo que Derek havia ouvido o que Stiles fez na noite passada, a não que ele tivesse dormido antes de Stiles começar. E Stiles apenas poderia rezar para aquela ser a verdade, porque ele não sabia se conseguiria olhar na cara e Derek depois daquilo.
E o garoto não estando ali pela manhã talvez fosse um sinal de que ele não tinha gostado do que Stiles fez.
Stiles desceu as escadas para a sala, procurando por Derek. Não havia ninguém por lá, apenas um bilhete na mesa da cozinha, dizendo que Derek tinha que ir para casa, mas que qualquer coisa era só o Stiles chamar. E era óbvio que ele não iria dizer nada. Stiles só poderia pedir aos céus para Derek não contar para ninguém o que havia acontecido.
Isso que na verdade Stiles duvidava que Derek poderia ter visto alguma coisa, mas ele estava mortificado em imaginar que o garoto havia deixado a casa de Stiles por causa da noite passada.
Não havia nada que ele pudesse fazer agora, no entanto.
O domingo quase não queria passar, mas pelo menos Stiles conseguiu se distrair. Quando o pai voltou para casa, pedindo sobre a noite passada, Stiles quase ficou com vergonha, mas na verdade não tinha nada de errado no que ele fez. Especialmente o pai dele já tinha tido a conversa sobre sexo com ele, com direito a lições sobre masturbação também — o que foi uma das coisa mais estranhas que Stiles tinha passado em sua vida.
Mas talvez não tão estranha quanto a vergonha que ele sentia ao lembrar da possibilidade de Derek não querer mais olhar para ele por causa do que havia acontecido na noite passada. Claro, Stiles não tinha como fazer nada, afinal a cabeça era de Derek e ele poderia pensar no que quisesse.
E Stiles também não conseguia se controlar com os pensamentos que ele tinha sobre Derek, tanto que na noite de domingo ele se tocou outra vez em sua cama, pensando em Derek. Ele não conseguia nem tirar os olhos da janela, tentando imaginar que o garoto estaria olhando para Stiles de sua casa, o que ele não poderia saber porque na verdade ninguém estava olhando pelas janelas.
Mas Stiles queria imaginar.
A única coisa boa de tudo aquilo era que Stiles era o responsável por lavar as roupas, por isso ele não tinha que explicar para seu pai porque ele tinha duas camisetas jogadas em uma bola no quarto dele na segunda de manhã.
Ir para a aula trouxe um pouco de normalidade para a vida de Stiles, pelo menos. Ele seguiu com seus estudos e tentou seguir em frente depois do acontecido do final de semana. De uma forma inesperada, no entanto, se na semana passada ele não tinha conseguido ver o Derek da cerca da escola, agora, toda vez que Stiles olhava para o outro lado da cerca, ele sempre via Derek. E Derek parecia ver ele também, porque ele sempre parecia ter seus olhos virados par Stiles.
Mas ele não se reconheciam. Os olhares eram de lado, como se eles estivessem disfarçando. E Stiles não queria pensar muito naquilo.
Pelo menos logo na segunda-feira as atividades dos clubes voltavam ao normal, por isso ele poderia se distrair com mais coisas.
Logo depois da aula dele, Stiles se dirigiu para o seu clube favorito, o clube de desenho. Lá os alunos mais novos da escola se reuniam para fazer oficinas especiais de arte relacionadas a desenho, e Stiles podia até aprender a desenhar todas as coisas que queria. Ainda assim, a mente dele volta e meia retornava a pensamentos das noites anteriores.
E parecia tudo mais difícil porque naquele dia eles iriam começar um estudo do corpo humano, e Stiles tinha que aprender a desenhar as partes de qualquer corpo, só que ele conseguia pensar apenas em um. Mesmo que ele nem tivesse visto Derek nu, as imagens aparecendo no papel eram exatamente o que ele imaginava ser o garoto.
A professora que comandava eles no clube ficou bem satisfeita com o primeiro esboço que Stiles fez sobre o torso masculino, mas mal ela sabia que ele estava tirando tudo aquilo da sua mente. Por um momento ele até pensou que parecia estranho uns alunos assim novos estarem estudando o corpo humano, mas na sociedade em que eles viviam não era incomum as crianças já terem a sexualidade aflorada, pelo menos em alguma forma.
Eles não se relacionavam com pessoas muito mais velhas, ou não se relacionavam de forma alguma, mas todos já tinham ideia do que se tratava a reprodução e como ela acontecia. Stiles provavelmente não era nem o único da turma a começar a sentir a evolução de seu corpo, porque na turma dele havia vários Alfas e ômegas juntos, e isso só fazia com que os genes de cada um começassem a aflorar.
Pelo menos Stiles não pensava em nenhum de seus colegas do mesmo jeito que ele pensava em Derek — e ele também estava feliz que não tinha nenhum lobisomem em sua turma, pois nenhum deles poderia sentir o cheiro da excitação de Stiles.
Mas de uma certa forma, desenhando Derek naquele primeiro dia do clube ajudou Stiles a superar um pouco as imagens dentro de sua cabeça. Não que isso fizesse com que ele parasse de pensar nelas.
Ao final do dia, quando as horas de escola dele terminaram, Stiles pegou suas coisas e partiu para a trilha para caminhar para casa. Ele estava atento para saber se naquele dia ele iria sentir a mesma presença que havia sentido na semana passada, e ele não estava errado.
Enquanto ele ia caminhando para casa, indo pelo meio da floresta, Stiles sentia os pelos da sua nuca se eriçando, como se houvesse uma presença o seguindo. Ele tentou não entrar em pânico, pois sabia que qualquer animal que poderia estar o seguindo iria sentir aquilo, mas não adiantava muito. Chegou em um momento do caminho que Stiles começou até a tremer, provavelmente com todo o stress de sua descoberta sexual e mais o medo de alguém estar o seguindo, que ele começou a sentir falta de ar.
E a sua garganta fechou, os olhos começaram a perder a cor na visão, e Stiles sentiu o mundo se fechando em volta dele. Tudo começava a ficar escuro e apertado, e Stiles não sabia o que fazer, achando até que iria morrer por um instante.
Porém, num passe de mágica, Stiles sentiu uma presença em volta dele. Uma energia boa fazendo o mundo vibrar ao seu redor. Era como se Stiles estivesse abraçado por um urso de pelúcia, fazendo ele relaxar. Os olhos de Stiles estavam fechados, e ele demorou uns instantes para começar a sentir o seu corpo de volta, apenas para perceber que ele estava deitado no chão da floresta.
Sua cabeça estava em cima de algo fofo.
O cheiro parecia o de um animal, mas não era um cheiro ruim. Pelo contrário, aquele aroma parecia acalmar ele ainda mais, e Stiles não conseguia se controlar, tendo que virar sua cabeça para enterrar o nariz nos pelos daquele animal. Ele só esperava que o bicho não estivesse ali esperando para comer ele quando Stiles se descuidasse.
Demorou ainda alguns momentos para ele recobrar sua consciência em completo, e quando ele finalmente abriu os olhos, Stiles se deparou com orbes azuis olhando para ele. Aqueles olhos eram calmos, mas hipnotizadores. Stiles não pode nem controlar a própria mão, que flutuou lentamente para a cabeça do animal olhando de volta para Stiles.
Um lobo.
Por um segundo um arrepio percorreu sua espinha, mas quando o animal encostou sua cabeça enorme contra a mão de Stiles ele sentiu o mundo parar, apenas para começar a girar de novo. O lobo era todo preto, a única coisa que realmente chamava a atenção eram os seus olhos azuis. E também a língua vermelha, que saía de sua boca enquanto ele respirava ofegante.
Um sorriso se pintou nos lábios de Stiles.
“Obrigado por me ajudar,” ele disse. Por um momento o lobo apenas virou sua cabeça para o lado, como se quisesse dizer alguma coisa, mas logo depois ele abriu de novo sua boca, como se estivesse sorrindo.
Stiles teve que sorrir ainda mais para ele.
“É você que me segue enquanto eu caminho por aqui?”
Obviamente o lobo não poderia falar, mas Stiles jurou que ele assentiu com sua cabeça.
“E você não é um lobo mau, é?”Stiles perguntou, quase se sentindo como a própria chapeuzinho vermelho.
O lobo soltou uma risada de ar pelo seu nariz.
Stiles ouviu sua própria gargalhada soando pelo ar. Quando ele se acalmou, voltando a fazer carinho na cabeça do lobo, Stiles se preparou para levantar. O lobo o ajudou, oferecendo suporte. Stiles teve que olhar em volta para ver onde ele estava, e então ele continuou seu caminho para casa. O lobo ia seguindo ele com calma, indo uns passos atrás de Stiles.
A presença dele era boa. Stiles não poderia negar que se sentia protegido com aquele animal assim tão perto, ao contrário do medo que poderia sentir se aquele bicho estivesse querendo comer um pedaço dele.
Quando os dois chegaram ao final da trilha, Stiles se virou para ver par aonde o lobo iria.
O animal apenas ficou parado, mexendo sua cabeça assim como se quisesse dizer para Stiles seguir em frente.
“Você vai ficar aqui pela floresta?” Pediu Stiles.
O lobo assentiu uma vez.
Stiles olhou para ele por um instante.
“Eu vou te ver ainda?”
O lobo assentiu de novo. Algo no coração de Stiles começou a se aquecer, e ele não conseguia entende o que era. Mas era bom. O sentimento era muito bom.
Ao invés de sair da trilha, Stiles caminhou na direção do lobo e se agachou em sua frente. O lobo não se moveu do lugar.
“Obrigado por sua ajuda,” disse Stiles, logo antes de colocar seus braços em volta do animal e o abraçar contra seu peito.
Quando o abraço acabou, o lobo deu uns passos para trás, logo antes de sair correndo pela floresta e desaparecer.
Stiles já sentia saudades dele.
Fale com o autor