Coração Gelado 2
3 Tensão em Volterra
Renata entrou em seu quarto e trancou a porta por dentro, encostando a testa na madeira grossa e permitindo-se finalmente entrar em desespero. Droga, ela nem sabia como tinha conseguido sair do grande salão tão serenamente ou caminhado no meio de todos os integrantes da Guarda como se não tivesse nada a temer… Ela tinha tudo a temer!
Desde a afronta de Maximilian e a partida dos gêmeos, as coisas ficaram tensas em Volterra. Primeiro predominou o choque, devido à "traição" de Jane e ao ataque de Alec, que deixaram todos perplexos demais para pensarem em segui-los logo que deixaram o castelo. O clima tornou-se ainda mais sombrio quando Demetri tentou organizar uma busca pelos foragidos, sendo veementemente barrado por Aro, que tentava não demonstrar fraqueza diante das palavras proferidas por Jane, mas que secretamente ainda era assombrado por elas.
Renata não sabia dizer o que estava sentindo naquele momento. Ela podia ver o temor nos olhos e no comportamento de seu mestre, e podia ver alguns vampiros de menor escalão se agitando com o fato dos gêmeos ainda estarem vivos, como se isso representasse um enfraquecimento de seus líderes e, consequentemente, de seu clã. A vampira também percebia o quanto ela própria estava sendo afetada por todo aquele clima ruim, principalmente pelos acontecimentos que vieram depois...
Após refletir sobre a traição de sua serva favorita, o medo de Aro transformou-se em total desconfiança com todos os que o rodeavam. Havia traidores ou resquícios de “amor” em mais alguém? Havia pensamentos de revolta ou de fuga? Um imenso furor o tomou por sentir-se traído e desonrado, como se o fato de ter subestimado o sentimento de Maximilian e não ter enxergado as mudanças em Jane o ofendessem intimamente. E, de uma hora para a outra, o líder Volturi mudou.
Começando por sua Guarda ofensiva, Aro vasculhou cada pensamento, plano, desejo e memória de todos os seus subordinados. Não importava o tempo empenhado na tarefa ou que tipos de segredos ficariam expostos, o que importava para o Volturi era o saber, era o conhecimento dos pensamentos mais íntimos de cada vampiro, da firmeza de suas lealdades e do que faziam quando os olhos dos mestres não estavam presentes.
Aro havia criado o clã mais poderoso do mundo, juntado verdadeiros tesouros dentro de sua Guarda, e não aceitava mais o fato de não estar inteiramente no controle de cada um deles. Nada mais seria ignorado ou deixado de lado, porque, no fim das contas, era aquilo que realmente importava para ele: o domínio, o controle, o poder.
Até aquele momento, nenhum vampiro tinha sido punido com a morte, apesar do líder Volturi encontrar uma ou outra ilegalidade nos atos de alguns. O receio de perder os dons que tanto demorou encontrar estava sempre presente na mente de Aro, no entanto, nem mesmo isso seria capaz de pará-lo. Ele estava disposto a colocar um fim na existência de qualquer vampiro que não pudesse ser contido ou controlado, que pudesse se voltar contra o clã ou arrastar outros com ele, para que servisse de lição aos demais.
E depois da Guarda ofensiva, foi pedido que a parte defensiva do clã se colocasse a postos. Todos estavam na sala dos três tronos quando as memórias de Afton terminaram de serem supervisionadas, e os pares de olhos vermelhos acompanharam com expectativa o retorno de Aro até o seu trono, pois era naquele instante que ele anunciava o próximo imortal a ser investigado.
O vampiro se aconchegou em seu trono pacientemente, sentindo-se aliviado por não encontrar nada suspeito ou fora do normal em mais um de seus membros. Demetri jazia à direita dos mestres, no mesmo local em que os gêmeos costumavam ficar, sendo promovido a líder da Guarda no lugar de Jane; e atrás do trono de Aro estava Renata, o seu principal escudo numa batalha, que deveria permanecer sempre por perto, solícita a protegê-lo.
Com o manto negro cobrindo-lhe a maior parte do corpo e o brasão do clã brilhando sobre ele, a vampira mantinha a postura ereta e as mãos nas costas como se nada do que estivesse acontecendo no castelo a abalasse, como se não tivesse nada a esconder.
— Renata! – Chama Aro casualmente, com a voz aveludada de quem escondia as presas cheias de veneno. Todos os olhos se voltaram para ela quando avançou dois passos, colocando-se ao lado do trono do mestre para que ele pudesse vê-la.
— Sim, mestre? – Questiona com um aceno de cabeça, apertando as mãos tão forte atrás de seu corpo que, se ainda fosse humana, elas certamente ficariam doloridas.
— Prepare-se para a sua entrevista – alerta, olhando-a nos olhos como se a palavra "entrevista" fosse o suficiente para apagar a invasão de privacidade, o temor e a manipulação que ele tentava impor sobre todos eles. – Cessarei por hora, mas após o banquete será a sua vez!
Aro sorriu sutilmente, buscando, junto a todos os outros vampiros presentes, algum sinal de hesitação ou de medo em seu semblante.
— Sim, mestre – responde somente, esboçando um sorriso submisso e meneando novamente a cabeça.
Naquele instante, Renata percebeu que havia feito a coisa certa, pois todos os vampiros retiraram a atenção de seu rosto simultaneamente. E quando Aro os dispensou, a escudeira utilizou toda a sua força de vontade para esperar dois ou três companheiros saírem antes de si, para não parecer desesperada ou apressada demais em se esconder…
E ali estava ela agora, com o terror estampado em seu rosto e a lembrança da voz de Alec zumbindo em sua mente: “se eu fugir primeiro, você pode vir em seguida que eu a protegerei”. Se a vampira não estivesse com os instintos de sobrevivência tão alertas, poderia até achar graça no fato de tê-lo como um porto seguro, como a única ajuda viável, quando noutros tempos ela não hesitaria em fugir dele. Todavia, não era este o caso e ela não conseguia sequer sorrir diante da lembrança que tivera.
— Merda! – Pragueja entre os dentes, desencostando-se da porta e retirando apressadamente o manto negro e o brasão Volturi, ao mesmo tempo em que cogitava se havia algo importante dentro de seu quarto que merecesse ser levado consigo. O banquete aconteceria no período da manhã, logo no primeiro turno de visita turística ao castelo, restando-lhe poucas horas de escuridão para desaparecer daquela construção sombria. Ela não poderia permanecer ali por mais nenhum minuto.
Renata tinha uma lista tão grande de irregularidades que a Guarda Volturi poderia facilmente fazer um buquê com elas e depositar em sua lápide depois que fosse executada – porque, certamente, era o que aconteceria –, isso se o clã a concedesse o luxo de ter uma sepultura, mesmo que simbólica. Ninguém ali era realmente importante para os mestres, apenas os seus poderes eram, e a escudeira de Aro não cairia na ilusão de que seus anos de serviço a protegeriam da morte.
Olhando para seus objetos e decoração, a vampira lamentou ter de deixar todos os livros para trás, assim como os seus vestidos favoritos. Se ela tivesse de fugir, teria que ser rápida e prática, sem levar pesos desnecessários para não perder velocidade, para estar o mais longe possível quando enfim notassem sua ausência.
— A carta – lembra-se de repente, levantando o colchão e apanhando o envelope branco escondido ali, a única coisa realmente útil e que ela não poderia abandonar, porque tudo naquela carta gritava o nome de Alec.
De um lado do envelope estava escrito o seu nome e o endereço do castelo de Volterra, porém o remetente estava incompleto, contendo apenas um endereço de Malta, sua terra natal. A carta chegara alguns dias depois da partida dos gêmeos e somente Heidi sabia de sua existência. Entretanto, por julgar que o remetente fosse Lucca, o líder do clã maltês e tio-avô de Renata, a vampira ignorou o envelope e permitiu que ela o levasse sem mais perguntas.
À primeira vista, tudo indicava que a carta vinha mesmo de Malta, sendo estrategicamente entregue pelo serviço de correio humano para que, ao passar de mão em mão, o cheiro do remetente fosse apagado completamente. Porém, ao analisar o envelope mais de perto, Renata percebeu que o selo codificado para a Itália estava sobrepondo um outro conjunto de selos, e que estes eram originários da Inglaterra e não de Malta.
Dentro da carta havia apenas um cartão branco, com o desenho de uma caixa de presente, o código "51.250953, -0.308219" e a frase em maltês "ejja jmiss!", que significa "venha em seguida!". Tão claro quanto a luz do Sol, Renata percebeu que aquela correspondência era de Alec, porque ele era a única pessoa que a estava esperando do lado de fora daquelas paredes.
Uma intensa euforia a tomou, fazendo-a gastar longas horas de reflexão para entender completamente o recado que ele enviara, porque, mesmo com seus muitos anos de existência, nunca tinha visto um código como aquele.
A lembrança do computador no escritório de Heidi lhe veio à mente, dando-lhe a ferramenta perfeita para desvendar aquele mistério. Depois de memorizar o código e esconder a carta em um local seguro, a vampira se esgueirou pelos corredores até a única sala dentro do castelo que possuía um computador.
Mesmo que o mundo exterior tivesse avançado na descoberta e no uso da tecnologia, quase não havia computadores ou celulares na sede do clã Volturi, pois os três mestres simplesmente não queriam seus subordinados tendo um contato permanente com a humanidade ou criando laços fora dali.
Heidi era a única Volturi que mantinha acesso frequente à tecnologia, devido aos trabalhos administrativos do castelo. No entanto, por ser bastante leal aos líderes, ela nunca fez nada que pudesse ser considerado errado ou traidor, sendo sempre o cãozinho obediente que sabia fazer truques bonitinhos com o computador.
Quanto aos demais vampiros do clã, poucos eram os que tinham acesso àquela sala, e a escudeira não fazia parte deste grupo tão seleto.
Renata invadiu o escritório da vampira assim que encontrou oportunidade, tentando se lembrar qual daqueles minúsculos desenhos abriria o navegador de internet. Fazia tanto tempo que ela não olhava para a tela de um computador que sequer sabia que sistema era aquele… Onde estava o Windows 95? E a letra "E" azul de navegar na internet?
A vampira testou vários ícones até encontrar o acesso correto através de um disco colorido, abrindo vários programas estranhos no processo e torcendo para que Heidi não descobrisse sua invasão. Toda aquela falta de habilidade com a informática estava começando a fazê-la se sentir burra. Entretanto, ela encontrou algo que sabia para que servia: a barra de pesquisa. Foi então que Renata digitou a sequência escrita por Alec, descobrindo que o código na verdade era uma coordenada do Google Maps.
Com um "click" ela abriu o link que lhe pareceu ser o certo e seus olhos vermelhos se arregalaram diante do destino apontado no mapa. A carta havia dado duas pistas e a vampira não usou mais do que segundos para notar que o desenho da caixa era o local onde deveria ir naquela exata coordenada. E quando sua mente processou todas as informações, quando ela entendeu que Box Hill era a resposta à localização de Alec, Renata sentiu uma intensa satisfação invadir o seu peito.
Seja lá como conseguiu fazer aquela carta chegar até suas mãos sem levantar suspeitas, a vampira ficou admirada com a perspicácia dele, e orgulhosa de si mesma por desvendar um enigma tão importante.
Alec mandou-lhe uma pista para mostrar que honraria com sua palavra, para indicar-lhe o caminho, e isso foi o bastante para fazê-la enrolar a carta em um tubinho e enfiar sob o decote de seu vestido, no lugar que achou mais apropriado para não se perder durante a fuga.
— Nem um segundo a mais! – Sentencia por fim, sacudindo a cabeça levemente para se livrar de suas lembranças e concentrar-se no presente.
Ela correu os olhos pelo quarto uma última vez, decidida a deixar todas as coisas de que gostava para trás, pois as experiências que viveria do lado de fora daquele castelo, das paredes que sufocam e matam tudo o que é bom, seriam muito melhores do que meras ficções românticas. Ela partiria do clã para nunca mais voltar e, em seguida, buscaria aquilo que tanto ansiava conhecer.
Renata caminhou até a porta e destravou o ferrolho lentamente, atenta ao corredor para se certificar de que não havia ninguém passando por ali. Ela tentou traçar um plano rápido de fuga, mas sua mente caótica não conseguia formular mais do que: "saia pela passagem secreta e corra!". Ser uma integrante da Guarda defensiva a privou de quase todas as missões em campo, e, como resultado, a escudeira não sabia fazer nada além de usar o seu dom e andar furtivamente pelo castelo.
Ela abriu a porta silenciosamente e se lançou no corredor vazio, fechando-a novamente antes de percorrer o trajeto até a passagem secreta com o máximo de discrição que seus instintos de sobrevivência lhe permitiam ter. Seus olhos e ouvidos estavam mais alertas do que de costume, seus músculos permaneciam tensos desde que Aro citou o seu nome no grande salão, e seu dom se expandia e retraía de sua pele como se tivesse vida própria, tentando protegê-la daquilo que a estava amedrontando. Qualquer ruído mais alto do que o caminhar de um roedor era suficiente para fazê-la parar e se ocultar nas sombras. O alívio foi grande quando finalmente alcançou a porta com dobradiças enferrujadas e entrou no porão.
Renata moveu o velho barril de sua posição e engatinhou pela pequena passagem escondida na parede, desembocando no minúsculo cômodo que não continha nada além de uma janela, num ponto bem alto da parede. Sem pensar muito, ela escalou os sulcos no paredão de pedra em direção à saída, sabendo exatamente onde colocar os pés e as mãos, devido às inúmeras vezes em que percorreu aquele caminho. E quando os saltos baixos de sua bota feminina alcançaram o chão do lado de fora, fazendo a saia de seu vestido se tornar um caos de tecidos de renda e cetim, a vampira sentiu todas as partes expostas de seus braços se arrepiarem.
Pela primeira vez em séculos ela tomava um caminho que escolhera para si. Pela primeira vez agia segundo a sua própria consciência, saindo furtivamente do castelo com a real intenção de fugir, uma decisão imperdoável e que acabava de se tornar irrevogável.
"Corra!" gritou algo no fundo de sua mente, e suas pernas obedeceram prontamente, fazendo-a avançar pelas ruas de Volterra em direção ao noroeste, rumo à Inglaterra e a Alec.
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