Coração Gelado 2
6 Falésias de Dover
Alec sente os cabelos balançarem com a força do vento. A vista do penhasco era bastante interessante, sendo possível avistar a costa da França na outra margem do Canal da Mancha. O céu estava limpo naquela madrugada, e a lua refletia majestosamente sobre as águas do canal.
Seus olhos se voltam para a direita e depois para a esquerda. O penhasco de Dover era muito extenso e com poucos locais para se esconder. Se não fosse pelo manto noturno e a hora já avançada, o trio não conseguiria ficar ali por muito tempo.
— Caramba – sussurra Maximilian, seguindo até a borda do penhasco para apreciar a paisagem –, isso é tão...
— Bonito – completam os gêmeos em uníssono, igualmente surpreendidos com a paisagem noturna, algo que nunca se deram ao luxo de reparar até aquele momento.
Alec vislumbrava a luz refletida no mar com atenção, não se contentando em apenas apreciar, mas também em guardar cada pedacinho daquela bela vista na memória, como uma agradável lembrança, algo que seus poderes não pudessem danificar ou apagar. Ele olha para o céu em seguida, escuro e decorado por estrelas, e depois para a irmã, que apreciava a vista com o semblante sereno de quem estava no lugar certo e na hora certa.
"Se você deseja encontrar o amor, recomendo que deixe o clã o quanto antes e fuja para o mais longe que puder. Esse castelo é amaldiçoado, nada floresce aqui", essas foram as palavras de Renata na primeira vez em que falaram sobre o amor, no dia em que eles descobriram o interesse um do outro em conhecer tal sentimento. Agora Alec estava do lado de fora, estava longe das paredes amaldiçoadas.
Os questionamentos a respeito de sua capacidade de obter igual resultado de Jane ainda persistiam, obrigando-o a examinar o céu mais uma vez, enquanto pensava na única capaz de ajudá-lo a compreender o que era o amor. Alec podia ouvir o mar se quebrando na parte mais baixa do penhasco e ver com riqueza de detalhes as ondulações calmas do oceano sob a luz do luar, formando o tipo de paisagem que Renata certamente apreciaria.
— Podemos ficar aqui por mais um dia? – pergunta subitamente, quebrando o silêncio e atraindo a atenção de Jane para si.
— Parte do seu plano, eu presumo... – Ele confirma com a cabeça. – Não me importo de ficar um pouco mais – concorda Jane pacificamente, voltando a observar a vista. – Temos todo o tempo do mundo em nossas mãos e Fan Bay Deep Shelter será um ótimo refúgio, pelo menos por hoje.
— Sabe, Alec, estive pensando numa coisa – começa Maximilian, enquanto retirava os sapatos lentamente. – Se Renata perder alguma pista, todo o seu trabalho será infrutífero. Nós podemos voltar para Box Hill sempre que visitarmos um lugar diferente. Assim, o seu rastro permanecerá fresco e, mesmo que as pistas mudem, não esfriarão...
— É uma ótima ideia! – concorda Jane, fazendo Alec dar um leve sorriso. Como ele confessaria que não existia promessa alguma? Como explicar que sua escolha em esperá-la não tinha fundamento? Ele sequer sabia explicar porque estava fazendo tudo aquilo, porque se agarrava à ideia de sua vinda tão fortemente.
— Sim, podemos fazer isso.
Jane se aproxima de seu corpo lentamente, segurando sua mão esquerda com certa força e revelando em sua mensagem silenciosa que ele podia ser um ótimo mentiroso, mas que não conseguiria enganá-la. Suas sintonias eram boas demais para que qualquer um deles fosse passado para trás.
— Então por quê? – questiona, querendo saber por que a irmã não o tinha parado, se sabia de sua mentira.
— Porque é algo que você quer fazer. Cabe a você dizer quando será a hora de parar. Eu decidi que não serei mais o seu freio...
— Não tem medo de que eu faça algo estúpido e acabe morrendo?
— É claro que não, você não é Maximilian!
— Ei, isso foi ofensivo! – retruca o camaleão, fazendo os gêmeos rirem ao mesmo tempo e finalmente repararem nele.
— Por que está tirando a roupa? – questiona Alec, estreitando os olhos enquanto Maximilian retirava a camisa e a colocava no chão, junto aos sapatos e ao casaco, ficando apenas de calças.
Jane ergue uma sobrancelha, bastante interessada na visão que estava tendo, fazendo o camaleão esboçar um sorriso travesso e passar uma das mãos pelos cabelos sedutoramente. Alec revira os olhos.
— Se vamos ficar aqui por mais um dia, eu vou nadar – explica, tomando distância do penhasco com a nítida intenção de pular.
— Pretende pular daqui até o mar?
— Olhe e aprenda, pequeno Alec. Olhe e aprenda! – desafia, correndo velozmente até a beirada do penhasco e efetuando um enorme salto em direção ao vazio. Os gêmeos correm para a beirada ao mesmo tempo, ouvindo o camaleão gritar empolgado enquanto caía em direção à água e bem longe do paredão.
Devido à altura, mal puderam ouvir o som do corpo chocando-se contra a água. E se não fossem por suas visões aguçadas, não o veriam submergir e sacudir os braços freneticamente, como se os chamasse. Jane solta uma risada nasalada. Seu companheiro realmente não tinha o perfil do clã Volturi, era um nômade ingênuo, mas que sabia aproveitar sua segunda vida.
— Ele é o próprio mau caminho – conclui em pensamento, enquanto repetia os movimentos do camaleão e retirava os sapatos e o casaco, permanecendo apenas com sua camiseta de baixo e a calça. Ela solta os cabelos em seu gesto de rebeldia final e corre para a beirada, usando todas as suas forças para saltar longe, na parte mais funda do oceano.
— Fala sério! – resmunga Alec, ajoelhando-se na borda da falésia para observar o instante em que sua gêmea atingiu a água.
Os vampiros eram apenas vultos no oceano daquela distância, iluminados calidamente pela luz da lua enquanto nadavam até se encontrarem. Alec os observou com admiração e um toque de ciúmes, sentando na beira da falésia, os assistindo de longe e deixando os pés balançarem no vazio. E após longos minutos, o vampiro os viu nadar em direção ao paredão e começar a escalá-lo.
Aquilo parecia divertido.
— Seria muito tarde para me unir a eles? – pensou. No entanto, não moveu um músculo sequer, hesitando. Ele precisava esperar, precisava permanecer onde pudesse ser visto, aquilo era o mais importante no momento. Alec suspirou, sentindo-se deslocado.
— Por que não pulou? – perguntou Maximilian quando chegou ao topo, sacudindo a cabeça como um cachorro para espirrar água em Jane, como se ela já não estivesse molhada o suficiente. Ela soltou uma risada nasalada, empurrando-o com o ombro. – Devia ter se juntado a nós, foi divertido!
— Acho que só fiquei preso nessa paisagem – inventou, dando de ombros.
— Vamos procurar nosso esconderijo – sugeriu Jane, enquanto Maximilian recolhia os pertences de ambos.
— Tudo bem! – concordou, seguindo-os para o complexo de cavernas de Fan Bay Deep Shelter depois de apanharem todas as coisas do chão.
O ponto turístico escolhido como refúgio só podia ser acessado com a presença de um guia e não abria todos os dias, proporcionando aos vampiros o esconderijo perfeito para o dia que começaria em breve. Alec avaliou os túneis superficialmente, como se estudasse o ambiente, apesar de sua mente estar completamente longe. Estava inquieto, não era bom com improvisos e temia que seu plano para atrair a atenção de Renata não tivesse dado certo desde o começo.
E se a carta fosse descoberta? E se Heidi suspeitasse de algo? E se as intenções da vampira fossem descobertas? Ela não era como ele, afinal. Se algo desse errado, a escudeira encontraria a morte final mais cedo do que o esperado. Um calafrio percorreu a espinha de Alec ao imaginar esse desfecho. Seu objetivo de encontrar o amor seria ainda mais difícil sem as orientações dela; Renata precisava viver.
Minutos depois, contrário ao convite de Jane, Alec preferiu vagar sozinho a seguir o casal para uma boa caçada. Precisava se manter no local de sua última pista para ser facilmente encontrado. Ficar à vista era como uma necessidade recém-descoberta, uma coceira que não podia ser ignorada, apenas coçada. Ele precisava continuar com o plano, estava focado.
Sem se importar com suas reservas de sangue, ele percorreu toda a extensão das falésias em alta velocidade, margeando-as em busca de algum sinal de Renata. Entretanto, o tão esperado encontro não ocorreu naquela noite.
A luz do dia logo se fez presente entre mortais e imortais, despertando toda a nação inglesa para um dia que, segundo a previsão do tempo, seria de chuva. Durante todo aquele dia, na escuridão de seu esconderijo, ele esperou, sempre em silêncio e com os olhos fechados, como se dormisse, apesar de seu interior estar um caos.
O dia passou sem grandes novidades e logo o céu escureceu, elevando o alerta na mente de cada um deles sobre o prazo final de suas permanências naquele território. Seu tempo estava acabando e Alec sentia uma mistura de frustração e desapontamento em seu interior, que às vezes se espalhava por seu corpo e mudava suas expressões contra a sua vontade.
Aquela experiência era nova para ele, a de bater contra o muro da realidade e perceber que não poderia atravessá-lo, porque ela era impenetrável e não se dobrava às vontades de ninguém. O gêmeo já havia tido suas expectativas frustradas antes, como quando os Volturi foram avaliar o caso de Renesmee e ele ansiou por uma guerra, por fazer os Cullens se ajoelharem indefesos diante dele. Mas ali, naquele momento e naquela noite, Alec sentia algo diferente, como se nunca tivesse desejado tanto por um acontecimento quanto ansiou a chegada de Renata.
Ele não queria que Jane o visse daquele jeito, pois sequer sabia como lidar com aquela agitação interior e não achava meios de reprimi-la adequadamente. A ideia de usar o seu próprio poder para se livrar daquele turbilhão emocional lhe passou pela cabeça uma dezena de vezes, afinal, não sentir era o seu caminho mais fácil. No entanto, o vampiro ignorou a ideia, temendo os danos colaterais que essa estratégia pudesse causar em sua mente. Alec possuía tão poucas coisas para se lembrar, e se, involuntariamente, as memórias da escudeira desaparecessem de seu subconsciente como fumaça?
Aquela era uma estratégia arriscada demais para se tentar.
Alec deixou os túneis de Fan Bay Deep Shelter uma última vez, sozinho, percorrendo o penhasco em direção ao sul e depois ao norte numa explosão de velocidade, para que o vento em seu rosto o ajudasse a se acalmar. O vampiro parou pouco antes de atingir a civilização, a vegetação ali era escassa, então preferiu manter uma distância segura dos humanos. Um ardor na garganta o alertou para a fome iminente. Os esforços que vinha fazendo consumiram demais de suas reservas de sangue e ele precisaria caçar em breve.
Seus olhos rubros se dirigem ao céu por um momento, sentindo-se frustrado até mesmo com as nuvens, que cobriram tudo com suas curvas densas e acinzentadas durante o dia, sem que uma gota de chuva caísse delas.
— Como ousam mentir para mim? Suas estúpidas – pragueja baixinho, por ter achado que choveria e nada ter acontecido. Muitas coisas deveriam ter acontecido e não ocorreram, e pensar nisso deixava um sabor amargo em sua boca.
Ele baixa o olhar do céu, voltando-se para a escuridão ao seu redor, atrás de algum sinal de movimento. Os olhos astutos e aguçados vagueiam pela obscuridade da paisagem uma última vez, onde um grande "nada" se fazia presente.
Suspirou.
Se frustrou.
Contudo, bem ali, entre dois grandes arbustos, ele viu algo se mover.
A surpresa o toma por completo quando um corpo parecido com o dele irrompe a paisagem noturna em direção ao penhasco, em direção a ele. Alguns poucos metros o separavam dos cabelos que balançavam ao vento, dos olhos vermelhos que o reconhecem instantaneamente e dos lábios que sussurram o seu nome em seguida, e Alec prontamente sentiu a frustração e o desapontamento desaparecerem.
Ela estava ali. Renata realmente tinha vindo, tinha procurado por ele e seguido suas pistas. Uma dormência estranha se apoderou de seu corpo diante deste fato, de uma forma tão poderosa e incrivelmente boa, que o vampiro levou quase um minuto inteiro para se dar conta de que Renata não estava sozinha e de que precisava de ajuda.
Três outros vampiros irromperam a escuridão atrás dela, com correntes em punho para que um ataque à distância pudesse ser executado. Demetri sabia que seria impossível se aproximar da escudeira e não hesitou em lançar sua corrente em direção às suas pernas, interrompendo sua corrida e fazendo-a tombar ao chão como uma árvore recém-cortada.
A vampira rosnou diante do ataque surpresa, mostrando seus caninos enquanto seus instintos apitavam descontroladamente em sua cabeça. Seu rosto foi ao chão, fazendo-a comer poeira. O escudo expandiu de seu corpo na tentativa de protegê-la, mas, contrariando suas esperanças, o poder não impediu Santiago de saltar sobre seu corpo e imobilizá-la.
— Shitty traditur – ofendeu em maltês, debatendo-se sobre as mãos do vampiro que um dia cultivou certo apreço, que um dia esteve ao seu lado na Guarda Defensiva de Aro. Se havia alguém que sabia o segredo de seu escudo, que conhecia a melhor forma de se aproximar sem ser repelido por ele, esse alguém era Santiago, o único a quem cometeu o erro de contar sobre a vulnerabilidade de seu próprio poder.
No fundo, Renata não se espantava com o fato de Demetri tê-lo escolhido para caçá-la, mas por ele ter aceitado tal missão. Não havia estima entre eles assim como não houve apreço para com Maximilian no passado, porque os Volturi estavam cegos em sua lealdade ao clã, em sua sede de poder e controle, e não permitiam que verdadeiros laços surgissem entre eles.
Agora ela era uma fugitiva, uma traidora do clã, e não receberia mais sorrisos cordiais ou acenos educados de nenhum deles.
— Pare de se mexer tanto! – esbraveja Santiago, que jazia sobre as costas da vampira apenas com a intenção de mantê-la deitada. Félix também estava presente, prendendo suas mãos para trás enquanto tentava controlá-la, visto que qualquer intenção errada seria repelida por seu poderoso escudo, colocando toda a captura em risco.
— Você não deveria ter fugido! Não há sentido em trair o seu clã para correr como uma barata tonta por toda parte. Rastreá-la foi tão fácil... – diz Demetri, evidentemente irritado, olhando de cima como se observasse um amontoado de lixo, enquanto Félix acorrentava os braços da escudeira. – Torça para receber o perdão do mestre, Renata, porque você voltará para a Itália ainda hoje!
— Não se eu puder evitar – lança Alec em resposta, atraindo a atenção de todo o grupo para si e fazendo Demetri trincar os dentes em descontentamento.
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