Coração Gelado 2
11 Atuação em Paris
A noite de Paris não trazia o mesmo silêncio denso dos bosques de Dover, nem a quietude solene dos salões de Volterra. A capital francesa respirava, era um emaranhado de buzinas distantes, conversas abafadas, o aroma de café torrado misturado ao cheiro de combustível e a pulsação de milhares de corações humanos marchando sob a iluminação amarelada dos postes.
No apartamento de Montmartre, a saída de Jane e Maximilian fora limpa e silenciosa. O camaleão arrastara a vampira para uma excursão noturna pelos grandes monumentos, ansioso por ver a iluminação da Torre Eiffel do alto de algum telhado.
Com a partida do casal, o grande apartamento pareceu subitamente grande demais. Alec permaneceu em pé junto à janela, observando através da fresta das cortinas o movimento dos transeuntes na rua. Ele vestia um sobretudo escuro bem cortado sobre uma camisa cinza-chumbo, uma escolha elegante e discreta feita por Maximilian para se misturar ao requinte parisiense.
A aproximação suave de Renata não o pegou de surpresa, mas a leveza de sua presença fizeram os ombros dele relaxarem uma fração de milímetro antes mesmo que ela dissesse uma palavra.
— Eles vão passar a noite toda brincando de turistas – disse Alec, voltando o olhar para ela como se sugerisse alguma coisa. Renata encostou a lateral do corpo na moldura da janela, ao captar sua sugestão.
— Estamos em Paris. A cidade dos livros e do romance, seria um grande desperdício ficarmos aqui a noite toda. Você me disse que queria aprender, não foi? Que queria encontrar o amor e entender como ele funciona?
— Sim.
— Então nós vamos sair – decretou ela, dando um passo à frente e parando diretamente diante dele. Ela inclinou a cabeça, a cor violeta das lentes em contato fixo com os dele. – Mas não vamos sair como dois fugitivos ou como dois predadores espreitando a janta. Se queremos entender os humanos e o que eles sentem, nós precisamos agir como eles.
— O que você sugere?
Renata sorriu de canto, um gesto carregado de uma ousadia que ela jamais ousaria ter demonstrado nos corredores frios de Volterra.
— Quero que andemos como um casal.
Alec estancou. O conceito pareceu flutuar no ar entre eles por longos segundos antes que sua mente analítica conseguisse processá-lo por completo.
— Um casal?
— Sim, um casal humano – explicou ela, gesticulando com as mãos enquanto a empolgação tomava conta de seu semblante. – Um homem e uma mulher passeando na noite de Paris. Sem correria, sem pulos por telhados, sem ficar analisando o pescoço de cada um que passa. Nós vamos caminhar de mãos dadas, olhar as vitrines, sentar perto dos cafés e fingir que pertencemos a este mundo. É uma boa prática para o que estamos procurando.
Alec encarou os olhos dela, buscando qualquer traço de zombaria, mas encontrou apenas determinação e uma curiosidade sincera. E minutos depois, eles deixaram o prédio em Montmartre, descendo as escadarias de pedra que levavam às ruas movimentadas.
A transição do silêncio do apartamento para o turbilhão da vida parisiense foi imediata. As calçadas estavam úmidas pela garoa recente, refletindo o brilho dourado dos postes e das fachadas dos bistrôs. O som de risadas, o tilintar de taças de vinho e a música suave de um acordeão vinda de algum lugar próximo envolveram os dois imortais no momento em que pisaram na rua.
Renata parou ao lado dele na calçada e deslizou a mão enluvada pelo braço masculino, entrelaçando-os com uma naturalidade que o fez tensionar os músculos por um breve segundo. Alec sustentou o toque, permitindo que seu corpo cedesse milimetricamente à proximidade dela. Ele estava habituado a se adaptar às situações, recalculando passos em uma fração de segundo para obedecer às ordens de Jane e cumprir suas missões, mas a sensação do braço da escudeira enlaçado ao seu demandava um tipo de maleabilidade completamente novo. Não havia planejamento tático na forma como o toque dela atravessava as camadas de tecido, era um terreno desconhecido no qual o vampiro não sabia bem como reagir.
— Viu? Não dói nada – sussurrou Renata, olhando para ele por cima do ombro com um brilho vitorioso no olhar. – Agora, alinhe o passo comigo. Humanos não andam como se estivessem caçando.
Alec soltou uma respiração lenta e desnecessária, adaptando sua passada longa e predatória ao ritmo gracioso de Renata. Caminhar devagar pela noite de Paris era uma experiência quase surreal para alguém que passou séculos cruzando continentes em velocidade sobre-humana, e, à medida que avançavam pelas ruelas de Montmartre, o mundo realmente parecia desacelerar.
Depois de alguns minutos de caminhada, passaram por um pequeno bistrô com mesas na calçada, protegidas por um toldo vermelho. Um casal humano estava sentado perto da janela, dividindo uma sobremesa e trocando sussurros que faziam a mulher rir baixo.
Alec analisou a cena, absorvendo cada detalhe:
— Eles estão compartilhando um momento – explicou Renata, praticamente adivinhando o que se passava por sua mente. – O objetivo é a companhia. O amor humano não é um contrato ou uma aliança estratégica, é a decisão de estar junto sem precisar de um motivo além da própria presença.
Alec guardou as palavras dela na mente, processando o conceito como se estivesse catalogando um novo idioma.
Conforme se aproximavam da Pont des Arts, a famosa ponte sobre o Rio Sena, a névoa fria da noite tornou-se visível sobre as águas escuras do rio. As luzes de Notre-Dame ao fundo cortavam a escuridão da noite com exuberante beleza.
Subitamente, ao pisar sobre as pranchas de madeira da ponte, um estalo ecoou no fundo da mente de Alec. O som das águas do Sena batendo contra os pilares da ponte foi substituído por um eco distante e distorcido, como o som de um rio muito mais largo e selvagem. Num rápido fragmento de memória, ele se viu segurando a mão de uma mulher, numa imagem vaga e falha que Alec não conseguia entender captar nada. Não havia rostos, nem cheiros, nem detalhes. Nada. A memória parecia desintegrada como cinzas ao vento, deixando apenas um oco doloroso em seu peito.
Quem era aquela? Eles estavam de mãos dadas, seria alguém importante para ele? Alguém que amou? A frustração com sua ausência de memórias apertou sua garganta.
— Alec? – a voz de Renata atravessou a ilusão como um raio de luz, suave e urgente. – Alec, o que foi?
O vampiro piscou rapidamente, os olhos voltando a focar no presente. A névoa sumira, a mulher sem rosto desaparecera. Diante dele estava Renata.
O vento da noite soprava alguns fios de seus cabelos escuros sobre o rosto, e suas mãos apertavam seu braço com preocupação, já que pararam de caminhar de repente. A luz amarelada dos postes da ponte refletia em suas pupilas, e a expressão em seu rosto era tão clara, tão viva e tão presente que fez o aperto no peito dele se desfazer instantaneamente.
Alec olhou para as mãos de Renata, ele não podia recuperar o garoto que fora queimado na fogueira na Inglaterra medieval, não podia reaver sua vida ou suas memórias, mas podia escolher exatamente o que guardaria em sua mente a partir daquele segundo. Por escolha própria, ele permitiu que a memória vaga da mulher se dissipasse por completo, enterrando-a no passado, e a substituiu pela imagem cristalina de Renata ali na ponte: o toque firme de suas mãos, o perfume adocicado de sua pele, o brilho das luzes de Paris refletido em seus olhos e a forma como, inesperadamente, ela o olhava com preocupação, como alguém digno de ser protegido.
— Nada – respondeu ele, a voz saindo mais firme e suave do que o habitual. Ele ajustou a pegada em seu braço, puxando-a milimetricamente para mais perto. – Apenas... apreciando a vista.
Renata o estudou por um momento, percebendo a mudança em sua energia, a forma como a tensão evaporou subitamente de sua postura. Ela sorriu, encolheu os ombros sutilmente e aproximou o corpo do dele, fingindo buscar proteção contra a lufada gélida que subia do rio.
Alec, cuja imortalidade inteira fora moldada para corresponder a rigidez Volturi, sentiu o impacto daquela proximidade. Sob o pretexto do "teatro", a lateral de seu braço pressionava-se contra o peito dela. Ele relaxou os ombros com um esforço consciente, permitindo-se guiar pela cadência dos passos de Renata. Para qualquer olhar humano que cruzasse com os dois sob a luz dourada dos postes arqueados, eles eram apenas mais dois namorados imersos no romance.
— Você está se saindo surpreendentemente bem como um humano comum – murmurou Renata, erguendo o rosto para olhá-lo.
— É apenas eficiência tática – respondeu simplista. – Se o objetivo é a camuflagem absoluta, preciso saber interpretar o meu papel.
— Sei... Eficiência tática – ela repetiu em tom jocoso, deixando escapar uma risada curta. – Há uma parte sua que está gostando disso, não é? – comentou ela, voltando-se para o rio e aproximando-se no parapeito da ponte. – Quando lia sobre Paris, sempre imaginei como seria estar aqui. Eu achava que a magia da cidade vinha dos prédios antigos ou da arte, mas acho que a magia só existe quando se tem alguém com quem compartilhar.
— Você me disse que a tristeza era o desânimo e a solidão que surgem em resposta a perdas ou expectativas frustradas.
— Lembro-me disso.
— Sempre achei que eu não podia sentir tristeza – continuou ele, olhando fixamente para as águas escuras –. Eu cumpria minhas missões, eliminava sentimentos inúteis e retornava para a sombra de Aro. Eu achava que o silêncio na minha mente era paz. Mas quando você não chegou a Box Hill no dia que pensei que chegaria... quando olhei para a noite em Londres e não vi sinal de você... eu senti exatamente o que você definiu: expectativas frustradas, tristeza.
Renata prendeu a respiração simulada.
— Alec...
— E quando você apareceu em Dover – ele prosseguiu, virando-se para ela e confessando em tom profundamente sincero –, a sensação que tomou conta de mim foi o exato oposto. Você me disse a definição de alegria, mas eu não precisei do dicionário para entender. Eu soube o que estava sentindo assim que vi seu rosto.
Renata sentiu um arrepio percorrer toda a sua espinha imortal. Ela olhou para ele, desarmada por sua honestidade crua, sem saber de onde tinha vindo tudo aquilo. Ali Alec sequer parecia ser o mesmo guarda frio de Volterra.
— Você aprende rápido, pequeno gafanhoto – brincou ela, tentando disfarçar o impacto que as palavras dele lhe causaram.
— Eu tenho uma boa professora – devolveu ele, permitindo que um sorriso genuíno e relaxado surgisse em seus lábios.
Eles permaneceram na ponte por um longo tempo, apenas observando os barcos de passeio passarem lentamente sob os arcos de pedra, admirando a beleza das luzes brilhantes sobre as águas. Quando a madrugada começou a avançar e o movimento nas ruas diminuiu, Renata retomou o passeio, guiando Alec de volta pelas ladeiras de Montmartre. O caminho de volta foi feito em um silêncio confortável, com os corpos próximos e o passo perfeitamente sincronizado.
Ao se aproximarem do prédio residencial onde Maximilian e Jane os aguardavam, Alec parou na calçada. A rua estava completamente deserta, os postes lançando longas sombras sobre os paralelepípedos.
Renata soltou o seu braço suavemente, pronta para entrar, mas quando tentou se distanciar, sentiu sua mão ser segurada com firmeza.
— O que foi? – perguntou ela.
Alec a observou em silêncio por alguns segundos. A brisa da noite movia levemente os fios de seu cabelo, e a proximidade entre eles era tanta que ele podia sentir a essência adocicada de sua presença preenchendo todos os seus sentidos.
Ele ergueu a mão livre e, com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo do rosto de Renata, deixando sua mão pousar levemente na curva de seu pescoço. Ela não recuou; em vez disso, inclinou o rosto na direção da mão dele, fechando os olhos por um segundo para apreciar a carícia.
— Como casal... nós fomos bem hoje? – perguntou Alec, a voz tão baixa que parecia parte da brisa da noite.
Renata abriu os olhos devagar, sustentando o olhar dele por longos segundos.
— Fomos perfeitos... – respondeu ela com suavidade, um sorriso sereno surgindo em seus lábios. – Mas não acho que tenha sido apenas atuação, Alec.
A declaração ressoou no silêncio da rua deserta, fazendo o vampiro prender o ar.
— Acredito que imitar os mortais vai muito além de camuflagem ou sobrevivência – continuou ela, encarando o brilho rubro dos olhos dele. – Copiar seus passos, dividir momentos, permitir-se sentir e reagir como eles... é o que nos resgata do abismo. E é exatamente essa escolha, essa ousadia de querer sentir, que nos levará ao amor no fim das contas.
Alec engoliu em seco. A mão que repousava no pescoço dela deslizou suavemente até a linha da mandíbula, os dedos roçando a pele fria e macia com uma delicadeza que ele jamais soube possuir. As engrenagens de sua mente trabalhavam lentamente, absorvendo a verdade crua daquele momento: que não havia tática ali. Não havia disfarce, ordem de Jane ou protocolo Volturi. Tudo o que dissera na ponte fora sincero; tudo o que fizera fora por vontade própria.
Instintivamente, a imagem do clã de Carlisle Cullen atravessou seu pensamento. Em Volterra, os Cullens eram vistos como excêntricos e fracos por buscarem uma existência com os humanos. Mas agora Alec compreendia. Eles não eram fracos, haviam apenas descoberto o segredo muito antes dele, conseguiam amar e ser amados porque recusavam a anestesia da imortalidade.
Ele não tinha a menor intenção de abdicar de sua natureza predadora ou de adotar uma dieta de sangue animal, mas, se copiar os mortais era o caminho para aquecer seu coração gelado, ele repetiria aquele "teatro" sempre que pudesse.
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