Coração Gelado 2
5 A Pista do Big Ben
Renata caminhava por entre as árvores de Box Hill, sentindo uma sensação estranha crescer em seu peito, quase como se fosse explodi-la de dentro para fora. Depois de horas e mais horas de uma corrida frenética, de cruzar parte da Itália e um pedaço gigantesco da França, de atravessar o Canal da Mancha a nado e consumir quase toda a sua energia e o seu estoque de sangue, ela finalmente chegou à Inglaterra.
Fora impossível fazer todo esse trajeto em apenas três horas – tempo que lhe restava até o Sol nascer e tornar a sua presença em público extremamente chamativa –, e um refúgio em território francês teve de ser providenciado às pressas. No entanto, pouco antes do anoitecer, quando o Sol estava baixo o suficiente para que a vampira voltasse a se locomover, ela seguiu em frente.
Após atravessar o canal e pisar nas terras inglesas, Renata efetuou a primeira caçada de sua vida de liberdade, recuperando suas forças e ganhando um novo conjunto de roupas, algo menos chamativo que seu vestido ao estilo vitoriano – afinal, não era como se a bonita mulher que matou fosse precisar delas.
Jeans e camiseta, junto a uma jaqueta de couro preta. Depois de passar tantos anos com os Volturis, vestindo apenas o que eles consideravam apropriado para demonstrar o seu poder, Renata estava finalmente vestindo uma roupa “comum”. E, apesar de ter amado a jaqueta e de ainda calçar suas botas italianas, ela ficou incomodada com o quão agarrada uma calça jeans poderia ser, sentindo como se todo mundo estivesse olhando para a sua bunda – mesmo que não houvesse quase ninguém na rua àquela hora.
Ali estava ela agora, em Box Hill, a apenas alguns passos de seu destino. A carta de Alec jazia no bolso da jaqueta, embolada e molhada pelas águas do Canal da Mancha, mas, ainda assim, inteira.
— Será que eles já perceberam a minha fuga? – Pensou ela, ajeitando os cabelos bagunçados com as mãos enquanto se aproximava da casa de Maximilian, imaginando o momento em que Heidi ou Santiago foram convocá-la para o banquete daquela manhã, batendo na porta de seu quarto repetidas vezes até resolverem abrir por conta própria, não encontrando ninguém. – Sim, é claro que eles notaram.
Conhecendo ambos os vampiros como conhecia, talvez tivessem gasto alguns minutos procurando por ela antes de finalmente espalharem a notícia de seu desaparecimento e a ciência de sua fuga chegar até Aro.
— Ele certamente ficou furioso – concluiu ainda em pensamento, sentindo o corpo travar ao perceber o significado de suas palavras, ao constatar que ela não era Alec ou Jane, que os Volturis não a temiam como aos gêmeos e que, acertadamente, Aro ordenaria uma caçada por ela.
Pensando nisso, Renata acelerou o passo e bateu à porta para indicar sua chegada. Achar aquela residência não tinha sido tão difícil, pois assim que colocou os pés naquele bosque, suas narinas captaram rastros leves de vampiros por entre as árvores, sendo um deles o cheiro inconfundível de Alec, que a conduziu diretamente à construção.
A vampira bateu na porta novamente, ansiosa, mas nenhuma luz foi acesa do lado de dentro, tampouco se via ou ouvia qualquer sinal de presença ali. Ela forçou a maçaneta com a mão direita, constatando que a porta estava destrancada.
— Demorei muito – sussurrou para si mesma, ao entrar na casa e perceber que ela estava vazia, que Alec não estava mais ali. Os vampiros haviam ficado ali por tempo suficiente para que seus aromas impregnassem a residência, e isso a enchia de frustração, pois estava no lugar certo na hora errada. – É claro que ele não estaria aqui, sua idiota, a carta foi entregue há dias…
Sentindo a decepção e o medo acertarem seu corpo como um soco, Renata encostou-se contra a parede mais próxima, tentando digerir o fato de que seu protetor havia partido sem ela e que, provavelmente, a Guarda Volturi já estava em missão para rastreá-la. Seus olhos vermelhos avaliaram toda a sala, detendo-se na mesa de centro, que continha uma folha dobrada ao meio com o seu nome escrito em letras garrafais. Ela avançou, ajoelhando-se frente à mesa, apanhando o bilhete e o abrindo rapidamente.
— Londres – leu a pista em voz alta, observando o desenho cuidadosamente.
Ela retirou a carta escondida na jaqueta, desenrolando-a cuidadosamente para que não ficasse ainda mais danificada devido à umidade. A letra estava borrada, mas legível o suficiente para que pudesse ser comparada com o novo bilhete; a caligrafia era a mesma e a vampira permitiu-se sorrir novamente.
Renata deixou a carta úmida sobre a mesa, como um recado mudo de que estivera ali, caso ele retornasse antes de se encontrarem, e sem perder tempo deixou Box Hill, querendo aproveitar a vantagem que a noite lhe proporcionava para correr em alta velocidade sem ser notada. Londres ficava ao norte, como tinha visto em sua pesquisa na internet, e Renata levou pouco mais de uma hora para chegar à grande cidade, que estava adormecida sob um silêncio sepulcral.
Suas botas italianas faziam barulho todas as vezes que golpeavam o asfalto, como se tentassem anunciar sua chegada, obrigando-a a frear pouco antes de chegar ao Palácio de Westminster, pois havia dois seguranças noturnos na entrada para a escadaria do sino Big Ben.
Inferno! Forçar uma entrada alardearia os humanos e matá-los chamaria a atenção de Demetri, que era um excelente rastreador e caçador. Sem alternativa, a vampira optou por subir a torre do Big Ben pelo lado de fora, o que lhe custou um ou dois escorregões que quase a fizeram cair de toda aquela altura, por efetuar pegadas nos lugares errados.
Apesar da sensação de ser abraçada pelo manto noturno, passar por uma das faces do relógio sem apoiar-se em seus ponteiros foi a parte mais difícil, e a escudeira riu consigo mesma ao imaginar o que aconteceria se, acidentalmente, ela movesse os ponteiros e Londres despertasse com uma das faces marcando a hora errada.
Depois disso veio a área do sino, localizada logo acima das quatro faces do relógio e cujas janelas eram protegidas por um telado bastante forte. Com alguns socos, Renata rompeu a junção da proteção com a parede até que o buraco fosse suficiente para a sua passagem.
Aquilo era tão novo para ela quanto o fato de fugir. Correr inúmeros quilômetros, atravessar um canal enorme somente com a força de seus braços e pernas, caçar em liberdade e escalar a maior parte dos 96 metros daquela torre, quando ela se imaginou fazendo isso? Quando pensou ser capaz disso tudo? Ela era uma vampira, mas nunca teve a oportunidade de explorar todo o potencial de seu corpo imortal.
Fazer todas aquelas façanhas e estar do lado de fora do castelo de Volterra estava sendo exatamente como Renata imaginou que seria, algo arrebatador e magnífico, como se ela fosse uma borboleta que finalmente conseguiu romper a prisão de seu casulo e alçar voo até o seu destino.
— Alec! – Chamou com certa ansiedade, enquanto circulava o enorme sino à procura de algum sinal de vida. – Alec, você está aí? – Questionou inutilmente, constatando, no segundo seguinte, que estava atrasada novamente. – Talvez haja outra pista! – Cogitou por fim, percorrendo a torre de um lado a outro, passando pelo sino duas vezes antes de notar as manchas avermelhadas que o marcavam, como uma espécie de pichação.
Ela se aproximou rapidamente, estudando as marcas disformes e reparando que eram recentes, assim como o removedor usado para retirar a maior parte da pintura. Alec tinha deixado outra pista, ela tinha certeza, algum tipo de escrita ou de código grande o suficiente para chamar sua atenção, como se dissesse “ei, olhe para mim, eu estou aqui”. Mas, obviamente, os humanos a encontraram antes dela e iniciaram o processo de limpeza do suposto vandalismo.
Teria como ficar pior? Sua única pista escorria do Big Ben com o removedor de tinta e Renata não fazia a menor ideia de onde deveria ir.
Com imenso pesar, ela deixou a área do sino e desceu pela lateral da torre, o amanhecer estava chegando depressa e novamente precisava de um lugar para se refugiar, um lugar tranquilo em que pudesse organizar suas ideias e lamentar sobre o desastre que se abateu em seu plano de fuga.
Um quartinho num hotel rotativo foi tudo o que conseguiu com o tempo que sobrou, usando o dinheiro que pertencia a sua presa e inventando uma desculpa para convencer o sonolento recepcionista de que os seus olhos intensamente vermelhos não eram reais. Entre o consumo enlouquecido de drogas, uma doença ocular grave e aquilo ser parte do figurino de um show, a vampira optou pela última história, alegando veementemente ser uma dançarina de um clube noturno que precisava descansar para a sua próxima noite de trabalho.
Aquela era a coisa mais estúpida que ela já tinha inventado em toda a sua segunda vida. Renata ficou perplexa com sua falta de imaginação ao justificar a cor de sua íris, pois esperava ter ao menos uma parcela decente de criatividade após ler tantos livros e fantasiar sobre o amor. Surpresa maior foi o fato de o fútil humano acreditar em sua história, questionando onde ela estava se apresentando e se poderia assisti-la na noite seguinte, lançando olhares nada ortodoxos em direção ao seu corpo por acreditar que era uma stripper.
— Francamente, você é um péssimo exemplar do seu sexo – resmungou consigo mesma, possessa, enquanto marchava em direção ao quarto que alugara com a intenção de se trancar até a hora de partir. – Que nojo. Me recuso até mesmo a beber o seu repulsivo sangue!!!
A vampira entrou no quarto número 5, trancando a porta azulada, fechando as cortinas da janela e se atirando na cama com um misto de raiva e frustração que se misturava em seu rosto, onde praguejou céus e terra em maltês, sua língua natal, por apagarem sua preciosa pista. Há quanto tempo a pintura estava lá, esperando? Por que havia demorado tanto para decidir partir?
De certa forma, Renata sentia-se culpada por tudo dar errado, por ter desperdiçado o trabalho de Alec e perder a sua trilha. E durante todo aquele dia em que o Sol brilhou fortemente sobre Londres e a aprisionou dentro de seu quarto de hotel barato, ela pensou no que faria a seguir: se o procuraria a esmo, se o esqueceria e fugiria de Demetri por conta própria, ou se voltaria para Malta.
O Sol começou a se pôr depois de longas horas iluminando o céu, e, mesmo com o tempo ocioso, a vampira ainda não sabia qual seria o seu próximo passo. Sua única certeza era de que precisava se mover, pois cada minuto parada era um minuto a menos de distância entre ela e a Guarda Volturi. E quanto mais perto ficava da hora de partir, mais aquele pensamento a consumia, colocando todos os seus sentidos em alerta.
Renata saiu do quarto assim que achou possível, deixando apenas uma cama desfeita, pois não usufruíra de mais nada. Ela retornou à recepção, encontrando o mesmo recepcionista da noite anterior, que parecia bem mais desperto e regulava ter 18 ou 19 anos.
O humano sorriu quando a viu, e, mesmo que ele carregasse um crachá, a vampira não fez questão de saber o seu nome. Ele era alguns centímetros mais alto do que ela, seus braços eram inteiramente desprovidos de força muscular, as sardas em seu rosto até que eram bastante charmosas, mas a escudeira percebeu que ele precisava de um chiclete de menta, pois seu hálito cheirava a salgadinho de queijo.
— Então, onde vai ser a sua apresentação? – Começou ele, tentando ser amigável, mas permitindo que os olhos escorregassem do rosto para o decote da vampira.
— Num clube aqui perto – respondeu vagamente, erguendo uma sobrancelha diante da ousadia de seu olhar e sequer se esforçando para mentir, já que estava prestes a partir e nunca mais vê-lo.
— Essas lentes são incríveis, a fantasia completa deve ser um estouro! Quero dizer, você é… Incrivelmente gostosa sem a fantasia, imagino que deva ser uma deusa com o figurino completo – flertou descaradamente, olhando-a de cima a baixo como se já pudesse imaginá-la dentro de uma fantasia de couro apertada, fazendo Renata abrir e fechar a boca três vezes seguidas, sem saber o que dizer frente a tal comportamento.
Tudo no que ela pensava, diante daquele pobre humano e sua esquisita tentativa de flerte, era no quanto a realidade poderia ser deprimente quando queria. Onde estava o romantismo dos livros? Será que ela conseguiria encontrar algo do tipo no mundo real? Parte de sua mente torcia para que o romance e o amor ainda estivessem vivos no mundo humano, ou a sua jornada para encontrá-los estaria perdida.
Entretanto, quando estava prestes a dizer ofensas ao recepcionista, algo chamou a sua atenção para além dele, para a pequena televisão ligada e escondida atrás do balcão de madeira. O relógio do Big Ben servia de plano de fundo para a repórter que acabava de entrar ao vivo, impulsionando a vampira a se aproximar do balcão e focar na notícia instantaneamente. O volume estava excessivamente baixo para um ouvido humano, porém, com a audição melhorada pela imortalidade, ela conseguia compreender cada palavra.
O noticiário parabenizava os esforços dos trabalhadores que, naquele dia, tinham apagado completamente as marcas do vandalismo do grande sino. A vampira entregou a chave do quarto num movimento automático, com os olhos e a atenção inteiramente voltadas para a tela da televisão, tendo a vaga impressão de que o recepcionista estava lhe perguntando algo.
— Quieto, cabeçudo!!! – Retrucou, fazendo-o finalmente se calar e prestar atenção à reportagem na televisão.
— Ah! Vandalizaram o Big Ben há alguns dias, a cidade toda ficou furiosa.
— O que foi feito lá? – Questionou rapidamente, desviando os olhos da reportagem para o semblante desinteressado do recepcionista.
— Versos de um poema, sei lá… A foto saiu em todos os jornais e viralizou na internet. Quem fez isso deve estar satisfeito consigo mesmo, porque virou notícia internacional.
— Pode me mostrar a foto? – Pediu com evidente interesse, fazendo o humano coçar os pelinhos ridículos que chamava de bigode e, estranhamente, esboçar um sorriso de canto.
— Eu te mostro a notícia se você me mostrar os peitos!
Renata fechou o semblante numa carranca. Com um movimento rápido ela se debruçou sobre a bancada de madeira e agarrou a nuca do rapaz, batendo sua testa contra o móvel da recepção e o apagando no mesmo instante. O golpe não fora forte o bastante para rachar o seu crânio ou causar-lhe danos cerebrais, mas o suficiente para gerar uma concussão que o deixaria com um belíssimo galo no meio da testa.
— Pervertit! – Exclamou em maltês, vendo-o cair ao chão como um saco de batatas.
A vampira contornou o balcão, percebendo que o espaço atrás dele era maior do que imaginava, abrigando uma pequena mesa para a televisão, uma caixa registradora e uma máquina de cartão de crédito, um computador, uma cadeira alta e, agora, um corpo humano desacordado. Ela se sentou diante do computador e, com dedos ágeis, realizou uma rápida pesquisa sobre o vandalismo do sino, encontrando em inúmeros jornais a fotografia da pichação: dois versos escritos em tinta vermelha, junto ao nome do poema e uma referência.
“Não partimos em lágrimas,
Não nos despedimos por muito tempo.”
(The Broken Men, 1902, linha 72)
As matérias nos jornais eram diversas, mas, curiosamente, todas falavam sobre o erro contido nos versos pichados no sino.
— "Ao contrário do que consta na mensagem vandalizada" – lê rapidamente – "os versos escritos não estão na linha 72 do poema de Rudyard Kipling, mas nas linhas 9 e 10."
Renata para abruptamente, sentindo o corpo energizar com a novidade, com o fato de ter recuperado a pista perdida e estar novamente na trilha de Alec. Os versos escolhidos eram claros, referiam-se à sutil despedida que Alec fizera em Volterra. No entanto, era a referência errada que realmente a intrigava.
Agora que já estava familiarizada com a barra de pesquisa do computador, a vampira digitou rapidamente o nome do poema para visualizá-lo na íntegra, verificando duas coisas interessantes: (1) o jornal estava certo, o verso pichado estava nas linhas 9 e 10 do poema "The Broken Men"; e (2) a linha 72 dizia: "As falésias de Dover ainda são brancas?"
— Falésias de Dover? – pergunta retoricamente, retornando para a área de pesquisa e realizando uma nova busca, surpreendendo-se com as magníficas fotos dos penhascos brancos que ficavam em Dover, no condado de Kent. – Achei você!
Feliz com a nova etapa de sua viagem, Renata furta o dinheiro disponível na recepção, que correspondia a todo o lucro adquirido naquele mesmo dia, planejando pegar qualquer condução que a colocasse mais perto de seu destino. A vampira deixa o hotel, sequer imaginando que Demetri já havia encontrado o rastro de sua essência vital e que estava se aproximando.
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