Coração De Gelo
1 Capítulo 1: Inverno: Este era seu nome.
Notas iniciais
Golden is the day
Princes of the universe
Your burden is the way
So there is no better time
Who will be born today
A gypsy child at day break
A king for a day"
Out of the Shadows - Iron Maiden
Pela pequena janela do avião alugado, tudo parecia tão pequeno e insignificante que chegava até ser um tanto engraçado, se ele não estivesse de tão mau humor, sentado na última cadeira do avião, os braços cruzados e os fones de ouvido no máximo para evitar ouvir sequer uma palavra de seu pai e dos colegas de trabalho dele.
Porque o cúmulo da tortura era você passar três meses num fim de mundo chamado Groenlândia, onde dificilmente tinha internet que prestasse, sinal de celular, videogames, praias, sol e garotas de biquíni.
Tudo bem que tinha sido expulso de um colégio pela quarta vez seguida e tudo bem que só tirasse notas F, mas isso não era motivo para seu pai, um pesquisador desses lugares cobertos de gelo, lhe arrastar consigo. E, pelos céus, não era motivo para tomar seu celular, seu videogame portátil e suas revistas pornôs.
O que diabos ia fazer em um lugar aonde nada havia senão gelo, gelo e mais gelo? Bufou, rangendo os dentes. Claro que seu pai não lhe entendia, e claro também que achava que ele era o maior meliante da cidade, mas todas as brigas, contra alunos e também professores, que se metera não foram causadas por ele.
Ele só tinha uma facilidade anormal para arrumar confusões, mas alguém entendia isso? Não! Mandavam-lhe logo para o fim do mundo como se isso fosse servir de adestramento e não um motivo a mais para sentir raiva.
Aumentou mais ainda o volume dos fones, ouvindo os risos do pai e dos colegas do mesmo nas cadeiras da frente.
Quando chegou com a testa e o ombro sangrando em casa, tendo na mão um bilhete da escola dizendo que não iriam mais suportá-lo ali, sua mãe desabou a chorar e seu pai imediatamente lhe reprimiu.
Lógico que não gostava de ver sua mãe chorar, mas quem era seu pai para lhe reprimir quando ele só passava um mês em casa e então desaparecia pelo mundo? Foda-se ele, foda-se a escola e o mundo inteiro, bando de imbecis.
O piloto avisou que logo iriam pousar, então todos se sentaram e colocaram os cintos, se preparando. Em alguns pares de minutos, todos os pesquisadores, médicos, biólogos, geólogos e agregados (leia-se: ele, o rapaz rebelde, filho do chefe da expedição e pesquisador sênior) desceram num aeroporto improvisado e logo, apertando as roupas pesadas contra o corpo, correram para o que eles chamavam de Prédio Principal.
E durante todo esse percurso, Sirius, o revoltado, como já o chamavam, manteve-se em silêncio enquanto expressava a mesma carranca já sendo usada faz dois dias, desde que ele soubera que estava indo “viajar”.
“Você não pode fazer isso comigo!”, Sirius gritou, chutando alguma coisa sem se importar. “Eu não vou pra lá e você não pode me obrigar!”
“Eu posso e vou! Me obedeça!”, o pai gritou de volta.
“Quem é você pra mandar em mim?! Nunca está aqui! Fica viajando pelo mundo e me deixa aqui com a mamãe, seu imprestável! E ela ainda tem que trabalhar porque a porra desse seu trabalho não presta pra nada!”
“Meça suas palavras, seu...!”
“Seu o quê?! Você sabe que é verdade! Eu não vou e você não vai me arrastar! Eu odeio você!”
E então só o que foi ouvido, além do choro baixo da mãe, foi um estampido oco. Liam, pai de Sirius, dera-lhe um tapa no rosto do mais novo. Não, isso já era demais. A força que reunira para não partir para cima do pai, esmurrar-lhe, fazê-lo pagar, foi tanta mas ao mesmo tempo quase tão pouca que ele se viu já fechando os punhos.
“Você vai me obedecer, quer queira, quer não. Ainda sou seu pai, e você me deve respeito e obediência. Sou eu que pago suas coisas, suas roupas e seus luxos, menino. Sua mãe apenas cuida da casa. Agora, suba e só desça quando estiver com as malas prontas”.
Sirius, que tinha uma das mãos no rosto aonde agora estava vermelho, engoliu em seco, ainda reunindo todo seu auto-controle, e em silêncio subiu as escadas que levariam ao corredor e, por sua vez, para seu quarto.
Estava com tanta raiva que assim que trancou a porta do seu cômodo, bateu na parede com ambos os punhos e chutou os móveis, xingando alto.
Claro que todos os seus urros de ira não conseguiram impedir aquela viagem, e agora estava ali, no Prédio Principal. Descarregaram as malas, pegaram provisões e todos subiram em carros que mais pareciam caminhões para ir até a base aonde fariam as pesquisas e aonde ficariam até que ou as provisões acabassem ou completassem seus objetivos.
Ou seja, passariam um bom tempo ali, cerca de três meses ou uma eternidade para quem foi obrigado a ir.
Duas horas depois, já na Base, descarregaram as coisas e começaram a dividir os “quartos” (se é que compartimentos que mais pareciam guarda-roupas poderiam ser chamado de quartos). Pelo menos, por alguma, pelo menos uma, felicidade do destino, Sirius ficou com um quarto só para si.
E tão logo em “casa”, jogou-se na cama e de dentro da mochila tirou um livro de fotos e anotações que costumava a levar consigo para qualquer viagem. Claro que trouxera aquilo (e os fones) escondido, assim como a máquina fotográfica profissional e seu notebook.
Ainda estava de péssimo humor, mas olhar suas fotos lhe acalmava um pouco mais. Em grande parte delas, tinha o mar, traço de sua cidade natal, e Emily, sua namorada. Partira dizendo a ela somente um “vou sumir por uns tempos por causa do meu pai, não dê pra outro até eu voltar”. Bufou, com raiva. Podia ao menos ter trago também seu celular reserva para ocasiões especiais, mas duvidou que pegasse sinal naquele fim de mundo.
Talvez, escondido, pudesse tirar algumas fotos daquele lugar, se é que um lugar aonde só havia gelo e neve e gelo e mais neve fosse um bom cenário para o que quer que fosse se fotografar. “Talvez eu encontre algo morto por aqui. Talvez eu morra, me mate logo de uma vez, aí quem sabe meu pai se esqueça de mim”.
Ouviu batidas na porta do seu quarto e imediatamente jogou seu livro de fotos embaixo da cama, fechando também a mochila para que não vissem a máquina fotográfica nem o restante das coisas que trouxera sem poder.
-Sirius, o jantar vai sair em alguns minutos.-Disse Liam, entrando no quarto, mas permanecendo ao lado da porta, fitando o filho. Era de estatura mediana, rosto coberto pela barba por fazer, os olhos de um tom quase negro, assim como os do filho. Os cabelos também eram de um negro tão negro que, na luz certa, quase assumiam um tom de azul profundo.
-Vá pra porra.-Murmurou Sirius, dando as costas ao pai e voltando a se deitar na cama.
-Eu sei que ainda está com raiva, mas veja pelo lado bom, pelo menos você está aqui comigo. Não queria passar mais tempo com seu pai?
-Porra, se isso é o lado bom, não quero nem saber do ruim. Você já fudeu toda a minha vida, quer fazer o favor de sair do meu quarto agora?-Exclamou, sem se mexer na cama.
O pai sorriu um pouco e cruzou os braços. Sabia do temperamento do filho, mas não deixava de divertir-se. Fora mais ou menos assim, talvez um pouco mais educado, quando adolescente, mas claro que havia horas que Sirius simplesmente lhe tirava do sério, como acontecera alguns dias antes em casa, quando lhe batera no rosto.
-Bem, se quiser jantar, venha. Se não vier, só vai ver comida amanhã de manhã.-Disse Liam.
-Tomara que essa porra de comida esteja envenenada.
-Tomara que não, senão você nunca voltaria para casa.-Riu o homem, então saiu do quarto e fechou a porta.
-Hmph.-Resmungou Sirius antes de ir trancar a porta à chave e tirar de debaixo da cama o livro de fotos. Ficou ali até que o relógio numa mesinha ao lado da cama dissesse que eram pouco mais das 10 da noite ao mesmo tempo que sua barriga começava a roncar.
Pegou a mochila e de dentro tirou uma barra de chocolate. Além de roupas, sua máquina fotográfica, seu notebook, seus fones e outras coisas básicas como seu canivete suíço, algumas garrafas de vodca (mesmo que não tivesse idade para beber) e um isqueiro, também trouxera barras de chocolate, caixas de chiclete, sacos de salgadinhos, refrigerantes e tudo que achou que fosse preciso para passar três meses no meio do gelo.
Como conseguira tudo isso? É bem simples quando se conhece os contatos certos, e seu nome era meio que famoso em seu bairro.
Mas nem por isso deve-se pensar que Sirius é um garoto ruim, porque ele não é. Ele apenas é... Um tanto... Mais temperamental que os outros. E tem uma terrível má sorte.
De qualquer forma, comeu alguns pedaços da barra de chocolate (poucos, porque sabia que teria que racionar) e desligou as luzes, indo dormir depois. O que não conseguiu fazer porque o barulho do vento lá fora parecia uma mulher gritando, então só depois que colocou os fones foi que conseguiu dormir.
Na manhã seguinte, acordou tarde e ficou em seu quarto o dia inteiro, sem fazer nada, e continuou assim por alguns dias até que se cansou e finalmente resolveu sair do quarto, não esquecendo de trancá-lo e de guardar a chave dentro do bolso da calça que vestia.
Mesmo estando horrivelmente frio lá fora, dentro da Base até que fazia um clima agradável, não tão frio a ponto e congelar, mas sim, frio. Tanto que todos andavam de botas e luvas, alguns até com casacos.
A Base era grande, com uma ala onde ficavam os quartos, inclusive o seu, uma outra ala onde guardavam os suprimentos e também onde era a cozinha e sala de jantar, e ainda, outra ala somente para pesquisas, e era essa última que tomava grande parte do espaço da Base.
E era justamente nessa ala maior que Sirius não podia entrar.
Isso porque como ele não era um pesquisador, não lhe era permitido, e quando ele descobriu isso, tentando entrar numa das salas de um biólogo, foi barrado, e na mesma hora que começaram um bate-boca, seu pai apareceu e lhe tirou dali.
-Ah, ora ora, olha só quem apareceu! Achei que estivesse morto em seu quarto, mas acho que não errei quando duvidei que tinha trago alguns lanches consigo, não é?-Disse Liam, puxando o filho para um dos cantos.
-O que você quer?! Mas que porra, seria melhor se eu morresse logo! Não tem nada para fazer por aqui, o que estava pensando quando meu trouxe, seu velho estúpido?!-Exclamou Sirius, chamando a atenção de alguns geólogos que passavam por ali.
-Foi por isso mesmo que eu lhe trouxe. A calma desse lugar vai lhe fazer bem, confie em mim. Agora, porque não vai tomar um banho? Está fedendo. Ah, e ainda é cedo, você pode dar uma passeada lá fora, mas volte antes de escurecer senão vai acabar se perdendo.-Disse o mais velho antes de se virar e desaparecer, dando um último aceno.
Sirius resmungou, mas cheirou a própria camisa. É, realmente estava fedendo.
Os banheiros ficavam no fundo da ala dos quartos, e por serem banheiros coletivos, havia um para homens e outro para mulheres, além de um pequeno ambulatório. Sirius passou em seu quarto e pegou algumas roupas, rumando direto para o banheiro, e tomou um banho rápido porque mesmo a água sendo quente, ainda fazia muito frio.
Vestiu-se, esfregando as mãos para conseguir mais calor, e voltou ao quarto para guardar o restante das coisas. Não teria nada para fazer ali dentro, e uma vez que era permitido sair, quem sabe não fosse de todo um mal respirar ar fresco e... Tirar algumas fotos escondido.
Pegou a máquina fotográfica e a colocou dentro de uma bolsa reserva, assim como outra barra de chocolate e outras coisas que talvez fosse precisar lá fora. Cinco minutos depois estava deixando a Base sem avisar a ninguém.
Era cedo, tratando-se do tempo, mas mesmo sendo cedo, todo o lugar era um tanto escuro caso fosse comparado com o litoral aonde crescera. E como constatara desde antes, só tinha gelo, gelo e mais gelo por ali, até onde sua vista alcançava, em todas as direções. Um azul e branco sem fim.
“Bem, deve haver algo pra fotografar aqui”, deu de ombros e se pôs a andar, apertando o casaco contra si.
Durante a primeira meia hora de caminhada, tratou de checar tudo ao seu redor, procurando algo que não fosse neve, mas dificilmente encontrava. Memorizara para que direção ficava a Base, e como tinha uma bússola jogada em algum lugar da bolsa, não tinha como se perder.
Uma hora, uma hora e meia e finalmente duas horas de caminhada. Por causa do ambiente frio, não suava tão quanto deveria suar, mas já estava esgotado de cansado. Parou e sentou-se num pequeno monte de gelo, descansando as pernas.
O sol ainda nem chegara ao topo do céu, o que significava que ele ainda tinha bastante tempo para rodando por aí, já que era a única coisa que fizera até aquele momento. Suspirou, emburrado. Se soubesse que o tédio do lado de fora era tão grande, talvez maior, quanto no lado de dentro, jamais teria saído.
Vagou seus olhos por todo o horizonte, tirando uma pequena garrafa d'água de dentro da bolsa e dando alguns goles, até que seus orbes negros pararam numa mancha escura entre o gelo, uma mancha grande.
Pôs-se de pé, a curiosidade e a esperança de volta.
-O que diabos é aquilo...?-Perguntou-se, pondo a bolsa de volta nas costas e correndo até lá, o cansaço já não lhe incomodando tanto.
A mancha estava mais distante do que pensara, mas não demorou a chegar lá. Não era uma mancha, era uma espécie de caverna camuflada, coberta de neve, mas ainda com a entrada desobstruída.
Se aproximou, olhando em volta. Não parecia ser uma caverna comum, já que não havia nenhuma outra por perto. Adentrou-a então, passando a mão pelas paredes enquanto a outra já segurava a máquina fotográfica.
Dentro da caverna era ainda mais frio do que fora, uma coisa mais úmida e abafada, além do constante som de gotas de água caindo em alguma poça. Estalactites e estalagmites se espalhavam por todo teto e chão do lugar, o que dava um ar mais sinistro. Nada de animais, nenhum sinal vida.
Tirou algumas fotos e voltou a abaixar a máquina, agora um tanto entendiado enquanto adentrava mais a caverna. Achava que que talvez encontrasse algo mais interessante do que simples pedras e mais gelo, tendo cuidado ao pisar porque em muitos lugares, a camada de gelo deixava mais escorregadio e...
-Ah!-Gritou, caindo e escorregando no que parecia mais ser um tobogã natural. Deslizava sobre o gelo em alta velocidade, cada vez mais dentro daquela caverna escura, e mesmo tentando se segurar no quer que fosse, não conseguia, só gelo tinha ali.
Então de repente tudo ficou claro, o que o fez ficar cego por alguns instantes, e ele parou, caindo de cara noutro monte de neve, a bolsa caindo há alguns metros dali. Levantou-se, xingando alto e massageando a cabeça, olhando ao redor e imediatamente esquecendo a raiva.
Estava numa espécie de clareira rodeada por montanhas altas, uma clareira grande, extensa, claro que coberta de neve e parecendo ser acessível somente pela caverna da qual acabara de sair. Mas este não era o fato mais importante.
Árvores altas, sem folhas, mas com galhos que se estendiam, fortes, para todos os lados, enfestavam toda aquela clareira. Porém estas não era árvores comuns. Ao invés de serem de madeira, eram de gelo, cristal, o que fazia muitas delas serem transparentes ou então brancas, mas nem por isso era fracas, e sim pareciam ser bastante resistentes.
Mesmo assim, nem esse era o fato mais importante de todos.
Havia alguém, ou alguma coisa, dormindo num dos galhos mais altos da árvore mais próxima, aquela que Sirius agora estava de frente. Dormia tão serenamente que parecia ser um só com a árvore, com o gelo, com o inverno dali.
O que era estranho porque era impossível existirem árvores daquela forma, com aquela cor, em um lugar tão inóspito quanto aquele, muito menos existir uma pessoa, porque ele realmente tinha a forma de uma pessoa, mas os longos cabelos brancos como a neve pareciam negar aquele fato, assim como as levíssimas roupas também brancas. Ele não sentia frio?
Se aproximou mais um pouco, tocando de leve a árvore, realmente sentindo sua superfície fria porém grossa. Sabia que aquela árvore estava viva, que respirava. Tudo aquilo era um tanto fascinante demais.
-Caramba...-Murmurou sem pensar, recuando alguns passos para pegar a máquina fotográfica de dentro da bolsa, mas quando voltou-se novamente para a árvore, a pessoa que estava dormindo nos galhos agora o fitava com intensos olhos azuis profundos como um mar congelado, frios, gélidos, duros.
-Vá embora daqui, humano.
E então ele desceu da árvore com um pulo, caindo sem ruído algum, quase como se flutuasse, no chão, a expressão vaga porém hostil.
-Hey, quem é você...-Começou, mas logo foi surpreendido com uma foice que tinha aparecido de algum lugar e que agora tinha a lâmina rente ao seu pescoço.
-Eu mandei ir embora.-Disse o outro, a voz cortante.
-Hey, calma aí! Quer me matar?! Está ficando louco, seu...
Mas antes que terminasse, o de cabelos brancos se aproximou rapidamente e lhe chutou bem no peito, fazendo com que caísse no chão ruidosamente, espalhando mais neve nas roupas.
-Eu avisei, moleque.
Notas finais
Críticas, sugestões ou qualquer coisa, você pode mandar uma review ♥
Kisses e até próxima sexta/sábado ♥
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