— Pega a bola – dizia um garotinho de aproximadamente sete anos, o outro corria em direção ao meio da rua, onde a bola se encontrava.

Por um momento, Ashley fixou seu olhar nas crianças e não pôde conter o susto quando uma BMW preta avançava em direção à criança.

— O-oh – disse ela, ao perceber que o garotinho não teria chances contra um carro em alta velocidade.

Ficou imóvel, alternando o olhar entre o carro e o garoto, pousou os olhos no garoto, que provavelmente teria apenas mais alguns segundos de vida e, antes que ela pudesse piscar um vulto pegou a criança e a afastou do meio da rua; a bola que ainda estava no mesmo lugar, foi esmagada pelos pneus da BMW e o garotinho agora estava ao lado de um adolescente de 18 anos que dava um sermão nele.

Sem entender, Ashley apertou os olhos, de cima da janela ela podia perceber que o adolescente que acabara de salvar o garotinho era bonito, ao menos visto de longe.

O adolescente se afastava dos meninos, parecia calmo, como se fizesse isso todos os dias.

Ainda sentada na janela, tentando entender o que havia acontecido minutos atrás, Ashley tentava se focar no trabalho, mas seus pensamentos não permitiam. Tentou fazer seu trabalho novamente, mas não conseguiu. Levantou-se rapidamente da janela, ignorou quaisquer chances de terminar o trabalho de literatura até amanhã e foi para a sala.

— Aonde vai, Ashley? Terminou seu trabalho?

— Sim, mãe – mentiu com um sorriso no rosto, Isabela sorriu de volta para a filha.

— Mãe, você viu dois meninos jogando bola ali na frente? – Ashley olhava distraída pela janela, sem perceber que sua mãe não estava mais na sala.

— Disse algo? – Isabela gritou da cozinha.

— Nada.

A garota de cabelos escuros e pele branca respirou três vezes, sentindo o impulso de ir até a porta e sair; não, isso é alucinação, Ashley não teria coragem, então baixou os ombros e sentou no sofá, exausta.

Sem noção de tempo, Ashley apenas olhou além dos quadros repletos de paisagens e formas abstratas que estavam pendurados nas paredes da casa dos Campbell e cochilou.

Ela estava debaixo de uma grande árvore, caíam frutas roxas parecidas com uvas e que manchavam a grama verde, mas Ashley não sabia o nome daquelas frutas, o lago com águas verdes transparentes dava ao lugar uma linda aparência, havia peixes transitando agitados pelas águas e uma fruta caiu na cabeça de Ashley. Levando a mão até a fruta, ela tirou da cabeça, então ouviu passos…

O telefone tocou, a imagem do lago foi substituída pelos quadros e Ashley esfregou os olhos castanhos escuros, olhou para os lados, ninguém atendeu, então estendeu o braço até o aparelho que estava sobre a mesinha entre os dois sofás e atendeu.

— Oi, senhora Campbell? – uma voz familiar gritou do outro lado da linha.

Ashley afastou o aparelho dos ouvidos até que a voz ficasse mais baixa, então tornou a encostar.

— Oi, Lucy – disse reconhecendo a voz da amiga, sua única amiga.

Ashley poderia ter muitos amigos, mas fechava-se e não permitia relações com quase nenhuma pessoa, porém, o jeito insistente de Lucy não deu alternativa à garota senão aceitar sua amizade, o que de fato era bom para Ashley. Mas Lucy não era o tipo de pessoa que Ashley imaginava como sua melhor amiga, Lucy era divertida, extravagante, vivia sorrindo e transmitia sua loucura e felicidade ao que estava ao seu lado, uma garota realmente adorável; bastava ignorar o lado festeiro e obsecado dela.

— Ashley, você não vai acreditar – gritou do outro lado da linha, aparentemente muito feliz, como sempre.

— Fale baixo, não sou surda – Ashley conseguiu gritar mais que a amiga, antes que Lucy começasse a surtar contando a tal novidade.

— O.k. Então, prepare-se, por que eu vou dar uma festa, e não é uma festa qualquer, é uma festa romântica, para as garotinhas de Sell Jackson encontrarem o par perfeito… SIIIIIIIIIM – tornou a gritar – você está incluída na lista de convidados, assim como milhões de garotos bonitões e solteirões – e por último, antes de parar para respirar, Lucy deu uma gargalhada tão alta que Ashley podia jurar que ouviu não apenas pelo telefone, mas do outro lado da rua, onde Lucy morava.

— Pare de gritar, os vizinhos vão te achar louca – falou irritada – eu não quero achar um par romântico.

— Ah, tudo bem, eu já imaginava. Mas não pense que vai fugir da responsabilidade de comparecer a esta festa, vai ser o assunto mais comentado durante uma semana na escola, e eu não aceito negações.

— Quando vai ser essa festa?

— Próximo sábado, baby. Eu vou fazer uma decoração maravilhosa, sobre vampiros, quando você pensa em romance, não lhe vem à cabeça um belo par de presas e uma garotinha indefesa? Pois bem, eu acho que isso será a chave que abrirá minha entrada para a garota mais invejada da pequena cidade de Sell.

— Lucy, não delira. Ninguém gosta de ter seu pescoço rasgado por um par de presas.

— Estou indo aí – ela disse ignorando o que Ashley falou e desligando o telefone.

— Quem era? – Isabela perguntou, estava sentada na poltrona, como ela havia parado ali sem Ashley perceber ela não sabia.

— Lucy, ela vai dar uma festa – colocou o telefone novamente no suporte do aparelho – sobre vampiros, e eu terei que ir.

— Vampiros? – por um segundo, Ashley jurou que viu pavor nos olhos da mãe, mas quando aquele pavor foi substituído por uma risada baixa Ashley nem se deu o trabalho de perguntar se a mãe tinha medo de ficções.

— Sim. Está vindo aqui, acho que quer falar sobre a tal festa… Ela está empolgada.

— E você? Está empolgada? – era o sonho de Isabela que um dia sua filha se interessasse por algo normal, que não fosse ocupar o tempo desenhando navios e qualquer tipo de coisa que se encontra em um mar.

— Não – respondeu rápido – creio que eu não tenha saída, Lucy sempre foi muito atenciosa comigo… Eu não teria essa paciência.

— Você é bem difícil, meu amor. Mas não há nada de errado com isso… Vamos, deixe-me ver como está o seu trabalho?

Isabela sempre gostou de literatura, por isso quando a filha tinha um trabalho sobre tal matéria, ela ficava empolgada em ajudar.

— Bom… Não ficou muito bom, acho melhor deixar lá. Eu vou modificar um pouco hoje e mais tarde te mostro – disse tentando fazer com que a mãe não insistisse no trabalho que Ashley mal começou a fazer.

Isabela assentiu e levantou da poltrona, a campainha tocou nesse instante, então Ashley nem levantou, esperou que a mãe abrisse a porta e cumprimentasse Lucy, então, só depois de Isabela já ter ido para a cozinha que Lucy sentou-se no sofá e fixou os olhos na roupa de Ashley.

— Você está de pijama? – Lucy falou pasma.

— Estou em casa. Então, o que você quer que eu faça?

— Preciso de ajuda com a decoração… Mas nem pense em mudar o tema, será sobre vampiros. Todos amam vampiros, vampiros são o assunto mais comentado do século, eu agradeço de joelhos a Bram, meu ídolo.

— Certo, mas eu não sei nada sobre vampiros.

— Só o que precisas fazer é desenhar um garoto bonito com presas, preciso de um modelo de vampiro para colocar no grande pôster que vai ter na entrada, e nada melhor do que uma amiga que desenha muito bem pra fazer isso, concorda?

— Eu faço, mas não hoje, tenho um trabalho de literatura para terminar e ainda não comecei.

— Temos uma semana, só não atrase muito, eu tenho que mandar fazer ainda.

A tarde foi longa e cansativa para Ashley, Lucy falava demais e Ashley apenas concordava com a cabeça a cada detalhe que ela inventava de por na tal festa. Quando o sol estava se pondo Lucy resolveu que estava tarde e foi para a casa, deixando Ashley e o seu dever de literatura.

Não demorou muito para a garota escolher um bom enredo para a história que teria de inventar, de no mínimo doze páginas e com letra cursiva, Ashley fez um bom trabalho, mas nunca fora boa com a pontuação, então após terminar a história sobre um cavaleiro que colhia frutas roxas – ideia que ela havia tirado do seu sonho – entregou o trabalho para sua mãe, que corrigiu tudo com muito apresso e elogiou a criatividade da filha.

A noite estava bonita, da janela do quarto Ashley via a lua iluminando a rua mais movimentava de Sell Jackson e as estrelas enfeitando o céu que estava limpo de nuvens; a janela do vizinho, que era bem próxima à janela de Ashley, estava aberta e uma longa cortina branca voava para fora, Ashley se viu em frente a uma bela paisagem e um desejo imenso de desenhar o que via lhe veio. Pegando uma folha de ofício, um lápis e uma borracha, a garota fez os primeiros traços que compunham a paisagem e iniciou um desenho que ficaria maravilhoso, segundo suas intenções.

Quando levantou a cabeça para olhar mais uma vez a paisagem, viu um par de olhos vermelhos e uma movimentação estranha na janela do vizinho, ela recuou o corpo para trás e jogou o papel de lado, tornou a olhar a janela e os olhos haviam sumido. Mais alucinações, ela pensou, estava ficando maluca.

Novamente o lago, as frutas caindo, e o momento dos passos, Ashley se levantou, estava com a roupa suja de manchas roxas por conta das frutas redondas; quando procurou a origem dos passos, deparou-se com uma imagem bonita, ainda mais bonita que os peixes do lindo lago incolor, esverdeado pelas sombras das árvores. Era um cavalo, propriamente um pônei, o pelo branco, liso, um lindo rabo bem escovado e olhos grandes e brilhantes, o animal comia as frutas roxas de uma árvore igual a que Ashley estava sentada há poucos segundos; o cavalo olhou para a garota, naquele olhar ela pôde sentir a respiração em câmera lenta, o cheiro ainda mais forte da natureza, ouviu o bater de asas de uma borboleta e por fim o barulho da água que antes parecia tão silenciosa batendo nas grandes pedras ao longe. Virou-se novamente, estava agora vendo sua imagem refletida no lago, os cabelos bagunçados, os olhos avermelhados de cansaço, a pela branca se confundindo com as nadadeiras dos peixes coloridos e a calça, assim como a blusa, repleta de manchas roxas.

A janela estava aberta e a claridade que o nascer do sol provocava acordou a garota que vivia o mais belo sonho que já teve, parecia tão real, todos os sentidos que foram ativados ao olhar para aquele cavalo branco ainda provocavam certo conforto nela. Ergueu os dois braços para cima e espichou o corpo o máximo que pôde, acompanhado por um grande bocejo sem som. Levantou da cama e foi até a janela, os pés descalços sentindo o chão gelado, era um inverno frio, um dos mais frios que Sell Jackson já vivera; Ashley olhou para a janela do vizinho, a lembrança daqueles olhos vermelhos, confundida com a lembrança dos olhos grandes e pretos do cavalo fez com que ela se arrepiasse e abraçasse o próprio corpo.

Então lembrou que ali o sol nascia às seis horas da manhã, o que indicava seu horário de tomar banho, se arrumar e ir para o colégio, ouvir besteiras da boca de Lucy e enfrentar a fila do bebedouro. Ashley se afastou da janela, foi até seu guarda roupa e pegou toalha para se secar após o banho, entrou no banheiro e ligou o chuveiro, ouvindo a água cair e bater no tapete de plástico que havia ali para evitar tombos. Após o banho rápido por conta do frio, Ashley saiu do banheiro e sentiu mais uma vez seu corpo arrepiar-se, entrava uma grande frente fria pela janela, o que a fez imediatamente se dirigir a ela e fechar, antes ela espiou mais uma vez a casa do vizinho, nada.

— Estudos comprovam que adolescentes que namoram são mais felizes, veja – Lucy falava um pouco alto demais naquele horário da manhã, enquanto caminhavam, ela e Ashley em direção à instituição de ensino de Sell.

— Não quero um namorado – dizia Ashley já pela terceira vez naquele mesmo dia, irritada pela persistência no assunto – olha, Lucy, eu acho que se você gosta tanto dessa coisa de namorar, devia providenciar um namorado pra você, e não para mim.

Lucy revirou os olhos, abriu a boca pra falar algo, mas desistiu assim que chegaram ao colégio Sell Tooly, o qual nenhuma das duas entendia o nome, apenas a parte de “Sell”, que é, por um acaso, o nome da cidade.

— Você viu os cartazes que eu vou colar no mural da Tooly hoje? – Lucy ia tirando uma pilha de papéis amarrotados de dentro da bolsa vermelha.

— Hum? Pra quê?

— Vou divulgar minha grande festa, vai ser um arraso você verá… Muitas garotas com vestidos longos e garotos de ternos, flores nas cabeças e nos bolsos de smokings.

Ashley não disse nada, estava bom o bastante saber de todas aquelas informações sobre a tal festa de casais. Avistou seu banco, tão solitário, como sempre, ninguém ousava sentar-se nele, diziam as bocas fofoqueiras de Tooly que ali assombrava o espírito de uma garota que foi morta no colégio, isso tudo era besteira para Ashley, então, seu banco a chamava como o mel chama a abelha. Ela se dirigiu a ele e assim que se sentou mais da metade das pessoas que ali estavam fofocaram entre si apontando e olhando para ela.

As aulas foram como sempre, alunos intrigados com os professores pelos textos grandes, entrega de trabalhos e mais trabalhos a serem feitos, no final de todo o período diário de segunda feira, a cabeça de Ashley latejava de dor e seus olhos queriam se fechar e sonhar mais uma vez com aquele cavalo, com toda a paz que ele lhe trazia.

Lucy ficaria na escola até mais tarde para espalhar por aí seus panfletos e distribuir convites entre os estudantes da tarde, Ashley agradeceu por ir sozinha para casa e poder pensar um pouco, não somente nos olhos do cavalo, mas no olho vermelho da janela e principalmente no estranho acontecimento com os garotinhos e aquele adolescente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.