Coração é terra que ninguém vê
5 Um inegável despertar de sentidos
Capítulo 5. Um inegável despertar de sentidos
— Nem se Hades me condenasse à danação eterna no Tártaro, Kal... – esbravejou Diana, enfurecida. – O que o leva a crer que eu me envolveria em qualquer tipo de ‘negócio’ envolvendo Bruce Wayne? Ainda mais, sob a infame e humilhante prerrogativa de me apresentar como uma de suas amantes? Você tem ideia do nível incalculável de absurdo contido no que está me propondo?
— Diana, está mais do que claro para os 7 bilhões de habitantes do mundo que você e o Bruce não se dão bem, para ser minimanete gentil. Mas tanto eu, quanto ele, acreditamos que você poderia deixar as inimizades de lado pelo menos neste momento?! – Ponderou firmemente o escoteiro, escorado desleixadamente à porta do dormitório – Você não vê que isso é mais importante que eu, você ou ele?! Mais importante que nossas desavenças pessoais?! – Ressaltou, tentando acalmar os ânimos de Diana e levá-la a reflexão. – Além do mais, você mais do que ninguém, deveria pressupor a gravidade da situação a ponto, primeiro: do Bruce pedir ajuda e, segundo:, incluir você nos planos.
Diana não respondeu de imediato. Virou-se de costas para o interlocutor, com a graça e a leveza necessárias para demonstrar que não era uma atitude desrespeitosa, na tentativa de encerrar a conversa. Apesar de irritada, dirigiu-se devagar até a janela de seu quarto, afastando-se de Clark. Cruzou os braços com força e contraiu a mandíbula de forma instintiva, porque era lá que sua raiva se concentrava.
Forçou-se a contemplar a vista para o parque e avistou a lagoa, banhada pelos últimos raios de sol do dia enquanto realizava seu trajeto ao coração e à mente, para perdi-lhes a iluminação necessária na condução de suas atitudes. Contraiu os lábios em sinal de dor, respondendo às primeiras imagens que coração e mente combinados lhe remeteram... Percebeu-se contrair ainda mais os músculos por todo corpo, à medida que pensamentos, lembranças aceleraram os processos em sua mente, adicionados às sensações de medo, insegurança e frustração que seu coração emanava ao rememorar aquilo que ela escondera até de si mesma com tanta dificuldade, depois de tanto sofrimento.
Clark continuou parado na porta, pacientemente aguardando que ela ao menos lhe dissesse algo, fosse um pedido de tempo para pensar, fosse uma resposta definitiva. Ele conhecia Diana, sabia que ela refazer-se quando perdia seu equilíbrio emocional ou precisava tomar decisões difíceis. Mas, acima de tudo, sabia que, especialmente nos momentos em que se encontrava em conflito interno – quando coração e mente divergiam – ela precisava dele depois de tomado seu tempo consigo mesma.
Ele também sabia como ela se sentia, só de olhar em seus olhos, mesmo quando suas palavras lhe diziam o contrário. Para bem da verdade, é fato que sua superaudição lhe conferia a capacidade de atestar mudanças no ritmo cardíaco dentre outras alterações fisiológicas que facilitavam sua leitura do comportamento das pessoas (E ele percebeu notadamente o coração acelerado de Diana, a respiração ligeiramente alterada, os punhos fechados por uma fração de segundos, antes dos braços serem elevados à posição cruzada). Mas acima disso, a habilidade afável de seu coração para com a humanidade, especialmente no que diz repeito aos seus amigos, lhe conferiam um ‘dom’ que o possibilitava perceber os sentimentos que cada um deles projetava, antes mesmo de qualquer leitura feita pelos sentidos meta-humanos que possuía. Então, ele sabia, em seu coração que aquilo era muito mais profundo que uma reação descontente dela ao ser chamada para uma missão com Bruce.
Para bem da verdade, combinados ambos os ‘dons’, era praticamente impossível que o homem de aço não percebesse que havia algo errado, muito embora Batman e Shayera tivesse uma capacidade de interpretar, perceber e ler as pessoas de forma mais precisa e profunda, mesmo sem superaudição e corações sensíveis. Além disso, quando se tratava, especificamente, de Diana, Bruce e Lois, essas percepções nas mudanças de humor era ainda mais evidentes, no sentido de que estas eram as pessoas que ele mais conhecia e amava, bem como seus pais e Kara.
Clark estava convicto: Havia de fato algo errado entre Bruce e Diana. Algo muito errado! Contudo não se gabou da conclusão, visto que para qualquer um que os visse durante uma das suas inúmeras demonstrações de DESafeto um pelo outro, perceberia que havia algo errado. Até o mais desatendo dos seres-humanos seria capaz de perceber que a relação agressiva, desdenhosa e provocativa – no pior dos sentidos – entre Bruce e Diana guardava um indicativo óbvio de que não era antipatia pura e simples. Ninguém tinha certeza se eles notavam os olhares ao redor deles, os cochichos ou, em várias situações, as risadas. Ninguém sabia ao certo se eles notavam que todo mundo se perguntava ‘o que há com esses dois?’.
Mas eles não pareciam afetados às interferências dos olhares externos. Assim como reconhecidamente acontece com casais imensa e verdadeiramente apaixonados, eles sempre se mostravam alheios ao mundo em seu redor, concentrados apenas em si mesmos, e na sua missão de se digladiarem. Era absurdamente intimidante para quem quer que fosse vê-los olhando-se nos olhos com fome, agressividade e rancor... não era bonito. Era desconcertante e desconfortável. Uma briga de egos, entre duas pessoas teimosas, carregados de uma necessidade irracional de promover a dor do outro, com palavras e atitudes, sem qualquer indicativo de remorso.
Com o tempo, seus amigos mais próximos aprenderam a conviver com isso, deixando de se inconformar com Bruce e Diana durante suas batalhas infantis. Deixaram inclusive de acreditar que tudo isso era algum tipo de paixão desmedida que, por teimosia, eles não se permitiam viver e provocava tais faíscas... Acabaram por acreditar que eles realmente se detestavam em um nível irrevogável de conciliação.
O que Bruce e Diana não sabiam é que há três anos havia um banco de apostas na Universidade de Metrópolis que pagaria uma fortuna (tendo em vista o número de apostadores e o tempo de duração) a quem provasse que eles teriam um caso ou que estariam romântica ou sexualmente ligados.
Mas para sorte de ambos, apesar das desconfianças e especulações, a ‘leitura’ que as pessoas faziam deles era superficial demais para conferirem a mínima aproximação da verdade. Uma verdade que apenas eles conheciam... e que, apesar de toda mágoa, de toda dor e de toda raiva resultante em seus corações, nunca fora revelada – e ambos, intimamente, sabiam disso. Como se, de alguma forma seus corações, veladamente, por meio de um silêncio consciente, lhes instruísse a guardar este segredo para si. Como se fosse o último presente de um para com o outro... como se fosse o último laço que os ligava, que nenhum fora capaz de quebrar.
(...)
Diana observava o lago, do alto da janela... Os braços ainda cruzados em torno de si já não traziam mais a tensão dos músculos provocada pela raiva. Decerto não estavam relaxados – mesmo porque, não haveria nenhuma possibilidade de relaxamento diante da situação. Ela sabia que Kal ainda estava na porta. Sua paciência sempre fora admirável para com ela. Ele a entendia como poucos. Na verdade, apenas um par de pessoas no mundo era capaz de entendê-la: sua mãe, Kal-El e Bruce...
Ela já não estava mais com raiva naquele momento... Percebeu de imediato que foi uma decisão acertada tomar um tempo para si antes de vomitar suas frustrações em seu amigo Kal. Primeiro porque seu melhor amigo não merecia ouvir qualquer tipo de desaforo, mesmo se direcionado à outra pessoa, mas acima disso, porque ela sempre manteve sua postura ético e justo no tratamento das pessoas.
Diana apresentava traços de muito fortes de personalidade, mas também absurdamente conflituosos: era doce e feroz; sensível e inquebrável; imensamente forte, porém absolutamente frágil. E embora a combinação de traços contraditórios ao ponto de não permitir uma combinação para personalidade que não remetesse à loucura, inexplicavelmente, na amazona, não apenas se combinavam com harmonia, como se complementavam e a tornaram a criatura mais extraordinariamente apaixonante do mundo.
Talvez fosse justamente essa combinação de opostos sentimentos que a tornaram um ser transparente, embaixadora da Verdade. Porque Diana era um livro aberto... um extravagantemente belo, admirável e cativante livro aberto. Era, sem dúvida, uma brochura rara, um exemplar único, sem cópias. Um livro notadamente escrito à mão, ao qual conclusivamente se interpretava o nível de capricho e dedicação de quem o escreveu, devido à perfeição sublime de seus traços. Um tipo de beleza que não agride, que não se insulta por inveja ou ciúme, mas que apenas se admira, como se sua mera contemplação fosse uma oração silenciosa aos seus deuses gregos-olimpianos, em agradecimento por dar ao mundo tal oportunidade de contemplar uma obra-viva-de-arte.
Para aqueles que tomaram conhecimento da forma como ela fora concebida, é quase impossível não acreditar em sua inacreditável origem... A beleza de Diana, jamais vista em qualquer outra mortal, por mais bela que fosse, tornava crível a história de que fora moldada a partir do barro. Via-se, nos lábios cuja carne era tão formosamente simétricos na forma, que pareciam desenhados à mãos; bem como a precisão inexplicável das curvas de seu corpo, admiravelmente equilibrado na disposição daquilo que seriam músculos e naquilo que continham porções deliciosamente presentes de carne. Não havia excessos em NADA nela, que não fossem as belezas que ela carregava em si mesma: na aparência e no coração!
Tudo fazia crer que sua origem viera mesmo das mãos caprichosas e talentosas de sua majestade, Hipólita, que chorosa, após a vergonha de ter falhado com os deuses em sua missão, também acrescentava à sua dor, um coração partido por um amor que lhe custara a vida de tantas irmãs, numa guerra que teve sua participação indireta.
Para seus amigos, tornara-se fácil aceitar que Diana era fruto do amor e da esperança de Hopólita de pôr fim à sua solidão. Era fácil crer que ela era fruto dos sentimentos mais profundos de afeto, compaixão e fé de sua mãe. Além disso, também para eles, especialmente Bruce e Clark, observá-la, em tais momentos, serena, contemplativa e totalmente domada por seus pensamentos, lhe conferia o que eles consideravam o momento em que podiam ter acesso aos seus traços de forma mais precisa.
Era precisamente nessas horas que rosto assumia uma forma ‘relaxada’ e distante, como se os pensamentos a levassem para longe e deixassem o corpo inerte para observação. Independente da gravidade ou leveza da situação. Ela sempre se perdia em si mesma e se mantinha inerte, exceto pela expressão irresistível de seus olhos que, quando abertos, eram janelas que permitem a interpretação do tipo de sentimento que ela está experimentando: alegria, dor, dúvida, medo, etc. Os olhos eram a chave para interpretar Diana, indubitavelmente... Por isso mesmo, ela aprendera a se proteger das interpretações desviando o olhar, fechando as pálpebras ou saindo do campo de visão quando alguém estava perto.
(...)
Kent esperou pacientemente ao lado da porta por aproximadamente 20 minutos. O que para ele não fora nenhum incômodo, visto que em um dado momento, após a passagem de Dinah pelo corredor, aproveitou para estabelecer um diálogo breve com ela a respeito de Ollie e questionar se ela tinha conhecimento dos motivos que o levaram a sumir repentinamente, a tal ponto de tornar-se ‘invisível’ até para Bruce, que há meses tentava localizá-lo a pedido de sua irmã.
Para Diana, o tempo parecia uma eternidade, dada a infinidade de coisas que passaram em sua mente na velocidade da luz. Os minutos lhe fizeram repensar suas escolhas, os danos que elas causaram, a real possibilidade de aprofundar o dano ou resgatar aquilo que de bom foram outrora construído entre ela e Bruce. O tempo a obrigou a aceitar que estava com medo, porque não tinha certeza NENHUMA das probabilidades. Não havia como raciocinar se as chances de dar certo eram maiores ou menores que as chances de dar errado... Os minutos se passaram trazendo à sua mente tantas lembranças, tantas dúvidas, tanto medo, que acabaram por deixar a mente turva, ao invés de levarem-na ao bom conselho que seu dom, concedido por Athena (deusa da sabedoria), notadamente se lhe conceberia.
Entretanto, agindo totalmente em desacordo com seu modos operandi de só tomar decisões difíceis depois de estar segura sobre elas, tomou por bem desvencilhar-se de seus pensamentos e voltar de vez à realidade. Diana fechou brevemente os olhos, enquanto fazia uma breve oração aos deuses que lhe regem, muito mais para encontrar força para encarar as consequências de sua decisão, que por devoção ou respeito às crenças religiosas que tanto lhe são caras.
Voltou-se, já de olhos abertos, em direção à porta de seu dormitório, confirmando aquilo que instintivamente supunha: seu amigo Kal ainda estava lá, à sua espera. E Diana sabia que ele, também intuitivamente, pelos anos de amizade íntima adquiridos entre ambos, sabia que não precisaria dar-lhe um tempo sozinha para pensar, e que teria sua resposta depois de um dado momento.
De repente, ela soltou um suspiro suave, porém profundo... Sentando-se na cama e libertando-se calmamente das tensões musculares que o corpo apresentou pelo que parecia um sentimento de raiva tão veemente, que não podia ser simplesmente adquirido agora, pela proposta do kryptoniano. A força das contrações da mandíbula, o fechamento imediato dos punhos – mesmo que por um mísero instante – a pressão exercida nos braços cruzados, tudo levava a crer que havia muito mais ali do que ela iria admitir.
Aos poucos, Diana mostrou-se relativamente calma, dirigindo-se ao amigo de forma tranquila e com um tom de voz normal. Mostrando-se não apenas disposta a ouvir, como também, para quem bem a conhece, assumindo sua inequívoca postura de quando se dispõe a ajudar quem quer que seja.
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