Coração é terra que ninguém vê
40 Quer casar comigo?
Notas iniciais
*** Gotham, noite de sexta ***
Mulher Maravilha cruzou o céu da noite de Gotham como uma águia, deslizando com a ajuda da brisa da noite. Ela passou pela estátua Lady Gotham e imperiosa imagem da justiça, cega e justa.
Tudo que seu coração queria era vê-lo mais uma vez, seu Cavaleiro escuro e protetor da cidade, mesmo que fosse de longe. Só para ter a certeza de que ele estava em segurança.
O coração apertado estava em prantos. Os olhos azuis escurecidos por uma dor inominável, que a deixou com frio. Ela abraçou a si mesma, como se buscasse aquecer-se e confortar-se.
Diana não sabia que ele tinha conhecimento de sua presença, mas Oráculo sempre o mantinha informado sobre o aparecimento de ‘metas’ em sua cidade. Para Bruce, era um sinal claro de que ela ainda o amava o suficiente para fazer uma série de visitas anônimas. Na verdade, ela o amava ainda mais agora e isso é que ele não sabia.
Diana suspirou e chorou, sentada na borda em um prédio da cidade escura, lembrando a decisão que acabara de tomar. Ela orou aos deuses... Tudo que ela desejava agora era ter o coração em paz. Nada mais!
*** Nova York, noite de quinta-feira ***
Eles estavam sentados sobre a toalha xadrez, com a cesta de piquenique ao lado deles. As taças de vinho recém-tiradas da cesta, pães, queijos, frutas, bolo, tudo bem à mostra. Era uma bela tarde no Central Parque, onde Tom Tresser e Diana de Themyscira admiravam a vista.
De repente, uma menina que beirava não mais que 6 anos se aproximou deles. Ela segurava uma boneca Barbie na versão da Mulher Maravilha e passou alguns minutos olhando e sorrindo para Diana. Thomas e a princesa olhavam encantados para a pequena menina de cabelos escuros encaracolados, morena, de olhos castanhos brilhantes.
— Já pensou se nós um dia... bom... se um dia nós tivermos filhos? – Tom parecia tímido.
— Nós nem nos casamos, Tom. – Diana tentou mudar de assunto.
— Isso não quer dizer que não podemos. – Ele persistiu.
Ela sorriu com os olhos cheios d’água. Tom tomou isso como um indício de que estava emocionada, mas ele não sabia é que ela lembrava de uma semana atrás, quando esteve na batcaverna. Em seu coração havia um buraco, que parecia se abrir mais a cada vez que ela punha os olhos em Bruce.
A doce menina continuava olhando pra eles e Diana fez um sinal para ela vir até eles. A pequena sorriu com um brilho imenso nos olhos.
— Qual o seu nome? – Perguntou Tresser
— Meu nome é Myrian. Você é marido da Mulher Maravilha? – Ela arregalou os olhos.
Diana sentiu um certo desconforto e Thomas riu com a falta de pudores da criança, tão ingênua.
— Não, querida – Diana respondeu. – Este é Tom, meu namorado!
A pequena mostrou a boneca e brincou com eles. De longe, sua mãe e irmãos – que também estavam no parque, olhavam a cena e sorriam.
— Por que vocês não se casam? – Myriam perguntou. – Mamãe diz quando as pessoas se casam, elas podem ter bebês!
— Ei... eu não pedi pra ela dizer nada disso! – Tom levantou as mãos em sinal de rendição.
— Eu sei, Tom... eu sei!
— Mas, eu acho que ela tem razão. Nós podíamos ter bebês e nos casarmos. O que você acha? – Tom resolveu arriscar, olhando para ela com os olhos cheios de esperança e amor.
Diana não pode conter-se e um rio de lágrimas começou a escorrer de seus olhos. Ela abraçou Thomas por tanto tempo que deixou sua camisa encharcara. Aquele choro não era emocionado. Estava carregado de dor, de raiva, de angústia, de dúvidas. Mas quando ela viu os olhos cor de mel de Thomas Tresser, ela sentiu o amor de um homem por ela. Genuíno, livre, desembaraçado, pronto para amá-la, sem reservas, sem traições, sem mentiras. Ela o amava... ela percebeu isso.
Não como Bruce, não havia paixão. Mas havia amor e isso lhe bastava. Ela precisava se libertar. Então ela disse:
— Talvez seja uma boa idéia... Eu aceito!
(...)
Retrospectivamente, Diana percebeu que sua principal razão em se casar com Tom era a perspectiva de um casamento feliz onde eles poderiam passar as noites tranquilas num sofá em frente à lareira com sua filha (o) entre eles. Vendo aquela garotinha e o modo como Thomas a tratou, ela teve uma perspectiva do que poderia ser uma vida ao lado dele: tranquilidade, paz, carinho, afeto.
Ela foi sincera consigo mesma antes de responder. Bruce Wayne, o homem que ela amava verdadeiramente, com que ela imaginou ter filhos e viver sua vida, não estava mais disponível. Seu coração estava miúdo, não porque agora Bruce estava comprometido, mas porque ela sonhava em gerar um filho dele.
Em uma fração de segundo, Diana foi lembrada, com uma pontada de tristeza, que seu amigo e amor agora tinha responsabilidades outras que não apenas Gotham City e sua missão. E na outra extremidade do espectro, havia Tom Tresser, seu namorado. Um homem com um coração de ouro que sempre esteve ao seu lado, tentando aliviar sua dor melhor maneira que podia. Apesar de suas falhas e um pouco de rudeza, ele sempre esteve lá, cuidando dela.
E ela foi sincera com ela mesma, apesar de tudo: Nêmesis não era Bruce Wayne. Ele não tinha os traços enigmáticos de Bruce, ou sua capacidade de atordoá-la só de olhar para ela. Mas ele podia fazê-la feliz. No fundo, Tom era um homem tradicional que ansiava por uma vida estável com a família.
E naquela tarde, com o coração ferido pela derrota, olhando para Tom e a pequena Myrian, Diana encontrou motivo suficiente para considerar tagarelice aleatória de uma criança em prol de um projeto de futuro sério.
*** Gotham, semana anterior ***
Diana sempre deu preferência por entrar pela porta da frente da mansão. Alfred era um aliado em sua batalha pelo coração de Bruce e também seu amigo e ela gostava de vê-lo antes de falar com Bruce, até mesmo para ter ciência de como estava seu humor – ou falta dele. Mas neste dia, especificamente, ela decidiu que a melhor linha de ação era transportar-se diretamente para batcaverna. Ela queria falar com Bruce, sabia que lá ele não escaparia da conversa definitiva que ela pensava em ter. Eles deviam isso um ao outro, já que vinham ‘dançando’ em torno de si mesmos sem razão para tal.
Ela queria saber o que acontecera na mansão entre eles há um mês atrás, quando ela acordou em sua cama. Mas ele se recusava a dizer. Parecia haver um tristeza em seus olhos e ele continuava a não admitir que havia algo errado, fugindo dela tanto quanto fosse possível. Até ontem, quando ele a beijou, furiosamente e sem sentido, quando ela quase foi atingida mortalmente por uma bala disparada furtivamente pelo pistoleiro. Era um beijo de dor, de saudade, de apelo, de fome, de amor, paixão... um beijo sedento e raivoso, mas acima de tudo: completamente apaixonado!
Ao chegar à caverna, logo sentiu o contraste súbito da umidade do ar fresco da caverna, versus a atmosfera perfeitamente controlada do clima da Watchtower. Havia um cheio de produtos de limpeza (‘limão’, ela pensou), mas também algo mais, que ela não identificara de imediato. Até chegar a cadeira de couro, em frente à estação do computador principal...
Era cheiro de sexo e perfume caro...
— Jasmim e rosas? – a voz começou a ronronar sedutora – Se eu fosse você, investia em algo mais adulto, meu bem. Seduzir um homem com uma coisa tão infantil não vai funcionar.
Diana não estava preparada para a visão da Mulher Gato vestindo nada além de um sorriso lascivo e uma camisa com as iniciais BW. Imediatamente lhe invadira a esmagadora vontade de vomitar e chorar ao mesmo tempo. ‘Por que eu deveria ficar com ciúmes dessa mulher?’, ela perguntou a si mesma, mas seus pensamentos não conseguiam se concatenar para responder. Sua lógica ditava que ela não deveria estar zangada com ela, mas seu coração pedia que ela atacasse com violência desmedida. Ela não o fez!
— Onde ele está? – Diana se esforçou para manter qualquer traço de emoção para fora da voz. A gata já está olhando para ela com alegria, como um sinal de vantagem e vitória.
— Bruce está lá em cima com Alfred, resolvendo algumas coisas importantes. – Selina respondeu.
O som do nome dele vindo de seus lábios enjoou Diana quase tanto quanto a percepção de quem ela e Bruce haviam feito amor naquela caverna.
— Sabe querida, eu preciso lhe dizer: Não vai dar certo entre vocês! Sabe por quê? Você está num pedestal alto demais... Eu e ele não. Nós somos iguais. Somos almas gêmeas. Somos o espelho um do outro! – Selina diz, como se conhecesse os pensamentos de Diana, enquanto a cadeira gira para trás para enfrentar o monitor gigante.
Diana continua emudecida e Selina continua: – Ele realmente tem uma coisa com mulheres com cabelo preto, não é? – Ela soa triste e Diana percebe. – Incomoda a você saber que ele nunca vai se contentar com apenas uma mulher?
— E ele não terá que se contentar... Já que você está disposta a se lançar sobre ele sempre que estiver no cio. – Ela estava com raiva e foi rude, se arrependendo do que dissera. Por um breve momento ela pensa em pedir desculpas, mas a sensação de queimação do laço em sua coxa mostra que ela não estava arrependida do que disse. Ela estava com ciúme!
— Mee-ow! Parece-me que você está bem ferida, não baby? Não importa, eu sei que apenas uma vai ficar aqui e este alguém SOU EU. Bruce precisa de mim, somos amigos e amantes há muito tempo. Nós podemos ter nossas diferenças, mas agora eu sou o único que pode lembrá-lo do que é uma mulher, uma mulher de verdade. Ser mulher é apenas um emprego esporádico pra você. – Selina usou toda sua experiência para afastar Diana.
— Olhe pra você, alteza, vestida nesse uniforme sujo. Usando perfume sobre o suor de uma batalha. Você não deve se cuidar, ser feminina, tudo que você sabe é como manejar um escudo e uma espada. Quando Bruce está comigo, eu estou mais do que feliz ser uma mulher para ele: Langerie de seda, perfume caro, jazz, amor, sexo bem feito, sedução garantida. Você está muito ocupada salvando o mundo para ter um momento para ele, apenas para dar-lhe carinho, sentar em seu colo, correr os dedos pelo cabelo, e amá-lo como ele precisa ser amado!
Diana permanece em silêncio, recusando-se a dar a ela, ou o homem à espreita nas sombras, a satisfação de testemunhar quão profundamente suas palavras a machucaram. Ela queria gritar que poderia fazer isso, mas tudo que conseguiu foi manter a cabeça erguida enquanto lutava contra as lágrimas que se acumulavam no fundo dos olhos.
— Selina, espere por mim lá em cima. – Bruce bradou.
Diana viu a ansiedade no rosto de Selina quando Bruce se aproximou. Ela não era tão confiante do seu papel na vida de Bruce como deixou que Diana acreditasse. Havia traços de bem-querer e amor nos olhos de Bruce por ela, mas não era o fogo apaixonado que ela vira dirigido a ela.
— O que está fazendo aqui, Diana? – Ele diz.
‘Diana, não princesa’, aquilo magoou seu coração. Ele parecia frio e distante.
— Eu queria conversar. Mas vejo que você está ‘ocupado’ – Ela foi sarcástica em seu comentário.
— Sim, eu estou e você deveria ter avisado que viria.
— O que aconteceu, Bruce? Por que tudo isso? Porque você me beijou como se me amasse a gora me trata como se eu fosse uma inimiga? – A mágoa na sua voz não poderia ser disfarçada.
— Tudo mudou... Eu e Selina estamos juntos, Diana!
Ela não respondeu, mas não conteve as lágrimas. Toda sua força foi usada para manter a cabeça erguida.
— Eu espero que você seja realmente feliz, Bruce... muito. Mas uma ladra? Por que? Eu não entendo... Vocês têm uma história...
— Ela está grávida! – Ele a interrompeu bruscamente
Diana ficou paralisada. Ela perdeu. Acabou! Aceitar a derrota seria o mais prudente. Ela não disse nada e simplesmente se afastou, voando devagar, em direção a saída. Ela não conseguia voar em alta velocidade por mais que quisesse. Tampouco queria ser teletransportada no estado em que seu coração estava.
— Adeus, Bruce! – Ela disse, ainda de costas.
Ela não viu o olhar de dor dele. Ela não viu seu coração esmagado. Ela não viu seu arrependimento. Não viu ele estender a mão para tocá-la uma última vez.
Tudo que ele sussurrou para si mesmo foi ‘princesa’, como a purgação última de um cavaleiro solitário!
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