Coração é terra que ninguém vê
29 O mestre dos disfarces
Notas iniciais
Desconfiança
Esse foi o comentário de Nêmesis sobre Diana Prince, em sua primeira semana de trabalho ao seu lado. Desde o primeiro encontro, o homem tinha demonstrado abertamente que não estava confortável com a presença dela, a mais nova recruta do Departamento de Assuntos Meta-humanos (DMA). Um homem sarcástico e um tanto rude, Thomas Tresser não escondia sua preferência pela política de 'trabalhar sozinho’ e não teria deixado Diana ajudá-lo em absolutamente nada, não fosse por insistência do Sargento Steel. É claro que, mais tarde, ele se deu conta de que Diana Prince era a Mulher Maravilha, a heroína da Liga da Justiça.
Diana Prince trabalhou com Nêmesis em muitos casos. Ao contrário de sua primeira impressão dela, Tom acabou por ser um bom parceiro. Ele gostava da companhia de Diana, estava disposto a ouvir suas ideias, mesmo depois de várias discussões acaloradas entre eles. Ela não era uma novata nesse tipo de causa. Afinal, ela estava acostumada a discutir com o Batman.
Lenta, mas seguramente, Nêmesis percebeu que Diana era a parceira ideal. Além de muito divertida, ela era inteligente, sexy e espirituosa. Diana sempre tinha observações mordazes sobre muitas das coisas que ele fazia, mas isso não o incomodava. Ao contrário, ele a admirava cada vez mais.
No entanto, uma vez que ele percebeu que sua parceira também era a Mulher Maravilha, Tom percebeu que era apenas uma questão de tempo até Diana voltar ao seu habitat natural de trabalho com as causas humanitárias e ambientais, além da diplomacia internacional, em vez de lidar com essas questões "mundanas" como registro de meta-humanos.
Diana Prince aos poucos foi deixando o Departamento de Assuntos meta-humanos e assumindo a posição de embaixadora da paz, com a ajuda de Bruce Wayne, com quem tinha vários compromissos de filantropia em Gotham, dentre outras cidades em vários lugares do mundo, como América do Sul, Central, África e Ásia. Pelo que Nêmesis soube, Bruce Wayne financiou a construção da grande maioria das sedes e das co-agências que representavam a Fundação que levava o nome da amazona, em prol de mulheres e crianças em situação de violência e das questões ambientais.
Certo dia, quando Diana iria inaugurar a fundação Mulher Maravilha em Gotham, Tom recebeu com entusiasmo o convite para festa de inauguração. No momento em que chegou ao local, viu o jardim cheio de gente. Os anos de experiência de Nêmesis como o mestre dos disfarces (tanto no Esquadrão Suicida, como no DMA) o permitiu reconhecer vários heróis fora de seus trajes. Haviam também socialites e endinheirados de Gotham presentes.
Depois de servir-se de uma bebida, ele ficou de braços cruzados no canto do jardim, olhando encantado para Diana, enquanto ela fazia seu discurso. Girando seu copo de vinho, Tom sorria enquanto ela falava. Era a criatura mais bonita que ele já vira. Uma ovação de pé logo foi exibida quando Diana encerrou seu discurso dizendo que “um dia a Terra triunfaria como uma comunidade internacional pacífica”. Ela ficou no pódio por um tempo, iluminada pelas luzes da noite, falhando miseravelmente em segurar as lágrimas de alegria.
Tom permaneceu até a cerimônia terminar. Ele ouviu Superman expressar sua gratidão pelo que a Mulher Maravilha estava fazendo pelas mulheres e crianças de Gotham, bem como a Bruce Wayne, que estava sentado ao lado de Diana na fila da frente, por suas contribuições. Nêmesis sabia que o bilionário sempre estava ao lado dela nesses eventos e não conseguia descartar a pontada inexplicável de ciúme que sentia desse homem. Especialmente ao ver como o sorriso de Diana sempre se expandia quando ela estava na presença do playboy notório.
Ele tentou falar com ela a noite inteira, mas não fora possível. Ele sabia que um anfitrião dificilmente teria tempo pra falar com todo mundo e se contentou apenas em vê-la de longe. Nêmesis já estava de saída quando ouviu uma voz suave vindo por trás dele.
— Não me diga que você já vai me deixar sem nem ao menos me dizer olá, Tom?! – Ela sorria radiante.
Nemesis sorriu, e virou-se para encará-la: – Olá, Prince. – Ela estava vestida com um manto cerimonial amazônico branco, bela e serena como a Lua acima dela – Ou eu já posso chamá-la de Senhora Embaixadora?
— Você pode me chamar do que quiser, Tom. Mas você sabe que eu prefiro Diana – Ela disse, piscando.
Tom sorriu, ele amava o sorriso dela, seu espírito entusiástico, sua suavidade, tudo.
— Eu pensei que estivesse ocupado com alguma missão e não viria me ver hoje. – Ela disse com certa tristeza na voz.
— Eu não perderia isso por nada no mundo, Prince. – Ele disse calmamente. Na verdade, sua única razão para vir foi que ele temia que esta seria a última vez que iria vê-la. Ela havia deixado o DMA e ele queria despedir-se com a linda imagem dela e sua mente.
Como se estivesse lendo a mente dele, ela tocou sua mão com suavidade e carinho. – Tom, você não vai me esquecer, não é? Prometa que virá me ver quando não estiver em missão?!
— Eu não sei, Prince. – Ele deu de ombros, tentando não parecer entusiasmado – Eu tenho muitas missões, você sabe?! Você está se mudando pra Nova York, eu não sei se teremos contato freqüente como antes. Especialmente agora com o Esquadrão Suicida. Weller está no meu pé... Mas Sargento Steel ou Batman sabem onde me encontrar. É só falar com eles! – Tom viu quando Diana suspirou – Por falar nisso, onde está o Batman?
— Ele está... patrulhando, em Gotham. Sua cidade sempre em primeiro lugar. Você o conhece – Ela sorriu, olhando para a multidão.
Tom levantou uma sobrancelha: – Ah, sim... Eu tenho que ir agora. Washington vem em primeiro lugar para Nêmesis.
Ela riu: – Sim ... eu sei , Tom! Eu vou sentir saudades.
Ele deu um beijo em seu rosto e se afastou, com as mãos enfiadas nos bolsos. A poucos passos de distância, virou-se automaticamente para obter um último vislumbre da mulher que dominava seus sonhos e encontrou-a falando com Bruce Wayne. Ambos sorriam e se olhavam com um olhar incandescente. Nêmesis apertou a mandíbula e saiu cabisbaixo. Ele tentou convencer-se que não estava com inveja de Wayne.
Depois daquele dia, Nêmesis acompanhava Diana diariamente nos jornais. Ele ainda tinha a esperança de sair em missão com ela ou cruzar com Diana em uma das suas. Ele sempre pedia ao Batman notícias sobre ela e mantinha os olhos em tudo que dizia respeito à Mulher Maravilha através de relatórios do DMA, que Weller o obrigava a acompanhar, ou em vários canais de notícias que pareciam adorá-la. Ele ouviu os relatos na TV sobre a primeira missão intergaláctica da Liga, onde ela lutou em parceria com o Lanterna Verde, Superman, Batman e Mulher-Gavião.
Ele ouviu seu discurso durante a abertura do mais recente projeto da Fundação Mulher Maravilha no Zimbábue, sobre um sistema de irrigação para terra árida, que fora transmitido ao vivo pela CNN. Ele também encontrou-a em colunas de fofocas, que falavam de sua participação em bailes oferecidos para arrecadar dinheiro para instituições de caridade locais e nacionais, a maioria deles em Gotham City. Muitas de suas fotos em Gotham, Metrópoles ou Nova York eram ao lado de Bruce Wayne. Nemesis estava começando a pensar que o playboy tinha um interesse genuíno na princesa e ela correspondia o sentimento. Isso partiu seu coração.
Então, de repente, ela desapareceu das colunas de fofocas. E ele não sabia o porquê!
(...)
—Mestre Bruce, eu imagino que o senhor não esteja com ânimo para eventos, mas Bruce Wayne não tem sido tão presente em quaisquer reuniões sociais nestas últimas semanas. Alguns meios de comunicação tem inventado muitas histórias ao seu respeito, senhor. Eu acredito que o senhor precise fazer algo a respeito e com a devida publicidade exacerbada em seu ‘retorno’ aos tablóides! – Alfred proferiu seu discurso.
Bruce não frequentava bailes ou reuniões sociais a cerca de três semanas por causa do seu envolvimento com a Liga. Ele também havia sido ferido em Gotham, numa luta com o Coringa, onde Harley quase quebrou seu joelho com uma marreta.
Bruce fez uma careta: – O que a imprensa diz, Alfred?
— Bem, senhor. Por enquanto, apenas os tablóides menos respeitáveis dizem que o senhor levou uma surra da Mulher Maravilha ao tentar cortejá-la para participar de uma de suas orgias. Há os que dizem que o senhor é gay. E outros que insinuam que o senhor tem ligações com o Morcego. Sugiro que o senhor atraia a atenção de forma bem evidente, senhor! – Foi a recomendação de Alfred.
— Que inferno! – Bruce odiava sua farsa como o playboy. – Alguma sugestão?
— Há uma noite de gala hoje em Gotham para arrecadar fundos para o Departamento de Polícia, mestre Bruce. O senhor é convidado VIP do Comissário Gordon e acho que o senhor deveria levar alguém que criasse um burburinho ao acompanhá-lo. – Alfred esboçou o que seria um sorriso – Eu acredito que o Mestre Kent ou Miss Lane podem ser úteis para restabelecer sua má reputação.
—Está bem, meu velho – Bruce respondeu – Eu direi mais tarde quem eu devo levar comigo.
Ele observou o homem mais velho subir a escada até a casa principal. Era necessário, mas ele não queria dar um show para a sociedade e a imprensa de Gotham. Já era difícil fazê-lo quando ele só tinha de conversar por alguns minutos em uma festa, mas agora, para garantir a publicidade necessária, ele teria que ficar mais tempo. Então ele teve uma idéia que atrairia muita atenção e o credenciaria ainda mais como um playboy irresponsável. Ele pegou o telefone com sua linha segura, integrada ao computador da caverna e deu o comando de voz para realizar a ligação:
— Olá, minha querida! Eu preciso de um favor. Você tem planos para esta noite?
(...)
Alfred dirigia o clássico Rolls-Royce pelas ruas de Gotham. Bruce estava sozinho no banco de trás com sua acompanhante. Eles passaram os primeiros minutos em silêncio, enquanto a mente de Bruce voltou imediatamente ao que ele tinha consumido ao longo dos últimos dias – O Coringa!
— Sua aparência está péssima, Bruce. Você parece não dormir há um mês.
Com o comentário, Bruce Wayne foi obrigado a quebrar o transe. Seus olhos, que antes estavam fixos no chão do carro, começaram uma migração para cima, quando ele fitou a mulher sentada ao seu lado. Seu olhar viajou lentamente, atrasando o contato visual e a conversa posterior que acarretaria a perda de sua pouca paciência para a noite. Ela parecia deslumbrante em um Valentino preto que deixou as pernas bem torneadas visíveis através da imensa fenda. Os olhos dele viajaram pelos contornos dela, dos pés, aos quadris, dos seios ao rosto.
— Encontrou alguma coisa que gosta, Bruce? – A voz dela ronronou sedutora.
Finalmente o olhar de playboy nivelou-se com seus grandes olhos verdes: – Você está linda como sempre, Selina.
— O vestido é bom, querido. Você tem bom gosto – Ela disse enquanto acariciava o material acetinado do vestido.
— Não fui eu. Foi Alfred! – Ele rebateu.
— Alfred? Estou surpresa por ele ter preparado algo tão lindo. Ele nunca fez questão de esconder que não gosta de mim – Selina fez beicinho.
— Ele nunca permitiria que a acompanhante de Bruce Wayne não estivesse vestida à altura dele, Selina. – Ele suspirou antes de continuar – Além disso, não é quem você é que o incomoda... É quem você não é.
— Own... que pena que a princesinha semi-deusa não está aqui, não é? – Bruce poderia dizer que ela estava curiosa do porque Diana não estava no lugar dela.
— Estou me perguntando por que estou aqui, Bruce. Você pode encontrar alguém com uma reputação bem melhor. Por que você precisa de mim para isso? Qualquer socialite idiota, modelo ou estrela de cinema seria uma companhia melhor – Selina cuspiu.
— Na verdade, você vai me ajudar a reviver a minha reputação de playboy idiota, justamente por ter a reputação que tem, Selina. Nada melhor para ganhar as primeiras páginas dos tablóides que levar uma ladra para um baile da polícia. Você não acha? – Bruce explicou – sem ofensas!
Ela começou a rir e depois o olhou com um olhar sedutor: – Há dias você não me procura, Bruce. Talvez eu precise de uma reciclagem sobre como é passar a noite com Bruce Wayne. Precisamos ser convincentes! – Ela disse com mais risos em sua voz. Ela lambeu os lábios e piscou para ele.
— Pare com isso, Selina – Ele respondeu severamente.
Ela revirou os olhos e suspirou: – Você se tornou tão chato. Onde está o seu senso de diversão?
Eles ficaram em silêncio durante o resto do percurso até entrar no Hotel Gotham, onde a festa de galas estava sendo realizada. Quando eles chegaram à entrada, Bruce desceu do carro com um sorriso cínico no rosto. Ele se virou e levou Selina pela mão, ajudando-a a sair do carro. Ela imediatamente adotou sua atitude "Eu sou uma menina má, mas você me ama mesmo assim". Uma horda de fotógrafos fez sua parte, tirando centenas de fotos.
Bruce passou por eles, enquanto Selina lhes deu um sorriso maroto quando ele a arrastou, ignorando as perguntas gritadas. Dentro, havia uma dúzia de membros da elite de televisão e mídia impressa que tinham sido convidados a participar, a fim de cobrir o evento.Por mais que Bruce Wayne era notório por carros velozes e mulheres mais rápidas, com Selina Kyle em seu braço ele gerou uma atenção significativa.
Fiel à sua forma de desdém com todas as suas acompanhantes, Bruce deixou Selina e começou a circular na sala cheia de membros do sistema judicial e policial. Ela também se virava bem e conversava com os advogados, juízes e policiais. Ela usou seu charme inato que os fez esquecer que ela era alguém muitas vezes no lado errado da lei. Ela parecia estar se divertindo. Um pouco demais, Bruce pensou!
Não muito tempo depois que chegaram Bruce já estava impaciente. Ele olhou ao redor da sala e viu Lois Lane conversando com vários outros membros da mídia perto do bar.
— Selina, minha querida, você gostaria outra bebida? – Perguntou ele, tomando-a pela mão e levando-a em direção ao bar e o grupo de jornalistas.
Quando eles se aproximaram, Lois olhou para Selina e lançou-lhe um olhar desconfiado para Bruce.
— Boa noite, Lois... Senhores – Disse Bruce: – Eu acredito que vocês conhecem minha companhia para esta noite?!
— Claro, ninguém poderia esquecer da Mulher Gato, Bruce – O tom de Lois era apropriadamente profissional, mas seu comportamento era gelado. Sua expressão refletiu sua desaprovação. Ela se ressentia por Bruce não estar com Diana e sim com esta mulher.
— Você parece bem, Lois. Bonita como sempre – Bruce arriscou um elogio.
— Gostaria de poder dizer o mesmo, Bruce – Ela respondeu, avaliando-o com um olhar de preocupação de que ele ignorou.
Um repórter do Metropolis News Channel virou-se para ele: – De volta às noites de prazer, Bruce?
— Sem dúvidas... a melhor amante, meu anjo da guarda! – Bruce ofereceu um sorriso irônico.
Ele puxou Selina perto e beijou a bochecha dela enquanto acariciava seu quadril. Selina respondeu com um olhar e um sorriso sedutor: – O prazer é todo meu, Bruce.
Ele se virou para Lois, que agora estava olhando para ele interrogativamente. Os olhos de Lois de repente se arregalaram quando ela se concentrou em algo atrás de Bruce. Ele virou a cabeça e imediatamente viu o que tinha chamado a atenção da jornalista.
Diana!
E ela tinha ouvido tudo!
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