Coração é terra que ninguém vê
15 Descoberta
Bruce olhou para deslumbrante morena deitada ao seu lado com os olhos ainda embriagados de desejo. Só então emitiu um longo suspiro, seguido de um discreto sorriso, experimentando um sentimento estranho que misturava alívio e satisfação. Em seguida, puxou-a para si e deu-se a saborear a inebriante sensação do corpo nu de Diana contra o seu.
Ela deitou a cabeça em seu peito, enquanto o acariciava, fazendo movimentos circulares e sutis com os dedos. Diana estava feliz. ‘Verdadeiramente feliz!’, ela pensou, sorrindo timidamente, enquanto encarava uma parede qualquer em frente à cama. E se Bruce fosse honesto consigo mesmo, ele poderia dizer que também estava. Pelo menos, naquele momento, naquele par de horas que se seguiram, com eles, abraçados. Nada importava... nem o passado, nem o futuro!
Mas este momento não duraria pra sempre e ambos sabiam disso. Havia uma missão a cumprir, haviam os anos acumulados de mágoa, encontros e desencontros. Havia o amanhã, trazendo-lhes à realidade dura de suas más escolhas e responsabilidades, que agora, provavelmente os separaria novamente. Ambos estavam cientes disso. Ambos estavam – cada um a seu modo – conscientes de que ESTE era o momento deles, a oportunidade que o destino estava lhes dando de consertar as coisas. Se não de forma definitiva, mas pelo menos, de modo que fossem capazes de juntar seus pedaços.
Podiam sentir espalhar-se por todo ambiente os aromas de sua realização sexual. Era uma mistura que concentrava a acidez dos suores, contrastando com o perfume suave e floral de Diana, a loção pós-barba de Bruce e o cheiro inconfundível dos líquidos da satisfação orgástica de ambos. ‘Pelos deuses, aquele cheiro era tão excitante’, foi o que Diana disse a si mesma. Era sua memória olfativa fazendo-a lembrar de suas noites de amor na mansão, desde que ela e Bruce haviam se amado pela primeira vez.
Eles então se olharam nos olhos, livres de receio e de medo. Seus corpos completamente nus formavam um emaranhado de braços e pernas estranhamente bem encaixados. De algum modo, eles conseguiram despertar a velha intimidade que tinham anos antes, quando eram capazes de dizer inúmeras coisas um ao outro sem emitir um único som que não fosse o de suas respirações profundas. E decidiram, nessa troca profunda de olhares, fazer um acordo silencioso entre eles, de não estragar aquele momento trazendo o passado à tona ou fazendo-se qualquer cobrança.
Foi quando Diana resolveu quebrar o silêncio:
— Bruce, você está bem? – perguntou, com preocupação. – Você está tão silencioso. Você gostou? Eu fiz algo errado?
— Não, Diana. Você não fez nada de errado. Foi tudo maravilhoso! – Ele respondeu.
— Por que você está tão silencioso há tanto tempo? – Ela insistiu.
— Diana, o fato é que eu não me sinto assim desde... bem, você sabe! – Bruce tentou escolher bem as palavras. – Eu sei que não posso me acostumar com isso. Nós dois sabemos!
Diana tentou esconder a frustração, mas entendeu suas razões. Deu-se apenas a manter-se feliz que eles estavam bem de novo. Sem brigas ou rusgas! Eles sorriram um para o outro por um segundo antes de Bruce dar-lhe um beijo suave na ponta do nariz. Diana se aconchegou contra ele ainda mais perto, então Bruce ouviu um suspiro agudo dela que ele sabia que era nada mais que a sinalização de algum problema.
— O que há de errado, Diana? – ele perguntou casualmente, esperando que a resposta fosse fácil, mas sabendo que com mulheres geralmente nunca é.
— Você sabe que precisamos sair daqui mais cedo ou mais tarde, Bruce?! E isso que temos agora entre nós... é complicado. Em que ponto estamos, Bruce? O que somos um pro outro agora? – Ela perguntou, com medo da resposta.
Bruce ficou quieto por um segundo antes de responder: – Eu sinceramente não sei, princesa. Vamos ver... Até ontem eu tinha umas 30 razões para não passar nem uma hora com você e agora, estamos nus e abraçados há um bom tempo. Então, quem sou eu pra determinar alguma coisa agora? – Bruce disse.
Diana considerou sua declaração e riu, fazendo cócegas em seu peito com o queixo, assumindo um relaxamento momentâneo.
— Você sabe, eu poderia me acostumar com isso! – Ela entregou-se a mais um abraço.
— Que tal um banho agora e depois saímos pra jantar? Clark e Lois já devem estar nos procurando! – Ele sugeriu, enquanto olhava para o relógio ao lado da cama.
Ele a beijou novamente, assumindo o controle imediato sobre ambos os corpos. Bruce colocou-se vigorosamente sobre ela, encarando-a com um olhar faminto e dominador. Ele sabia que tinha esse poder sobre ela, especialmente nos momentos de intimidade, mas precisava ter a certeza de que, mesmo depois de todos esses anos, esse sentimento ainda estava lá, cravado nos olhos de sua princesa... Ela era dele. Ela AINDA era dele e somente dele. Os brilhantes olhos azuis-turquesa de Diana nunca foram capazes de esconder a verdade dele.
Era, na verdade, a expressão honesta de sua satisfação plena, naquele momento. Seria hipocrisia negar seu desejo físico latente por ela. Ela era personagem constante de seus pensamentos mais libidinosos e de seus sonhos eróticos mais vivos e estimulantes. Mas não era só isso... Não era só a necessidade urgente de seu corpo para satisfação fisiológica ou para saciar o desejo sexual. Havia mais e ele sabia disso, mas não queria pensar em nada. Então levantou-se e deu a ela tempo para o banho. Sabia que se a acompanhasse, eles não iam sair daquela cabine.
(...)
Clark estava à frente do serviço de quarto, servindo um casal acomodado em uma cabine relativamente próxima a sala do controlador de bordo. Enquanto ele servia cordialmente os dois, tentava captar qualquer conversa suspeita nos arredores. Foi quando concentrou a frequência da superaudição nos sons que vinham da cabine do Capitão.
‘Alguma novidade?’ – perguntou o homem vestido com uma impecável farda branca.
‘Nada de novo, até agora’ – Respondeu o mais baixo, com a farda azul. – ‘Vamos manter o plano original (...) Você recebeu as coordenadas do ponto de coleta?’
‘Claro, Heron... Você acha que eu sou um amador?’ – Esbravejou.
‘Acho bom... você lembra o que ele fez com Nassir, não lembra? Ele não suporta deslizes’ – falou o moço de azul.
‘Não se preocupe. Estamos pontualmente dentro do prazo’ – revelou o mais alto. – ‘Estaremos no ponto de coleta em aproximadamente três horas, meia-hora antes do combinado’.
Clark arregalou os olhos. Ele sabia que tinha que encontrar Bruce e Diana o mais rápido possível. Em três horas os terroristas estariam à bordo.
(...)
Enquanto Diana estava no banho, Bruce acionou o comunicador auricular que estava dentro da gaveta da cômoda.
— Kent, o que conseguiu?
Clark não conseguiu evitar o susto ao ouvir a voz de Bruce.
— Como você faz isso? – ele respondeu com outra pergunta.
Bruce ficou em silêncio, esperando o escoteiro dar-lhe alguma pista sobre a que diabos ele estava se referindo.
— Como você sabia que eu queria falar com você nesse exato momento? – Ele perguntou, acreditando ingenuamente que Bruce havia se comunicado com ele na hora exata consciente de que ele tinha uma pista importante e não por coincidência.
— Bem... você sabe, Kent. Eu sou o Batman – Bruce respondeu, com o intimidante tom de voz barítono que ele empresta ao Cavaleiro das trevas e ficava aterrorizante combinado com o modulador de voz embutido no capuz.
— Muito engraçado, Bruce. – Clark respondeu sem muito entusiasmo, apesar da curiosidade imediata que o fato do amigo aparentemente estar de bom-humor lhe causou – Mas eu vou deixar as perguntas sobre o quê – ou quem, ele pensou – o fez ficar de bom-humor pra depois. Agora o mais importante é dizer que em três horas, os terroristas pretendem tomar o navio.
— Como você descobriu, Kent? – Bruce questionou, assumindo sua veia de detetive. – Me conte exatamente o que ouviu e como conseguiu a informação. Precisamos descartar qualquer probabilidade de que isto seja um ardil, uma informação falsa plantada para desviar possíveis interferências externas da ação criminosa real.
— Eu estou seguro que não é este o caso, Bruce. – Kent revelou – Era uma conversa particular, num ambiente restrito e os envolvidos estavam sozinhos. Só haviam duas pessoas na cabine principal de máquinas do Capitão. Toda tripulação de funcionários náuticos de comando e navegação estavam estranhamente ausentes. E, durante o período de orientação dos funcionários, que eu e Lois participamos, o responsável pela tripulação de serviço nos proibiu terminantemente de frequentar uma área específica do navio. Essa área é no corredor da cabine de controle náutico.
— Você conseguiu ver alguma coisa nesse corredor com a visão de raio-x? – Bruce perguntou esperançoso de que Clark tenha mais pistas.
— Infelizmente, nada de substancial – Ele lamentou. – Eles restringiram justamente a área de acesso mais difícil de ser burlada. Além disso, o corredor que eu estou permitido a frequentar mais próximo da parte restrita está a anos luz do local. Eu tento focar a visão ao máximo para atravessar paredes, mas a quantidade de suítes é gigantesca. E parte da área deve ter um revestimento à base de chumbo porque eu não consigo ver nada além das cabines de quartos. Eu dei sorte de ter conseguido me concentrar na frequência certa para ouvir o que eles conversaram na cabine.
— Muito tocante, Kent. Mas eu preciso de mais! – Bruce praguejou e Clark percebeu que o Batman acabara de assumir seu posto.
— Bem... Um deles perguntou se o outro tinhas as coordenadas de um tal ponto de coleta? E o outro respondeu que sim e que eles chegariam ao local combinado com meia-hora de antecipação. – Clark completou, sem ter certeza se era uma informação útil para Bruce.
— Está bem, Kent. – Bruce sinalizou – Volte para suas funções antes que desconfiem de algo e veja se Lois sabe de alguma coisa! Eu vou descobrir o que estão escondendo e depois entro em contato.
— Esta bem, Bruce. Tome cuidado! – Clark falou com preocupação genuína. – O que você pretende fazer pra entrar lá, Batman? Não dá pra entrar pelo lado de fora e nos corredores da frente, guardando a única entrada, há um total de 6 guardas que se revezam em turnos de 6h. Nem o Batman consegue ser tão furtivo e não chamar a atenção.
— O Batman não vai entrar lá, escoteiro. – Bruce lançou a resposta, soando enigmático para Clark. – Mas Bruce Wayne vai... Eu não posso correr o risco de alguém ver o Batman a bordo. Mesmo que remota, podem fazer uma conexão entre Bruce e Batman já que quase a totalidade da população é de velhos fora de forma. Além disso, se ele for identificado por alguém dentro do esquema é certo que quem está a frente das atividades terroristas será informado e deve abortar os planos. Não podemos perder a chance de descobrir quem está comandando esses delitos e o que essa pessoa pretende.
— Você está certo! – Bruce ouviu Kent dizer e não se conteve ao revirar os olhos: ‘Eu sempre estou’, ele disse a si mesmo. – Como Bruce Wayne vai entrar lá? – Clark insistiu.
— Diana! – Foi a única palavra que Bruce disse como resposta, deixando Clark ainda mais confuso. Mas ele sabia que era perda de tempo insistir. Bruce não diria mais nada... Ele já havia cedido seu lugar ao morcego detetive, mesmo não vestindo o traje do Caped Crusader.
Pela primeira vez, desde que vestira o manto do cavaleiro das trevas os papéis estariam invertidos. Agora era o morcego, o detetive, o Batman, que precisava vestir a máscara do playboy para salvar o dia.
Não havia no mundo uma maneira mais irônica da vida pregar-lhe uma peça!
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