Coração é terra que ninguém vê
41 Coração em pânico
Notas iniciais
♪ Please have mercy on me
Take it easy on my heart
Even though you don't mean to hurt me
You keep tearing me apart ♫
“Por favor, tenha misericórdia de mim
Vá com calma com o meu coração
Mesmo que não seja sua intenção me machucar
Você está acabando comigo”
(Shawn Mendes – Mercy)
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Bruce estava sentado ao lado de Selina na sala de cinema da mansão. Sua grande barriga de grávida denunciava os sete meses de gravidez. Depois de ouvir palestras e reclamações ávidas sobre sua ‘distância’ e insensibilidade com a situação dela e de sua filha, Bruce decidiu fazer-lhe companhia, dando-lhe a devida atenção.
Era uma tarde tranqüila em Gotham. Após o almoço com acionistas da Wayne Enterprises, Bruce foi para casa e encontrou Selina tirando um cochilo. Ele sorriu ao deparar-se com a imagem. Lembrou de como ela era talvez a melhor amiga que ele já tivera – mesmo com todas as diferenças entre eles – alguém que sempre teria seu afeto. A questão é: se ele sentia isso, por que o vazio perdurava em seu peito, devastando-o, como se o carcomesse de dentro pra fora? Por que não se sentia preenchido e feliz, quando finalmente teria a chance de formar uma família?
Ele limpou os pensamentos duvidosos e angustiantes e foi trocar-se, colocando algo mais confortável. Parado em frente ao imenso closet dominado quase absolutamente apenas pela cor escura de suas de peças, ele levou a mão ao coração. Algo dentro dele o estava incomodando e ele não fazia idéia do que era. O desconforto não fazia nenhum sentido.
Batman deveria estar ‘de serviço’ esta tarde no Sentinela, mas justamente para dar atenção à sua ‘namorada’ grávida, que ele vinha constantemente negligenciando em prol da Liga – ou pelo menos essa era a desculpa que ele dava a si mesmo – ele decidiu levar em conta os pedidos de Selina para ficar em casa e conseguiu que o Flash o substituísse.
‘Talvez fosse essa a causa do incômodo’, ele pensou. Para ele, que tem controle sobre absolutamente tudo, aquilo era desconfortável. ‘Talvez...’, ele murmurou para si mesmo, quando se aconchegou em frente a TV, ao lado de Selina.
— O que vamos ver? – ele tentou parecer interessado, mas falhou miseravelmente.
— Não sei. O que você quer assistir? – Ela disse, abrindo um sorriso sincero.
— Você realmente acha que eu sou a pessoa mais indicada para responder esta pergunta, Sel? – Bruce deu-lhe um sorriso honesto e relaxado, na medida do possível.
Selina foi pegar a pipoca, enquanto Bruce sintonizou o canal de notícias, por curiosidade, antes de ajustar o home theater.
‘A liga da justiça enfrenta problemas sérios com um incêndio em Córdoba. Flash e a Mulher Maravilha foram chamados e estão lidando com a situação, mais detalhes aqui, no Gotham TV News’, a repórter aparecia no canto da tela, enquanto imagens do fogo consumindo uma vila de casas e edifícios, sem piedade, se mostrava na imensa TV de plasma.
Bruce pôs-se imóvel, diante da TV. Não havia um único movimento feito por ele, exceto os punhos cerrados, que mostravam os nós dos dedos brancos, dada a força com a qual ele fechou o punho. Ele fechou brevemente os olhos, tentando reorganizar a mente e recuperar o controle.
‘Nossas fontes indicam que um agente químico, em um laboratório clandestino explodiu, dando início às explosões...’, a repórter continuava sua descrição dos fatos, enquanto imagens das ações dos heróis, feitas por cinegrafistas a partir de helicópteros que sobrevoavam a área, eram mostradas.
Selina observou a cena com apreensão. Ela viu o corpo de Bruce retesado e duro. Seus olhos arregalados e a respiração ofegante. Ela o conhecia bem demais para identificar os sinais evidentes da culpa que começava a povoar seus pensamentos.
— Desligue isso, Bruce. Vamos ver outra coisa. Eles podem lidar com essa bobagem. Um incêndio bobo não vai prejudicar a Liga. Vamos...
Antes que ela pudesse terminar, ele rosnou: – Não... toque... nesse... controle...
‘A Mulher Maravilha está transportando galões de produtos químicos para longe da área, para evitar que o fogo se alastre...’, o canal de notícias mostrava Diana coberta de fuligem, transportando os barris. O coração de Bruce apertou quando seu rosto foi mostrado em close. A testa levemente franzida, os lábios ainda vermelhos, o rosto bonito quer ele amava.
‘Eu devia estar lá’, seu pensamento martelava seu coração ainda mais.
Selina se aconchegou ao lado dele, ainda observando a tela, tentando dar-lhe algum conforto. Ele obrigou-se a relaxar e envolveu um braço em volta dela, puxando-a para mais perto, mas ela grunhiu com a força do ‘golpe’, afastando-se um pouco. Ele a apertou com força demais.
— Calma, Bruce! – Ela passou a mão no braço, friccionando-o.
Ele ativou o comunicador auricular para o canal de comunicação aberto da Liga, para ouvir o que estava acontecendo in loco.
Vários minutos se passaram enquanto ele acompanhava as imagens na TV e ouvia os sons dos gritos, explosões e interações entre Wally e Diana pelo comunicador.
‘Você tá bem, Di?’, Wally perguntou.
‘Sim, eu estou bem, Flash. Mas está muito, muito quente deste lado. Você já levou todos os moradores a um lugar seguro?’, a princesa perguntou.
‘Já levei, mas ainda faltam alguns dos tonéis com produtos químicos para serem levados para fora do galpão’, o velocista escarlate frisou.
‘Eu pego o que falta... agora saia daqui, Flash. Saia agora!’, ela ordenou.
Bruce rosnou. Ele deveria estar lá. Ele teria dado uma solução rápida: usar um helicóptero do exército para transporte aéreo de produtos químicos. O problema não eram só as explosões, mas a fumaça tóxica que poderia enfraquecê-los e Bruce pensou que quanto mais longe daquela fumaça os heróis tivessem, melhor. Nenhum deles pensou em maneiras "normais" de lidar com a situação. E ele estava furioso por não estar no comando da operação.
De repente, ele puxou todo ar dos pulmões: A TV mostrou os detalhes quando os barris que Diana transportava explodiram, pegando-a em cheio. Até a câmera balançou com a onda de choque, mas foi possível ver a chama esverdeada se formando em meio ao céu. Ele viu perfeitamente o corpo da Mulher Maravilha ser arremessado, como se ela fosse uma boneca de pano, para o precipício. Para seu desespero, o foco foi perfeito na tentativa de mostrá-la caindo, desacordada.
Flash correu como um louco atrás dela. Bruce sentou-se, mudo, esperando ver algo na TV ou ouvir alguma coisa no comunicador. Ele não conseguia respirar. Ele sequer conseguia pensar. Era como um Blackout de todos os seus sentidos e dos neurônios.
— Vamos, Diana, vamos lá. Vamos, princesa... não me deixe! – Ele não se importava em falar em voz alta.
— Você está bem? – Selina derramou a pipoca, preocupada com ele.
Ele a ignorou e se levantou, tentando controlar sua vontade de viajar para a Argentina imediatamente.
‘Você está bem, Wondy? Wondy, responde. Por favor! Responde!’, disse o Flash em um tom que sugeria que ela não estava.
— Pare de falar e salve ela, pelo amor de Deus, seu idiota! – Bruce gritou no comunicador. – Vamos, Flash, Vamos! Faça o que for preciso. FAÇA LOGO!! – Bruce gritava sem se importar com seu comportamento.
Bruce ouviu o som de entulhos sendo removidos, como se alguém estivesse cavando desesperadamente. Ele ouviu o choro de Wally, e baixou a cabeça, sustentando-a entre as mãos e cobrindo o rosto, tentando não se desesperar.
Silêncio.... silêncio... silêncio.
Menos de um minuto se passaram, mas pareciam horas. A televisão continuava mostrando o fogo e a repórter no estúdio dizia que o estado de saúde da Mulher Maravilha era desconhecido.
— Bruce, não é sua culpa! – Selina tentou confortá-lo, mas ele não parecia ouvir.
‘Não deveria ter acontecido. Eu não deveria ter deixado meu posto. Ela não deveria estar lá sem mim. Ele devia ter ficado... Era meu trabalho. Eu terria corrigido isso e ela não estaria machucada. Eu devia estar lá... é minha culpa’. Era tudo que o Caped Crusader sentia naquele momento.
"Inicie o transporte de emergência médica”, a voz de J'onn quebrou o silêncio. Bruce ainda estava angustiado porque não ouviu o relatório imediato sobre o estado de saúde dela. O protocolo, nesses casos, era assumir o pior. Os entulhos ainda estavam sendo tirados e o choro do Flash ainda podia ser ouvido, mas, de repente, ele ouviu um chiado baixinho que parecia um sorriso tímido de Wally.
“Ela ta respirando. A Wondy ta respirando”, ele vibrou, com a mulher em seus braços e Bruce ouviu tudo pelo comunicador.
Bruce respirou aliviado e Selina percebeu que algo de ‘bom’ teria acontecido. Então sentiu-se confortável para argumentar:
— Pelo amor de Deus, Bruce, você parecia que ia ter um ataque cardíaco. Sente-se.
Bruce olhou para ela completamente aborto por seus pensamentos. Ele sequer ouvira as palavras proferidas pela Catwoman, tudo que ele fez foi seguir em direção à caverna. Ele quase colidiu com Alfred, que estava de pé, na porta da sala, após ouvir os gritos de Bruce. Alfred conhecia aquele som. Era típico de quando ele tinha pesadelos.
Quando ele agarrou Bruce pelo braço, dando-lhe um tipo de aceno de conforto, Bruce tinha uma aparência ‘normal’, mas Alfred viu seus olhos: escuros, frenéticos e sem foco.
— Ela foi arremessada em um penhasco depois de uma explosão, Alfred – disse Bruce, quase sussurrando para seu mordomo e figura paterna.
— Tenho certeza que ela está bem, senhor – respondeu Alfred, orando que estivesse certo.
Bruce assentiu, mas seus olhos ainda estavam apavorados. Sua mente parecia ir em 20 direções diferentes, avaliando possibilidades.
— É claro... – disse ele, vagamente. Então, voltou-se para olhar nos olhos de Alfred. – Se eu a amasse o suficiente para estar lá, isso nunca teria acontecido. Eu me sinto um miserável!
Bruce Wayne estava tentando, sem sucesso, obter o controle de seus pensamentos. Alfred ouviu o clique do painel do relógio do avô, quando Bruce foi para a Batcaverna. Alfred fechou os olhos por um momento e reuniu seus pensamentos novamente para cumprir suas atribuições: Em primeiro lugar, miss Kyle.
Alfred adentrou imediatamente à sala de home theater, onde Selina estava de pé, em estado de choque, segurando um utensílio meio vazio com a pipoca que se derramou no chão.
No ecrã da televisão atrás dela, ele viu a Mulher Maravilha sendo levada nos braços do Flash, desacordada, para o topo do penhasco e, em seguida, um clarão de luz os fez desaparecer. Alfred sentiu uma onda de alívio vendo que o rosto do velocista não estava de todo preocupado.
— Ele estava em pânico, Alfred – disse ela, meio confusa. – Aterrorizado mesmo. Eu pensei que ele ia tentar saltar sobre a televisão para chegar lá! – havia uma pitada de melancolia que Alfred logo captou em sua voz.
— Mestre Bruce tem muitas coisas em sua mente, miss Kyle. Não se preocupe. Eu vou ajudá-la a descansar e limpar esta bagunça – Alfred foi suave.
Selina assentiu e saiu da sala. Alfred começou a limpar tudo e sentiu uma onda de simpatia por quem cruzasse o caminho do Batman hoje. Não haveria chances para os bandidos de Gotham esta noite.
(...)
Bruce estava de pé, no canto escuro da enfermaria, observando a princesa inconsciente, deitada na cama hospitalar. A respiração dela era tranqüila e suave. Os cabelos estavam esparramados sobre o travesseiro e os lençóis brancos e ele sorriu para si mesmo tentando imaginar com que ela estava sonhando.
O Caped Crusader não era médico, mas ele era um especialista paramédico. Ele fez questão de acompanhar J'onn durante os exames pulmonares de Diana. Até o momento, J'onn e Clark tinham realizado um by-pass cardiopulmonar e localizaram coágulos sanguíneos que estavam entupindo artérias, desfazendo imediatamente os nódulos, fazendo-a respirar melhor.
Thomas Tresser estava sentado do outro lado da sala, ao lado dela, segurando o rosto entre as mãos e, deixando um pouco do ciúme de lado, Bruce sentiu pena do homem desesperado. Ele sabia exatamente o que ele estava sentindo. Ele partilhava a mesma dor. Bruce suprimiu seu ciúme por causa de seu desejo de ver Diana feliz. Afinal, Diana merecia isso mais do que ninguém. No entanto, por mais que tentasse, ele nunca foi capaz de estar verdadeiramente satisfeito com seu relacionamento. Ele percebeu que ele estava ressentido, exibindo muitas vezes uma postura tola devido a sua inveja.
Desesperadamente, agora que ele tinha ‘uma família’, Bruce esperava que todos os seus sentimentos pela Mulher Maravilha iriam desaparecer totalmente, para que ele pudesse encará-la como uma verdadeira companheira de equipe mais uma vez. Essa esperança nunca se cumpriu. Em vez disso, a cada dia, ele era confrontado com a verdade em sua frente: ele ainda a amava!
Ver Nêmesis naquele momento ao lado dela o fez ranger os dentes. Era algo que ele tinha que enfrentar. No fundo, ele se importava mais com Diana do que simplesmente como um amigo. Ele tentou negar isso a si mesmo, mas pouco a pouco, ele percebeu a inutilidade dessa ação de recusa da verdade.
— Não se atreva a fazer isso comigo de novo, Diana! Não se atreva a me deixar! – As palavras sussurradas pelo agente fizeram o Batman apertar a mandíbula.
(...)
Mulher Maravilha acordou três horas depois do atendimento. Estava anoitecendo na Terra e Bruce já havia garantido a patrulha de Gotham com a ajuda de Asa Noturna e Batgirl.
Seu primeiro sorriso foi dado ao agente Nêmesis, que estava ao seu lado, mas logo as lágrimas começaram a correr ao longo de suas bochechas. Batman ficou aliviado ao ver que os olhos azuis Diana brilhavam. No entanto, ele sentiu uma profunda pontada de arrependimento de não ser capaz de limpar as lágrimas de seus olhos bonitos, porque Nêmesis já estava fazendo isso por ela.
Então, depois que ela acariciou afetuosamente o cabelo despenteado de Tom, ela olhou ao redor da sala e viu Batman escondido em um canto escuro e ela sorriu novamente.
— Você também, Batman? Você veio me ver? – Ela sussurrou com a voz rouca, o que a deixou ainda mais sexy (se isso fosse possível) – E Gotham?
— Asa Noturna e Batgirl estão cuidando das coisas! – Foi a resposta seca.
Os olhos de Diana sorriram. Conhecendo Bruce como ela conhecia, ela entendia sua postura estóica por causa da presença de Tom.
— Obrigada, Batman. Obrigada por se preocupar comigo! – Ela lhe deu um sorriso capaz de iluminar todo ambiente pouco iluminado da enfermaria.
Batman ficou por algumas horas antes de deixar a torre de vigilância. Ele só voltou para Gotham depois das garantias de que ela estava bem, após a análise criteriosa de seus exames. Sua capacidade acelerada de cura estava agindo e o prognóstico de melhora era o melhor possível.
Bruce estava aliviado agora, mas lembrou-se de Selina e uma ruga de preocupação se formou por entre as têmporas. Algo estava se quebrando ele não fazia idéia de como corrigir as coisas.
(...)
Ele fechou os olhos por um momento. Era uma noite fria de primavera, quando ele se enrolou sob as cobertas, ao lado de Selina, que já estava dormindo, tentando dormir desesperadamente. Diana estava bem e ele finalmente poderia descansar.
Ele finalmente dormiu três horas depois de ficar olhando repetidamente para o teto, perguntando-se o que Diana e Nêmesis estavam fazendo. Se estavam trocando beijos e carícias; se, após a alta, eles iriam dormir juntos e fazer amor. Ele não sabia quanto tempo tinha adormecido, quando sentiu empurrões e ouviu os gritos de Selina.
— Acorda, Bruce! Droga... Acorda agora!!!
Ao abrir os olhos, Selina olhava para ele, com raiva e desprezo.
— Você teve um pesadelo – Ela disse.
— Você sabe que isso é normal, Selina. Qual é o problema? – Ele sabia que estava tendo sim um pesadelo, mas não era o seu tradicional (a morte de seus pais). Ele sonhou Thomas levando Diana embora, fazendo amor com ela, enquanto ele tentava, em vão, dizer-lhe que ele a amava. Depois, ele sonhou com ela morta, ferida, em seus braços. Os olhos azuis haviam perdido a vida e ele não conseguia controlar o desespero.
— Pelo menos, tente gritar o nome dela mais baixo, Bruce. Eu e sua filha estamos tentando dormir! – Selina foi sarcástica.
— Desculpe, Sel... ela... ela estava morta, em meus braços. Eu não pude fazer nada. Eu não fui rápido o suficiente... eu não era forte o bastante... – A voz dele vacilava.
— Deve ter sido horrível, querido – Selina disse amargamente – Será que é por isso que você fica gritando que a ama? Que ela não deixe você?
— Sel, me perdoe... me perdoe, por favor! – Bruce piscou, envergonhado.
— Eu e sua filha queremos dormir, querido. Tente não gritar! – A gata virou as costas para ele, para não enfrentá-lo.
Bruce continuou com os olhos arregalados, voltados para o teto, tentando refazer seus pensamentos e colocá-los em ordem. Ele perdeu as lágrimas que escorreram do rosto de Selina. Havia uma mágoa se formando em seu coração e ela estava cansada demais para lutar contra o desconforto. Tudo que ela fez foi entregar-se ao sono que reclamava sua cota.
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