Coração é terra que ninguém vê
25 A luta pela vida (parte II)
— Você já pensou em como vai ser quando ela estiver bem de novo? – Clark estava otimista o bastante para fazer planos para o futuro que envolviam Diana – Você finalmente vai ter a chance de ter Diana novamente em sua vida, Bruce. E dessa vez, ela não precisa ir embora!
— É complicado! – Todo um emaranhado de emoções presente na relação deles... Reviravoltas, tramas de novela, idas e vindas... E tudo que Bruce disse foi: ‘é complicado’.
— Não parece muito complicado para mim – Kent provocou.
— Não seria mesmo nenhum pouco complicado pra você – Bruce se sentiu instantaneamente mal com o comentário, mas Clark apenas deu-lhe um olhar triste.
— Ela ama você. Você a ama. Não transforme uma equação tão simples numa coisa tão difícil, Bruce – Clark disse suavemente e quando Bruce não disse nada, ele completou – Você é um idiota.
— Provavelmente você está certo! – Ele não se virou.
— Você acha que ela pode nos ouvir? – Clark não acha que pode.
— Não tenho tanta certeza. A medicação geralmente faz a consciência alternar entre sonho e realidade. Em algum momento ela deve sentir o movimento ao seu redor e quem sabe nos ouvir. – Bruce respondeu.
Eles sentam-se por um momento, ambos perdidos em seus pensamentos, imaginando-se em seus próprios mundos. Um mundo onde ela é a personagem central. Mundos onde podem imaginar como seria a vida ao lado dela.
— Você acha mesmo que eu e ela... Que nós... Bem, que eu deveria tentar? – Bruce olhou pra baixo se perguntando de onde diabos essa pergunta veio.
— Você quer? – A pergunta de Clark foi simples. A resposta era complexa.
Bruce deu de ombros.
— Isso não é resposta – Clark insistiu.
— Eu só vou machucá-la – a culpa estava instalada em seu peito de novo.
— Não, você não vai – Kal disse com seriedade.
— Como você sabe? – Bruce estava curioso.
— Eu conheço você – Clark tinha um olhar divertido novamente. – Além disso, se você machucá-la, eu vou matar você, e você é inteligente o suficiente para saber disso – Ele sentiu uma pontada de ciúme, mas ela logo foi embora. Ele queria ver seus amigos separados? Solitários? Quando poderiam estar juntos, trazendo um ao outro a felicidade merecida.
— Ela é muito solitária, Bruce... sabia? – Kent disse com tristeza. – Eu não entendia o porquê disso. Não entendia porque ela não tinha um namorado, porque ela sempre rejeitava os caras que tentavam se aproximar, até ouvir a história de vocês.
Bruce concordou. Ele tinha observado o comportamento dela na última vez que ela esteve na mansão, para se recuperar da cirurgia que sofreu quando foi ferida por Slade. A previsão era que sua estadia se limitasse a uma semana. Mas ela foi ficando... Alfred tinha uma lista interminável de coisas que sempre adiavam a partida dela, com a desculpa de que precisava de sua ajuda e Bruce não queria que ela saísse. Foram 23 dias... Ele viu a solidão que ela carregava agora, bem diferente da Diana de antes. Ela suspirava quando ele se afastava rapidamente dela; quando recusava a sua oferta para o café, o jantar ou uma luta. Não era o que ele queria. Ele queria tudo com ela, mas ainda havia um medo de ser fraco de novo e vulnerável ao seu amor.
— Ela é absolutamente linda, não é? Foi isso que pensei quando a vi pela primeira vez – Clark não estava tímido – Mas é mais que isso. As pessoas não querem saber mais sobre ela. Elas só enxergam seu rosto bonito.
— E o corpo... Ah! O corpo... – Bruce piscou com malícia para o amigo e riu ao vê-lo corar.
— E o corpo, de fato. Eles esquecem o espírito incrível que está dentro dela. É por isso que nós a amamos, Bruce. Sem ele, sem a força do seu espírito, ela seria apenas ... normal. – Clark falava e Bruce se perguntava se ele sempre foi assim em torno dela.
— É isso que Lois é pra você, Clark: normal? Comum? Ordinária? – Bruce cuspiu sem pensar.
Clark parecia surpreso e magoado
— Eu não quis dizer isso, Clark. Não dessa maneira. – Bruce lamentou.
— Tudo bem. – Foi a resposta de Kent, mas ele pode ver que ele estava pensando sobre isso. Ele é escoteiro demais para não refletir sobre algo assim.
— Lois não é uma mulher comum, Bruce. – Superman rebateu.
— Clark, me desculpe. Esqueça o que eu disse – Bruce tentou consertar. Mas Clark não podia esquecer. Será que Bruce achava que era assim que ele via a mulher que ele amava? Lois não era menos importante que Diana, mesmo sendo humana. Ela era sua vida e ele tinha certeza que se casaria com ela. Ele não queria uma vida sem ela. Seu lugar é ao lado dela, mas ele estava na mansão, ao lado da cama de Diana.
— Eu amo Lois. – Suspirando, ele caminha até Bruce. – Eu acho que é hora de ir. Eu não tenho sido o homem que ela precisa a semanas.
— Eu não quero que vá embora por causa do que eu disse, Clark. – Bruce lamentou.
— Não se preocupe. – Kent ofereceu um sorriso amigável. – Já era hora.
Mas Bruce não iria a lugar nenhum. Não até que ela acordasse. Não até que ela sorrisse e dissesse seu nome. E brigasse com ele por ficar muito tempo sentado, sem dormir, por não ter feito a barba, nem se alimentado direito. Não até que ela voltasse pra ele. Não até ter certeza de que ela está viva novamente.
(...)
Diana abriu os olhos devagar. A mente ainda com dificuldade de distinguir sonho de realidade. Ela faz força para engolir, mas a boca seca não tem saliva. Ela quer falar, mas não consegue. Uma mão quente segurando a sua... a pele é áspera, o aperto é forte, a sensação é boa. Ela pisca, tentando limpar os olhos e, em seguida, a dor vem, profunda. Ela não consegue lembrar...
— Bem-vinda de volta, princesa – A voz calorosa reverbera do mesmo lado da mão segurando a sua. – Eu senti sua falta, Diana.
Esse nome... Seu nome. Princesa! Ela é uma princesa. Uma guerreira amazona, a campeã dos deuses.
A voz chama por ela novamente quando ela volta a fechar os olhos. Ela poderia abri-los de novo um pouco mais rápido, mas ela não fez. Ela tomou mais tempo que o necessário para abri-los, como uma criança ardilosa, porque queria ouvir seu nome proferido por aquela voz um pouco mais... Queria ouvi-lo tanto quanto fosse possível evocando seu título com o som melodioso e sensual da voz a chamar-lhe.
— Bru... ce... – foi a primeira coisa que ela disse e Bruce sentiu uma pitada infantil de vaidade. Não Kal, nem Hipólita, mas Bruce – É realmente você, Bruce? Eu estou sonhando? – Ela parecia confusa.
Ele respondeu assentindo com a cabeça.
— Você esteve aqui o tempo todo? – Ela ficou surpresa. – E Gotham?
— Alfred tomou meu turno ao seu lado durante a patrulha e Clark também estava aqui até ontem. – Ele não conseguia esconder a felicidade de vê-la acordada, consciente, melhorando. Havia um sorriso estúpido estampado em sua cara, mas ele não se importou.
— Se eu soubesse que para ganhar um sorriso seu eu teria que explodir, teria feito isso antes – Ela riu e ele agradeceu por vê-la de bom-humor. Era um bom sinal. Mas ele não gostou do humor negro.
— Você não diria isso se estivesse no meu lugar, princesa – Ele não foi duro, mas também não havia humor – Faça-nos um favor, Diana: tente não se meter em encrencas desse tipo pelas próximas quatro décadas.
Seus olhos se encontram e ela viu o amor presente neles. Em seguida, uma triste resignação. Esta é a mulher que Bruce ama com todo seu coração. Ele estava lutando contra a vontade eufórica de abraçá-la, mas ainda haviam as faixas nos ombros por causa das queimaduras. Embora elas estivessem em progressiva melhora, o dano causado pelas chamas era tão profundo que, mesmo com as etapas de cura, a evolução resultava em outro nível gravíssimo.
— Eu te amo – Ele disse tão rápido. Não queria perder a coragem.
Ela tem a reação certa: Ela sorri. Não dele, mas para ele. Diana só lamentava o fato dele se apressar em dizer algo tão importante.
— Eu também te amo – A voz rouca e fraca dela é a coisa mais sensual que ele já ouviu. Ela fez uma pausa longa antes de continuar – Você quis dizer mesmo o que acabou de dizer, Bruce? Você não está dizendo isso porque se sente culpado?
— Sim, Diana. Eu disse porque quis. Além do mais, é apenas a verdade. – Ele parecia um pouco envergonhado.
— Eu sei que você tem um monte de questões, Bruce. – ela parecia entendê-lo como ninguém – Não é só você... Isso também me assusta.
— É a sensação que eu desperto nas pessoas – Ele quis ser engraçado, mas falhou miseravelmente. Era uma coisa triste. Então ele tentou consertar – Eu acho que sou mesmo assustador.
— Eu não tenho medo de você, Bruce. – Ela piscou, com uma expressão divertida – Eu estou com medo do que vai acontecer depois, quando eu não estiver mais entre a vida e a morte e você se sentir seguro de que eu estou bem – Ela deixou os ombros caírem depois do suspiro pesaroso – Você vai se afastar de novo e eu vou ter que esquecer que você disse que me amava.
— Você não tem que esquecer isso – Ele viu a dor nos olhos dela. Não eram das queimaduras, mas por causa dele.
Ele a beija de qualquer maneira, tentando não machucá-la. Beijos suaves mesclados aos beijos famintos, devoradores de lábios. Bruce ainda mantinha a boca em seus lábios quando disse a ela que ela o havia deixado pela segunda vez. Os beijos agora eram urgentes, feridos, cheios de necessidade.
— Eu não vou a lugar nenhum, Bruce – ela segurou seu rosto entre as mãos. – Eu não vou embora da sua vida até que você me queira fora dela.
Ela nunca viu a combinação de medo e ternura que parecia iluminar os olhos dele. – Você quase morreu por minha causa, Diana. Eu não pude proteger você.
— Seu trabalho não é me proteger, Bruce. – Ela estava serena – Mas eu sei que você vai fazer isso. Porque eu também vou fazer isso por você, como agora. Nós queremos proteger as pessoas que amamos e eventualmente nós vamos ser feridos durante o processo.
— Eu não pude salvá-los, Diana – Ele certamente estava falando sobre seus pais. Ela observou como as emoções voaram de seu rosto. Ele estava tão aberto em alguns minutos atrás e agora voltou a se fechar. Ela o ama mais que tudo, mas ela sabe o quanto ele é instável.
— Clark estava aqui até ontem – Ele quis desviar o assunto – Ele estava preocupado... – ele fez uma pausa antes de dizer outra coisa. Ele não queria dizer, mas disse – Quando você estava em coma, ele disse que amava você.
— Sim, eu sei. – Ela respondeu como se fosse uma coisa trivial.
Ele arqueou a sobrancelha, esperando um pouco mais...
— Não é nenhuma novidade, Bruce – Ela entendeu que deveria explicar – O Kal já me disse isso muitas vezes.
— E essas declarações de amor são como uma ‘piada interna do casal de pombinhos’? – ele não pretendia ser tão maldoso – o segredinho íntimo de vocês? Você o ama? – a última pergunta saiu sem querer e agora ele estava com medo da resposta.
— Sim, Bruce, eu amo o Kal – Ele engoliu saliva com a resposta. Porque ela tinha que começar por aí? – Eu estaria mentindo se dissesse que não. Mas não como eu amo você. – Ela estava séria – eu sei que ele me ama porque ela nunca escondeu isso de mim. Ele não tem medo de mostrar seus sentimentos. Não fale como se fosse uma coisa suja. Ele nunca trairia a Lois. Eu nunca faria algo assim. – Ela estava ofendida.
— Sinto muito... – ele escondeu os olhos, desviando-os para o chão.
— O sentimento por você é completamente diferente. – Ela ainda estava magoada pelo tom de sua voz – Kal sempre esteve ao meu lado nos bons e maus momentos, e eu confiaria minha vida à ele. Mas eu não quero dormir com ele – ela corou – e bom, eu não posso dizer o mesmo sobre você.
O mundo de Bruce de repente é um lugar muito pequeno, medido pela distância entre seus corações e pelo espaço entre seus lábios, enquanto ele se inclina para beijá-la novamente. Quando ele se afasta, sussurra para ela que é um homem danificado.
— Todos nós sofremos danos, Bruce – a voz dela era tão suave. Depois os olhos ficaram tristes – você já está recuando, não é? Sobre nós?
Ele quer acreditar que pode dar certo, mas sua mente diz que não, porque ela não está tão quebrada quanto ele ‘Eu vou acabar machucando você’. As palavras saíram de sua boca como um sussurro carregado de pesar.
— Bruce, você não patenteou a culpa – ela tentou fazer com que o humor amenizasse as coisas – Você não pode deixar de ser feliz agora porque está presumindo que um erro futuro vai estragar tudo. Você vai me machucar, Bruce – Ela estava olhando para dentro dele através dos olhos – E certamente eu também vou machucar você. Mas talvez, quando isso acontecer, nosso amor seja tão forte que poderá superar as dores que eventualmente provocamos um no outro.
— Eu queria acreditar nisso, Diana – ele parecia tão derrotado – Não é tão simples assim. Eu não vou te machucar porque brigamos por causa de uma toalha molhada esquecida na cama. Há coisas que não podem ser superadas.
— Eu sabia que você iria desistir. Só não esperava que fosse tão rápido – Ela não pode disfarçar a decepção – Por que você não vai lá pra cima, Bruce? Pra casa... Suba, faça a barba, tente comer algo... basta ir... – ela deslizou pela cama e voltou a fechar os olhos, desejando que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
Ele quase foi embora, quando viu as lágrimas escorrendo pelos cantos de seus olhos fechados.
— Você é meu lar, Diana – ele não queria magoá-la.
— Então, por que eu não me sinto como se eu realmente fosse? – Diana fungou baixinho. – Eu nunca quis mais do que você pode me dar, Bruce.
Ele está com medo. Medo de estar com ela, medo que ela o faça feliz. Ele ia feri-la, mais cedo ou mais tarde. Ela iria odiá-lo, ela iria deixá-lo. Ela merecia tudo... ele não tinha nada a oferecer. Mas ele a ama. Ele morreria para mantê-la segura... Ele não percebeu que havia dito em voz alta.
— Eu não preciso de um cão de guarda, Bruce. Eu não quero que você morra. Eu quero que você me ame. Eu quero que você viva! – Diana não sabia se isso mudaria alguma coisa dentro dele.
Ele traça seus lábios com os dela suavemente. Tudo nela é tão suave. Beijá-la é como um bálsamo, uma tarefa que ele executaria pela eternidade. Ela fecha os olhos de novo e pede algo pra dor. Ela quer voltar a sonhar. Em seus sonhos não há questões e Bruce quer ficar com ela.
— Bruce, se você não pode estar comigo, não se culpe. Eu vou sobreviver e seguir em frente... Eu sei que eu posso fazer isso... – Ela tomou fôlego – Mas eu não queria ter que fazer.
Ele conhece seus olhos. Ele sabe o quanto ela está cansada. Corpo cansado, espírito exausto. Cansada de esperar por um homem que desiste toda vez que eles têm uma chance. Ele também está cansado. Cansado de ser condenado à infelicidade. Ouvi-la dizer que iria seguir em frente o assustou mais que um relacionamento com ela.
Então ele a beijou novamente. Os lábios estavam em chamas. Ele queria o seu amor. Queria sentir seu a maciez de sua pele. Fazer amor com ela. Dormir e acordar com ela. Ele queria muitas coisas – coisas que ele renunciou por quase toda vida.
Envolvendo os braços ao redor dele, ela tentou atraí-lo mais pra perto. Ela ainda estava fraca, mas uma Diana debilitada ainda era bem mais forte que uma pessoa comum.
Ela estava certa: Ele não poderia protegê-la de tudo, mas ele ia tentar de qualquer maneira. Ele riu a vendo lutar para manter as pálpebras abertas. Mas o analgésico estava reclamando sua parte. Ele sussurrou para ela mais uma vez que a amava e prometeu estar lá quando ela acordasse.
— Você não tem que fazer isso, Bruce. Você não tem que cuidar de mim. – a voz estava sumindo devagarzinho.
— Mas eu quero... e quando a Leslie disser que você pode sair dessa enfermaria, seu lugar na mansão já vai estar preparado, esperando por você – Ele a beijou, amando o sorriso que ele deixou em seu rosto quando ela finalmente dormiu.
Ele prometeu a si mesmo que a protegeria enquanto vivesse, custe o que custar.
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