Cor do Mar
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O intervalo no colégio estava agitado até demais, pensou Hinata. Obviamente ela sabia o motivo de toda aquela comoção e que ela estava no meio das conversas e fuxicos que corriam nos corredores naquele momento. Não havia um estudante sequer do terceiro ano — talvez até do segundo ano também, considerou Hinata — que não conhecesse a história da aposta de namoro falso que resultou no misterioso desaparecimento do aluno Naruto Uzumaki. Notava olhares curiosos em sua direção, pessoas tapando o rosto com a mão enquanto deviam estar falando mal dela.
— Eu vou socar cada um desses fofoqueiros — Temari disse se sentando à mesa ao lado de Hinata — Será que eles descansam ou passam o dia procurando um motivo novo pra atazanar a vida dos outros?
— Não é como se eles estivessem errados — Hinata remexeu seu sanduíche — O que eu fiz foi uma merda, todos viram e ele foi embora humilhado. É claro que a volta dele iria gerar mais buxixo que fim de série da Netflix.
Temari ia comentar alguma coisa mas parou ao ver a amiga, Sakura Haruno, se juntar a elas na mesa.
— E aí coração, custava dar um aviso? — Temari encarou a Haruno — Talvez uma dica, do tipo “Ei Hinata, sabe o cara que você destruiu a vida social? Tá voltando pro colégio”
Sakura mostrou o dedo do meio pra Temari antes de voltar sua atenção para Hinata.
— Hina, eu juro que eu não sabia — Sakura parecia séria — Tipo, o Sasuke não me respondia desde ontem, então hoje cedo eu procurei ele pra conversar. Ele estava na sala do diretor, junto com o… com o Naruto. Ino também estava lá. O Hashirama não me deixou sair da sala, porque os dois loiros queriam que a transferência fosse surpresa. Não consegui nem ao menos mandar uma mensagem. Como você tá?
Hinata encarou o prato do almoço em sua frente, pegou um pedaço do sanduíche e mordeu.
— Sakura, tá tudo bem, sério. Você não tinha como prever nada. Além do mais, o que eu ia fazer? Me esconder no banheiro? — Hinata riu — Tá tudo bem, só vou precisar ignorar conversinhas nos corredores do colégio.
— Eu recomendo evitar o Twitter também — Temari olhava o aparelho celular em suas mãos — Começaram as threads explicando o caso pra quem tá perdido, e o tanto de mentira e exageros nessas merdas estão me deixando com ódio.
Hinata revirou os olhos.
— Se eles estão dizendo que eu magoei o Uzumaki e que eu fiz ele se sentir humilhado publicamente, eles estão apenas dizendo a verdade. — Hinata limpou as mãos e se levantou — Eu ter me arrependido e me sentir extremamente mal por tudo que aconteceu não muda o fato de que aconteceu e agora eu tenho que lidar com as consequências.
Hinata começou a sair da mesa.
— Onde você vai, amiga? — ouviu Sakura perguntar
— Não faço ideia, mas perdi a fome e preciso andar um pouco — Hinata colocou sua mochila — Vejo vocês na sala de aula daqui a pouco.
Saiu da mesa sob os olhares preocupados das amigas. Só precisava de um lugar para respirar, sentia que o ar estava ficando rarefeito demais. Hinata estava tentando manter a aparência impassível, como se aquela situação toda não a estivesse afetando. Mas estava, e estava muito.
A aura dele estava diferente. Ele estava diferente. Hinata não conseguiu se concentrar um minuto sequer nas aulas porque parecia que o olhar dela estava magicamente focado apenas nele. O movimento que ele fazia conversando com a irmã, ou quando deu risada alta enquanto Shikamaru Nara o xingava por ter sumido. Em momento nenhum ele voltou a olhá-la, apenas naquele momento quando se sentou, e Hinata se sentiu mal porque queria que ele a olhasse.
Entrou no banheiro, nem tinha notado que tinha se dirigido até lá. Apoiou a mochila na bancada, ligou a torneira e jogou água no rosto. Encarou o espelho. O rosto dela refletia toda a confusão que seu interior trazia.
— Por que agora? — Ela sussurrou, jogando mais um pouco de água no rosto. — Destino desgraçado, eu ainda não estou pronta pra uma reparação histórica.
Ouviu a porta do banheiro abrir, mas não se virou para olhar. Estava muito perdida em ideias e pensamentos pra isso. Estava curiosa demais, seu coração apertava pensando no que poderia ter acontecido com ele depois que ele havia ido embora. Olhou novamente o espelho e sentiu suar frio quando viu a garota ao seu lado que retocava o batom impassível, também olhando o espelho.
— Ino. — a voz de Hinata parecia estar distante, de tão baixa que soou.
— Ah, oi Hyuuga — Ino se virou sorrindo gentil — Quanto tempo não? Senti muita falta daqui, estou amando reencontrar todos. Sakura e Temari ainda andam com você?
A mente de Hinata deu tela azul por alguns instantes. Okay, tudo bem que ela não queria que a irmã de Naruto a xingasse ou jogasse na sua cara tudo o que ela tinha feito ao irmão dela, mas também não esperava toda essa gentileza como se nunca tivesse acontecido nada.
— S-sim, elas… Sim, andam sim, elas estão no pátio agora mesmo inclusive. — Hinata acompanhou com o olhar enquanto Ino guardava o batom e puxava o rímel — S-se você quiser, pode sentar com a gente, vai ser bom pra por a conversa em dia. A gente sentiu sua falta…
“E eu posso pegar informações” Hinata balançou a cabeça afastando esses pensamentos. Ino guardou o rímel e sorriu para Hinata, pegando sua própria mochila e se preparando para sair do banheiro.
— Perfeito, eu não tinha com quem sentar mesmo — Ela sorriu — Vai ser igual no primeiro ano, certo?
— E-eu acho que sim. — Hinata sentiu o peito apertar. Ino estava sendo legal com ela, mesmo depois de tudo. Por que? — Ino.
A loira parou segurando a maçaneta, mas sem se virar para olhar Hinata. A morena respirou fundo, sabia que se não falasse agora provavelmente não teria coragem depois, ainda mais estando no pátio com aquele bando de abutres fofoqueiros.
— Eu sinto muito… Por tudo… — Hinata começou, sentindo as lágrimas chegando nos seus olhos — Não tem um dia que eu não me arrepen--
— Para. — Ino a interrompeu, ainda olhando a porta — Por favor, pare aí mesmo.
Ali estava. A voz de Ino estava carregada dos sentimentos que Hinata estava esperando: Mágoa e decepção. Hinata segurou as lágrimas enquanto via Ino respirar profundamente.
— Ambas sabemos que não é pra mim que você deve desculpas, Hinata. — Ino falava pausadamente, a voz baixa — Eu não quero ouvir suas palavras de arrependimento nem suas desculpas, ok? Você sabe quem precisa, e eu agradeceria se você não tocasse nesse assunto comigo enquanto não falasse com ele.
Hinata ainda estava sem reação, e Ino continuou.
— E não, eu não gostei do que você fez. Você era minha amiga Hinata — a voz de Ino agora denunciava que ela também estava prestes a chorar — E então, você usou e brincou com os sentimentos do meu irmão. Doeu nele, mas também doeu muito em mim, você pensou nisso?
Hinata agora não segurava mais, sentia as lágrimas escorrerem em seu rosto. Claro que sabia que havia magoado a amiga, sabia que Ino tinha ressentimentos para com ela. Mas ouvir a loira, ali, falar com todas as letras o quanto Hinata a havia ferido, doeu muito mais do que ela poderia imaginar. Abaixou a cabeça, com as mãos no rosto segurando seu choro.
— Eu sinto muito Ino. Eu não sou uma boa amiga. Me perdoa — Hinata falava entre soluços — Eu só machuquei você, machuquei vocês… eu… eu…
Hinata sentiu um abraço a confortar. Ino colocou a cabeça da amiga no seu próprio ombro enquanto afagava os cabelos dela.
— Hinata, eu não posso te dizer que eu não estou magoada ainda, ou que não tenho ressentimentos de tudo que aconteceu. — a voz de Ino era levemente doce, como se tentasse realmente confortar Hinata — Mas eu estou disposta a tentar retomar nossa amizade. De verdade.
— Por que? Por que você está sendo assim? — Hinata falava baixinho. Ino se afastou, pegando sua mochila e voltando ao caminho de saída — Você deveria me odiar, não ser tão gentil…
— Eu não conseguiria odiar você, Hina — Ino disse abrindo a porta, e então olhou para a Hyuuga — E também… Ele me pediu para não te odiar.
Ao dizer isso, Ino se dirigiu ao lado de fora, deixando uma Hinata de olhos inchados segurando as mãos em frente ao peito, com a última frase da loira martelando em sua cabeça. “Talvez… Não, não crie esperanças, idiota” Hinata pensou “Mas só talvez…”. Pegou sua mochila, lavou o rosto e saiu do banheiro em direção ao pátio novamente.
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