Notas iniciais
Como eu disse nas notas gerais, este conto foi vencedor num concurso literário em 2019. O texto aqui postado tem apenas correções, mas não altera em nada o que foi submetido na época.

Era uma noite fria e de neblina, daquelas que não dava para distinguir nada além de dez passos de distância. Um rapaz caminhava rua abaixo e tentava manter-se aquecido enfiando as mãos nos bolsos do casaco que usava, seguindo seu caminho rumo a um barzinho que ficava na próxima esquina. Ao se aproximar do estabelecimento ele deu uma boa olhada para dentro e ponderou alguns instantes sobre entrar ali ou não, mas estava tão difícil permanecer na rua que ele optou por ficar.

O ambiente estava cheio e tinha um calor aconchegante, parte deste devido às luzes incandescentes que iluminavam a entrada e pendiam sobre as mesas. À medida que ele andava, algumas cabeças viravam em sua direção e o acompanhavam até não conseguirem mais. Homens de meia idade bem vestidos, mulheres com roupas de grifes e joias reluzentes em suas orelhas e pescoços, rapazes e moças jovens de classe média-alta; todos o olhavam de cima a baixo julgando-o em silêncio. Não era o tipo de bar que ele costumava frequentar, mas para aquele momento era mais do que o suficiente – ou melhor do que nada.

Aproximou-se, então, dos bancos mais altos próximos aos barman e pediu uma dose de conhaque enquanto tirava seu casaco e colocava em seu colo. As moças que estavam ali próximo o olharam com um pouco mais de interesse e até lhe deram um sorrisinho, mas ele fingiu que nada estava acontecendo e continuou focado em sua bebida:

– Faz frio demais para essa época do ano, não acha? – perguntou-lhe um rapaz que aparentava ter sua idade e se aproximou pedindo o mesmo que ele.

– Esta cidade tem dessas. – o rapaz respondeu sem dirigir-lhe o olhar e a conversa morreu por ali por alguns instantes.

– Sou Davi Nogueira. – o jovem insistiu, estendendo-lhe a mão que o rapaz pegou com educação – Sim, meu sobrenome é o mesmo do prefeito porque sou filho dele.

– Eu sei quem você é. – ele respondeu calmamente – Eu não quero confusão. Só quero beber em paz e me abrigar um pouco do frio.

– Não estou aqui para “limpar o ambiente”. – defendeu-se Davi, fazendo o sinal de aspas com as mãos quando citou a expressão – Apenas estou cumprimentando um conterrâneo.

– Está tentando descobrir se eu sou de fora, não é? – o rapaz o encarou com um olhar fixo e penetrante e Davi recuou um pouco – Eu não tenho paciência para joguinhos.

– Foi uma tremenda falha minha te julgar dessa forma. Está mais do que na cara que você não é bobo. Talvez se eu te pagasse o jantar você me contaria mais sobre você.

– Eu como muito. – o rapaz esboçou um breve sorriso debochado que Davi interpretou como um sinal de que ele estava baixando a guarda.

– Eu tenho muito dinheiro. – Davi rebateu e apontou uma mesa numa área mais confortável do bar e o rapaz terminou sua bebida num só gole para acompanhá-lo.

Foi só após o jantar que o rapaz apresentou-se apropriadamente e começou a contar sua história para Davi que ouvia tudo atentamente…

O jovem misterioso chamava-se Benjamin Souza e ele não tinha um endereço fixo fazia quase cinco anos. Desde que ele tornou-se responsável por si mesmo, ele decidiu vagar pelas cidades do estado onde nascera até sentir que poderia ficar em algum lugar... ou encontrar alguém:

– Eu a conheci quando eu tinha acabado de completar 18 anos. – ele narrou e Davi inclinou-se levemente para frente, interessado – Nunca havia visto mulher mais linda e digo isso em todos os sentidos! Ela me contou sobre como sua vida mudou quando ela se desprendeu das raízes e foi para o mais longe possível, tentando descobrir-se na vida. Eu fiquei fascinado por aquela pessoa e, quando dei por mim, estava completamente apaixonado. Entre outras coisas que ela fazia, ela compunha músicas desde que era adolescente. Descobri isso quando pesquisei pelo nome dela na internet e me deparei com um perfil num site aleatório de composições, abarrotado de áudios gravados em celular. Ela tinha uma voz tão doce e carregada de emoção que nem o chiado do microfone de baixa qualidade me fez parar de ouvir. Um belo dia, eu fui pego de surpresa quando ela me mandou o link de uma de suas mais novas composições e me pediu para “dar uma força no hobbie dela”. Quase senti meu coração sair pela boca de tão forte que ele batia enquanto eu ouvia aquela letra. Aquela música me soou tão pessoal que eu podia jurar que era para mim e sobre mim. Rapidamente, eu reativei meu perfil no site de novos escritores e escrevi um poema sobre ela, mas nas entrelinhas, e mandei para ela ler. Demorou uns dois dias para que ela me deixasse um review que, entre outras coisas, me agraciou com um "você tem uma alma linda. Fico honrada em ter você acompanhando meu trabalho".

– Era para você a música? – Davi perguntou, interessado, com cautela para não atrapalhar a narrativa de Benjamin.

– Eu queria acreditar que era, mas tinha muito medo de perguntar e sair do meu sonho perfeito para a dura realidade. Ela e eu permanecemos trocando mensagens estritamente sobre nossas artes. Ela era minha musa, minha paixão, meu elo com a vida e eu me apegava na ínfima esperança de eu ser o mesmo para ela. Suas músicas ficavam mais românticas e eu alimentava minha ilusão de ser o motivo daquilo, embora não tivéssemos mantido uma conversa por mais de dois dias desde que a conheci. Eu não queria ser invasivo: nós éramos "conhecidos" e o fato de ela nunca puxar assuntos pessoais só deixava isso cada vez mais claro. Toda vez que eu me pegava olhando para a caixa de mensagens esperando um "como foi seu dia?" que nunca ia chegar, era como uma marretada nos pilares dos meus sentimentos.

– Ainda tem contato com ela? Ela vive nessa cidade?

– O tempo que eu estou pelo mundo é o tempo que eu não tenho notícias dela. Não sei para onde a vida a levou, nem se ela tem alguém especial, mas sei que ela me mudou. – Benjamin encarou seu anfitrião que tinha uma expressão de incredulidade – Acha que eu inventei o que acabei de te contar?

– Quem sabe “incrementou”? – Davi respondeu com sinceridade – Você é um poeta, não é? Acho que saberia tornar uma história simples mais interessante.

– Não preciso que acredite em mim, só contei o que contei porque fizemos um trato. – Benjamin levantou-se e recolheu seu casaco – Vou ao banheiro, se não se importa.

Quando Davi se certificou que Benjamin não estava mais por perto, ele tirou seu smartphone do bolso e pesquisou pelo nome dele na internet. No quinto resultado da busca ele encontrou o site de escritores que o misterioso rapaz tinha mencionado em sua narrativa e qual não foi sua surpresa quando encontrou o review de uma mulher chamada Helena Lima que dizia a mesma coisa da mulher da história. Foram cerca de 30 minutos de leitura e canções e tudo encaixava tão perfeitamente com o que acabara de ouvir de Benjamin que não tinha como ser uma mentira.

– Com licença, garçom! – chamou Davi e um homem aproximou-se da mesa – Onde está o rapaz que estava aqui comigo? Faz tempo que ele foi ao banheiro, mas não voltou.

– O banheiro está vazio, senhor. – respondeu o garçom educadamente – O rapaz se foi há mais ou menos meia hora.

– Claro que sim. – Davi riu de sua própria ingenuidade e agradeceu ao rapaz que o atendera – Aquelas músicas eram realmente para você, seu burro! – ele comentou como se estivesse falando com Benjamim enquanto ligava para um número gravado em seus contatos. – Oi Helena. Eu acabei de conhecer a pessoa que você quer encontrar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!