Notas iniciais
Oirrr meus queridinhos ❤ Faz tanto tempo que não escrevo nada... tô meio destreinada hehe De qualquer forma, espero sinceramente que vocês gostem! Boa leitura :3

23 de dezembro, meio de uma estrada, 00:03

—Não pode estar falando sério. — reclamei, lançando a Bianca meu olhar mortal ao ver aquela fachada da loja de conveniência capengando.

—Divirta-se — a reposta veio acompanhada de um sorriso largo, os olhos da minha irmã brilhando. Cruzei meus braços e voltei meu olhar para o estabelecimento.

O letreiro parou de piscar bem na hora, e o vento forte quase levou embora um “N” de “conveniência”. Uma enorme árvore de Natal piscava loucamente na entrada, posicionada estrategicamente para ser vista por todos os motoristas no raio de 437532974 metros. E fiz uma careta ao ver que estava falhando miseravelmente em sua função de atrair gente para dentro.

—Não vou ficar nesse fim de mundo. — estreitei os olhos porque não iria mesmo, e que se danasse o Papai Noel e seus outros elfos, eu não dava a mínima.

O grande problema é que eu não poderia sair dali caso Bianca me deixasse. O lugar era no meio da estrada.

O sorriso da criatura permaneceu inabalado já que ela sabia perfeitamente daquilo, e ela espremeu os olhos sinistramente.

—Tenho certeza de que um pouquinho de trabalho voluntário vai fazer muito bem a você, e vai te dar tempo suficiente para repensar suas ações. — ela pronunciou “suas ações” com um ar de sabedoria.

Tsc.

“Minhas ações".

Que minhas notas na escola estavam diminuindo tremendamente todos já sabíamos. O que pegou mesmo foi o zero que tirei em física por culpa de Percy Jackson.

A criatura não estudou (como se eu tivesse estudado cof cof), entrou em desespero e começou a colar da Annabeth. Até achei graça quando o treinador Hedge o pegou no flagra, mas aí o ser disse que estava colando porque EU o estava obrigando a pegar a cola de Annabeth para ele passar para mim.

Resultado? Três provas zeradas, três trabalhos voluntários obrigatórios (o que eu acho que não é uma ação tão nobre já que estou sendo forçado), e uma noite de tédio extremo. Annabeth por deixar colarem dela, Percy por colar, e eu por ameaçar e coagir meus colegas de classe a colar.

O que é ridículo.

Deveríamos ter recebido uma detenção normal, mas, como estávamos perto do Natal, o irmão do primo da tia do filho da sogra do neto do diretor Zeus se voluntariou a se vestir de Papai Noel e tirar fotos com crianças numa loja de conveniência na estrada.

Ninguém é louco de querer ser elfo, duende, leprechaun ou sei lá naquele lugar, portanto o treinador conversou com o diretor Zeus e negociou a mudança da detenção para trabalho voluntário; "humanitário, e uma maneira de contribuir para a melhoria de nossa sociedade".

Ou seja, a escola disponibilizou três adoráveis estudantes para a tarefa de se vestir de elfos. E ainda nos deram o turno da noite.

Eu jamais apareceria nesse buraco hoje para cumprir o bendito castigo se a escola não tivesse contatado minha família. Além de ter que passar horas aqui numa fantasia piniquenta, ainda tive que ouvir o maior sermão da minha vida sobre decepções e irresponsabilidade.

Obrigado, Bianca. E obrigado, Percy.

Falando nela, quando abri a boca para dizer pela milésima vez que aquilo não fazia sentido porque eu nem tinha culpa de nada, ela já estava dentro do carro.

Só vi uma mãozinha acenando e um sorrisinho sádico conforme o carro era engolido pela escuridão da estrada (aparentemente o poste dali também resolveu parar de pegar).

Gemi, franzi os lábios e olhei de esguela para dentro da lojinha. A mocinha do caixa me encarou de volta como se eu fosse um espírito.

Ah, mas aqui eu não fico. Dei meia volta em direção ao breu sem fim da pista, e disparei para trás de um vaso de planta no meio do estacionamento vazio. Considerando que eu estava agachado, talvez mais ninguém tivesse me visto ainda, e eu poderia tentar conseguir sinal de celular na pista, e...

—Tentando fugir, Di Angelo? — senti uma mão apertando meu ombro de leve.

Virei meu pescoço lentamente para trás, consciente de que talvez pareceria a menina do exorcista. Apenas talvez.

Tive que olhar para cima. Os olhos azuis do garoto eram acolhedores e me lembravam aquelas partes mais profundas do oceano, manchas azul escuras nas águas quase transparentes: uma mistura hipnotizante. A boca curvada num sorriso foi a segunda coisa que notei, seguido dos cabelos loiros curtos bagunçados, da pele levemente bronzeada, e do suor em seu rosto apesar do frio que estava ali.

Ah, e não nos esqueçamos da enorme fantasia verde de elfo.

—Também pegou a detenção do Hedge, Solace? — resmunguei, me levantando enquanto avaliava as camadas de casacos verdes vestidos por ele. Se não morrer de tédio vou morrer sufocado. E pensar que fui descoberto tão rapidamente...

—Sou só um simples voluntário. —ele limpou uma gota de suor que escorria por seu pescoço, rumo ao interior da fantasia, e sorriu, me provocando — Eu nunca seria pego colando nas provas do Hedge, ainda mais quando ele começa com aqueles livrinhos de receitas. — fato. É realmente humilhante para Percy ter conseguido essa proeza. Quando o treinador pega as receitas de cupcake pra ler, não vê mais nada.

Captei uma covinha divertida na bochecha esquerda de Will e lembrei que estava sendo provocado.

—Tecnicamente, eu também não. — declarei, e ele arqueou uma sobrancelha. — Não nessa prova.

—Naturalmente.

—É verdade! — por que raios ninguém acredita em mim??

—Me intriga você ter tido habilidade para ser pego.

—Me intriga você estar vestindo isso aí. — gesticulei para a roupa de duende, ou elfo, ou leprechaum, quando uma possibilidade brotou em minha mente. Não... Não pode ser... — Não me diga que está vestido assim por vontade própria.

—Como eu disse, sou apenas um voluntário. — o horror devia estar estampado na minha cara, já que Will parecia se divertir com minha reação ao concluir satisfeito: — Aposto que a roupa vai cair bem em você. Vai adorar.

Estreitei os olhos para a cabeça de elfo na outra mão dele.

—Nem a pau.

Os olhos dele dançaram enquanto eu olhava em volta discretamente, cogitando uma rota de fuga.

—Deixa de ser azedo. —a mão dele estava agora em meu braço, o qual ele segurou e começou a puxar- Vem comigo, sua roupa tá separada.

E com isso fui praticamente arrastado pra dentro, até a lona decorada do Papai Noel.

O lugar era até ajeitadinho por dentro. Cinco prateleiras se erguiam, enfeitadas com pisca-pisca (alguns funcionavam, outros não), o caixa ficava logo no começo da loja, e no fundo havia a tal lona vermelha, que eu ainda não podia ver direito.

Foquei nos fios loiros do cabelo bagunçado de Will Solace. Ele tinha a minha idade e estava na mesma série que eu, mas em uma sala diferente. Eu sequer sabia de sua existência até ele me atender em seu trabalho de meio período na farmácia do centro da cidade há uns meses.

A partir daí foi praticamente impossível não notá-lo.

Não me entendam mal, era apenas uma admiraçãozinha unilateral.

Que evoluiu para uma quedinha secreta (e ainda unilateral)... E então um abismo infinito (continua unilateral). Ao menos posso dizer que somos amigos. É, acho que soa bem.

Senti os dedos dele apertarem meu braço de leve, e minha pele formigou. Bufei baixinho com minha própria reação, virando o rosto para o lado para esconder o rubor.

Que droga, Solace.

A única coisa que tirava a magia do momento era a luva branca monstruosa que ele usava. Parte da fantasia, certeza.

—Achei que fosse dar o cano, Nico — saí de meus devaneios. A voz estava mais grossa, como se a pessoa estivesse com a boca cheia de algo. Parei de encarar o ponto em que Will segurava meu braço e voltei meu olhar para onde Percy Jackson estava parado. Vestido de elfo, devorando um bolinho azul, a cabeça da sua fantasia largada a seus pés.

—Eu gostaria. — comentei de sobrancelhas franzidas para a fantasia dele. Era idêntica a de Will, e tão esquisita quanto. — E já tô avisando que você precisa estar preparado a noite toda, considerando que meu coração clama por vingança.

—Devo concordar. — Annabeth saiu de trás da grande lona vermelha decorada com pinhas, bolas coloridas e spray branco. Estava vestida completamente, e a cabeça do elfo abafava sua voz. — Meu coração tá desesperado pra dar o troco.

Observei o rosto desenhado numa grande bola de tecido que consistia na cabeça da roupa. — Que coisa demoníaca. — comentei inexpressivo. Tinha traços longos, olhos amarelos, pele verde, e dentes compridos exibidos num sorriso.

—Realmente, não dá pra acostumar com isso. — Annabeth suspirou. — Talvez se a gente furar olhos na nuca e usar ao contrário...

—Quer matar as crianças do coração? — disse Will, e a loira tirou a cabeça, avaliando o lugar com seus olhos cinza tempestuosos.

—Seria engraçado. — incentivei, embora não houvesse criança alguma.

—Vocês não precisam se vingar. — Percy voltou ao assunto original, nervoso. — A noite vai ser divertida. Quatro amigos e um adulto passando tempo juntos alegremente.

—Por falar nisso, cadê o adulto? — perguntou Will para ninguém em particular enquanto vasculhava os corredores com o olhar, e de repente franziu a testa. — O estacionamento está vazio, e o carro dele estava aqui até agora pouco.

—Me deu uns bolinhos para distribuir para as crianças, caso alguma aparecesse, e foi resolver compromissos. — Jackson enfiou o último bolinho goela abaixo.

Engoli minha vontade de bater a mão na testa.

—Aceitou uma desculpa esfarrapada dessas?

O garoto com os olhos verde-mar deu de ombros. — Pelo menos os bolinhos estavam bons. — alegou, lambendo restos de glacê azul dos dedos.

—Quer dizer que eu poderia ter ficado em casa? — gemi.

—Ainda nem sabemos se o cara picou a mula mesmo. — Annabeth disse, esperançosa, encarando a entrada da lojinha como se o cara pudesse entrar a qualquer segundo.

O som de folhas sendo remexidas interrompeu o final da frase dela. Todos olhamos para o chão e vimos uma ratazana caindo da árvore de natal e correndo para fora das portas de vidro da loja.

—Isso foi...? — Will parecia não saber exatamente como terminar a frase.

—Odeio esse emprego. — a mocinha do caixa começou a lixar as unhas. Essa mascação de chiclete dela com a boca aberta já estava me irritando, e olha que eu mal tinha chegado.

—Que nojo. — concordou Percy lambendo os dedos de novo e encarando as portas.

Cruzei meus braços, e olhei discretamente para Will, observando o jeito como ele mordiscava o lábio inferior de um jeito bonitinho.

—Viemos à toa? — Annabeth ferveu, tirando minha atenção de Solace, que abrandou:

—Na verdade não. Zeus comentou com meu pai que o treinador Hedge talvez viesse aqui ao fim do nosso turno para tirar uma foto do grupo todo, vestido e pronto, para provar que todo mundo veio. E para postar no Facebook da escola.

...~loading~...

POSTAR ONDE??????????????????????????????

—Como é? — Annabeth grasnou.

—Como pode ter aceitado esse trabalho voluntário sabendo disso? – questionei Will.

—Não aceitei. —ele estalou a língua— Eu vim porque peguei detenção da Hera. Estava brincando quando disse que me vesti por vontade própria.

O vento rugiu do lado de fora, e um baque surdo soou quando o “N” pendente do letreiro da loja caiu.

—Nossa. — foi toda a reação esboçada por Percy. Annabeth pigarreou.

—Não acredito que vou ter que colar essa porcaria de novo. — irritou-se a mocinha do caixa, mostrando os dentes.

Ah, deuses, como eu fui me enfiar aqui?

—Não... espere. —pediu a Chase— Will disse que talvez o treinador aparecesse. Do jeito que é preguiçoso é capaz de não vir. E Zeus com certeza só quer a foto dos alunos fazendo trabalho voluntário pra exibir pro pessoal de fora da escola e fazer propaganda, já que é praticamente impossível uma criança aparecer aqui a essa hora.

Segui sua linha de raciocínio. Ela me encarou, esperando que eu dissesse algo.

—Que tal eu ir pro banheiro me trocar agora mesmo, a gente tirar a foto e ir embora? —propus inocentemente— Enviamos a foto pro treinador depois. A guria do caixa entrega a chave pro povo do próximo turno, pedimos carona, vamos embora e todos ficam felizes, problema resolvido. Podemos até passar numa cafeteria 24 horas para tomarmos chocolate quente. — praticamente implorei.

Will apenas olhou para a parede do fundo da loja. Havia duas portas de madeira antiga, e um grande relógio preso na parede.

00:34

—Isso definitivamente não é o que eu planejava. — ele pareceu considerar, mordendo o lábio inferior. Então suspirou — Nenhuma criança vai aparecer aqui nesse horário. Vem, Nico, eu vou com você até o banheiro.

GLÓRIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Annabeth pegou minha fantasia do meio da lona e atirou em mim.

—Anda, anda, anda!

Fui quase que saltitando pro bendito banheiro, que ficava do lado de fora da loja, à direita, numa cabine de madeira antiga.

Will veio atrás de mim, encostando-se na porta conforme eu entrava na cabine e a trancava, enfiando casaco atrás de casaco.

Ouvi alguns respingos do lado de fora, e parei.

—Você tá mijando aí? — arrisquei.

—Quê?? Claro que não, Di Angelo! — a voz de Will denunciava a cara de “wtf” que eu não podia ver de dentro do cubículo. — Tá chuviscando, idiota.

—Ah, só me faltava essa. — reclamei, abotoando os últimos botões da última camisa. — Chuva na escuridão do fim de mundo sem sinal.

Comecei a enfiar a calça de elfo por cima da minha.

—Nico? —fiz um “hm?” e Will ficou alguns segundos em silêncio. Quando eu estava considerando a possibilidade de a ratazana da árvore de Natal ter voltado e o estar atacando, ele terminou a frase: — Como raios vamos conseguir sair daqui se não tem sinal?

Até derrubei meu cinto de elfo no chão.

—B-bem... Podemos pedir carona na pista? — me abaixei pra pegar o cinto e o afivelei.

—Você vai ficar gripado de tomar chuva nesse vento. E está frio. —então acrescentou rapidamente— Percy e Annabeth também.

—Mas...

—Ordens médicas.

Foi tão adorável que precisei respirar fundo para tirar o sorrisinho que apareceu em meu rosto.

Saí da cabine, e dei de cara com Will. Tinha algumas gotas de chuva em seu cabelo, e seu rosto só era visível devido à fraca luzinha amarela que emanava do cubículo atrás de mim.

Era difícil distinguir o azul de seus olhos, mas eu tentei mesmo assim. Ficamos nos encarando por alguns segundos até ele franzir os lábios e rir baixinho.

—Nunca pensei que fosse te ver vestindo algo além de preto. —ele tinha uma única covinha, na bochecha esquerda— Não vou perder essa foto por nada na vida.

Comecei a resmungar, apertando o monte de casaco contra meu corpo, para me aquecer mais naquele vento.

Mal dei dois passos para a frente, em direção das portas de vidro da loja e ouvi um barulho de pneus. Quando olhei para a estrada molhada, vi um carro manobrando no estacionamento escuro.

—Criança? — perguntei.

—Não acho. — ele observou curiosamente, se aproximando de mim.

Dois sujeitos desceram rápido do carro e entraram correndo na lojinha.

Will franziu a testa.

—Não está chovendo tanto pra precisar correr.

Assenti em concordância, confuso, e sugeri:

—Vamos voltar.

E antes que déssemos sequer um passo, ouvimos vozes abafadas do lado de dentro.

—PASSA A GRANA, PASSA A GRANA! TUDO AQUI DENTRO, RÁPIDO!!!

Troquei um olhar com Solace.

—Desligaram o carro, então não podem estar com tanta pressa assim. — ele sussurrou, a chuva engrossando a nossa volta.

Fiz uma careta e o puxei para dentro do cubículo junto comigo, para que não tomássemos chuva.

—Podem ter deixado a chave na ignição — murmurei de volta, me espremendo contra a madeira do banheirinho, tentando evitar tocar Will. — Vou conferir.

Comecei a tentar sair, mas ele entrou na minha frente.

—Sozinho? De jeito nenhum. Vamos nós dois.

—Nessas situações um é melhor que dois. — defendi.

—Teimoso. —ele estava de frente para mim— Se formos pegos, pelo menos vamos ficar juntos. Só os deuses sabem quando vamos conseguir sinal naquela pista.

Perto demais, e ele sequer estava inclinado contra mim. Eu podia ver cada uma de suas sardas, apesar da luz fraca. Me esgueirei mais contra a parede, estreitando os olhos e resmungando sobre ele ser o teimoso e não eu.

Will sorriu de lado, já sabendo minha resposta e apenas ergueu uma sobrancelha pra eu dizer. Suspirei.

—Vamos logo pro carro.

E com isso, corremos meio agachados pela chuva, na direção do automóvel.

Notas finais
Reviews alegram meu dia e me fazem postar mais rápido, então vejo vocês lá! Beijão :3