Notas iniciais
Estou atrasada alguns dias ;v; demorei porque estava dando erro na hora de enviar esse capítulo. Finalmente deu certo!! Espero que gostem :3

—Ih, iludido. —Annabeth foi a primeira a reagir do lado de dentro.

—Estourando, tem só 25 reais e duas moedinhas. Assaltar isso aqui não é nem crime e sim judiação. —Percy completou

—Em vez disso, contribua para a vaquinha da funcionária! —a mocinha do caixa estendeu um potinho vazio para o homem corpulento, que os encarou em choque.

—Às vezes eu fico imaginando o que se passa na cabeça de alguns seres humanos. —murmurei para Will, tirando os olhos do interior da loja de conveniência e voltando a avançar pelo estacionamento.

—O cérebro de algumas pessoas simplesmente trava diante de situações de risco —sugeriu pensativo e parou do nada, fazendo com que eu fosse de cara em suas costas.

—Ai! —reclamei, massageando meu nariz dolorido.

—Desculpe. Cuido disso para você depois.

Estávamos agachados do lado da porta do motorista, a chuva caía em gotas grandes e frias, ensopando nossas fantasias de elfo, e Will estava prestes a abrir a porta do carro.

—Coloca a cabeça. —interrompi, referindo-me a fantasia, e falando mais alto que a chuva para poder ser ouvido. Will sorriu amarelo.

—Minha cabeça ficou no banheiro.

Pokerface. Ele mal tinha entrado naquela porcaria!!! Eu devia estar com cara de parede, já que Will tirou minha cabeça de debaixo do meu braço e enfiou em mim.

—Mas não é porque estou sem a minha que você também vai ficar sem a sua —disse, antecipando meus pensamentos. Revirei os olhos, resmungando.

—Então vista essa aqui. Não gosto dela mesmo.

—É garantia —explicou, tocando o nariz protuberante do elfo.

—E a sua garantia? —perguntei, ranzinza. Will sorriu de lado. Bem, se a intenção dele era atrair minha atenção (provavelmente era) ele havia sido extremamente bem sucedido.

Tsc.

—Você não precisa se preocupar comigo, di Angelo. Isso aqui tá um breu, se nos virem vai ser no máximo vultos.

Senti o rosto queimar, e pela primeira e única vez na vida agradeci por estar com a bendita cabeça.

—N-não estou me preocupando com você! E se é só vultos que vão ver, eu não preciso usar isso! —eu já estava com as mãos na cabeça para tirá-la.

—Melhor não arriscar. —ele piscou pra mim e antes que eu pudesse protestar, puxou a maçaneta da porta, que se abriu.

E desembestou num som ensurdecedor, agudo, e sem fim.

Até caí para trás com o susto, meu coração disparando no peito.

—Mas o quê..?. —começou Solace, tão surpreso quanto eu, e então percebeu que aquilo era o alarme do carro. Ele olhou para a ignição e checou rapidamente o painel. Nada de chaves.

Naquele ponto, minha bunda estava toda molhada devido a meu pequeno desequilíbrio e ao chão ensopado. Fala sério.

Acordei para a realidade ao ouvir a porta de vidro da loja de conveniência se abrir. Me agachei novamente, e desisti, ficando em pé e puxando Will para fora do carro.

—Rápido! —ralhei, já correndo.

Logo as posições se inverteram: ele estava na frente, me puxando para a escuridão onde ficava a cabine de madeira.

Estávamos ofegantes, e ao invés de entrarmos no banheiro, Will me guiou para a lateral da construção que era a lojinha. Um trovão ecoou pelo lugar aberto.

Fechei os olhos, sentindo os pingos frios e o vento forte. Meu corpo estava subitamente quente. Tirei a cabeça de elfo e encostei a minha própria na parede fria, recuperando o fôlego.

—Só um saiu. —ouvi Will arfar ao meu lado, também apoiado na parede. Levei um segundo inteiro para perceber que ele estava falando dos ladrões. Grunhi. Meu coração ressoava em meu peito, frenético pela bodega do alarme.

Essas porcarias só disparam em hora errada!!! (Nem tanto dessa vez, mas vamos ignorar).

Abri os olhos e fui mais para o lado espiar junto com o loiro.

—Cuidado —avisou.

—Tá, tá. —murmurei, ainda recuperando o ritmo de minha respiração. Me estiquei e avistei um homem parado de forma confusa na frente do carro. Ele gritava algo para dentro da loja, mas a chuva não me permitia ouvir.

Franzi a testa e voltei meu olhar para Will, que arregalou os olhos e fez uma observação um tanto quanto essencial:

—Esquecemos de fechar a porta do carro.

Minha boca se abriu num “O” perfeito. Saco, saco, saco!

Antes que eu verbalizasse minha indignação, Will arregalou mais os olhos:

—O cara tá vindo pra cá.

—Quê? —eu só tenho azar mesmo, viu! Me virei para pôr a cabeça pra fora a fim de confirmar, porém Will me puxou para trás. Eu já estava com o “mas que diabos” na ponta da língua quando ele tapou minha boca e apontou para o chão.

Estava iluminado. O que era impossível já que aquela espelunca não tinha iluminação descente para atingir o lugar em que nos escondíamos. Ou seja...

Uma lanterna.

Solace descobriu minha boca e eu estalei a língua.

—Vamos contornar a loja. —sugeriu, já em movimento. Assenti, e avançamos rapidamente, cada passo inundando mais o interior do meu All Star. Tênis de pano com chuva, meus parabéns pela escolha, Nico.

Teríamos contornado perfeitamente caso não tivesse uma pilha enorme de madeira bloqueando a passagem, com a cerca que delimitava a propriedade colada a seu lado.

—Tá de brincadeira —gemi— Não tem nem vida humana aqui, pra quê esse monte de madeira??

Will ignorou minha revolta, mordendo o lábio inferior e analisando a imensa pilha que se erguia diante de nossos pés.

—Não vai dar tempo de cruzar, e ainda corremos o risco de torcer alguma coisa. —declarou, avaliando o espaço a nossa volta.

Fiz o mesmo. A gente até poderia pular a cerca, mas entraríamos no campo de visão do cara. Do meu outro lado havia só uma parede.

E uma janela um tanto quanto alta, pela qual nenhuma luz saía.

Franzi meu nariz, ficando na ponta dos pés e deslizando lentamente a janela para o lado. Quase comemorei quando ela se abriu.

—Destrancada. —constatei para Will, que observava. Ele se aproximou para conferir.

—Não dá pra ver nada, mas vamos ter que arriscar. —ele gesticulou para a janela— Pode ir primeiro.

—Hmmm. —olhei para a janela e fiz um careta, resmungando.— Não vou conseguir pular nessa altura —detestei admitir. Solace pareceu se divertir com a constatação. Eu nem precisava ter dito, com certeza ele já sabia.

—Vem aqui —foi tudo o que ele disse, apoiando o corpo na parede e fazendo pezinho para mim.

Senti o rosto esquentar, e eu teria protestado caso a luz da lanterna não estivesse chegando perigosamente perto. Grunhi e apoiei um braço no ombro do loiro, me preparando para subir.

Ele me deu um impulso e logo eu estava sentado na beira da janela, uma perna de cada lado da mesma, com a mão estendida para o loiro subir. Ele segurou e eu o puxei. Talvez com um pouco de força demais considerando que ambos tombamos para o lado de dentro com um baque surdo.

—De novo —resmunguei, estirado no chão (já havia levado uma no nariz lá no carro). Will deixou escapar um “ai” dolorido. Não deu nem três segundos e o feixe da lanterna estava iluminando o interior do cômodo em que estávamos.

Prendi a respiração, não ousando mover um músculo. O homem iluminou a porta do outro lado da sala, algumas prateleiras no canto esquerdo e uma mesa no canto direito rodeada por sacos de farinha. Suspirou satisfeito ao ver que não havia ninguém ali.

Pelo menos um pouquinho de sorte por ele não ter nos iluminado. O feixe sumiu.

E Will espirrou.

Quase engasguei.

O feixe voltou para o lado de dentro com uma velocidade incrível, demorando-se por todos os cantos. Menos embaixo da janela, graças aos deuses.

—Quantos ratos um lugar desses é capaz de ter? —uma voz grossa pareceu genuinamente intrigada, e o feixe sumiu novamente.

Meu coração batia rápido, e eu esperei. Will, depois de uns bons segundos, levantou-se rapidamente para fechar a janela e agachou-se em seguida. Sentei, resmungando:

—Mal abrimos isso aí e já tá tudo molhado aqui dentro — espirrei.

—Saúde. Bem, pelo menos não estamos mais tomando chuva —sussurrou Solace, otimista. Agora o silêncio era maior, apenas gotas batendo contra a vidraça a cima e vozes baixas que vinham do outro lado da porta— E não fomos pegos.

Dei de ombros. Pelo menos isso.

Enfiei uma mão dentro da minha calça de elfo e busquei meu celular no bolso da minha calça verdadeira. Ensopado. Que beleza! Será que ainda funcionava? Desbloqueei a tela, e o celular ligou. Bingo. Acionei a lanterna.

Estávamos sentados em cima de alguns sacos de farinha de trigo.

—Passa logo toda a grana, moça!! —uma voz masculina gritou do outro lado da porta— É impossível ter só 22 reais!

—Não tem mais! No tenemos más dinero, no hay grana! No money! —a mocinha do caixa soava impaciente.

—Não falei? —ouvi a voz de Percy.

—Nem precisava, já era óbvio —concordou Annabeth.

—Calem a boca! —o homem disparou— Abre essa registradora que eu mesmo vou ver.

—Chefia, tudo limpo —a voz do cara da lanterna surgiu, e então as vozes voltaram a ficar mais baixas.

Mordi o lábio, nervoso.

—O que a gente faz? —perguntei, apontando a lanterna para Will, e vi que ele estava... tirando a camisa?????? Desviei a luz na hora e ralhei baixinho— O que você tá fazendo??

—Tirando essa fantasia molhada —disse simplesmente, jogando a peça ensopada no chão, e então disse, soando como minha madrasta:— Você devia fazer o mesmo, já até começou a espirrar. Vai pegar uma gripe violenta desse jeito.

—Um pouco tarde demais —hesitei, deixando o celular com a lanterna acesa em cima de uma prateleira.

Comecei a desabotoar timidamente a camisa de elfo e Will ergueu uma sobrancelha.

AAAAAAAAAAH, QUE DROGA PORQUE EU TÔ ASSIM???? Você tá com roupa por baixo, Nico!!! Faz direito!!!!!

Resmunguei para Will com o rosto ardendo.

—Você tá vermelho ou é impressão minha? —congelei, olhando para o rosto dele pelo canto do olho. Fiquei surpreso ao ver que ele me encarava meio preocupado, já estendendo uma mão pra afastar minha franja, tocando minha testa e constatando — Quente. Deve ser febre. — e então me lançou um olhar de repreensão — Você devia usar uma jaqueta mais grossa. E nada de All Star com esse tempo.

—...como é? — deixei escapar e senti meu rosto arder mais ainda. Ele cruzou os braços.

—Termine de tirar esse monte de roupa molhada. Assim que acabar nosso turno você precisa repousar.

—V-vai colher batata, Solace. —resmunguei, a vermelhidão se agravando. E obedeci rapidinho. Antes ele pensando que eu estou com febre do que sabendo que estou corando por causa dele. Terminei de tirar a bendita camisa e comecei a desabotoar a próxima, bufando— Pra quê tanta roupa?

—Também queria saber —ele comentou, depois de me observar por alguns segundos, para garantir que eu ia mesmo tirar a roupa. Então voltou à sua própria atividade, desafivelando seu cinto de elfo e puxando a calça para baixo.

Eu sabia que ele estava com outra por baixo, é claro, mas pelos deuses, que raios de situação era aquela?? Para salvar minha dignidade, virei o celular, deixando a lanterna para baixo.

—Que foi? —ele perguntou.

—Absolutamente nada. —declarei, apertando uma camisa molhada contra meu rosto para esfriá-lo, e em seguida atirando a última peça de roupa molhada para o chão. Pigarreei, perguntando mais uma vez— E então, o que fazemos?

Will pareceu considerar.

—Vira a lanterna para cima de novo.

—Pra quê? —franzi a testa, confuso, e desvirei o celular. Will olhou para um quadrado cinza escuro enferrujado ao lado de uma das prateleiras e olhou para mim com expectativa.

—Podemos desligar a caixa de força. Não sei se vai adiantar muito, mas podemos tentar. Às vezes eles se tocam que não tem dinheiro nem pra arrumar as luzes.

Pisquei. Bem, é melhor que nada. Fui até seu lado, iluminando a caixa, e ele a abriu resmungando sobre os riscos de pegar tétano.

Minhas sobrancelhas se ergueram automaticamente.

—Essa é nova. —iluminei os botões— Will Solace reclamando. Nunca pensei que fosse viver até esse dia. —ele sorriu timidamente e desviou os olhos para o disjuntor.

—Tá bem, tá bem. —disse, completando com mais alguma coisa, mas meu cérebro estava bem longe, gravando a expressão em seu rosto.

Tão, tão adorável.

Apertei o celular em minhas mãos. Calma, calma. Não vai ficar fazendo aquela cara de idiota. E não sorria!!!!!!!

—Nico? —ouvi ele me chamar e percebi que eu estava sorrindo. E encarando. Porcaria de corpo! Pigarreei de novo, tentando tirar o sorriso do meu rosto.

—Quê?

—Ilumina aqui.

—Ah, sim. —iluminei, e perguntei— É só pôr os negocinhos pra baixo?

—Deve ser.

Arregalei os olhos.

—Deve ser?! Mostre mais certeza!

Ele riu baixinho, e logo todos os negocinhos estavam para baixo. Ficamos um pouco em silêncio.

—Deu certo? —ele perguntou, franzindo a testa.

—Mas que merda é essa?! —um dos homens se irritou do outro lado da porta. Timing perfeito— Nem aqui dentro a energia pega mais?

—Ah, se deu. —murmurei para Will, que exibia uma expressão satisfeita.

—Onde fica a caixa de força dessa joça? —rosnou o outro.

—Ali. —disse a mocinha do caixa.

Oh-oh.

—Não, não deu. —murmurei, desligando rapidamente a lanterna do celular. Will chutou as roupas molhadas para um canto e me puxou para trás de uma das prateleiras.

Foi exatamente o tempo de a porta se abrir e a familiar luz azulada da lanterna do ladrão invadir o depósito. A mocinha do caixa estava junto, e apontou um dedo para a caixa.

O homem ergueu uma sobrancelha ao ver que estava aberta. Dei um pisão no pé de Will, que apenas sorriu amarelo.

—Tá tão podre a bichinha que nem fecha mais. —a moça comentou, começando a subir as alavanquinhas, e em menos de um segundo estava tudo claro novamente.

Percebi que o cara que segurava a lanterna segurava também uma arma.

Que era obviamente de brinquedo.

Me segurei para não bater na minha testa. Como os três patetas ainda não tinham percebido? Não... Annabeth com certeza notou. Deviam estar lá numa boa por causa disso... os caras eram grandes (pelo menos aquele era) então o único perigo seria uma briga física.

Me contive mais uma vez para não bater a mão na testa.

Eles apagaram a luz do depósito. Mal a porta fechou e eu já sussurrei:

—Tá na cara que aquilo é de brinquedo!

—Sim —concordou Wil— Mas assaltos desses geralmente são rápidos, e pode ser que o outro cara esteja armado. Daqui a pouco eles se conformam que não tem mais nada pra roubar e vão embora. —ele espreguiçou-se minimamente, os movimentos restringidos pelo pouco espaço— Vamos esperar aqui?

—Ok. —revirei os olhos. Que maneira de terminar a noite. Desbloqueei o celular e vi que já era 1:37. Mostrei a tela para Will, que entendeu o que eu queria dizer:

—Mais uns vinte minutos para o fim do nosso turno.

Encostei a cabeça na prateleira. Vinte minutos e então casa.

O ombro de Will tocou o meu e senti meu corpo enrijecer. Era raro eu receber toques (por mais acidentais que fossem), e embora esse número tenha aumentado ligeiramente desde de que eu me tornara amigo de Solace (ele costuma tocar bastante as pessoas), eu estava desacostumado. Fechei os olhos e relaxei o corpo em seguida, o toque no ombro permanecendo. Para alguém meio desacostumado, eu havia tocado o loiro relativamente bastante na última hora. Relembrei os puxões no braço e na mão, um sorriso pequeno se abrindo em meu rosto contra a minha vontade. Bem, esperar mais vinte minutos ali não seria tão ruim, afinal.

—O que acha de passarmos todos em um café depois de sair? —sugeri, o tom de voz muito mais tranquilo do que eu pretendia.

Eu ainda estava apoiado atrás da prateleira com Will, de braços cruzados.

Quando a resposta demorou a vir, franzi levemente a testa e abri os olhos. Virei a cabeça para o lado, e meu cérebro simplesmente travou.

Perto.

Muito, muito perto.

Will estava com o corpo completamente virado para mim, e tão perto que pela segunda vez naquela madrugada eu podia identificar cada uma de suas sardas, nossos narizes a um palmo um do outro. Ele tinha um pequeno sorriso acanhado e seu rosto se aproximava devagarinho do meu, ao passo que ele analisava minha boca.

Eu quase podia ver uma fumacinha saindo da minha cabeça.

E foi completamente involuntário quando eu dei um pulo para trás, assustado, e dei uma testada na prateleira, que com um lamúrio prolongado, tombou no chão, fazendo um estrondo.

Ambos arregalamos os olhos, nos virando em direção a porta, de onde uma gritaria irrompeu.

—Tem mais trouxa querendo roubar aqui? —Percy soou surpreso.

—Talvez sejam mais ratos. —Annabeth tinha um quê de nojo na voz.

—Provavelmente são —a mocinha do caixa apoiou.

—Jailson, vai lá de novo! —uma voz masculina ordenou. E então silêncio se seguiu.— JAILSOOOOON! —o homem berrou, me trazendo de volta a realidade. A porta da loja de conveniência fez um ruído abafado ao abrir, e logo passadas ágeis dirigiram-se até a dispensa.

Nesse meio tempo eu já estava empurrando Will para o outro canto da sala, onde tinha uma mesa cercada por sacos de farinha. Tirei um, liberando passagem para entrar debaixo dela.

—Vá primeiro —chiei de modo quase inaudível para Solace, que sequer pôde protestar contra meu empurrões, e logo já estava encoberto pela mesa. Me agachei rapidamente e engatinhei para debaixo da mesa, puxando de volta o saco para cobrir o lado por onde entráramos. Em seguida acabei ficando de quatro no chão, encarando as sombras projetadas nos sacos a nossa volta.

Um click anunciou a abertura da porta e consequente entrada do tal do Jailson (sem comentários para esse nome). Não ousei fazer sequer um barulho, e precisei do dobro do esforço ao notar algo se mexendo embaixo de mim.

Parei de olhar os sacos que nos escondiam completamente. Assisti confuso Will se ajeitar embaixo do meu corpo, (que era uns bons 10 centímetros menor que o dele). Ele pareceu ficar confortável e ergueu os olhos, deparando-se imediatamente com os meus a uma curta distância. Meu cérebro travou de novo.

Maldito órgão.

Por alguns segundos apenas encarei os curiosos olhos azuis diante de mim. Eram absolutamente estonteantes.

Encolhi os dedos dos pés quando ele abriu um pequeno sorriso, como se se desculpasse. Ele queria me beijar. E eu tinha quase aberto minha testa pra fugir dele (numa escala de 0 a 10 estava doendo 12).

Droga de reflexos.

Era frustrante. Ele não se aproximaria de novo depois do sobressalto que eu tive na bendita prateleira, e eu tinha plena consciência de que aquele não era o momento certo para tentar me comunicar (passos lentos demoravam-se em frente à mesa).

Mas eu não ia aguentar ficar esperando a criatura-Jailson sair do cômodo pra eu poder falar alguma coisa. Meu rosto devia estar vermelho como nunca esteve, e até agora não sei de que buraco tirei confiança suficiente para me mover:

Hesitantemente, desci meu rosto para o de Will, fechando os olhos. Virei um pouco a cabeça, encaixando meu nariz em sua bochecha, e resvalei sua boca na minha. E então beijei carinhosamente seu lábio superior. Ele suspirou baixinho e entreabriu os lábios, possibilitando-me capturar o inferior entre os meus.

Era o toque mais sutil que eu já havia me atrevido a fazer. Meu coração já era uma escola de samba desenfreada, e minha mente explodiu como vidro quando ele esticou uma mão e me fez um cafuné gostoso, a ponta dos dedos enroscando-se nos fios molhados de meu cabelo. Will passou a língua por meus lábios, e os moveu suavemente em conjunto com os dele. Passei meu polegar por sua bochecha, sem conseguir me conter.

Senti que eu derreteria.

E talvez eu tivesse mesmo, caso Jailson não tivesse sentado na mesa a cima de nós, produzindo um “nheeeec” agudo que me tirou do meu transe. Me afastei de Solace no mesmo segundo, o rosto impossivelmente quente.

Abri e fechei a boca várias vezes, sem saber o que sussurrar, ou como reagir. Caramba, Nico!

Will me observou, confuso com a interrupção abrupta. Suas bochechas estavam coradas (assim como as minhas sem dúvidas estavam... e eu ainda tinha o bônus de estar com o cabelo bagunçado) e seus lábios estavam avermelhados. Ele sorriu debaixo de mim, achando graça na minha reação. Ergueu a cabeça e tocou meu pescoço com o nariz, roçando-o, ali como um gato buscando carinho. B-bem... ninguém estava olhando e-então não faria mal se... engoli em seco, acariciando levemente sua nuca e senti um sorriso contra a pele sensível do meu pescoço. Todo o sangue do meu corpo devia estar acumulado em meu rosto.

—A madeira da prateleira tá podre chefe —comentou Jailson, conforme eu saía de cima de Will silenciosamente, me encolhendo num canto, e recebendo um olhar de interrogação— Deve ter arrebentado.

—Seu inútil!! —o outro homem se estressou— Venha cá pegar o dinheiro e eu vou conferir.

—Como quiser —o homem levantou-se da mesa, que certamente também estava podre. Eu não afirmaria com tanta certeza se ela não tivesse desabado em cima de nós.

Um galo já despontava em minha cabeça. Tsc.

—Não tem nada aqui que preste?!— me irritei em voz alta, porque de uma maneira ou de outra, os caras nos veriam ali.

x

Os homens tinham vazado logo depois de pegar os 22 reais, e, claro, de nos amarrar com Percy, Annabeth e a mocinha do caixa no centro da loja.

Por pura sorte (na verdade foi graças à falta de noção deles) as cordas estavam frouxas, então não foi grande coisa sair dali. Quando conferi em meu celular, ainda faltavam 6 minutos para o fim do turno.

Nem sabia mais se eu estava feliz ou decepcionado com o prazo. Corri os dedos por meu cabelo.

Cheio de nós, que beleza. Estreitei os olhos, resmungando.

Enfiei as mãos dentro dos bolsos de minha blusa de moletom e suspirei, fechando-as ao lembrar da sensação de ter os lábios de Will nos meus.

Ah, droga. Agora que eu não ia superar minha paixão secreta mesmo.

—Pra sua testa —ouvi ele próprio dizer.

—Quê? —virei-me em sua direção, sem entender direito, e vi ele segurando um pacotinho de band-aids.

—Ah. —tentei soar calmo— Valeu.

E antes que eu estendesse a mão, ele abriu um e se aproximou de mim, afastando minha franja.

Quase engasguei com saliva, e meu corpo me traiu mais uma vez. Meus batimentos se aceleraram. Resmunguei alguma coisa, entretanto sem me afastar.

—Achei que você fosse surtar se eu te beijasse —ele comentou baixinho, e fui incapaz de desviar o olhar de sua expressão concentrada conforme ele ajeitava o band-aid.

—Tecnicamente eu surtei.

Ele sorriu, colando o curativo.

—É. Mas me beijou depois, e eu gostei. Foi inesperado. —ele fechou a caixinha de band-aid e eu olhei em volta, envergonhado. A mocinha do caixa estava vagando pela pista na tentativa de encontrar sinal. Percy estava comendo uma rosca (corajoso. Eu não duvidaria de que estivesse vencida), Annabeth estava lendo gibis no chão, ao lado dele, e Will e eu estávamos de pé perto da entrada, ao lado da árvore de natal (que os ladrões acabaram derrubando na pressa).

—Minha oferta para a gente passar numa cafeteria 24 horas quando sairmos daqui ainda está de pé —lembrei com as mãos nos bolsos, olhando discretamente para ele.

—Ótimo. —sorriu, aceitando— Depois de toda aquela chuva, preciso mesmo tomar um chocolate quente.

Um carro estacionou em meio à chuva em frente à loja, buzinando. Franzi a testa e fiz uma careta ao reconhecer minha irmã no volante.

Em um milésimo de segundo, um carro de polícia estacionou ao lado.

x

Observei o “3:00 a.m” que a tela do meu celular exibia. Já tínhamos dado depoimento para a polícia, e quando o treinador Hedge brotou por lá no fim do turno para nos ver, tiramos uma foto com os policiais na frente da árvore de Natal caída.

Livres da detenção. Agora era só estudar física e sentar bem longe de Percy na aplicação da prova.

Minha irmã estava dentro da cafeteria, comendo e conversando com Annabeth, Percy estava dormindo no carro e Will e eu estávamos do lado de fora, num canto escuro. Minhas costas estavam apoiadas na parede rústica de tijolos. Sorri para o loiro a minha frente.

E quando me estiquei para beijar Will mais uma vez, pensei que talvez, apenas talvez, eu devesse agradecer a Percy Jackson por essa detenção.



Notas finais
Quero saber o que vocês acharam... reviews são muito bem-vindos, respondo todos 'v' Obrigada por acompanharem :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!