Contratos
1 Enxerto
Notas iniciais
Agora, sem mais delongas...
— Vai ser reggae pesado ou leve?
Quando feita a qualquer outro cliente, aquela pergunta não era nada além de uma formalidade – todo intermediário que se prezasse a faria antes de dar início aos negócios. Mas havia preocupação genuína na voz de Carlos, e não só nela. Suas mãos, acostumadas a gestos firmes e grandiloquentes, haviam se pregado à ao tampo da mesa, pesadas demais para o menor tamborilar de dedos. Seus olhos brilhavam, umedecidos.
Do outro lado da mesa, outro homem terminava de se sentar. Chamava-se Sam. Só Sam. Ele era mais jovem, tanto em aparência quanto em verdade, e nisso havia mais um dos muitos contrastes entre Carlos e ele. Enquanto o cabelo de um era branco e seco, enrijecido pelo tempo e disposto ao redor de um caso terminal de calvície, o do outro era de um preto sedoso, agitando-se, repicado, mesmo que não houvesse vento no escritório amplo em que estavam. A compleição de Carlos, ainda definida apesar do desleixo, era de uma solidez conspícua em comparação ao corpo esguio de Sam. Mesmo o estilo com que se vestiam era uma oposição: Carlos trajava um terno sem gravata, estampado com riscas em padrões geométricos, e Sam usava um conjunto preto de camiseta, calças e tênis muito bem ajustados ao corpo.
Seria difícil olhar para o rosto do mais jovem, a pele alva escurecida até ficar da mesma cor dos cabelos em vários pontos, e para o rosto de Carlos, vincado por rugas que não deviam sua existência ao tempo mais do que deviam à preocupação, e ver neles o mesmo tipo de homem. Mas, ainda assim, era isso o que eram.
— Pesado, Vôzinho — respondeu Sam, na melhor imitação de despreocupação que conseguiu improvisar. — ‘Cê sabe que só sei trabalhar com reggae pesado.
Carlos não viu graça na atitude. A boca, que pendera aberta em incredulidade desde que Sam fizera sabido o motivo de sua visita, se uniu num traço fino, levemente trêmulo. Ele fez surgir entre os dedos um bloco de anotações e uma pena, esticando as costas e baixando os olhos respeitosamente. Sua postura era uma tentativa de impessoalidade, uma fachada de profissionalismo que só era forjada para enganar a si mesmo.
— Do que precisa? — perguntou o velho.
Sam não respondeu de imediato. Ele estreitou os olhos de leve, recostando-se na cadeira, e deixou o silêncio flutuar entre ambos, levando e trazendo palavras que jamais seriam ditas. Pareceu considerar algo pelo longo momento que se seguiu, e chegou a abrir a boca para falar, mas mudou de ideia no último segundo. Deixou a coluna se esparramar outra vez, retomando a despreocupação aparente, e só então disse alguma coisa.
— Preciso de feitiços — a voz de Sam era artificialmente jovial, uma tentativa gritante de ignorar os sentimentos que Carlos deixara transparecer, mesmo sem querer, e que sentia feridos ante a indiferença. — Os melhores que conseguir arranjar, e novos; ouvi falar de todo tipo de coisa tenebrosa na última convenção, e que aqueles netos do Rasputin inventaram outra carrada de magia que ninguém nunca viu antes. É justamente disso que preciso; não posso participar desse reggae se não tiver nada novo na manga.
— Que tipo de feitiços, senhor?
Sam se moveu para responder, mas só então a última palavra da frase o atingiu. Ele pausou, palavras já formadas na boca semiaberta, e reteve a pose por tempo suficiente para que ela se tornasse uma careta. Muito lentamente, prosseguiu:
— Feitiços de matar — sua voz era de calma férrea, mas estava esquentando; havia fogo por baixo dela. — É reggae pesado, lembra?
— É que não sou pago para presumir as intenções dos meus clientes — Carlos pausou, apenas para ver o final da frase acertando Sam como um tapa na cara. — Além do mais, ninguém é burro o bastante para sair por aí só com magia de combate. Um mago em jornada precisa se esconder, comer, dormir, comungar...
— Um mago de verdade não precisa comprar feitiços para fazer nenhuma dessas coisas — Sam interrompeu, o fogo dentro de si derretendo o metal em sua voz com lambidas vigorosas.
Carlos suspirou, mas havia satisfação no ato.
— Muito bem — ele manteve a compostura, a boca agora lutando contra um sorriso teimoso. Rabiscou algo no papel, dando a ênfase necessária ao ato para que fosse clara a sua teatralidade. — E do que mais?
— Informantes — Sam resmungou, cruzando os braços. — Preciso de gente que me conte coisas, conheça lugares e possa indicar serviço de qualidade.
Carlos pousou a mão sobre o peito, afetando ofensa.
— E já não tem gente assim, senhor?
Sam rolou os olhos. O velho saboreou aquela pequena vitória
— Há o Sr. Ramalho, e com ele...
— Ninguém que me conheça — Sam acrescentou apressadamente. — Meu networking tá fodido desde o último reggae.
— O trabalho para o Sr. Lucas? — A curiosidade de Carlos era genuína. — Foi um serviço simples, não foi? Encontrar e informar.
— Meus colegas de profissão não aceitam trabalhos dele, seja lá quais forem — Sam fez um gesto de descartar com uma das mãos. — Acham que o cara é doido, e que ajudar ele prejudica os negócios. Além do mais, tem um papo sobre ele estar começando um culto, e você foi o único intermediário que não me recebeu com medo de eu estar usando um colete-bomba.
— Que falta de profissionalismo — Carlos comentou. — Se quiser trabalhar com alguém que não te conheça, vamos ter de expandir nossas opções para fora do país.
— Preciso de gente no campo, Vôzinho — contrapôs Sam. — Qual o sentido de ter alguém no apoio se a pessoa não conhece nada do lugar em que vou participar?
— Ah, mas eles conhecem — o velho sorriu. — Brasil virou o centro das atenções místicas nas últimas décadas: uma bomba-relógio pronta para explodir. Um coven de magos portugueses chamado Grafia, por exemplo, acha que faz sentido catalogar tudo que acontece em terras tupiniquins para que as próximas gerações tenham uma ideia melhor do contexto histórico de antes, durante e depois da Grande Guerra. Para isso, eles desenvolveram uma rede de informações extensa e independente no nosso país, e aceitam compartilhar essa informação.
— Mas...?
— Mas eles cobram caro. Muito caro. — Carlos anotou algo mais em seu caderninho, e dessa vez o gesto não era cenográfico. — Do que mais vai precisar, Sam?
— Aparentemente — o mais jovem sorriu, zombeteiro — de dinheiro.
O rosto de Carlos se fechou ante à resposta.
— Sabe que não posso emprestar dinheiro para um cliente de serviços e vice-versa.
— Então me deixe pagar — Sam propôs, curvando-se para a frente. — Tem algum trabalho pra mim por aí?
Carlos congelou. Sam não se deixou abalar pela reação repentina, e se manteve inclinado, o rosto cuidadosamente sorridente, esperando por uma resposta que demorava a chegar sem dar atenção ao tempo que passava.
— O quão importante é esse reggae? — foi a pergunta que o velho fez.
Sam estava preparado para tudo, menos para ela.
— O quão...? — Ele ponderou, o rosto torcido em desentendimento. — É um trabalho como qualquer outro. Por que isso importa?
— Não lembro da última vez em que você voltou aqui atrás de ajuda para fazer alguma coisa — a voz de Carlos retomara um pouco de seu ar natural desde o início da conversa, ainda que pesasse com a seriedade. — E, mesmo nas vezes em que isso aconteceu, não consigo pensar numa situação que você não possa resolver com magia antiga. É algo importante, não tente me enganar; só quero saber o quanto.
Sam passou por todas as suas reações preponderadas de uma vez só, optando por uma sincera ao final delas. Deixou os ombros caírem, olhando para um canto do tapete com mais intensidade do que conseguiria transparecer diretamente para Carlos
— É o moleque — disse. — Ele tá com problema.
Silêncio assumiu o controle do cômodo outra vez. Carlos respirou fundo.
— Tem uns encrenqueiros no Norte que me devem dinheiro — informou, sua voz lutando para emular o tom casual de negócios. — Ciganos de Manaus. Pagaram por um exorcismo, e a coisa toda se complicou até eu precisar montar um esquadrão de extermínio para resolver o problema. Não querem pagar pelo extra. Você vai lá, dá um susto neles e...
— Que porra é essa? — O sotaque baiano de Sam despontou na frase, acentuando cada sílaba até transformar a frase numa coleção de agudos. — Isso é um trabalho de mixaria. Não dá pra pagar um truque do David Copperfield por um serviço deles, que dirá material russo de última geração. Tá tentando me engabelar, Vôzinho? Me deixar te devendo?
— Não, eu... — O velho passou as mãos pela cabeça, o gesto quase compulsivo na tentativa de conter o desespero que sentia, mas expressando-o em si mesmo. — Não. Não é... Não seria justo cobrar caro por algo tão importante. Eu...
— Deixe de viadagem — pediu Sam. Sua irritação condensara-se, enrijecera. — Cobre o que é justo. Você deve ter alguma coisa aí que sirva para pagar pelo seu serviço e ainda cubra as despesas com os portugueses. Pense um pouco, véi.
Carlos não precisava pensar, mas optou por fazê-lo apenas para se distanciar da decisão que chegava. Silêncio ameaçou retomar o controle do mundo ao redor deles pela terceira vez, mas o velho foi mais rápido:
— Existe um serviço que pague — sua voz não tinha nada do que tinha saído de sua boca até então. Soava vazia. — Mas é perigoso. Eu não quero que...
— Me poupe — Sam uniu as mãos sobre o colo, inclinando-se para ainda mais perto. — Quero saber dos detalhes. Quem é que eu mato? Como quer que seja a morte?
Carlos já não tremia num reflexo das emoções que contorciam-se em seu interior. Tudo o que ele fez foi fixar os olhos nos de Sam antes de falar:
— O Alto Marquês de Espírito Santo. Quero que o mate de forma mais barulhenta e grotesca possível, e que mande com ele o máximo de familiares que conseguir.
Sam não conseguiu esconder seu espanto, mas não o expressou ativamente.
— Devo dinheiro a ele — Carlos se pôs a explicar, mesmo que não se soubesse de clientes que justificavam o serviço que pediam. — Devo dinheiro a Deus e o mundo, você sabe, mas isso nunca foi um problema até o Marquês comprar 90% das dívidas que tenho por aí.
— Ameaças de morte?
— Ele não é burro — Carlos sorriu amargamente. — Estou há mais tempo no negócio do que o próprio Visconde; sou mais valioso como um empregado do que como um defunto. Isso não é novo: de tempos em tempos, alguém paga para me ter em débito, só porque sabe que não consegue me contratar de outra forma. Mas ele... As coisas que me pede para fazer...
Sam, mais uma vez, não perguntou por não precisar.
— Quero que mande uma mensagem por mim — a voz de Carlos voltava a nutrir uma nesga de semelhança consigo mesma, mas a similaridade era frágil como uma vela na ventania. — Para todos eles. Existe um motivo pelo qual não trabalho para as elites, e elas não deveriam acreditar que os serviços que presto para pagar dívidas invalidam esse motivo.
Sam ficou muito quieto, mas seu silêncio não dava espaço para o silêncio do cômodo. Ele respirou pela boca, provando e descartando palavras.
— Não existe outro serviço que pague pelo poder que estou pedindo — disse, por fim. Não era uma pergunta, mas Carlos concordou com a cabeça. — Eu, Sam, considero justa esta barganha e correspondentes as propostas que cada lado dela fazem.
Eles apertaram as mãos, mas Carlos não conseguiu aplicar força na sua. Mesmo sem o sentimento preenchendo-o, o gesto serviu para seu propósito. O velho sentiu sua alma unir-se à de Sam por uma fração de segundo, e no lugar em que elas se tocaram ele conseguia sentir a marca do pacto firmado ali.
***
Carol teve metade de um segundo entre o grito escandaloso de “pega” e o momento em que uma maleta caiu em seus braços. Foi um verdadeiro milagre ter reagido a tempo, mas ela precisou de um estardalhaço de braçadas e pernadas para se equilibrar depois do movimento súbito e se ouviu soltando gritinhos quando, na confusão, a maleta ameaçava cair.
Num ponto próximo do calçadão, uma família de europeus assustada pelo espetáculo de desajeito interrompeu sua sessão de fotos. Eles olharam para Carol com o espanto polido que só um grupo de turistas do primeiro mundo poderia afetar, e ela sentiu o rosto esquentar de vergonha. Pensou até em pedir desculpas, mas teve uma ideia mental do que eles estavam vendo – a garota baixa e magra usando uma parca em pleno verão, dúzias de anéis nos dedos e piercings em cada aresta do rosto quase que inteiramente coberto por um par de óculos escuros, com lábios delineados pela crosta dos dezessete chicletes de nicotina que havia mascado desde acordara e o som do vibrador perpetuamente encaixado em sua virilha, combinado ao dos fones no máximo, envolvendo-a como um enxame de moscas – e decidiu fingir que não era com ela.
Carol olhou ao redor, procurando por quem havia gritado na rua movimentada atrás de si, no próprio calçadão e na direção da baía de Todos-os-Santos, cuja paisagem se amplificava a partir do precipício à sua frente. Deu com Sam saindo por entre as portas duplas do Elevador Lacerda, os dentes à mostra. Ela se sentiu transmitir a reprovação que sentia pelo rosto.
— Você não consegue se comportar que nem gente, não?
— É que você deixa tão divertido não agir assim — ele parou para avaliar os arredores, dando-se por satisfeito ao encontrar em meio à multidão um vendedor ambulante. — Desculpa a demora, japinha. Mesmo que eu não ache pecado tão grande assim ter um tempinho a mais numa atração turística dessas. Tirou umas fotos? Visitou o museu?
Sam não esperou que ela respondesse, atravessando o mar de gente que o separava do vendedor numa agilidade impossível. O homem levava metade de sua mercadoria num engradado de isopor acoplado a quatro rodas, e outra metade num vasilhame de plástico transparente alçado ao ombro esquerdo. Seu braço livre era encarregado de repicar um sino, e era com ele que ditava o compasso dos gritos com que anunciava seus serviços.
Carol alcançou Sam bem quando ele fazia seu pedido.
—... esse bauru, aí? Presta mermo? — A pergunta não podia ser séria, mas o vendedor a respondeu com ares de orgulho ferido, e Sam concordou gravemente, os olhos em crítica observação do vasilhame. — Então me vê dois. E pra beber, o que é ‘cê manda?
— Só escolher — o ambulante abriu o isopor a seus pés, revelando um montante de gelo encrustado com latinhas e garrafas dos mais variados tamanhos e cores. — O litrão tá saindo a sete, a de quinhentos a quatro.
Sam olhou para o engradado aberto, descrença tomando seu rosto.
— Tá me achando com cara de turista, parceiro? — Ele se moveu para sair andando. — Se eu quiser assalto, vou pro Modelo.
O vendedor tentou uma recuperação apressada, listando outra tabela de preços e botando a culpa na inflação. Sam, satisfeito, acalmou-o dizendo que “a situação não ‘tá fácil” e pediu um suco de laranja no fim das contas. Antes de pagar, virou-se para Carol.
— E você, Mulan? O que vai querer?
— Eu quero... — Ela deu um passo à frente, aproveitando a inércia do movimento para jogar a maleta de volta com toda a força no peito dele. — Que você pare com os apelidos.
Sam recebeu o golpe com uma desenvoltura irritante.
— Cuidado aí, K-Pop — ele segurou a maleta com cuidado, limpando sujeira imaginária de sua superfície. — Aqui dentro tem poder suficiente para transformar esse país inteiro num sapo, e o resto do mundo numa princesa tão feia que vamos preferir continuar assim.
Carol manteve a expressão irritada pelo tempo que demorou para registrar que Sam estava falando sério. Ela recolheu a mão que iria usar para socá-lo, olhando ressabiada para o retângulo de couro entre ambos.
— Então estamos prontos? Dá pra salvarmos o Mica?
Os lábios de Sam se retorceram de leve, mas ele fez que não com a cabeça.
— Os feitiços estão aqui dentro, mas ainda não são meus. Preciso pagar por eles antes, ou então qualquer um, até a pessoa em quem eu usá-los, pode tomar posse deles.
— Certo. E o que precisamos fazer?
— Você continua usando o plural — disse Sam, o lábio agora retorcido mais pronunciadamente. — O que estou pra fazer não é parte do nosso acordo. Não precisa vir.
— O acordo é que você salva o Mica — Carol disse, esticando as costas agressivamente —, e que eu acompanho de perto. Tudo o que fizer até lá é parte do acordo.
Sam puxou ar, frustrado, mas sua resposta foi interrompida pelo vendedor.
— ‘Cês são bruxos?
— Sou nefilim — Carol respondeu, quebrando o contato visual da discussão para sorrir para ele. — O otário aqui é quem senta em cabos de vassoura.
O ambulante virou-se para Sam:
— De verdade, cara?
O jovem mago estendeu a mão para o rosto do homem, que recuou de leve. Sam permaneceu nessa posição, o braço nivelado pouco acima da cabeça do ambulante, até que ele percebesse o que havia de errado no gesto: Sam não projetava sombra sobre seu rosto.
Carol viu os pelos no braço do homem se arrepiarem, mas ele ficou muito quieto.
— De verdade — Sam sorriu, mas foi um sorriso sem humor. — Que é que ‘cê quer?
— Eu queria dinheiro, senhor — o ambulante balbuciou, subitamente incapaz de olhar diretamente para ele. — Pode me ensinar a conseguir? Com magia, sabe?
No murmúrio incessante das centenas de conversas ao redor deles, o silêncio constrangido que se seguiu quase passou desapercebido. Carol riu, uma risada desconcertada.
— Olha, moço...
— Me mostre suas chaves — Sam a interrompeu, sério, esticando a mão aberta.
Ele agarrou o chaveiro que o ambulante lhe entregou, atrapalhado.
— Todas as chaves da sua casa estão aqui? — Perguntou. Quando recebeu uma resposta positiva, prosseguiu: — Amanhã de manhãzinha, esfregue isso entre as mãos por dez minutos. Não mais, não menos. Quando terminar, tire as chaves do chaveiro e arrume elas em forma de cruz na mesa da cozinha. Da cozinha, ouviu bem? Aí, reze um Pai-Nosso.
O vendedor finalmente arranjou coragem para levantar o rosto.
— Minha avó me ensinou isso desde criança, senhor. Não tem magia de verdade aí, não?
Sam riu baixinho.
— Você não quer brincar com magia de verdade, homem — ele devolveu as chaves depois de trazê-las para perto do rosto e sussurrar algo para elas. — Pronto. Estão abençoadas. Se acha que o problema está nas chaves, resolvido. Agora, só precisa acreditar.
— Minha avó também dizia isso — o vendedor ainda não parecia convencido. — Morreu na miséria, e deixou um caminhão de dívidas pra meu pai pagar.
— Ora — Sam deu um tapa brincalhão no ombro dele —, é só acreditar mais ainda.
Ele se despediu com isso, e Carol o seguiu depois de olhar para o ambulante uma última vez. Andava tão rápido que ela só conseguiu alcançá-lo do outro lado da rua.
— Enganar humanos assim não é legal — comentou para Sam, lutando para se manter no ritmo dele sem se chocar com alguém. — Você podia ter pagado pelo lanche, pelo menos.
— Eu paguei — ele aproveitou o desacelerar de um carro que passava para atravessar pela rua, puxando Carol pelo ombro e incitando uma orquestra de buzinas. Eles chegaram do outro lado numa corridinha, e se embrenharam no primeiro beco que levava para longe da via principal. Passaram por um corredor de lojas e barraquinhas encoberto pela sombra dos prédios, e então já estavam numa parte menos turística da cidade. — Se ele fizer o que eu falei, vai acabar o estoque de salgados antes da hora do almoço.
— Espera, o quê? — Ela franziu o cenho, mesmo que ele não estivesse virado para ela. — Abençoou mesmo as chaves? Não era só uma cena besta?
— Claro que não — havia a mais leve sugestão de ofensa na voz de Sam. — É dever de todo mago ensinar magia a quem quer aprender.
— Mas você ensinou uma simpatia pra ele.
— Oh, querida — Sam parou, de repente, e chacoalhou a maleta sem levantá-la. — Toda magia é só um bando de superstições costuradas juntas. Agora, vamos. Conheço um hotelzinho ótimo onde pode ficar hospedada até eu voltar.
Foi a vez de Carol estacar.
— Ainda nisso?
— Ora, vamos — Sam soltou um suspiro curto que dilatou suas narinas. — Não posso fazer essa parte da missão com você. É perigoso.
— Você nem me explicou o que vamos fazer — Carol cruzou os braços. — Como espera que eu acredite que é perigoso?
— Pois bem — ele cerrou os dentes num sorriso feroz. — O cara que me vendeu esses feitiços quer que eu mate um dos magos mais poderosos do mundo como forma de pagamento. Não só encostar num fio de cabelo de um membro das elites é um crime passível de morte, como matá-lo para livrar o mandante de suas obrigações é um ataque direto à Lei.
— Espera — Carol ergueu a mão. — Matar é errado, mas matar para se livrar de uma dívida é mais errado ainda?
— Um acordo de pagamento é o pacto mais sagrado entre magos — Sam explicou, traindo certa deferência na voz. — A Lei estabeleceu isso, e é Ela que nos mantém na linha. A Lei é a civilidade, e atacá-la é se declarar incivilizado, um animal. Eles vão me torturar por anos, e vão estender essa punição a qualquer um que for visto comigo durante a época do crime.
— Mas você só está fazendo um serviço. Por que culpariam você, e não o mandante? — contrapôs a garota. — Admita que só não me quer atrapalhando e podemos resolver daí.
— Eles não ousariam punir o sujeito que me mandou fazer isso — o sorriso selvagem no rosto de Sam se alargou. — Vão descontar em mim.
Carol engoliu em seco.
— Você... ‘Cê tá falando de um jeito esquisito. — ela inclinou o rosto, como que para olhá-lo melhor. — Como se fosse deixar eles te pegarem por isso.
— Não vou — Sam garantiu, o sorriso ganhando contornos tristes. —Mas eles vão pegar.
Haveria silêncio, não fosse o ruído constante do cotidiano que os cercava. Carol baixou as mãos, unindo-as às coxas, e desviou o olhar.
— Não posso deixar que faça isso — ela disse. — Vai morrer antes cumprir nosso acordo.
Sam deu um tapinha sem humor na maleta.
— Existe magia do tempo aqui, também — explicou. — Um feitiço poderoso o suficiente para me mandar uma semana no passado, que é mais ou menos quanto tempo vou precisar para pagar por ele. Vamos poder voltar para esse momento exato, para o agora, e então salvar seu namoradinho antes de eu me tornar um homem procurado.
Carol fez um O perfeito com a boca, a surpresa superando o pesar.
— Então vamos voltar no tempo, fazer o que precisamos fazer, e te impedir de matar o sujeito? — ela sorriu. — Esse é o tipo de manobra que eu...
Sam não ergueu os olhos para responder. Não reagiu. Carol não demorou para entender.
— Não é tão simples assim, é? — perguntou.
Sam continuou sem responder. Seu rosto apresentava uma neutralidade fabricada, e sua atenção, embora fixada na maleta, parecia vagar.
— Você vai morrer — Carol constatou, assombrada consigo mesma. — Não acho que o pagamento que te ofereci valha tanto. Não acho que possa aumentá-lo para que valha.
O sorriso selvagem voltou à tona, direcionado a seja lá qual fosse a memória que surgiu no interior de Sam quando ele respondeu:
— Oh, minha querida — ele finalmente voltou sua atenção para ela. — Não estou fazendo isso pelo seu pagamento. Nunca estive.
O intervalo que se seguiu foi maior que o anterior. Sam mordiscou um de seus baurus, e Carol se ofereceu para segurar a maleta, sentindo-se impotente.
— Pensei que tivéssemos vindo até aqui porque esse cara podia ajudar — ela comentou. — Você disse algo sobre ele ter te criado, num disse? Por que ele te mandaria pra morrer assim?
Sam, mais uma vez, não respondeu.
Quando se cansou de comer, ele pegou a maleta e saiu sem nenhum comentário ou gracejo, e Carol o seguiu sem humor para importuná-lo com mais perguntas. Eles chegaram à calçada onde haviam deixado o carro estacionado, mas Sam não se moveu na direção dele. Carol estava prestes a chamá-lo quando descobriu o porquê: a vaga que haviam ocupado estava vazia.
— Como achar Micael é sua prioridade, achei melhor deixar o carro pra depois — Sam disse, sem se virar. — Atrasar um pouquinho é bom; quanto mais tempo levar para fazer a missão de agora, mais tempo teremos para a missão de verdade.
— Do que está falando? — A voz de Carol traiu-se, aguda. — O carro...
— Nós o pegamos depois — explicou Sam, a inflexão em sua voz conjugando o verbo no passado. — Quando voltei pra cá, para o agora, como disse que faríamos.
Carol olhou da vaga vazia para Sam, e refez o trajeto algumas vezes até arregalar os olhos e cobrir a boca, rindo.
— Então já voltamos no tempo? Isso quer dizer que conseguimos, não é? — Ela riu um pouco mais, maravilhada. E então estreitou os olhos. — Será que não podemos só esquecer seu acordo suicida, então? Você e eu, ou pelo menos nossas versões do futuro — ela saboreou o que tinha acabado de dizer, sorrindo —, já temos os feitiços. Dá pra procurar uma rede, deitar e esperar que eles façam o trabalho.
— Eu não deito em redes — Sam contrapôs, a voz pouco à vontade. — E o tempo não funciona assim. Precisamos manter um loop estável se formos voltar para o passado, e isso quer dizer que nada deve ser mudado. Fazer algo assim poderia criar uma realidade alternativa em algum lugar, e a elite é responsável por evitar isso. Atrair a atenção deles enquanto planejamos matar um dos seus não é uma boa ideia.
Carol decidiu que gostava ainda menos de Sam quando ele ficava sério. Ela o acompanhou pelas vielas sinuosas às margens do centro comercial até ambos encontrarem uma concessionária de usados. Ele passeou pela loja, testando sumariamente a suspensão de alguns carros, até encontrar um Corsa sedã prateado que o agradou. Um vendedor, que acompanhara todo o processo com a paciência que faltava na classe, aproximou-se quando Sam fez sinal.
— Quero levar esse — ele informou ao vendedor, seco. — Mas só vou poder fazer algo assim se seu chefe reconhecer isso.
Ele tirou um pedaço de couro enrolado da maleta e o entregou ao rapaz fardado à sua frente. O vendedor segurou o objeto sem entender, e Sam o despachou com um gesto de enxotar. Ele voltou pouco tempo depois, esbaforido, com a chave nas mãos.
— Obrigado pela preferência — disse, entregando as chaves com o máximo de compostura que conseguia manter na pressa. — Tenha uma boa tarde, senhor.
— O que foi isso? — Carol perguntou, depois de acompanhar o vendedor se despedindo com uma série de vênias atrapalhadas.
— Um glifo de prosperidade — Sam explicou, casualmente. — Não tinha certeza se o dono do lugar sabia o que significava; não é todo mundo que sabe. Uma belezinha daquelas pregada na parede de uma loja atrai riqueza que nem uma carcaça podre atrai verme.
— O ambulante merecia um desses — Carol disse, abrindo a porta do passageiro.
Sam a encarou, e a intensidade de seu olhar fez com que ela parasse.
— O que foi?
— Que está fazendo? — A expressão dele fechou-se. — Não ouviu o que eu disse? Morte certa, tortura, ser caçada como um animal selvagem?
— Ah — ela sorriu, dando de ombros, e tornou a abrir a porta. Jogou seus pertences no banco de trás, despreocupada, e então sentou-se no do passageiro. Bateu de leve no banco do motorista, sorrindo para Sam. — Era só isso?
Ele olhou para cima, fechando o punho na quina da outra porta, e soltou um grunhido.
— Como dizem nos States — disse, suspirando ao entrar no carro —: o funeral é seu.
Ele acelerou pelas ruelas, seguindo um caminho que Carol havia parado de tentar entender no momento em que notou que estavam andando em círculos. A viagem continuou assim por quase meia hora, quando enfim Sam deu uma guinada para fora do circuito através de uma viela que desembocava numa estrada de terra batida cortando a zona rural da cidade, e que, no final, dava para a rodovia.
Carol acompanhou Sam dirigir com atenção, tentando ler em seus movimentos menos da frustração enrijecida que ele havia apresentado depois de explicar o trabalho que estava para fazer. Queria encontrar nele qualquer sinal de medo da morte, mas a frustração ainda estava lá, franzindo a base de seu nariz e endurecendo os movimentos de seus dedos do volante para o câmbio. Ela percebeu que não encontraria uma hora melhor para perguntar o que queria, e que iria se esquecer de fazê-lo se não perguntasse logo.
— O cara que você foi ver — ela disse, a voz quebrando ante a própria incerteza de não saber como ele ia responder. — O que te deu esse trabalho. Vôzinho, certo?
Sam subiu uma marcha, os olhos atentos à estrada.
— Eu só queria saber — ela explicou-se, erguendo as mãos. — Você não explicou nada, então é só conjectura, mas você mencionou algo sobre ele ser a única pessoa para quem você poderia trabalhar sem medo do que o serviço o obrigaria a fazer.
— O sujeito que vamos matar perdeu o nome há muito tempo — Sam disse, de repente. — Chamam ele pelo título e pelo lugar onde governa: Marquês de Espírito Santo. Ele faz parte da elite, o que quer dizer que tem parte em inúmeros sacrifícios humanos, come carne de criança que nem gente normal come hambúrguer, e participa ativamente do extermínio de nefilins. Ele é uma pessoa ruim, e duvido que vá encontrar entre seus familiares e amigos alguém que preste. Não vou me sentir mal por matá-lo.
A atitude defensiva surpreendeu Carol.
— Não quis dizer isso.
— O que quer dizer, então?
Ela o encarou, firme, até ter certeza de que ele só não a estava olhando de volta por pura covardia.
— Quero dizer que esse homem significa muito para você, e não só no sentido doentio que a maioria dos magos ama as mesmas pessoas que têm vontade de matar — Carol se surpreendeu com a veemência da sua voz. — Você respeita ele, acha ele justo. Queria entender por que alguém assim mandaria um antigo aprendiz para a morte desse jeito.
Sam apertou o volante com mais força. Ela o acompanhou com interesse, esperando o momento em que ele suspiraria e cederia, mas ele nunca chegou. Silêncio perseguiu-os de perto, mantido à distância só pelo motor do carro, e, por fim, ela cruzou os braços e olhou pela janela, decalcando os próprios pensamentos por sobre a paisagem.
— Ele anunciou uma vaga pra esse reggae há quase cinco meses.
A súbita disposição de Sam para falar consolidou para Carol sua suspeita de que ele só dizia o que ela queria quando podia fingir que o estava dizendo por conta própria. Manteve-se virada para a janela, inclinando minimamente a cabeça para ouvir melhor.
— A data bate com um atentado terrorista a uma universidade de magia na divisa com a Argentina — Sam prosseguiu, confirmando a suspeita. — Todo mundo sabe que foi a mando do Marquês; o reitor era um de seus poucos inimigos declarados. Mas ninguém nunca soube com certeza quem era o responsável. Digo, ninguém que não conhecesse os métodos de Karl.
— Karl?
Carol se arrependeu da pergunta assim que a sentiu escapando por entre os lábios, e passou os segundos pelos quais ele demorou para responder com a certeza de que havia estragado sua chance.
— Vôzinho — Sam corrigiu-se, distraído. — Karl Müller era seu nome quando chegou no Brasil, uns quatrocentos anos atrás, durante a Migração. Ele mudou pra Carlos depois da Independência, quando todo mundo ‘tava muito patriótico e tudo o mais.
— Ele explodiu uma escola? — Carol não conseguiu esconder o horror.
— Eu também não conseguia entender o porquê até ele me explicar, hoje — Ele parecia vagar entre pensamentos, usando as inferências dela como condutores. — Marquês o obrigou. Vôzinho vem procurando alguém para matá-lo desde então, mas os candidatos não serviam.
— É mesmo tão difícil matar o sujeito?
— Não — Sam riu. — Um mendigo conseguiria, bem durante a caminhada matinal dele no parque. Matá-lo com requintes de crueldade, deixar um aviso colado no cadáver e afrontar toda a comunidade mágica do país sem ser pego imediatamente? — Ele aprumou os ombros, o sorriso selvagem de volta a seu rosto. — É preciso um tipo especial.
— Não pode ser tão simples assim — Carol lutava contra a vontade de virar para encará-lo de frente. — Ele não consegue pensar no seu bem-estar? Não pode pegar o segundo melhor?
— Vôzinho tentou me dar esses feitiços de graça — contou Sam. — É um dos motivos pelos quais ele está podre de dívidas: sempre fazendo favores, sempre pensando com o coração em vez da carteira. Ele ‘tava mais puto comigo voltando à ativa do que com todo resto.
— E você aceitou se matar em vez disso — Carol não acreditava. — Tem algum plano, não tem? Uma saída? Você acha mesmo que é capaz de sobreviver, ou então não teria aceitado.
A pausa que Sam fez antes de responder foi tão longa que ela pensou que ele tinha se recolhido outra vez.
— Talvez — admitiu, falando devagar. — Mas você está errada sobre não ser tão simples. Eu preciso consertar a bagunça que fiz no seu homem, trazê-lo de volta, e preciso de um arsenal pra isso. Carlos precisa de alguém para realizar o impossível, e tem o arsenal.
— E o sentimento envolvido? — Carol virou-se, finalmente. — A parte dele que sabe que está mandando o garoto que acolheu nas ruas para a morte? A parte de você que o vê como seu salvador pessoal enquanto faz uma coisa dessas?
Quando seus olhos se encontraram, ela deu de frente com o rosto de Sam virado para ela, os cabelos ondulando contra o vento num ritmo preguiçoso, como que debaixo d’água. Mesmo com o carro a mais de cem por hora, ele a encarou com toda a intensidade que havia lhe negado durante toda a conversa até ali. Ele sabia, e Carol sabia disso. Sabia que a pergunta não era sobre Sam e seu avô de mentira, mas sim sobre um outro aluno mandado para a morte por um professor que amava.
— Essa foi uma das lições mais importantes que Carlos me ensinou — a voz de Sam era grave, e seus olhos não exibiam emoção. — Amor não torna pessoas mais ou menos úteis.
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