Contrato Assinado.
4 Vida do passado
Notas iniciais
Mais um dia tinha começado. Estava um dia cinzento e a única coisa que se ouvia era a chuva a bater na janela. Para mim a chuva tinha um lado bom e um lado mau, tanto me deixava melancólica como me acalmava, mas hoje a chuva não tinha poder sobre as minhas emoções porque a minha atenção estava virada completamente para o que tinha acontecido no dia anterior. Vesti uma roupa quente, bebi café e ainda de meias subi até ao quarto de Travis tentando que o barulho do soalho não denunciasse a minha presença. Bati à porta baixinho, mas não obtive qualquer resposta então entrei lentamente e vi Travis deitado de barriga para baixo, com a mesma roupa do dia anterior e a cara enterrada na almofada enquanto ressonava. O quarto cheirava a tabaco e álcool e a única luz que tinha era a que entrava pela da porta que eu tinha aberto. Aquele ambiente imundo, cheio de roupa no chão,alguns preservativos espalhados ao pé do caixote do lixo e cheiro nauseabundo fizeram-me sentir mal disposta, voltei a fechar a porta e enquanto descia as escadas pensava na quantidade de coisas que teria de arrumar naquela casa, não ia ser tarefa fácil.
Apanhei um táxi até ao metro e depois disso percorri o caminho até à universidade passando pelas multidões de pessoas que se atropelavam cheias de pressa de chegar aos seus destinos enquanto os guarda-chuvas chocavam uns com os outros acabando por molhar toda a gente na mesma. Quando finalmente cheguei, procurei com o olhar Lola, como estava a chover era normal que maior parte das pessoas estivesse dentro do edifício e não fora. As minhas botas deixavam um rasto de água pelos corredores por onde passava e a humidade na minha roupa tornava a minha pele pegajosa. Entrei na sala e fui sentar-me ao lado e Lola que estava debruçada em cima da mesa com o casaco a tapar maior parte da sua cabeça.
“Bom dia Lola”- cumprimentei-a tocando de leve no seu ombro ao que ela respondeu com um gemido.
Lentamente, Lola começou a levantar a sua cabeça da mesa e com os olhos entreabertos e olheiras enormes respondeu: -“ Não Jen... hoje não é um bom dia...Aii...-” Voltou a deitar a cabeça na mesa olhando para mim com uma expressão de sofrimento e cansaço.
“O que se passa? Estas com mau aspecto...”- Eu já sabia o que se passava. Lola devia estar de ressaca do dia anterior, mas como ela não sabia que eu tinha assistido à cena do dia anterior entre ela e Travis tive de disfarçar.
“Estou de ressaca Jen... Aiii... e estes malditos não para de gritar, mesmo com o casaco em cima dos meus ouvidos pareçe que estão com microfones...Faz eco... Ai...-” Lola lamentava-se e sinceramente dava-me pena. A sala estava relativamente calma e mesmo assim ,para Lola, era como se estivessem a gritar, eu nunca tinha tido uma ressaca assim tão forte e não sabia como ajudá-la...
"Porque não ficaste em casa?” -perguntei em voz baixa.
“Ontem faltei praticamente a todas as aulas... Não é a faltar a todas que quero começar o ano...” -Ela esforçava-se para falar e neste momento perguntava-me se Travis estaria na mesma situação que ela.
No que toca a segredos, sou muito boa a guardá-los, mas sou muito curiosa, preciso de sabê-los a todos e eu sabia que ali havia algo a esconder.
Travis e Lola tinham afirmado namorar um com o outro, mas não foi isso que James disse durante o jantar. James disse que eles não namoravam e mais tarde, eu tinha ouvido Lola acusar Travis de que ele não fazia nada” por favor” e a entregar-lhe um envelope. Até posso estar a exagerar,mas pelo que vi nestes dias, Travis não parecia ser do tipo de pessoa que esta envolvida em assuntos banais ou até uma pessoa de confiança. Eu estava a começar a pensar que entre Travis e Lola existia mais do que um simples namoro e a resposta para isso devia estar no envelope. Eu tinha de conseguir que Lola me contasse algumas coisas, mas duvido que neste estado ela possa ajudar em alguma coisa.
O professor começou a aula e Lola não levantava a cabeça da mesa. O dia passou lentamente . Sempre que chove nunca me consigo concentrar nas aulas, fico especada a olhar pela janela a observar as gotas da chuva no vidro e a ver as pessoas a passar nas ruas enquanto penso que vou chegar a casa toda molhada. Durante estes dias, a diferença entre o dia e a noite não é muita, o ambiente faz lembrar os filmes a preto e branco ou os momentos mais tristes , e olhar para a parede torna-se a coisa mais interessante para fazer. Eu realmente não gosto de dias assim. Não tinha conseguido arrancar nada da boca de Lola porque a única coisa que ela tinha feito durante o dia todo tinha sido comer, dormir e gemer. No final do dia a chuva estava mais forte do que nunca .
“Esta chuva não pára... Tens coisas para fazer agora?...”- Lola falava baixo e devagar.
Olhei para o telemóvel para ver as horas. 18 horas em ponto. Por volta das oito horas teria de estar em casa para fazer o jantar, mas a ultima coisa que me apetecia fazer no momento era ir para casa.
“Vamos até minha casa. Vou mandar vir comida chinesa, acho que se ficar sozinha vou morrer”- Lola tinha a mão na cabeça e olhava para mim com esforço.
Apanhámos um táxi até ao apartamento de Lola. Era um arranha-céus com ar muito chique. Parecia ser feito simplesmente de vidro por causa da quantidade de janelas que tinha. Lola vivia no andar 34 e tudo naquele apartamento parecia ser de luxo.
“A minha mãe adoptiva é manager de bandas... mas vivo sozinha...” -Lola passava o cartão que devia funcionar como chave e entrámos.
“Isso é bom! Viveres sozinha num apartamento destes...”- O apartamento parecia um santuário. As cores que dominavam eram o branco e o azul e tudo naquele sítio tinha um toque angelical e puro. Comparado com a minha casa podia dizer-se que era uma espécie de paraíso em Nova York.
“Nem sempre... é bom quando queres dar uma festa ou quando quero trazer cá o Travis, mas quando é para estar sozinha dá um bocado de medo...” .-Lola pegou no telefone e num folheto e entregou-mos. “ Telefona para esse número e pede o que quiseres”
Comecei a marcar os números e Lola fechava os cortinados duma janela que ocupava a parede toda. De lá conseguia ver-se a Times Square e como começava a anoitecer as luzes da cidade começavam a ganhar mais vida. Pedi duas doses de chop suey enquanto me sentava ao lado de Lola que se tinha deitado no sofá.
“ Quando é que tu e o Travis começaram a namorar?...”- Comecei a pegar conversa. Lola estava um pouco mais bem disposta, tinha de agarrar a oportunidade.
“ É uma longa história...ah... O Travis que tu conheces agora nem sempre foi como é.”
Eu começava a ficar ainda mais curiosa.
“Dois anos antes de tu vires para cá, o Travis tinha acabado de sair do orfanato por ter feito 18 anos. Normalmente os pais das crianças deixam uma pequena herança aos filhos quando os deixam ou são levados. Um advogado tentou ajudar o Travis a encontrar a mãe, o pai e mais importante de tudo, a herança, mas não conseguiram. O que acabou por acontecer foi terem obrigado o Travis a sair do orfanato sem qualquer mantimento. Para ganhar algum dinheiro o Travis tocava guitarra na rua. Ele toca muito bem e é difícil não ficar contagiado com um solo de guitarra dele, por isso, um dia eu e a minha mãe estava mos a passar na rua e vimos Travis a tocar rodeado de pessoas. Como a minha mãe é uma manager famosa na cidade, ela viu que ele podia ter um futuro na industria da música se tivesse alguém que o ajudasse. Depois de conhecer a sua história, ela deu-lhe uma casa e algum dinheiro para se sustentar com o objectivo de que ele treinasse , mais tarde pudesse começar a dar concertos e quem sabe se pudesse tornar em alguém importante.”
Eu ouvia a história que Lola me contava e mal conseguia acreditar no que ouvia... Travis era órfão ... por isso é que naquele dia em que me mostrou a cidade tinha mudado de assunto quando falei dos pais dele...
“Com o passar do tempo, Travis e eu começámos a estar muito tempo juntos e acabámos por nos apaixonar. Ele parecia estar bem encaminhado excepto quando os sentimentos de revolta por os pais não o terem ajudado vieram ao de cima. Travis começou a entrar no mundo da droga e quis acabar comigo. A minha mãe já não conseguia lidar com ele e deixou de o financiar.Eu e Travis já não nos víamos muitas vezes porque a minha mãe não aprovava que nos víssemos. Passou algum tempo, Travis conheceu o james o Jay e o Ben, formaram uma banda e passaram a viver na mesma casa...”
Lola foi interrompida pelo som da campainha. A comida tinha chegado. Começámos a comer.
“Bem, e é isto... Eu e Travis começamos a namorar outra vez, mas eu gosto mais dele do que ele de mim... A nossa relação é complicada e tu não ias perceber, mas é baseada em dar e receber...”
Era aqui que a história deixava de fazer sentido. Estava claro que Lola gostava mais de Travis do que ele dela. O Travis conhecia-me há muito pouco tempo e já queria que dormisse com ele! Parece que hoje eu estava com azar, Lola tinha-me contado a vida de travis, mas ainda não tinha dito uma palavra sobre o envelope. De repente muita coisa começou a fazer sentido. Lola tinha dito que gostava mais de Travis do que ele dela, quem me garante que Travis não fazia chantagem com ela? Por exemplo, Travis podia perfeitamente cobrar-lhe dinheiro em troca de passar um tempo com ela, e isso era estar a usar os sentimentos de Lola para ganhar dinheiro. Não me espantava nada que Travis fizesse uma coisa assim.
Travis tinha atingido o limite. Primeiro dormia comigo sabendo que tem namorada e depois podia estar a usar a minha amiga! Eu sabia que o envelope era um assunto só deles, mas ela disse que a relação deles era baseada em dar e receber, e eu não estava a ver Travis a dar amor, eu tinha de falar com ele rapidamente.
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