Contrato Assinado.
12 Deal
Notas iniciais
A minha respiração estava ofegante estava cheio de calor por ter corrido até casa. Agora, em frente à Jen, apercebia-me do quão ridículo tinha sido chamá-la. Francamente, nem sabia bem porque é que a tinha chamado a ela e não a outra pessoa, afinal, nós continuávamos chateados um com o outro.
“O que se passa? ” Ela limpava o excesso batom dos lábios com os dedos e ajeitava a roupa, talvez numa tentativa de eliminar os vestígios que o Ben podia ter deixado sobre ela, como se eu já não tivesse percebido o que tinha acontecido.
A Jen falava frívola, mas eu conseguia detectar um toque de preocupação na sua face. Por mais insensível que ela quisesse ser, eu sei que ela não conseguia. Ela era uma menina muito doce, talvez até demais, e por isso é que as pessoas tendiam a abusar dela, incluindo eu…
Já decidi. Eu decidi mesmo a serio desta vez, embora soubesse que poderia ser tarde demais. Eu e a Lola já não temos mais futuro juntos. Há muito que já não sinto nada por ela, então agora, que só o simples facto de pensar nela me parece incesto já que temos a “mesma” mãe, o sentimento anulou-se por completo. Por outro lado o meu sentimento pela Jen cresce de dia para dia, mesmo comigo a tentar abafá-lo constantemente.
Neste momento, eu só quero fugir com ela, certificar-me que o Ben não lhe voltava a tocar, provar-lhe que eu sou o único na sua vida, mesmo que ela esteja chateada comigo.
“ Tenho um problema” A Jen abanou a cabeça em sinal para que eu desabafasse, já inquieta.
“Eu…” Eu não sabia como explicar isto. Quem saberia? Contar à rapariga de quem gostamos, e que ainda por cima nos odeia, que descobrimos que a nossa namorada é afinal filha adoptiva da nossa mãe biológica, e que esta pertence a um grande tráfico de drogas e vem à nossa procura para nos tornar a vida num inferno? Estas coisas não se podem contar… pelo menos assim… Se eu lhe contasse ela recusar-se-ia a vir comigo.
“Bem…Eu… Eu preciso que confies em mim… preciso que apanhes o próximo avião até à tua terra e me leves contigo.” Fiz a melhor expressão de imploração conseguia. Estava nervoso e passei a mão pela cabeça respirando fundo. A Jen fez uma expressão incrédula como se eu tivesse enlouquecido. Não a censuro.
“Estás sobre o efeito de drogas, bêbado ou algo assim!?”
“Não! Não estou! Tem de ser rápido Jen! Não posso perder tempo com isto!”
“Não podes perder tempo… Porque haveria eu de ir AGORA,CONTIGO para o Tennessee?”
“Jen! Confia em mim!”
“Confiar!? Não me faças rir Travis! Quer dizer, cagas em mim quando queres e quando te vês metido em sarilhos, voltas a implorar pela minha ajuda e a usar-me para os teus interesses! Mas tu achas que eu sou burra!? Eu não vou ter esta conversa contigo…”
A Jen começou a virar-se para trás e começou a abrir a porta para sair. Num último esforço de a persuadir levantei o contrato musical que tinha na minha mão e chamei-a a atenção. Com um olhar desafiador disse “É isto que queres, não é?”
A Jen virou-se para mim com um olhar confuso, sem perceber bem o que era o objecto que eu segurava na mão com força.
“Eu sei que se fores comigo, poderá ser só por causa disto, mas… eu não me importo.” A Jen começou a aproximar-se de mim, primeiro lentamente e depois mais rápido com os olhos arregalados.
“Isso é o que eu estou a pensar?...” Ela estava alarmada.
“Como o arranjaste!?”
“Não interessa… o que importa é que o tenho. Se me levares até a tua terra é todo teu.”
A Jen fez uma expressão desconfiada e cruzou os braços.
“Espera…porque é que haverias de mo dar? Não o queres? Não é por isto que tens estado à espera? O que é que eu perco com isto?”
Dei uma volta sobre mim mesmo, olhei para o tecto em sinal de desespero e resmunguei
“Tantas perguntas Jen! Quere-lo ou não?” Olhei-a fixamente com o contrato a balançar em frente à sua cara já completamente amarrotado. Estávamos a perder tempo… Íamos deitar tudo a perder.
“Levas-me? Sim ou não?!”
“Eu…” O seu olhar mostrava hesitação e nervosismo. Voltei a insistir desta vez com um tom ainda mais sério
“Sim ou não!?” Após um curto espaço de tempo de silêncio e contacto visual a Jen estendeu o braço e tentou agarrar o envelope que continha o contrato. Afastei-o dela bruscamente.
“Só depois de eu pôr os pés no Tennessee.”
A Jen olhou-me com uma expressão de revolta e entrou no quarto.
“Preciso de levar as minhas coisas. Chama um táxi.”
***
“Olha… eu sei que isto pode não significar nada para ti, mas…Desculpa”
Ela olhou para mim com desprezo e ignorou-me olhando pela janela do avião.
“Por ter… Ahh…” Ela estava a adorar ignorar-me.
“ Jen… por te ter usado…” Continuou sem responder.
Esta sensação era horrível mesmo… parecia que nada do que eu dissesse era suficientemente bom… eu fazia muito isto aos outros, não?
“Jen… eu sei que o que eu fiz contigo até agora…”
Fui interrompido por ela que punha os headphones nos ouvidos e subia o volume da música fazendo as pessoas olhar para nós. Comecei a fazer gestos com as mãos para chamar a sua atenção.
“Vá lá, Jen!! “Ela virou-se para mim tirando os headphones
“É boa a sensação, não é?”
“Jeeen, eu sei que não… ahhh por favor ouve-me!” Puxei o seu braço e fi-la olhar para mim.
“Eu sei que o que te fiz até agora foi mau… eu sei que brinquei com os teus sentimentos e te usei muitas vezes para ter o que queria… mas eu…”
“Mas tu o quê?” Fui apanhado de surpresa. “Estás arrependidíssimo e achas que foste um parvo, mas a Lola era a única que te dava concertos e sem isso ficavas sem nada, mas claro ia-me esquecendo… Tu amas-me! Pois é!” Disse irónica.
“Olha Travis essa conversa não cola mais… Tu não me amas. Tu amas a ideia de poder ter uma noite comigo. Comigo e com todas as outras raparigas. Quando se ama uma pessoa de verdade não se troca essa pessoa por meros sítios onde trabalhar, não se mente a essa pessoa, não se humilha essa pessoa, não se USA essa pessoa! E tu fazes tudo isso. Até à Lola fizeste. E ela gosta de ti de verdade! Mas tu és bom na tua especialidade: Pegar nos sentimentos dos outros, abri-los, usá-los, deitá-los fora e a seguir pedir desculpas como se fosses um inocente. Claro que pessoas “ingénuas” como eu acreditam logo nas porcarias que tu falas, mas desta vez estás com azar.”
Senti-me insultado. Algumas pessoas olhavam-nos e as velhas tentavam cuscar a conversa para contar às amigas quando chegassem a casa. Olhei para elas o que fez com que fingissem que estavam apenas a dormir ou a fazer tricot… Revirei os olhos.
“Tu não sabes o que vai na minha cabeça Jen.”
“Ninguém sabe o que vai na cabeça de ninguém ,Travis. Apenas interpretamos os sinais e deduzimos coisas. E isto foi o que deduzi de ti!”
“Isso é julgar!”
“JULGAR!??? JULGAR TRAVIS?! “ Ela explodiu e eu até sobressaltei.
“TU ÉS ASSIM, TU AGES ASSIM! POR ISSO É QUE FAZES AS PESSOAS PENSAR O QUE PENSAM DE TI! PODES ESQUECER A MINHA COMPANHIA PARA TUDO. MALDITA A HORA EM QUE ME METI NAQUELA CASA E TE ENCONTREI DEMÓNIO!”
Eu tentava cala-la e fazê-la acalmar-se, mas ela estava possessa.
“EU NÃO SEI PRA QUE É QUE EU ME METI NESTA PORRA! QUERIAS TANTO A LOLA E OS SEUS CONCERTOS E AGORA QUE TENS FINALMENTEEEEEE UM CONTRATO,DÁS-MO! POR MIM TUDO BEM! MAS PARA O FAZERES DEVES ESTAR METIDO NUM GRANDE SARILHO E EU JÁ TE ESTOU A AVISAR QUE NÃO VOU TER NADA A VER CONTIGO A PARTIR DO MOMENTO QUE ESSE CONTRATO ESTIVER NAS MINHAS MÃOS E NOS SEPARARMOS NO AEROPORTO. E AÍ VAIS PODER DORMIR COM TODAS AS MENINAS QUE TE APARECEREM À FRENTE, EU VOU FICAR FAMOSA E ESTAR RICAAAAAAA!!! AH AH AH AH AH AH RICAAAAAAA!”
Ok. Ela enlouqueceu.
Uma pessoa que tentava adormecer um bebé ameaçou chamar a hospedeira para calar a Jen e eu tentei impedi-la “Não minha senhora por favor… ela tem problemas mentais…”
“PROBLEMAS MENTAIS!? EU?! E TU ÉS UM INSENSÍVEL! O QUE É PIOR?! MAS PARA QUE É QUE EU ESTOU AQUI A FALAR!? A GASTAR SALIVA! POR MAIS QUE EU FALE TU NUNCA VAIS MUDAR! TU ÉS MESMO ASSIM, UM MULHERENGO SEM CORAÇÃO… AHHHH PAREÇO UMA INFELIZ! MAS TAMBÉM NÃO FAZ DIFERENÇA! NÃO FAZ NENHUMA DIFERENÇA! AFINAL, EU NUNCA GOSTEI DE TI…"
Eu tentava agarra-la e tapar a sua boca coma minha mão para a bafar o som mas ela era insistente. Acabei por achar mais fácil deixá-la acabar de berrar.
“NUNCA! Nunca….” A sua voz começou a tremer e ela começou a olhar para as nuvens do lado de fora da janela.
“Eu só vim por causa do contrato mesmo…”
Ahhh não.. o choro vinha aí outra vez.
“Veja só… o tipo de meninos com que as jovens desta geração se metem, amiga…”
Algumas mulheres mais velhas cochichavam sobre mim e deitavam olhares depreciativos. Olhei para a Jen. Porque é que aquela rapariga não podia ter uma torneira de lágrimas de preferência forrada com latex pra nunca abrir?
Ahhhh… e começou. Uma lágrima, duas lágrimas, daquelas que fazem sentir mal até um terrorista. Desta vez não sabia o que fazer… se a acaricia-se ia parecer aqueles mulherengos da tv em que mesmo o choro e sofrimento das raparigas era desculpa e oportunidade para seduzir. Eu também não era assiiiim tãoooo reles…
Peguei num lenço e entreguei-lho. Ela agarrou-o com brusquidão.
“Tudo bem mesmo… não tens de ter nada a ver com os meus problemas. Mal cheguemos ao aeroporto dou-te o contrato e nunca mais me vês.” Não, Travis… Não é isto que tu queres! Tu queres ficar com a Jen… Porra…
Ela aconchegou-se ao banco para ficar mais longe de mim, como se isso fosse possível. Estávamos sentados um ao lado do outro… ai…
***
A Jen tinha conseguido adormecer nos últimos 15 minutos de viagem… Como que é possível?... O avião aterrou e eu peguei nas malas dela enquanto ela acordava com o barulho das pessoas. Confusa esfregou os olhos e bocejou. De repente repara em mim.
"Onde vais com as minhas malas?”
“Ah… já chegámos, não vês?” Disse olhando para a nossa volta. Ela olhou em volta também e esfregou os olhos outra vez. Fiz-lhe sinal para que me seguisse. Quando saímos dirigimo-nos para a entrada para nos separar-mos.
“Eu posso levar as minhas malas.” Recusei-me a dar-lhe as malas e afastei-as dela.
“É a minha maneira de te agradecer.”
“Grande maneira de agradecer…” Que rabugenta. Revirei os olhos.
“Então… e agora?...” Estávamos parados à espera… não sei bem do quê.
“Agora…” Ela estendeu a mão à espera que eu lhe entregasse o contrato. Tão rápido assim? Nem sequer nos despedimos…
Fiz uma expressão de espanto enquanto ela erguia a sobrancelha à espera do maldito envelope. EU era mais importante do que um maldito envelope…
Peguei na pequena mochila que tinha trazido e tirei de lá o pequeno envelope que parecia ter andado na guerra. Estendi o braço para lho entregar com uma expressão desiludida e posso dizer que …. Um pouco triste... Ahhhhh quando é que me tornei assim??
Quando ela estava para pegar no envelope com aquele olhar desconfiado de “O que é que estás a tramar Travis?” alguém ao longe a chamou. Bem a ela ou a outra Jen qualquer, mas logo percebi que devia ser mesmo ela porque olhou repentinamente para trás e parecia ter reconhecido a voz.
“Mãe, Pai!”gritou a Jen. As duas pessoas, na casados seus 50 anos abraçaram a sua… filha? E ela estava direita como um carapau de tão apertada.
“Saudades filha!” A Senhora de cabelos negros que lhe davam pelos ombros limpava lágrimas de alegria. Tinha passado tanto tempo assim desde que a Jen se tinha mudado para Nova York? O homem que estava a seu lado apertava as mãos dela e sorria. De repente, o seu olhar desvia-se e começa a fixar-me como se tivesse visto um fantasma ou um arqui-inimigo o que me fez arrepiar.
O homem era baixo, mas metia respeito… Por causa dele, a Jen olhou também para trás e quando me viu fez uma expressão de preocupação. Seria possível que não me quisesse apresentar aos seus paizinhos? Eu não sou assim tão mau!…
“Travis…” murmurou enquanto olhava para o envelope fixamente. Olhei para os pais dela que me fitavam curiosos. De repente a senhora chega-se à frente e fala para a Jen tentado ser discreta e muito desconfiada.
“Filhaaa… Quem é este… este… rapaz?” A Jen olhava-me nos olhos. Provavelmente implorando que eu arranjasse uma desculpa como daquela vez quando fomos comer gelado. Mas desta vez isso não ia acontecer. Se quisesse apresentar-me ia ter de falar.
O seu pai empurrou de leve a filha e a esposa e chegou-se à frente para ficar mais perto de mim. Com os seus olhos que mais pareciam imanar laser, olhou-me de cima a baixo e pigarreou.
“Óbvio Christina!” O pai da Jen falava com um grande sorriso e uma expressão depreciativa na sua cara como se eu fosse a pior pessoa que ele alguma vez tinha visto. Na sua cabeça eu devia viver debaixo da ponte comer raízes podres e tomar banho uma vez ao ano.
A Jen olhou para trás alarmada e de seguida para mim à espera de que eu a ajudasse. Meu Deus… é melhor despachar isto.
“É o namorado dela!” Ele carregou bem na palavra “namorado” Disse-a lentamente e com uma expressão de desilusão, raiva e nojo na cara, como se isso pudesse dar uma conotação negativa à palavra.
Atrapalhada a Jen apoiava uma mão no ombro do pai e fazia um sorriso nervoso. “Ahh paiiii… ele… ele n…”
“Sim… sou eu mesmo!” Sorri de orelha a orelha para os seus pais e estendi a mão para os cumprimentar.
“Muito gosto, Travis. Travis… Huston.”
Travis POV end
Ok… isto não podia estar a acontecer… A minha mãe olhava para mim com uma expressão chocada e constrangida. O papá estava petrificado e com um olhar extremamente ameaçador. Se eu pudesse, eu destruía o Travis apenas com um olhar.
O meu olhar emanava ódio e repreensão. Não podia negar. Brincadeiras destas não eram bem aceites pelos meus pais. Querem mais provas de irresponsabilidade do que apresentar um rapaz aos meus pais que brinca com coisas sérias como estas!? Nunca! Tinha de levar a mentira avante, a minha reputação estava em jogo…
A minha mãe olhou para mim comunicando com o olhar. Ela esperava que eu confirmasse o que ele estava a dizer. Sorri nervosamente. Ela olhava para cada uma das tatuagens do Travis com os olhos atentos de uma águia. O sorriso dele enervava-me profundamente e só me apetecia reduzi-lo a pó.
Seria assim tão difícil? Entregar-me o maldito envelope e ir-se desaparecer para sempre? Não!! Isso era demasiado difícil para uma pessoa como o Travis. Arranjar sarilhos era a sua segunda melhor especialidade e ele não perdia uma oportunidade, graças a isso ia ter de aguenta-lo durante muito mais tempo... Maldito…
“É…” Eu dava risinhos nervosos pondo as mãos na cintura “Haha… surpresa, hein?!”
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