Contraposição
24 Capítulo XXIV
Notas iniciais
Seu dedo deslizou pelo vidro delicadamente. Ela tinha separado alguns minutos para ler um artigo mas ao notar a foto de Jane ali na mesa do seu escritório de casa, seu foco de atenção era o sorriso contagiante da morena. Por mais que a médica tentasse se concentrar em outra atividade,era Jane que tomava a maior parte de seus pensamentos. O jeito como ela abraçava Maura; como seu corpo se moldava perfeitamente com o dela na cama; os lábios colados aos seus, sorrindo.
A loira piscou os olhos e balançou a cabeça. Ela era sem dúvida uma boba apaixonada — ela não se preocupava muito. Afinal, qual foi a última vez que ela se sentira assim?
Plenitude era a palavra que descrevia o estado de seu coração. Ela se sentia completa com Jane ao seu lado.
Ela virou a página e encostou-se na cadeira. Mais vinte e três folhas e ela acabaria finalmente. Ela ajeitou o óculos de leitura no nariz — aquele que ninguém jamais a vira usando, exceto Jane — e retornou à leitura. Até que ela ouviu uma porta batendo. Sobressaltada, ela livrou-se das folhas e do óculos e se levantou. Foi só quando os resmungos de Jane chegaram aos seus ouvidos foi que ela relaxou novamente. Revirando os olhos, irritada consigo mesma por ainda estar tão assustada, ela sentou-se de novo e bebericou o vinho. Mais um barulho, mais um resmungo vindo de Jane. Ela estava tentando destruir a casa ou o que?
Maura riu consigo mesma e balançou a cabeça. A morena às vezes era tão estabanada, não havia sequer um dia que em que ela nao trombava com algo ou alguém, tropeçava ou derrubava alguma coisa.
'Maura?' A voz grave ressoou pela casa. Mais um resmungo.
'Escritório.' Ela disse simplesmente é recolheu o artigo, organizando as folhas.
'Oi, querida.' Um sorriso um tanto... culpado?
Leve franzida no cenho. 'Oi...?' Incerteza. Jane não estava agindo normal, estava?
A morena se apressou e sentou-se do seu lado. Uma mão em suas costas em uma doce carícia. 'Demorei mais do que previ, me desculpa por te fazer esperar.' E finalmente o beijo nos lábios. Maura sorriu com o gesto que agora era rotineiro.
'Não tem problema. Onde você estava mesmo?' Os pés da loira roçaram a canela de Jane.
'Em tantos lugares, meu amor.' Ela suspirou dramaticamente, e riu em seguida enquanto seus desdos se enroscavam nas pontas do cabelo dourado da médica.
Espera. Meu amor? Maura estreitou os olhos. Elas nunca se endereçavam uma à outra assim. Havia algo acontecendo ali. 'Por exemplo?'
'Hummmmm.' Ela murmurou endireitando-se.
'Jane.' Maura advertiu. A mania da morena por vezes desviar de suas perguntas a tirava do sério.
'Bem, eu...' Ela divagou. Suspiro.
Maura abriu bem os olhos, pânico crescendo dentro de si. 'Aconteceu alguma coisa?'
'Não. Não!' Jane balançou as mãos para enfatizar. 'É só que... promete que não vai perder a cabeça?'
Maura se levantou cautelosamente, as mãos na cintura. O que Jane tinha feito agora? Quebrado algo? Socado alguém? Algo de terrível envolvendo o caso tinha acabado de acontecer? 'Droga, apenas me fale!' Ela esbravejou, ansiosa demais para esperar por mais um segundo sequer.
'Eu... Eu pensei que você fosse gostar.' Ela encolheu os ombros. E um latido...
Latido?
Maura inclinou a cabeça para o lado, tentando encontrar a fonte. 'O que é isso?'
A morena pressionou os lados juntos, como se tivesse em encrenca. Do nada, ela virou para trás e gritou. 'Eu disse para você esperar em silêncio!' E voltou-se para Maura. 'Eu... te arrumei um cachorro.' Sorriso forçado na esperança de escapar de um futuro problema.
Maura não reagiu momentaneamente. Ela desviou-se de Jane, o rosto expressando apenas descrença. Os passos até a porta foram cautelosos, hesitantes. Quando Maura parou no meio do corredor, ela lançou um olhar para Jane e de novo a sua frente.
A morena engoliu a seco. Aquilo tinha sido uma idéia terrível. Ela deveria ter consultado a médica primeiro. Maura iria dissecá-la com seu bisturi lâmina dez super afiado.
De novo, mais um olhar. Nenhuma reação até então. Os passos do cachorro ecoaram no corredor e ele se sentou em frente a médica. Pareceu uma apresentação cômica. O focinho em sua mão. Devagar, reconhecimento. E depois Maura se ajoelhou no chão e o abraçou pelo pescoço. E só então Jane suspirou de alívio, contente por poder viver alguns anos a mais.
Agora mais aliviada — com um sorriso bobo plantado nos lábios pela cena que ela só podia descrever como adorável, ela caminhou em direção aos dois para notar que Maura estava... chorando.
'Oh meu Deus.' Jane sussurrou consigo mesma e se agachou imediatamente. 'Maura, você tá bem?' Com o coração acelerado, ela acariciou às costas da loira. 'Você não precisa ficar com ela. Droga, eu deveria ter perguntado.'
'Nã-ão.' Ela murmurou, ainda abraçando o animal que olhava como se perguntando o que fazer para Jane.
'Eu achei que você fosse gostar, por causa de Marley.' Jane abraçou sua cintura e beijou seu pescoço. Talvez um cachorro não fosse a melhor associação para um período de vida tão turbulento. Ela deveria saber.
'É perfeito.' A loira murmurou de volta, fungando.
Jane franziu as sobrancelhas, confusa. 'Você gosta?'
Uma cabeça balançando. Claro, ela gostava. Ela ainda abraçava o animal.
'Por que você tá chorando então, Maura?' Beijo delicado e carinhoso na nuca.
'Porque você se importa.'
Algo doloroso quebrou dentro de Jane. Algo que a fez entender o quão sozinha Maura tinha sido por toda uma vida, e o quanto isso pesava sobre ela. Com a garganta apertada, ela descansou a testa nas costas da médica. Jane já havia salvado a vida de Maura diversas vezes. Aquela não era a única vez — embora ela rezasse para que fosse a última — mas era naquele gesto que a loira reconhecia o quanto Jane se importava de fato com ela. Um cachorro. Um simples cachorro. As coisas pequenas e simples, Rizzoli.
Ela sorriu com o pensamento e beijou mais uma vez as costas da outra.
'É claro que eu me importo, querida. Por toda minha vida eu vou me importar.' Ela esperou para que Maura pudesse se recompor e sentou-se no chão, nunca a deixando. 'Você gostou?'
'É perfeito.' Ela repetiu acariciando o pelo dourado do animal.
'Perfeita. É fêmea.' Jane sorriu e limpou seu rosto molhado com os polegares.
'Oh, é mesmo?' Olhos verdes e brilhantes piscaram em admiração.
'Uhum. Como você disse que queria. Ela tem um ano. É da mesma raça que o Marley, mas o pelo é completamente dourado.' Um beijo na bochecha rosada.
Maura acariciou o pelo do animal e sorriu. 'Qual o nome?'
Jane riu baixinho. 'Lully. É eu sei. Mas a mulher do canil disse que ela deve aprender outro nome se a gente quiser trocar.'
'Ela é adotada.' Maura murmurou.
'Ela é. Me disseram que muita gente desiste dessa raça porque eles são um pouco... destruidores.' Jane disse e riu com nervosismo. Ela sabia que Maura tinha uma extrema obsessão com a imagem de sua casa.
'Bem, nós podemos trabalhar nisso, eu suponho.'
E... surpresa. Jane arqueou as sobrancelhas pelo comentário inesperado. Ela imaginava uma reclamação, no mínimo. 'Você realmente gostou da idéia, não é?'
Maura se virou completamente para ela e a abraçou. 'Obrigada. Você vem tomando conta de mim como... como só você sabe.'
'Maura...' Um sorriso tímido e mãos acariciando a cintura da loira.
'Eu amo você. Eu te amo tanto.' Ela se inclinou e beijou os lábios da morena. 'Imensuravelmente. E não é porque o amor é um sentimento e não pode ser medido ou calculado. É só que eu te amo tanto que... todo o significado se escapa.'
'Uau. Isso daria um belo voto de casamento.' Jane brincou e riu, e depois encheu a médica de beijos. 'Eu amo você também, Maura. Eu nem consigo entender como é possível. Mas, ei... Ok. Você pode parar de chorar agora.'
Uma cabeça em seu pescoço, os dedos de Maura passeando no pelo da cachorra que agora deitara em suas pernas. 'Você disse que vai se importar por toda sua vida.' Ela murmurou, do nada.
'Eu vou.' Jane beijou carinhosamente sua cabeça.
'Você... você casaria comigo? Eu quero dizer... eu não estou te pedindo em casamento. Eu só... só quero saber se eu sou... casável.' Sua especulação morreu entregando uma dúvida.
Jane riu e a abraçou com força. 'Você é perfeitamente casável. '
Um silêncio pairou sobre elas. Jane afastou mechas douradas do cabelo da médica e suspirou. Tinha sido um momento definitivamente estranho. Não em um mal sentido, é só que ela não esperava por essa pergunta vinda de Maura. E ela nem sequer pensou para respondê-la. Tinha sido espontâneo. A resposta era lógica e parecia ser perfeita para o curso de vida que elas estavam traçando. 'Maura.' A voz rouca soou mais grave. 'Você casaria? Comigo, eu quero dizer.'
Os olhos verdes piscaram em incredulidade. 'Você tá me propondo em casamento?'
Jane riu baixinho e balançou a cabeça. 'Com um cachorro em vez de uma aliança? Eu não ousaria.'
Maura riu e deu de ombros. 'Eu não me importaria de passar o resto da vida com você.' Ela sorriu timidamente.
'Ótimo. Mantenha isso em mente pelos próximos meses. Apenas por precaução.' Jane beijou sua bochecha e não se moveu para longe dela.
'Você... você tá falando sério?' Um ar de surpresa, ainda não acreditando. Jane tinha acabado de dizer que a pediria em casamento em alguns meses?!
'Vou dar apenas alguns meses para minha mãe se divertir em me perturbar com a idéia.' Ela deu uma risadinha nervosa, dando-se conta do imenso comprimisso que tinha assumido. Analisando sua vida acompanhada por Maura, ela não conseguia pensar em como era esperado que elas terminasse assim: sentadas uma no braço da outra, numa noite de uma quinta-feira comum, um cachorro aos pés e talvez um filme para terminar o dia. Algo rotineiro, familiar. Algo que ela desejava sempre que acordava. Maura. Ela defiinitivamente se via passando a vida ao lado de Maura. Mas soava como se ela tivesse simplesmente imposto a idéia? 'Eu não quero... Eu não estou pressionando. Eu apenas assumi que... É só que se eu puder escolher alguém para me fazer feliz, eu sei que é você. E eu preciso de você todo dia, não é como se...' E começou a divagar e, para sua supresa, Maura começou a rir.
'Jane, eu sei o que você quer dizer. Você não precisa se explicar. Se serve de algo, eu não consigo pensar em outra pessoa para ficar sempre ao meu lado.' Ela encolheu os ombros e fez um bico.
Jane espremeu os olhos, em dúvida. 'Você e sua cabeça grande não consegue pensar em outra pessoa? Uau. Eu estou mesmo bem, nesse caso.' Ela riu e abraçou Maura, os olhos fixos nos da loira enquanto a mão da médica tocava sua bochecha.
Maura fechou os olhos quando os lábios de Jane tocaram o canto dos seus. Tanta coisa havia faltado em sua vida antes, desde o amor primário dos pais até a presença de amigos para preenchê-lo. Mas então Jane tinha aparecido em sua vida e tudo mudara tão de repente. E toda falta tinha se acabado, e qualquer dor que sobrara estava sendo cuidada. E naquele momento, com os braços da morena em torno de si e com um cachorro abanando o rabo contentemente, ela se sentia mais uma vez segura — porque havia finalmente alguém pronta para lutar por ela.
'Só você. E minha resposta agora, e todos os dias depois desse, é sim.' Ela murmurou e beijou docemente os lábios da detetive.
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