—...agora virem para a página setecentos e vinte e cinco e leiam a segunda sessão. –Disse Woz.

Kayle obedeceu, sentindo o peso de cada uma das páginas em seus finos e branquelos braços. Os outro alunos em volta não pareciam estar tendo problemas, o que a frustrou. Talvez agora parecesse fraca em frente ao grande feiticeiro. Seus olhos percorreram a página, ignorando as runas e focando-se nas palavras escritas à mão. Fora criado antes da existência de máquinas construídas especificamente para isso. Usou um dedo para marcar a folha que estava e virou as outras para checar a contracapa. Leu as palavras “Originalmente escrito em 1053 P.W”. Era agora 1702 P.W. Seus olhos arregalaram-se ao pensar o quão velho era. Talvez tenha sido feito antes mesmo da xilogravura. O que via agora fora feito pela prensa móvel, certamente, mas ainda doía sua cabeça pensar que alguém usara uma pena para escrever mil e quinhentas páginas. Apenas reis e duques escreviam à mão naqueles dias, e ela nem mesmo conseguia pensar no quão monótono escrever uma carta real era. Nem mesmo saberia como fazer isso. Sabia ler como ninguém; terminaria aquele livro inteiro antes de qualquer um de seus colegas e depois saberia recitar perfeitamente um resumo do conhecimento que adquirira, mas colocá-lo no papel era um feitiço que não conseguia nem mesmo começar a pensar em como era possível.

Após notar que sua mente divagava e o feiticeiro continuava falando, tentou prestar atenção novamente.

—...óleo de tangerina, como podem ver. Esse é o ingrediente principal para fazer uma poção da alegria, que é o que quero que façam agora. Ou, como minha sobrinha gosta de falar, Poção dos Pulinhos. –Ele abriu um raro sorriso cheio de dentes. Ninguém deu atenção. O fenômeno logo despareceu. –Manipular os sentimentos com uma solução é o próximo grande passo que vocês devem dar. Caso queiram tomar meu lugar, é claro. –Havia claro ressentimento em sua voz.

Ninguém disse nada, mas o sentimento era compartilhado por todos. Claro que queriam. Estavam na Torre Branca especificamente por isso. O Duque Labus Sannamonte decidiu que Woz estava muito velho para ser seu feiticeiro, por mais que ainda nem tivesse atingido a meia idade e continuasse tão energético e esperto quanto era vinte anos antes, no dia que assumiu o cargo. Relutantemente, teve que concordar e mandar uma carta para todas as vilas e cidades próximas, pedindo os melhores aprendizes das artes místicas que se mudassem para a Torre Branca. Terminariam o treinamento com ele e, eventualmente, ele escolheria um sucessor. Kayle tornou-se uma das alunas poucos meses antes, vinda de Rios Secos. Sentia-se medíocre em comparação aos outros.

Após bufar, baixou os olhos e leu as instruções da poção. Girou o corpo para deixar sua bolsa mais próxima e retirou o primeiro ingrediente; o tal óleo de tangerina. Em seguida, pétalas de Diabellumm. Desenrolou os três caules presos a um papel e colocou a flor violeta sobre a mesa. O próximo ingrediente era artemísia espremida. Inicialmente, sua mão não encontrou o punhado de folhas que costumava carregar de um lado para o outro. Em seguida, pondo a cabeça na bolsa, seus olhos também não a encontraram. Em seguida, ao se lembrar o que fizera com ela, sentiu vontade de gritar em frustração. Olhou para o lado, para a garota sentada à sua direita, concentrada em seu próprio trabalho.

—Ei, Siona. –Disse a jovem com um sorriso amarelado e a voz fraca. –Você pode me dar um pouco da sua artemísia?

—Kayle. –Respondeu a voz de Woz em tom de advertência. Ela quase deu um pulo; o som vinha de suas costas, a poucos centímetros de distância talvez, mas o feiticeiro estava sentado na frente de todos, desinteressadamente folheando um livro. –Nada de pedir ajuda. Lembre-se de que todos estão competindo aqui. Impeço-lhe pelo seu próprio bem.

Ela encolheu os ombros, frustrada, e voltou a prestar atenção em sua mesa. Olhou para o feiticeiro, mas ele não retribuiu. Sem outras opções, fez uma poção incompleta, entregou a Woz no fim da aula e torceu para ele ser calmo e leniente na aula seguinte, quando as julgar.

Nenhum dos alunos conversou enquanto saiam da sala. A maioria nem mesmo olhou para os colegas. Apenas silenciosamente encaminharam-se para seus dormitórios. Sabiam que estavam rodeados de inimigos; de competidores. Kayle, entretanto, não tinha sono e se encaminhou para a biblioteca.

Torre Branca era exatamente o que o nome sugeria. Diversas escadas ligavam partes especificas da estrutura cilíndrica, facilitando a locomoção daqueles que viviam, por exemplo, no décimo andar; seção sul, mas vivam no trigésimo quinto; seção oeste. Quadros e tapetes multicoloridos ajudavam a quebrar a monotonia visual do lugar. Sem eles, certamente pareceria uma grande prisão, o que, alguns tolos diriam, era o caso.

Kayle não se sentia confortável naquele lugar. Era visualmente e arquiteturalmente interessante, mas a ideia de uma cidade vertical era demasiadamente insano para sua mente, e sabia que não era a única com esse pensamento. Mas, ninguém era impedido de ir embora. Havia uma vila que envolvia Torre Branca, portanto, quem se sentisse infeliz no céu, talvez se sinta melhor na terra.

Virando a direita e passando por uma passagem de pedra sem portas, a garota se viu em uma das dezenas de jardins suspensos espalhados pela grande construção. Antes de continuar seu caminho, passou por entre as flores que os aprendizes de feiticeiros costumavam colher e debruçou-se sobre a amurada.

Setenta e quatro andares abaixo estendia-se a vila de Vatace, cuja economia dependia diretamente da Torre Branca. Rapidamente virando o rosto para cima (devido ao seu irônico medo de altura), não pode ver o céu noturno com clareza devido às grandes pilastras que seguravam o local onde estava, mas sabia que a lua estava peculiarmente grande naquela noite. Havia visto-a em uma janela algumas horas antes, e agora sua luz branca espalhava-se pela escuridão.

Seguiu por uma escada de mão até o andar seguinte, voltou ao interior e adentrou uma biblioteca; especificamente aquela que continha livros sobre misticismo. A maior parte de sua estadia tivera sido naquele local de cor barrosa. Haviam quatro outras pessoas que Kayle jamais vira antes, mas também não lhe deram atenção. Ignorou a infinidade de livros que a rodeava e se direcionou para a parte de trás do local; uma área separada por um pequeno corredor, com um guarda especificamente comandado para evitar que qualquer um passasse sem autorização. Era a subdivisão dos livros restritos, afinal.

A jovem respirou fundo e endireitou sua coluna. Limpou um pouco a poeira de sua vestes cinzentas e tentou aparecer mais apresentável. Jogou para trás seus longos cabelos negros que agora cascateavam por seus ombros, com a exceção de sua única mecha branca que, teimosa como uma criança, recusava-se a se juntar as irmãs, buscando aconchego na frente do rosto de Kayle. Não tinha problema. Ela caminhou confiantemente e entregou um olhar amigável para o homem.

—Olá Óhn! Tudo bem com você hoje?

Óhn desceu os olhos para a baixa garota. Sua expressão era tão seca quanto o resto de seu enrugado rosto. Ele deu de ombros.

—Como vai a família? –Ela tentou novamente.

—Bem. –Disse sem interesse.

Soltando um suspiro frustrado, a jovem olhou para os lados, pensando em uma nova estratégia. Novas palavras vieram à sua mente e sua voz ficou animada.

—Quer saber de uma coisa legal que aconteceu comigo ontem?

—Não.

—Minha nossa, Óhn, você é difícil! –Seu corpo murchou e apoiou-se na mesa de madeira.

—Tira a mão.

—Desculpa! –Ela saltou para trás, erguendo ambos os braços, depois desceu-os até sua cintura. –Não tem realmente outra maneira?

—Não.

Kayle soltou um longo grunhido e suas íris viajaram por toda a extensão de seus olhos. Ela abriu sua bolsa e retirou de lá um frasco com uma substância rosada e o pôs em cima da madeira.

—Divirta-se. –Disse enquanto passava pelo guarda e caminhava pelo corredor.

Óhn não correu atrás da intrusa. Pegou o frasco, destampou-o e deu uma golada. E então, sua mente não estava mais presente.

Sonho de Peixe. Um pouco mais avançado do que ela devia estar aprendendo naquele momento, e obviamente a poção não estava perfeita, mas devia servir. Uma boa maneira de enganar sua mente e forçar sonhos a virem, mesmo quando se está acordado; uma forma perfeita de passar o tempo quando se tem de guardar um local que poucos querem acesso. Uma pena que Kayle precisou gastar toda sua artemísia, mas foi por um bom motivo. Não se sentia arrependida.

Claro, da primeira vez entrou na seção proibida sem ser notada, foi assim que lera sobre o Sonho de Peixe, a forma que encontrara para subornar Óhn. Apenas Woz podia entrar naquela pequena sala quadrada, portanto ele escondeu todos os livros relacionados às suas futuras aulas lá. Talvez fosse uma forma de atrasar o processo de seleção. Entretanto, raramente era isso que ela lia lá dentro. Gostava mais dos livros...peculiares.

Seus olhos e dedos passaram por uma infinidade de lombadas com títulos à mostra. “As correntes de Archwick e o Primeiro Plano”, “Relações entre a Essência de Anxar e os Troca-Peles: uma teoria”, “Bestiario do Terceiro Plano”, “Do que é feito o corpo etéreo”, “Os Eternos: uma prova da existência”, “Ostrava, o deus esquecido”, “O processo de herança das divindades”; dezenas ou centenas de títulos que atiçavam a curiosidade de Kayle, por mais que ela mal compreendesse o que qualquer um daqueles nomes significava.

Entretanto, um livro em particular chamou sua atenção, talvez bem mais do que ela esperava. Era como se seu corpo estivesse sendo puxado por uma corda em direção a ele. Sua mão puxou-o da prateleira. A capa era de um veludo vermelho, drasticamente diferente de todos os outros livros que já tocara. Tentava ler seu título, mas não conseguia. Estava escrito na mesma cor. Se tentasse colocar em um determinado angulo da luz, podia, ao forçar a visão, ver a frase “Máscara da Realidade” escrita, mas se o movesse um pouco, a frase “Regras se Quebram” surgiria no mesmo lugar.

Confusa, levou-o para a mesa localizada no centro daquele cubículo, virou a primeira página...

...e horas se passaram como um bater de asas enquanto seus olhos dançavam pelo papel.