Contos dos Três Planos
7 Kayle II
Kayle sorriu ao perceber o movimento nas folhas das árvores no jardim abaixo. Algumas se levantavam e logo em seguida abaixavam, para a diretamente ao seu lado levantar e se abaixar, seguindo uma linha reta. Tentou não se distrair com aquilo. Quando ele quisesse vir, viria.
O pequeno caldeirão borbulhava na sua frente, com a colher de madeira quase totalmente mergulhada em seu líquido, possivelmente dando-lhe um péssimo gosto. O recipiente negro já estava velho e enferrujado, como todos os caldeirões dados aos feiticeiros em treinamento. Os aposentos dados a cada um, ou estavam no mesmo estado, ou era apenas o de Kayle. Sua roupa de cama estava atirada no chão, com alguns livros fazendo peso para o fino lençol não voar. O tapete amarelado estampado com o desenho de um sol sobre uma torre branca estava amassado no canto contrário à porta; cuja tranca quebrada forçava Kayle a fechá-la com algumas vassouras e esfregões.
Sua mesa de trabalho era mais limpa que o resto do minúsculo quarto, mas não por muito, especialmente naquele dia. O já mencionado caldeirão localizava-se na única boca do fogão à gás. À sua esquerda, um livro estava aberto sobre uma tábua de madeira. À sua direita, na outra tábua, folhas de manjericão, alecrim e camomila juntavam-se em um amontoado só.
Kayle mantinha o olho no livro enquanto mexia o líquido com a colher. Ela lia em voz alta para memorizar melhor.
—“Esquente a solução de água e conhaque, mas não deixe borbulhar”. –Kayle virou o rosto para o caldeirão e contou sete bolhas antes de entrar em pânico e girar o botão de diminuir o fogo com tanta violência que o pequeno objeto escapuliu do fogão, quicou no chão e na parede e parou aos pés da jovem. Ela se agachou e o pôs em seu devido lugar, agradecendo aos deuses por ninguém está lá para vê-la.
—Que irado!
Kayle deu um salto, quase repetindo a peripécia com o botão, e olhou para trás, com olhos tão grande quanto uma coruja. Roveo caiu na gargalhada na cama da garota.
—Você sempre se assusta! –Ele girou de um lado para o outro no colchão, esperneando. Kayle não conseguiu esconder o sorriso que aos poucos surgiu por vontade própria.
Roveo era um garoto franzino de cabelos tão escuros quanto a noite em si. Kayle nunca perguntou sua idade, mas não devia ter mais que oito anos. Seu sorriso continuava muito além do fim de sua boca, dando uma estranha vontade àqueles que o vêem de imitá-lo. Naquele dia vestia-se com trapos sujos que cobriam seu peito e suas partes íntimas, mas deixava partes de seu corpo à mostra.
—Haha, muito engraçado. -Disse Kayle, subitamente percebendo que devia voltar à prestar atenção no seu trabalho.
—Entrei em um momento ruim?
—Não extamente, eu só...
—Então não deixa a janela aberta! –Ele fez uma careta, sentindo-se um pouco mal.
—Roveo, tá tudo bem. -Confortou ela. –Eu te vi lá embaixo. Só fui pega desprevenida mesmo.
—Você precisa ficar mais atenta as coisas.
—E eu tô agora. Sabe, eu tava concentrada demais no meu trabalho, então claro que qualquer coisinha que você fizesse ia me assustar. Mas agora eu já aprendi minha lição, então estou pronta para qualquer coisa. Entendeu?
Ao não receber uma resposta, Kayle olhou para trás e se surpreendeu ao não encontrá-lo. Confusa, virou para frente e quase deu um pulo ao ver um esquilo cheirando o amontoado de plantas. O animal levantou-se em duas patas e imediatamente caiu para trás, gargalhando. Kayle, com um sorriso malicioso e um pouco irritado, pegou o animal e o arremessou contra a parede.
O corpo do roedor aumentou enquanto cortava o ar, até voltar a ser Roveo, ainda gargalhando. O Troca-Peles encostado na parede a encarava de ponta cabeça, com sua bochecha esquerda tocando o chão.
—Bem atenta. -Brincou ele.
—Essa não valeu. Foi injusta.
—É natural pra mim, então é justo. -Ele se ajeitou e levantou-se.
—Se eu também fosse uma Troca-Peles, aí sim seria.
Roveo encaminhou-se até seu lado e ficou na ponta dos pés, inclinando-se para frente e tentando ver o que a jovem fazia. Ela esmagava o manjericão com um socador numa pequena tijela de cerâmica. Depois despejou tudo na solução de água e conhaque, misturando-a em seguida.
—Uma poção?
—Não, não, é um refresco. uer tomar?
—Claro!
Os dois soltaram uma risada, que se encerrou por parte dela quando Roveo esticou as mãos para pegar o caldeirão. Naturalmente, a risada do Troca-Peles se tornou uma gargalhada brincalhona depois de Kayle bater em seus braços.
—Isso faz o que?
—Traz prosperidade a quem beber.
—Aaaah...que vago.
—Bom, poções são assim. -Ela deu de ombros. -Pelo menos essas são.
—Por que você não faz logo alguma mais interessante? -Ele se debruçou sobre o balcão, até ela afastá-lo com a colher de pau. –Tipo uma poção que me deixa invisível ou alguma coisa do tipo.
—Eu não sei, por que você não se transforma em um bicho mais interessante? Tipo um tigre ou um leão ou algo do tipo.
—....malvada.
—E pra sua informação. -Disse Kayle parando de rir. -Eu estou aprendendo coisas mais interessantes. Aos poucos.
—Mesmo? O que é? O que é? O que é?
—Bom, eu... -Ela parou por um segundo e encarou o garoto, seu sorriso lentamente desaparecendo. Os olhos de diminuíram, preocupados. Ele olhou para si mesmo e de volta para ela.
—O que? -Questinou.
—Se transforma. Rapidinho.
—Como assim?
—Só...rapidinho.
Roveo, estranhando, mudou sua forma por um segundo e depois voltou a ser humano, mantendo a mesma expressão.
—Você já notou o azul? -Perguntou Kayle.
—O negócio azul em volta? Já, ué.
—Você sabe o que é? Descobri que é assim em todos os Troca-Peles.
—Não. O que que é?
—A Essência de Anxar. É assim que se chama.
—...entendi. -Disse Roveo, não entendendo. -E...
—E essa Essência está em todos os lugares. Ela é o que dá forma a todas as coisas. Tudo contém a Essência, mas, ela só é visível quando é manipulada de alguma forma. –Continuou Kayle.
—Como quando um Troca-Peles troca de pele?
—Exatamente. Mas tem outra forma de manipular ela. -Kayle abriu um sorriso travesso. -Imagina se alguém fizer isso enquanto você está se transformando.
Roveo pareceu perturbado com aquele pensamento. Balançou sua cabeça, afastando a imagem.
—Caramba, isso parece terrivel. -Afirmou. -Você consegue imaginar isso? É como se você tentasse correr e alguém segurasse suas pernas. Você consegue imaginar isso?
—Consigo...não parece tão ruim, na verdade.
—Bom, mas...se você pensar pelo ponto de vista...o que eu tô tentando dizer...é, foi uma péssima analogia. -Riu ele, com a garota acompanhando. -Onde você descobriu isso?
—Um livro que eu achei.
—Achou?
—Eu achei ele em uma estante, é. -Ela deu de ombros. -E depois trouxe pra cá.
—Kayle, isso é crime!
—Vai me dedurar?
—Claro que não, sempre quis ser cúmplice!
Ele começou a correr de um lado para o outro, checando cada canto do aposento. Kayle aproveitou o momento para se focar em seu trabalho, até o barulho da cama se movendo começar a incomodá-la.
—Você não vai achar. -Declarou.
—Me diz o que ele fala então! -Roveo deixou o colchão cair.
—Bom, eu tô no início ainda, então não sei muito. Eu sei que aqueles que conseguem manipular a realidade através da Essência se chamam Manipuladores de Realidade.
—Criativo.
—E sei que o primeiro passo para chegar nisso é se tornando um ilusionista.
—Ah, mais ou menos o que você faz?
—Mais ou menos. -Ela fez uma careta, abriu uma gaveta e retirou um frasco pequeno. -Aqui, eu uso isso aqui pra barganhar com as pessoas na Torre Branca. Mexe com os sentidos e faz com que estejam em uma ilusão. Começam a ver e ouvir coisas estranhas. Ilusionistas fazem isso, mas sem precisar de nenhuma poção. Não tenho ideia de como funciona ainda. Ainda.
—Posso tomar? -O jovem segurou o frasco.
—Absolutamente não! -Ela deu um tapa na mão do outro.
—E se eu te der cinco moedas de ouro?
Kayle manteve a mão levantada, pensativa, até ouvir uma batida na porta. Os dois se viraram para ela e depois se encararam em pânico.
—Se esconde. -Disse ela.
Roveo transformou-se em um esquilo e se escondeu embaixo do colchão. Kayle pôs o frasco de volta e correu até a porta, abrindo-a. Deu dois passos para trás, não preparada para quem estava do outro lado.
—S... senhor! -Exclamou ela.
Woz a encarou de cima, alisando sua barba pontuda como um espinho. Seus olhos então passaram para o resto do quarto; o rosto acompanhando seus movimentos e a barba também, não balançando em momento algum, como se fosse uma parte fixa à pele.
—Pode aparecer, cavalariço. -Disse o feiticeiro.
Kayle congelou. Sua mão ainda apertava a maçaneta, mas agora fez mais força. Woz se divertiu com a expressão da garota, então continuou.
—E sei que você é um Troca-Peles, então pode voltar ao normal....bem... -Ele fez o sinal de aspas com as mãos. –“Normal”.
Roveo saiu de seu esconderijo, movendo-se como se não tivesse juntas. Olhou para o homem como uma coruja e fez uma reverência desajeitada.
—Como o senhor... -Ele fez um sinal para si mesmo.
—Sou o feiticeiro real da Torre Branca. -Justificou-se.
—E como o senhor... -Kayle apontou para a cama.
—Sou o feiticeiro real da Torre Branca. -Justificou-se. Olhou para Roveo. -Você não devia estar cuidando dos cavalos? Um dos príncipes quer comandar uma caça hoje. O alto. Daeines.
—S...sim senhor! –Exclamou Roveo um pouco alto demais. Espremeu-se entre o portal e o homem até aparecer no corredor e voltar para o jardim.
—E, jovem... -Woz o interrompeu. –Imagino que não queira que ninguém saiba sobre sua condição. Seu segredo está seguro comigo.
—O...obrigado, senhor! -E então desapareceu de vista.
Woz manteve o olhar no local onde o garota estava, até se virar e fechar a porta. Kayle estava em seu balcão, desesperadamente tentando deixar sua poção mais apresentável. Frascos e ingredientes caiam enquanto ela mexia a colher no caldeirão.
—Não estou aqui para julgar seu trabalho. Deixe isso para a aula. -Disse.
Ela largou o utensílio e arrumou a bancada, apenas se virando para o feiticeiro após tudo estar pronto. Desligou também o fogo antes que se esquecesse. O olhar de Woz estava distante. Estudou o rosto da outra, melancólico.
—Você é amiga daquele rapaz?
A pergunta a pegou desprevenida. Com o cenho franzido, respondeu de forma cautelosa
—Sou...sou sim.
—Não é um pouco estranho fazer amizade com um garoto que tem metade da sua idade?
—Senhor...com todo o respeito...não tem mais ninguém. -Kayle desviou o olhar. –Feiticeiros não são muito bem vistos na torre.
—Imagino que seja difícil para a maioria conviver com pessoas como nós, sim. -Concordou ele. -E os seus colegas de turma?
—...senhor... -Ela não precisou continuar a falar para que Woz entendesse.
—Ah, é claro. Eu esqueci. -O homem debruçou-se na janela e olhou para fora. Roveo esfregava os cavalos no jardim, completamente suado. -Tudo é uma competição. Não se faz amizade com quem quer seu posto. Nossa vida é injusta, garota. Temos a capacidade de desvendar cada mínimo mistério que o universo esconde, mas somos tratados como lixo.
—Não é assim também, senhor. -Disse ela, sentindo-se estranha em confortar seu professor.
—Sim, sim é. Mortais precisam de contato, Kayle. Precisam interagir e formar conexões entre si, mas nosso caríssimo Duque não compreende um fato tão simples como esse. Nosso trabalho é decorar livros e receitas e ocasionalmente dizer algo sábio que será ignorado por tolos. Eu estive sozinho nesses últimos vinte anos, e o mesmo vai acontecer com o próximo feiticeiro real. Meus alunos tem que se acostumar a detestarem seus semelhantes e a vê-los como rivais, eu acho.
Kayle tentou escolher as próximas palavras com cuidado, mas não via maneira alguma de normalizar a situação.
—Roveo é um grande garoto. -Disse por fim, arrependendo-se em seguida.
—Deve ser. -Ele reprimiu uma risada.
—Me desculpe ser rude, professor, mas não acho que o senhor veio aqui falar sobre minhas amizades. -Arriscou.
—Não. E também não vim para reclamar da minha vida. Você está certa. –Woz se virou para a jovem. –Você está com um livro de minha coleção pessoal.
Kayle bufou, decepcionada. Já esperava aquilo, mas tinha a esperança que não. Por um momento arrependeu-se de ter roubado o livro.
—Estou. -Admitiu.
—Máscara da Realidade.
—Esse mesmo.
—Quantos livros de lá você já leu?
—Alguns. Nenhum inteiro, é claro.
Woz analisou o rosto da garota.
—Leu “A Relação Entre a Essência de Anxar e os Troca-Peles: Uma Teoria”?
—Não, mas tava planejando invadir hoje a noite pra isso. Esse que eu peguei nem mesmo considera isso como uma teoria.
—Porque a pessoa que escreveu Máscara da Realidade sabia o que estava dizendo.
—Voce já leu todos aqueles?
—Eu os tenho, ora! Mas admito que Máscara é um bocado complicado. Por que ele, Kayle?
—Porque o título mudou quando eu olhei de perto. -Ela fez uma careta diante a sua própria justificativa um tanto infantil.
Woz ergueu uma sobrancelha e não a abaixou até a jovem abrir sua boca.
—Eu estou ferrada? -Questinou.
—Bom...furto de bens preciosos além da compreensão da maioria, invasão de uma área da biblioteca especificamente proibida, envenenamento de inocentes...
—Ei! Eu não envenenei ninguém!
—Verdade. Você só drogou.
—É! -Kayle então parou e pensou por um segundo. -... conforme o combinado!
—Sonho de Peixe?
—F...foi.
—Impressionante. –Woz sobrepôs um lábio no outro com uma expressão de satisfação. -Me diga como uma alquimista medíocre como você aprendeu a fazer isso?
—Eu só li a receita no... medíocre?
—O trabalho que você me entrega geralmente é, sim. O que é isso aqui? -Ele apontou para a poção dentro do caldeirão de Kayle. Então o segurou e jogou seu conteúdo pela janela, deixando a garota em pânico. -Lixo, é o que isso é. -Woz abriu a gaveta e retirou o frasco com Sonho de Peixe. -Mas isso aqui...isso é ótimo. Muito difícil acertar a quantidade certa.
—Eu...eu só li a receita...
—Não, você não entende. Você errou a quantidade.
—...o que?
—Não era para estar rosado. -Ele balançou o vidro. -Era para estar vermelho.
—Então como...
—Como funcionou em Óhn e em sei lá quem mais tomou? -Woz deu de ombros. -Descubra. Você que fez, você que descubra. Não vou te explicar nada.
—Mas...você é meu professor...
Woz olhou para ela com pesar. Um pesar que incomodou Kayle.
—...não é? -Disse Kayle, assustada.
—Vamos voltar para aquela sua pergunta. Sobre se você está ferrada. Não fui eu que descobri que o livro estava faltando.
—...Óhn percebeu e contou.
—E você pode culpá-lo?
—Não.
—Talvez você possa culpá-lo por ter falado com o duque, não comigo.
Todos os pelos do corpo de Kayle se ergueram ao mesmo tempo.
—Eu vou ser expulsa da Torre Branca?
—Você é bem otimista. Não, não, você ia ser presa. Eu intervim. Não vou deixar que prendam nenhum aluno meu, então conversei com o duque e o convenci a não ser um idiota.
—O que isso significa.
—Que todos os seus problemas estão resolvidos. Você pode ficar aqui e continua minha aluna. Mas, é claro, seu nome agora está manchado.
—...o que significa que não vou virar a feiticeira real da Torre Branca.
Woz assentiu, desviando o olhar.
—E se você não vai vencer essa competiçãozinha entre os alunos, pra que perder seu tempo aqui. –Ele deu de ombros. -Alguns veriam isso como uma benção.
Kayle se sentou na cama, frustrada. Agora fortemente se arrependia de ter roubado aquele maldito livro. Woz ficou sem ação. Fez menção de sentar próximo à garota, mas não terminou a ação. Permaneceu parado, claramente incomodado. Kayle então decidiu não tomar mais do tempo do feiticeiro
—Ele está no chão. -Falou ela e apontou para um ponto específico perto da porta. -Aquela pedra ali é móvel.
Woz se agachou, empurrou o pedaço solto do chão para o lado e tirou de lá o livro que buscava. Depois arrumou a pedra, abriu a porta e encaminhou-se para o corredor, tentando não olhar para a garota.
—Recomendo que faça suas malas hoje e vá embora até amanhã. Pode ficar, se quiser, mas você formalmente nunca chegará ao nível onde se aprende a fazer Sonho de Peixe aqui. O mais sábio é ir embora e continuar seus estudos sozinha. -Falou, deu um passo, parou e se virou. -E também recomendo que não tente virar a feiticeira real de alguma outra cidade ou ser a mão direita de algum nobre. Não vale a pena.
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