Contos dos Três Planos
5 Jorry e Lina I
Jorry deu dois passos para o interior da caverna e inalou fundo o cheiro de fumaça vindo dos pequenos braseiros na frente de cada construção de madeira. Atrás havia apenas o píer e o pequeno buraco cheio de água no chão por onde emergira segundos antes. Também havia um vendedor de Caixões Móveis que não parava de encará-lo, mas já estava acostumado à chamar atenção. Estendeu os dois braços, quase tocando o teto de pedra, e espreguiçou-se.
—Ah, que saudades! –Exclamou em sua grave e áspera voz, antes de cambalear em direção às construções. –Que saudades tenho de tudo isso!
Não visitava o Abismo haviam anos. Passara muito tempo na superfície. Tempo demais. Estava cansado de ver a mesma paisagem constantemente: florestas, vilas, castelos, florestas, vilas, talvez uma cidade grande, florestas, um riacho no meio da floresta, florestas, estradas, florestas...francamente a cor verde estava começando a enjoa-lo, ao ponto que a ocasional esmeralda que via encrostada nas paredes causava-lhe ânsia de vômito. Tolos diriam que o subterraneo é ainda mais repetitivo visualmente que o mundo habitado por três das quatro raças. Tolos são tolos.
A primeira coisa que viu ao fim do corredor foi uma barraca de madeira com uma velha senhora vendendo uma grande variedade de peixes. Ele se aproximou com um sorriso no rosto e abaixou a cabeça, olhando de perto a mercadoria.
—Este linguado está com uma aparência deliciosa! –Comentou. –Foi pescado perto daqui?
A mulher o encarou, boquiaberta, apavorada demais para se mover.
—Mas tenho que falar, esse salmão aqui foi o que realmente me deixou apaixonado. Mais até que...heh...que o namorado! –Ele abriu a boca cheia de dentes em um sorriso ironico, atecipando uma gargalhada. A mulher estava chocada demais para rir. Não que eu ache que riria em alguma outra ocasião, mas, quem sou eu, não é mesmo? –Talvez eu compre mais tarde. Guarde um para mim, tudo bem? Muito obrigado pela atenção!
E então foi embora, com o olhar da outra escoltando-o até desaparecer da vista. Seus passos eram lentos e inconstantes devido ao pedaço de madeira no lugar de sua perna esquerda. Mancava, mas já estava acostumado. Não se cansava mais com o esforço extra. Uma shiveriana se aproximou por trás, questionando se queria ajuda para caminhar. Vestia trapos terrosos que cobriam parte de sua lisa pele cinzenta. Assim como os outros membros da espécie, seu corpo era esguio e pontudo nas estremidades e juntas, incluindo seu rosto um tanto quanto triangular, lembrando vagamente um peixe quando visto frontalmente. A aparência podia ser estranha para um humano que nunca pôs um pé em alguma caverna do Abismo, mas Jorry achava os shiverianos uma companhia melhor que os humanos. Podia ver que a jovem só queria ajudar, então virou o rosto e olhou bem para ela e entregou um sorriso simpático, dizendo para que não se preocupasse. A expressão empática da shiveriana mudou rapidamente para terror, mas sua boca não abriu para emitir um grito. O homem continuou seu caminho, ainda com o sorriso no rosto. Que moça gentil!, pensou.
Agora já estava dentro da cidade subterranea. Não sabia o nome, provavelmente ninguém sabia, mas era comum dentro do Abismo. As pessoas apenas apontam “a caverna embaixo de tal cidade”, ao invés de nomear a caverna em si. No passado era diferente, é claro. Aquele lugar provavelmente tinha um nome na extinta língua shiveriana, mas foi esquecido quando os humanos inventaram seus Caixões Móveis e descobriram como explorar o Abismo. Depois desse evento, as cavernas ficaram cada vez mais semelhantes às cidades e vilas da superfície, usando madeira para as construções ao invés de pedras. Ninguém mais se lembrava de como era aquele lugar antes. Não havia ninguém vivo para espalhar essa informação. Era uma cidade humana, mas sem as leis que as tornam insuportaveis, o que o atraía para lá. Além disso, no Abismo geralmente as pessoas apenas olhavam para ele.
Encontrou uma grande construção com uma taça em sua placa da frente. Deu de ombros. Não parecia uma má ideia. Não havia mais nada a fazer mesmo. Podia passar algumas horas no bar e depois arranjar algum trabalho.
Suas mãos lentamente empurraram as portas duplas e o som de conversa, risadas e copos batendo infiltraram seus ouvidos de maneira extasiante. Sentia-se nostálgico. Não sabia exatamente em relação a que, mas nostalgico ainda assim. E então, as conversas aos poucos cessaram. Assim como as risadas e qualquer outro som. No momento que fechou as portas atras de si, todos os olhares pesavam sobre seu corpo.
Um cruel sorriso surgiu em seu rosto. Um que fazia questão de mostrar as centenas de dentes dentro de sua boca. O imenso homem de dois metros e meio caminhou pesadamente até o centro do estabelecimento, sua perna de madeira causando um estrondo sempre que tocava no chão.
—Oh...estão olhando o que? –Perguntou, espaçando suas palvras. –Viram alguma coisa que gostaram? Oh, assim vocês me deixam envergonhado, devo dizer!
Ele jogou seu peso para trás, mantendo o tronco ereto e deixando bem à mostra o amontoado de músculos que podiam ser vistos por seu casaco aberto no meio. Homens com bíceps maiores que a cabeça da maioria da população encolheram-se em suas cadeiras, especialmente após concluírem que as mãos daquela coisa eram grandes o suficiente para envolver as suas cabeças sem dificuldades. Um tremeu ao pensar o que aconteceria se essa hipotética situação acontecesse e o fizesse força.
—Eu vejo todos vocês olhando para mim. Sempre olhando para mim. –O sorriso não sumia de seu rosto. –É engraçado; todos olham, mas ninguém nunca faz nada. Por que? Medo?
Ele girou em seu próprio eixo, talvez como forma de mostrar a todos a barbatana que furava sua roupa logo após a base do pescoço. Seus olhos, cada um em um lado oposto do rosto, separados pelo longo focinho no centro, encararam cada uma das vinte pessoas presentes lá dentro, todas paradas em seus lugares, temerosos em relação à próxima ação daquela aberração que ia contra as leis da natureza. Jorry cambaleou até uma mesa e bateu as duas mãos na mesa, encarando diretamente um jovem, que pulou apavorado no próprio lugar, mas não atreveu a mover-se.
—E se eu matar esse garoto agora? Hein? Ele parece delicioso, não vou mentir. –Passou a lingua entre cada um de seus dentes. –Me pergunto o quão fina é a sua pele. Será que rasga que nem papel ou...bom, acho que seria que nem morder manteiga. –Ele chegou o rosto mais perto. –Eu mal sentiria que tem alguma coisa.
Alguns se atreveram a levantar, mas não tomaram nenhuma ação subsequente. O atendente do bar escondia-se atrás do balcão. O jovem fechava seus olhos, sentindo o fétido odor do bafo daquele ser. Aquele tubarão humanóide. Aquele ser bestial que não parecia ser possível existir. Um monstro que não encaixava-se em nenhuma das raças que habitavam os Três Planos. Um híbrido. E agora aquele hibrido estava prestes a devorar um humano na frente de todos.
Isso é, até ele parar seu movimento. O sorriso cruel adquiriu um outro tom. Sua expressão sádica tornou-se brincalhona. Seu corpo começou a tremer em intervalos regulares, até ele finalmente esticar-se para trás, oljhar para cima e fazer um barulho que ninguém presente imaginava ouvir.
—SHHHHHHHHHHHHHHAAAAAAAAAAAAAAAHAHAHAHAHAHAHA! –Gargalhou ele. –Você devia ter visto a sua cara! Foi quase tipo: “Não! Por favor! Não me coma!”. Hilário! SHHHHHHAAAAHAHAHAHA!
Todos o encararam, incrédulos.
—Ah, qual é? Vocês se acham mesmo tão importantes assim? Awreens, humanos, garths, shiverianos...vocês todos tem gosto de bosta! Com o tempo cansa! –Ouviu um suspirou apavorado e soltou outro risinho. –Estou brincando, nunca comi nenhum de vocês e nem pretendo. Foi só uma brincadeira. Mas vocês deviam ter visto as suas caras!
Todos continuaram o encarando, ainda incrédulos. Jorry soltou um suspiro e puxou uma sacola cheia de moedas.
—Tá. Tudo bem. Se vocês acharam sem graça, tudo bem. Que platéia dificil. Ei! Você aí escondido atrás do balcão! –Ele jogou a sacola para o dono do bar. –Deixa todo mundo beber a vontade; eu pago!
Continuaram o encarando por alguns segundos, até, como uma onda erguendo-se, a voz de todos uniu-se em uma animada comemoração e uma enorme fila em frente ao balcão foi formada.
Algumas pessoas se aproximaram de Jorry, uns para tocá-lo e certificar-se que a pele não era feita de borracha, outros, já alcolizados, para lhe entregar um abraço desconfortável.
Ele então percebeu um piano parado no canto do bar. Como se estivesse enfeitiçado, empurrou aqueles que o envolviam para o lado e se aproximou do instrumento. Sentou em seu banco e passou as mãos pelas teclas. Nos segundos seguintes, quando musica começou a ser tocada, o bar e as pessoas deixaram de existir para ele.
Algumas horas depois, em um bar nas proximidades
—Quem é o próximo? –Cuspiu Lina.
Um se atreveu; um velho com a barba pontiaguda que estava claramente alterado. Subiu lentamente em uma das mesas e saltou contra a mulher, gritando descontroladamente. Foi saudado pela cadeira que ela segurava arrebentando-se ao atingi-lo . Gritos animados puderam ser ouvidos por todo o bar e o velho, não incomodado pelo sangue que escorria de seu rosto, começou a gargalhar. A mulher pegou duas das pernas que foram separadas do assento e apontou-as para os inúmeros humanos e shiverianos em volta.
—E agora? Mais alguém? –Gritou com um sorriso no rosto. –Mais alguém?!
Ninguém deu um passo a frente, então Lina precisou decidir seu próprio oponente sozinha. Não viu o rosto do homem cuja cabeça quebrou sua nova improvisada arma, apenas o percebeu quebrando o nariz de outro com um soco cruzado e decidiu se juntar àquela escaramuça.
Socos, agarrões, pontapés, gritos de dor, gritos de escárnio, música, todos os sons mesclavam-se em um incompreensivel ruído que trazia paz e calmaria aos ouvidos de Lina. Talvez fosse pela garrafa de rum que tomara sozinha nos esporádicos momentos de descanso. Sua visão estava turva e o equilibrio não era dos melhores, mas como todos estavam no mesmo estado, julgou como uma forma de deixar tudo justo.
Arremessou um homem por cima de uma mesa de madeira. Este se levantou e chutou-a de volta, atingindo a barriga de Lina e fazendo esta se inclinar para frente e soltar uma grossa bufada. Fuzilando-o com os olhos, puxou-o pela camisa até seu lado, arremessou-o no chão e pisou em seu rosto com furia. Depois tocou em sua barriga e recuou um pouco.
—Vou descansar uns cinco minutinhos. –Anunciou, encaminhando-se para o canto do bar.
Desviou dos corpos caídos e daqueles que estavam caindo. Saltou por cima de uma mesa quebrada e empurrou para os lados pedaços de cadeiras que não existiam mais. Isso tudo talvez causasse prejuizo para o dono do bar, mas ele não parecia se incomodar. Era longe o suficiente do resto da cidade localizada naquela caverna para não receber nenhuma reclamação. Sem falar que as constantes brigas eram um atrativo daquele lugar para certas pessoas, ao ponto de estar sempre cheio.
Não era um atrativo para o casal de humanos sentado perto da janela, notou Lina. Aparentavam aborrecidos e desconfortaveis, afastando-se o máximo que conseguiam da multidão enquanto comiam e conversavam. Lina notou a garrafa vazia no centro da mesa e se aproximou com um sorriso gentil.
—Com licença. –Disse ela, apontando para o objeto. –Eu poderia, por favor, ficar com isso aqui?
—Uhh...claro... –Disse um deles.
—Muito obrigada! –Ela pegou a garrafa e a quebrou na mesa, assustando os dois e os fazendo soltar um grito em uníssono. Então apontou a parte destroçada para os outros que brigavam e começou a gritar com autoridade em sua voz. –Se algum de vocês tentar fazer alguma coisa enquanto eu estou descansando, espero que já se acostumem com a boca dessa garrafa como uma forma diferente de se mijar!
—Ah, mas ela só fal...
—Se me interromper de novo, eu vou arrancar suas cordas vocais com as mãos! Tá me entendendo? –Exclamou para o homem que a interrompera, quase cuspindo no processo. O homem assentiu em silêncio. –Ótimo.
Se virou para o casal.
—Obrigada! –Disse em uma voz doce.
Sentou-se no peitoril da janela e esticou a cabeça para o lado de fora. A vista não era nada além da parede da caverna uns cinco metros mais a frente. Se a construção fosse esticada um pouco mais, poderiam usa-la como limite, mas talvez o construtor do bar tivesse ficado sem madeira e precisou improvisar.
Lina olhou para cima; para o topo da caverna. Não havia topo. Pelo menos não antes da luz desaparecer por completo. Em épocas antigas, as cavernas do Abismo eram iluminadas pelo magma que corre dentro das rochas. Sua luz era refletida pelas gemas presas nas paredes, trazendo luzes de dezenas de cores diferentes. Esse ainda é o caso no oceano do Abismo, mas tochas e lamparinas apagaram este conceito dentro das cavernas.
Ela balançou seu curto cabelo negro, desarrumando-o. A dor da pancada estava sumindo. Perguntou-se se estava começando a ficar velha demais para aquilo. Já fora mais durona. Talvez estivesse um pouco fora de forma. Desacostumada com sua rotina?
Frustrada com si própria, encaminhou-se até a mesa do casal novamente, olhando para a garrafa de vinho ainda semi-cheia que tomavam.
—Pode me emprestar? –Disse ela, não se incomodando em ser gentil. Pegou a bebida, virou-a em três goles e pôs o vidro vazio em cima da mesa. –Obrigada.
Em seguida, voltou à janela onde estava e saltou para fora, deixando que as brigas acontecessem sem sua presença.
Seus passos ecoavam pelas paredes de rocha. Quando estava distante o suficiente para não sentir a luz da tocha que iluminava tudo em volta, uma outra surgia poucos passos adiante. Não havia um local particularmente claro durante aquela caminhada, mas Lina também nunca estava na escuridão completa. Olhando para as paredes, percebera que as gemas que um dia estiveram ali foram violentamente arrancadas. Soltou um suspiro, mas tentou não pensar muito nisso.
Pensamentos e memórias inundavam sua mente, mas nada naquele vazio local conseguia distraí-la. Cerrou os punhos e olhou-os. Estavam vermelhos. Ardiam. Ardiam como nunca arderam antes. Em um acesso de fúria, virou-se para a parede e socou-a com toda sua força, arrependendo-se logo em seguida.
—Filha da... –Xingou enquanto balançava sua mão e segurava um grito que possivelmente a soterraria.
Sangue escorria de seu punho ja anteriormente vermleho. Ela limpou na própria roupa, pos a mão no bolso e continuou caminhando, tentavndo evitar sua mente. Sua barriga ainda doía. Seu ramo não permitia fraqueza como aquela. Sacou uma sacola de moedas e a abriu. Quinze moedas de bronze. Não dava para nada. Retirou a mão de seu bolso e encarou o sangue mais uma vez, antes de soltar um grunhido e caminhar ainda mais rapido.
Seu passatempo favorito e seu trabalho envolviam as mesmas habilidades; a diferença é que um golpe desatento durante este segundo pode ser fatal. Trabalho mercenário não era um ramo facil ou perdoante, mas era tudo que Lina sabia fazer. E agora temia que sua carreira estivesse chagando a um abrupto final; talvez abrupto demais se não ficasse atenta. Mal havia chegado nos trinta anos de idade; não conseguia entender o que estava acontecendo.
Finalmente chegara no local mais próximo que aquela caverna conseguia chamar de cidade. Direcionou-se até o mural de madeira para ver os papéis recém colocados. Se não tivesse nada de bom, teria de ir até outra caverna, mas tinha medo de seu dinheiro não durar a viagem.
Interrompeu-se ao ouvir um som de piano abafado por alta cantoria. Com o canto do olho, percebeu a placa com o desenho de uma taça de cerveja. O local estava lotado, com pessoas nem mesmo conseguindo entrar e apenas olhando pela janela.
Curiosa, Lina empurrou aqueles que abarrotavam a entrada para o lado, vezes gentilmente, vezes não tanto. Homens, mulheres, crianças, humanos, shiverianos, todos olhavam em uma única direção: para o alto e corpulento híbrido de homem e tubarão tocando piano. Os olhos da humana arregalaram por um segundo, mas imediatamente voltaram ao normal. Uma visão inesperada, mas não a coisa mais surpreendente que Lina já vira em sua vida. A música que tocava também ajudava.
Os dedos de Jorry voavam pelo instrumento. Não parecia estar batendo com força nas teclas, mas o som de cada nota tinha seu próprio impacto individual na melodia que improvisava. Sua mão esquerda batia simultaneamente em três teclas oito vezes, até mudar para três outras teclas próximas; enquanto sua mão direita dançava pelo preto e branco, indo e vindo, subindo e descendo, vezes saltando duas teclas, vezes saltando só uma.
O publico ao seu redor tentava, sem sucesso, bater palma em um ritmo e inventar letras. Nenhum tinha ideia para onde a melodia que Jorry criava iria, então cada um dos que tentavam cantar geravam suas próprias frases, o que transformava o vocal em um som incompreensível, mas o híbrido não parecia se importar. Lina olhava para ele com os olhos arregalados, e desta vez mantendo-os assim por um longo intervalo, impressionada com o puro talento daquele homem.
—Ei! Ei você! –Chamou o dono do bar de trás do balcão. Ele estendeu para Lina um copo com cerveja até a boca.
—Não tenho dinheiro. –Respondeu ela, não desviando o olhar do músico.
—É de graça!
—Não estou interessada.
—Foi ele que pagou! –O homem apontou para Jorry, o que despertou a curiosidade de Lina. –Ele pagou pra todo mundo pelo resto do dia.
Ela se aproximou e pegou o copo. Derramou um pouco em um homem que dançava sozinho ardentemente, mas não pareceu se incomodar. Deviam ter umas setetnta pessoas lá dentro, e a maioria já estava na terceira ou quarta rodada.
—Ele deve ter muito dinheiro. –Observou ela.
—A primeira sacola que jogou pra mim não deu. Já estamos na terceira.
—Uhhh...esse cara parece generoso demais.
Ela então apertou os olhos e realmente prestou atenção no músico; em particular no fato de que ele não conseguia ficar sentado direito. Seus dedos moviam-se com precisão, mas seu corpo ia para frente e para trás, para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo; tudo enquanto sua cabeça fazia movimentos completyamente contrários, como se estivesse tentando manter o equilibrio. Haviam quatro garrafas de rum vazias em cima de seu piano.
—Oh...bosta. –Suspirou ela.
Por um rapido segundo, seu corpo inclinou-se demais para trás, com seus dedos afastando-se das teclas e, no segundo seguinte, o hibrido caiu para trás, atingindo o chão de madeira com um estrondo. Uma gargalhada coletiva e ensurdecedora seguiu-se, ficando mais forte quando perceberam que o hibrido agora estava inconsciente. Um humano começou a empurrar a multidão para longe junto de três outros. O primeiro era bem vestido e tinha um rosto límpido e impecavel. Já os outros, nem tanto.
—Saiam da frente, saiam da frente! –Ordenou ele, empurrando uma mãe e seu filho, que tentavam tocar no ser caído. –Esse daqui é meu.
Jorry respirava pacificamente enquanto deitado, não ouvindo a comoção em volta. Dois dos homens ajoelharam-se em volta dele e envolveram-no com seus braços, tentando ergue-lo. Não obteram sucesso, apenas soltaram um longo grunhido enquanto o corpodo híbrido não se movia.
—Esse é daqui é pesado, senhor, ele é sim! –Disse um.
—Então tirem força de suas respectivas bundas, se for necessário, só quero que tirem essa coisa daqui logo. –Disse o primeiro homem.
—O que vão fazer com ele? –Lina atrveu-se a perguntar.
O homem virou sua cabeça para encontrá-la, enquanto ela passava pelo povo. Girou o pescoço demais para um lado, depois para o outro. Suas pernas enroscavam-se em si mesmas e na bainha da espada que pendia em sua cintura. Lutou para ficar de pé enquanto buscava-a com os olhos.
—O que você acha que eu vou fazer? –Perguntou com um sorriso malicioso após encontrá-la. –É um tubarão gigante que toca piano. Pensa no dinheiro que ele moveu hoje e pena em como poderia ter sido se ele cobrasse ao invés de jogar dinheiro fora assim.
—Tá bem...não. –Lina agora estava dentro do pequeno circulo que a multidão formou quando os quatro os afastaram.
—Como assim não? –O homem bem vestido se aproximou, andando com certo molejo e pondo enfase em seu corpo nada definido, tentando aparentar ameaçador.
—O cara não pagou bebidas pra vocês? Deixa ele dormindo aí como um “obrigado”.
—E por que eu...
E então Lina o interrompeu ao jogar o resto do conteúdo do copo que segurava em seu rosto. Aproveitou o momento de distração e puxou a espada do homem, desembainhando-a. Girou e atacou o primeiro a ter uma reação, atingindo com força a lâmina que sacava, desarmando-o. Depois seguiu para os dois agachados ao lado de Jorry; quebrou o copo na cabeça de um e chutou o outro para longe, afastando-os do híbrido. Umas duas crianças choraram ao ouvir o som de vidro quebrando-se e ver um pouco de sangue manchando o chão.
—Saim de perto! –Avisou Lina, apontando a espada para os quatro. –Se derem mais um passo eu não vou hesitar, já aviso!
—Oh, é mesmo? –O primeiro homem riu. –Faça as contas: somos quatro e você é uma. E ai?
—Eu só tomei meio copo de cerveja hoje. –Mentiu ela. –Não sei se vocês já foram pra uma guerra, mas uma das informações mais importantes que os generais dão é: não beba na noite anterior. –Um sorriso de escárnio surgiu em seu rosto. –Um guerreiro sóbrio vale por dez alcolizados. Acabei de fazer as contas. Acho que estou tranquila.
—Ah, mas você não agiria de forma violenta na frente das crianças, agiria? –O homem imediatamente mudou de assunto, tentando um ângulo diferente.
—Já agi. –Lina apontou para o homem cuja visão estava tempada pela cascada de sangue causada pelos cacos de vidro presos em seu rosto. –Posso agir de novo. As crianças vão me agradecer mais tarde. Vão crescer mais rapido.
O homem continuou a encarando, até eventualmente prestar atenção em seus subordinados. Eles mantinham o homem ferido em pé. O sangue agora manchava sua camisa. Os três olhavam para seu lider com preocupação, ansiosos por sua decisão do que fazer em seguida. Com um grunhido, o homem se virou e encaminhou-se para a saída. Os outros três o seguiram de imediato. O bar agora estava em completo silêncio, com a exceção do ocasional choro.
—Ei, você está bem? –Perguntou Lina, cutucando Jorry. Ela o envolveu com o braço e tentou puxá-lo para cima, sem sucesso. –Você é pesado. Ei, acorda!
—Hrrrrrrnnnn. –Murmurou Jorry, movendo suas extremidades. Pôs uma mão no chão e usou-a como impulso para se levantar. Seus olhos estavam fechados e seu corpo caía para todos os lados. Lina tentava servir de apoio, mas sabia que podia ser esmagada no processo.
—Vamos. –Disse ela, tentando guiar o híbrido. –Vamos achar um lugar para você ficar.
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