—Quantos andares tem nisso? -Questinou Aylon olhando diretamente para cima. A torre permanecia na sua visão até ultrapassar as nuvens.

—O que você quer que eu faça? Conte? -Devolveu Veizard rudemente.

—Por que não? Temos tempo. O cara só chega amanhã. -Aylon deu de ombros e continuou caminhando pela multidão.

A vila de Vatace estava animada naquela manhã, especialmente na área próxima à entrada da Torre Branca. O que em algum momento da história foi uma praça agora era um movimentado mercado. Tendas espalhadas de modo irregular estendiam-se mais altas que as centenas de cabeça passando de um lado para o outro, tentando não pisar na mercadoria espalhada pelo chão. Peixes e outras variedades de carnes, especiarias, cestas, roupas e outras coisas deixavam cada passo mais difícil, e também escondiam o mármore branco do chão que era igual ao da torre acima.

—E então, qual o plano agora? -Questinou Veizard, tentando não esbarrar em ninguém.

—Achar um ferreiro e improvisar um plano com antecedência.

—Improvisar com antecedência. Certo. Parece bem funcional. -Veizard manteve os olhos amarelados semicerrados. -Depois o que?

—Como eu disse, to bem adiantado, então não sei. Um quartinho numa taverna bem chique com uma cama de casal e uma garrafa de vinho só pra nós dois. O que acha? -Entregou uma piscadela para o outro.

—Que eu não sou Isis para fingir gostar de você.

—...cruel.

Saíram do oceano de pessoas e passaram em frente a dois guardas. Um deles acenou levemente com a cabeça para Aylon e o homem acenou de volta. Dera-lhe a informação valiosa que Manus Gilesbuoi e os outros Caçadores estavam a um dia de viagem. Aylon precisou lhe dar apenas algumas moedas de bronze, o que significa que o guarda ou não se importava com o que poderia acontecer com o convidado ou era péssimo em seu trabalho.

—O que pretende conseguir com o ferreiro? Armadilhas como de praxe?

—Obviamente. E também preciso de alguma coisa para espionar Gilesbuoi. Não posso chegar perto.

Veizard parou de andar e olhou para o horizonte. Aylon, confuso, voltou dois passos e seguiu o olhar do homem. Lá, atrás das pequenas construções domiciliares, no alto de um morro, havia mais uma torre. Esta era feita de metal, com várias vigas mantendo-a de pé e com um objeto circular em seu topo.

—Ah, aquela coisa. -Disse Aylon, estalando os dedos, tentando lembrar o nome. —Rádio.

—Comunicadores a longa distância funcionam aqui. Se você arranjar um e dar para ele, vai conseguir ouvir tudo que Gilesbuoi diz sem chegar perto. Ou chegando perto apenas uma vez, que seja.

—Estou surpreso de ter um desses aqui. São raros fora de...

—Quinito, eu sei. -Disse Veizard com severidade. -A mulher não lhe disse nada sobre isso?

—Não. Imagino que não saiba. Isso complica um pouco as coisas.

Veizard virou o rosto para o outro.

—Os Caçadores não estão vindo aqui por decisão exclusivamente própria; Duque Labus provavelmente os chamou aqui. Está tentando conseguir uma aliança que beneficie os dois.

Veizard virou-se para frente novamente.

—E agora, detetive?

—Agora nada. Não tenho como comprovar isso e não tenho como falar com Isis sobre isso. Vou me manter ao plano. Arranjar comunicadores e armadilhas. Onde arranjo comunicadores?

Veizard deu de ombros.

—Não é da minha época.

Aylon bufou e voltou para a multidão. Passou os vinte minutos seguintes perguntando a todos sobre onde poderia arranjar um comunicador. Alguns conheciam, uns seis dos quarenta para quem perguntara, e estes conheciam apenas como rádio, e Aylon passou a chamá-lo assim. A maioria, entretanto, não tinha a menor ideia do que aquilo era e de que torre era aquela. Por fim, uma senhora de meia idade apontou para uma rua longa e sinuosa com uma construção quadrada em seu final. Ela apontou que era uma forja nova, mas também lidava com a pouco conhecida tecnologia nova que chegara em Vatace quase um mês antes. O meio-lobo agradeceu e caminhou até seu destino.

A placa frontal parecia recém pintada. “FORJA E REPAROS DO REVIN”, dizia ela, com o nome Revin escrito por cima de um ilegível. A parte traseira do local estava aberta e era possível ouvir o som de um martelo repetidamente batendo em metal. Aylon considerou dar a volta e encontrar o tal Revin daquela maneira, mas achou mais educado bater.

—Você tem dinheiro para comprar tudo o que precisa? -Perguntou Veizard.

—Óbvio que não. -Respondeu o outro.

—E então...?

—Tudo que eu preciso fazer é usar meu incrível e irresistível charme! -E deu uma piscadela.

Veizard olhou para seu longo e desarrumado cabelo cinzento, descendo até seus olhos amarelos e rosto vagamente lupino, com um cavanhaque da mesma cor do cabelo. Em seguida, olhou seu quimono vermelho, aberto no centro e deixando à mostra seu peito nu e cheio de cicatrizes.

—É, deve dar certo. -Disse Veizard. -Boa sorte. Vou estar aqui fora.

Aylon deu duas batidas na porta e ouviu o som de aço no aço cessando. Alguns segundos depois (um pouco mais do que eles esperava), ouviu uma voz áspera e impaciente vinda do outro lado.

—Entre. -Ordenou.

Empurrou a porta, ouvindo cara rangido individual cujos intervalos aumentavam cada vez mais, e entrou em uma loja de armas. Espadas e escudos de séculos antes estavam pendurados nas paredes. No final do local iluminado por lamparinas posicionadas nas paredes estava um homem atrás do balcão. Era mais alto que Aylon, podendo chegar aos dois metros, e com músculos mais definidos também. Vestia um avental branco por cima de uma camisa salmão. Seus olhos verdes passavam uma perpétua impaciência.

—O que posso fazer pelo senhor? -Disse ele mexendo em seus cabelos loiros presos num rabo de cavalo.

—Bom dia! -Aylon abriu um grande sorriso. -Você vende comunicadores à longa distância aqui? Rádio, quero dizer.

O tal Revin pôs a mão embaixo de sua mesa e colocou dois pequenos objetos negros em cima do balcão. Os dois possuíam uma antena, um botão e diversos furos em seu centro. O meio-lobo tentou pegar um para analisá-lo, mas o vendedor sutilmente o afastou.

—Algo mais? -Questionou.

—Oh, sim. –Aylon tateou seus bolsos até retirar uma folha de papel amassada e a jogar em cima da madeira. Abriu-a e mostrou o desenho de um objeto de metal fino com fios de arame em volta. Apontou para estes em específico. –Eles ficam enrolados no metal e desenrolam quando alguém pisa nessa coisa. Servem para prender membros. Tem alguma coisa do tipo?

Revin pegou o papel e o levantou para perto. O lado mais infantil de Aylon ficou emburrado com aquela ação, mas deixou que o outro progredisse.

—Vou admitir que nunca vi isso antes. Tem algum nome?

Aylon deu de ombros.

—Pega Cegos?

—Para que você vai usar isso, exatamente? –Revin ergueu uma sobrancelha.

—Caçar.

—Certo. Vou ver o que posso fazer.

—Tambem queria armadilhas de urso. -Ele buscou outros papéis espalhados por suas roupas. -E alguns dess...

—Já são cento e setenta moedas de prata até agora.

Aylon congelou por um segundo. Torcia para que fosse cobrado depois que o homem terminasse de construir e lhe entregar tudo.

—Como é?

—Cento e setenta. Até agora.

—Você é careiro, senhor. Mas não se preocupe. Eu tenho dinheiro.

—Mostre.

—...bom, eu não vou só mostrar meu dinheiro assim sem mais nem menos, sabe?

—E eu não vou forjar e construir coisas assim sem mais nem menos...sabe?

Os dois homens se encararam em silêncio por múltiplos segundos, nenhum movendo um único músculo. Por fim, o meio-lobo soltou uma bufada.

—Tá bom, tá bom...

Pós as mãos no bolso de trás, fingindo buscar uma sacola de moedas, e então rapidamente ergueu os braços um pouco mais e puxou seu rifle.

Bem antes de terminar o movimento, o outro homem estava com uma pistola apontada contra seu rosto; o cano pressionado contra seu nariz. Aylon não viu de onde a arma viera, mas concluiu que o outro estava com ela pronta debaixo do balcão o tempo todo.

—Nossa, que homem precavido. -Disse com um sorriso amarelado.

—É. Um Troca-Peles entra em minha loja com um rifle nas costas. O que eu devia fazer?

—Como...como você sabe?

—Puro chute. Afinal, todo dia eu vejo pessoas com olhos amarelos e cabelos cinzas.

—Pode ser lente e eu posso ser velho. -Deu de ombros.

—Claro, claro. -Disse o ferreiro, não convencido. -Qual a Segunda Pele?

—...lobo. -Aylon admitiu. Revin ergueu uma sobrancelha.

—O que mais está escondendo aí? Que outra arma tem nos bolsos?

O ferreiro saiu de trás do do balcão e se aproximou, começando a revistar o outro. Aylon, que estava com as mãos erguidas, jogou o rifle no chão, sacou uma faca devagar e a jogou em cima do balcão. Revin achou apenas frascos tampados de diversas cores diferentes os pôs em cima da mesa. Em seguida olhou para a mão esquerda do homem.

—E o que é essa manopla aí?

—Ah, isso? -Aylon pôs sua mao em cima do balcão. -Eu tiraria, mas preciso de ajuda pra isso.

O loiro a analisou, passando a mão por cima, girando o pulso do outro e vendo se havia algum compartimento secreto ou algo com o que deveria se preocupar. Não achou nada.

—Muito bem feito. -Disse Revin.

—Obrigado.

—Não foi um elogio.

—Estou agradecendo em nome do ferreiro que fez isso.

—Tambem não foi um elogio a ele. É concorrência.

—Ele tá morto.

—É, mas a arte dele não. Concorrência.

O ferreiro puxou um martelo e bateu no manopla com força. Aylon soltou um grito áspero e se ajoelhou; uma expressão amarga tomando conta de seu rosto.

—Doeu?

—Um...pouco...?

—Quer dizer que não é bom o suficiente. Você usa isso pela falta de uma espada, imagino.

—Nunca...aprendi...a usar...

—Então devia proteger mais. -E guardou a ferramenta enquanto o meio-lobo se levantava.

—Olha...eu preciso das minhas armadilhas e do comunicador. Quer fazer um acordo? -Disse enquanto balançava a mão esquerda.

—Para caçar. Caçar o que? Espere, não me diga...o Caçador que vem aqui em breve.

—Oh, então você sabe disso.

Revin assentiu.

—Quantos você tem? -Questionou o ferreiro.

—Uma moeda de ouro.

—Falta setenta de prata. Mais, já que você quer mais coisas. Me explique quem é você. Dependendo, pode ser valioso.

Aylon o encarou.

—O que você tem a perder? -Questionou Revin.

—Muita coisa, na verdade. –Aylon batucou na mesa, pensativo, e aí chegou em uma conclusao. -Você é novo aqui.

—Na cidade? Sou.

—Os negócios vão bem?

Revin deu de ombros.

—Olha...meu nome é Aylon e eu sou...um amigo próximo da rainha. Amanhã vou voltar para a capital. Posso te levar comigo. Te apresentar a ela. Talvez você possa fazer algumas armas bem caras para a guarda real ou para o exército. O que acha?

—Topo.

Aylon piscou surpreso.

—Mesmo? Achei que ia ter que te convencer mais.

—Se o dinheiro está lá, o dinheiro está lá. –O ferreiro deu de ombros. –Vender em uma capital é sempre uma boa oportunidade, ainda mais em um palácio. -Ele guardou a arma. Ambos sabiam que não havia maneira de Aylon ameaça-lo ou chantagea-lo agora.

—Certo.

—Só vou pedir um adiantamento, é claro.

Aylon suspirou e jogou uma moeda de ouro na mesa.

—Ótimo. Bom fazer negócios com você, senhor Aylon. -Revin a guardou em seu bolso. -Agora, tem outra parte que quero adicionar a este acordo.

—O que?

Revin caminhou até a porta dos fundos e a abriu.

—Venha comigo até a forja. Vamos melhorar essa sua manopla.

—...S...sério?

—Pode me trazer clientes. -Revin deu de ombros.