Contos dos Três Planos
1 Aylon I
A lua espalhava sua luz cor de leite por toda a extensão de Tavian. A capital do reino de mesmo nome recusava-se a dormir naquela tão bela noite, por mais que poucos prestassem atenção em sua bondosa protagonista. Algumas crianças esticavam seus pescoços para fora das janelas de suas moradias e exclamavam para os pais o quão antinatural era a beleza da dama pálida no céu estrelado. Ébrios contavam uns para os outros como aquela beleza, especialmente no sexto mês do ano, era um presságio; por mais que ninguém conseguisse definir o que indicava.
Apenas um a observava em silêncio. Aylon deitava-se entre as telhas de uma das torres do palácio real, permitindo que a luz albina banhasse seu corpo. Seu braço direito servia como um travesseiro enquanto seus penetrantes olhos amarelos analisavam o céu. Fumaça saía do charuto em sua boca; uma fraca fonte de calor em meio ao frio do inverno. O dedo indicador do membro esquerdo batucava um ritmo qualquer; o som ecoando pelo impacto de sua manopla de aço na argila dura. Ao seu lado, um rifle também se deitava.
Seus olhos então desceram e seu corpo se levantou, sentando-se em uma posição relaxada enquanto observava a janela do bloco principal da construção. Suas lupinas feições severas suavizaram-se.
Uma longa mesa retangular esticava-se em um salão enfeitado por quadros presumidamente antigos, cujos autores foram há muito esquecidos. Dois homens e três mulheres sentavam-se nas laterais em enfeitadas cadeiras pintadas com tinta dourada, enquanto um homem se sentava na ponta, vestindo um colete azulado adornado com joias que formavam padrões abstratos. A atenção de Aylon, entretanto, era como um imã ligado à mulher sentada na outra ponta.
Trajava um elegante e longo vestido jade que ocultavam grande parte de sua pele escura, com a exceção do fino rosto severo e de suas mãos, que continham uma aliança dourada e um anel que carregava um grande ônix. Deixara seus cabelos crescerem até o começo de suas costas, mas parecia ter se esquecido de penteá-los. Seu corpo estava em uma posição ereta e seus olhos de mesmo tom que o vestido encarava o homem em frente com desprezo, enquanto selvagens palavras violentas saíam de sua boca. A rainha detestava o rei, e vice-versa. O homem no telhado não conseguiu impedir-se de involuntariamente sorrir. Não era a primeira vez que a vira na noite, afinal precisou certificar-se que estava em conselho antes de aguardá-la, e ainda assim seu corpo reagia como uma criancinha apaixonada. Seus olhos escanearam os arredores, certificando-se de que não havia ninguém por perto para zombar.
Após alguns minutos, todos os presentes se levantaram e encaminharam-se para a saída. A reunião tinha se encerrado. Aylon também se pôs de pé, pesadamente, e apagou o charuto na manopla de aço; o sibilar de fogo apagando-se ressoando pelos arredores. Em seguida, ajeitou seu casaco vermelho, pôs sua arma de caça nas costas e começou a correr. As garras da mão esquerda arrastavam-se pelas rochas uniformemente empilhadas da torre, até suas pernas dobrarem-se e se esticarem novamente, arremessando seu corpo para o ar até pousar em outro telhado em frente; o peso estraçalhando algumas das telhas. O homem abriu um sorriso no canto da boca e voltou a correr até chegar a um quarto em específico.
O vidro da sacada estava aberto como sempre. Achava aquilo um pouco perigoso, mas Isis lhe garantia que nunca haveria problemas; pois ele era o único louco que conhecia com coragem e habilidade o suficiente para correr entre os íngremes telhados do palácio. A rainha não conhecia muita gente, concluiu Aylon, mas sabia que dormia em um local diferente e mais seguro em tempos difíceis. Ele entrou no quarto, relutantemente pisando no circular tapete de veludo e afastando a cortina de voal com o braço. Encaminhou-se até a cabeceira e acendeu a lamparina, fechando os olhos após a ignição da forte luz que preencheu o ambiente. Em seguida, após deixar a arma apoiada na mobília, se sentou em uma cadeira, pôs os pés em cima da cama e aguardou. Após aproximadamente quinze segundos começou a balançar para frente e para trás no assento. Tinha total ciência que se caísse de costas, seu corpo rolaria sobre o ferro de segurança e desapareceria na escuridão, mas não se incomodou em se mover. A porta então finalmente se abriu, e dela, Isis, a rainha de Tavian, emergiu.
—Oi. -Disse ele.
A expressão cansada no rosto da mulher tornou-se um misto de surpresa e medo, com seus olhos arregalando-se. Claro, esta durou apenas meras frações de segundo, o suficiente para que reconhecesse o homem de longos cabelos cinza-escuros e cavanhaque de mesma cor. A segunda reação foi felicidade, porém, para a surpresa de Aylon, esta também durou pouco, pois seus olhos logo desceram para as botas enlameadas que sujavam o edredom de algodão, causando o desaparecimento daquele novo sorriso. Ele rapidamente ergueu seus pés, tentando corrigir seus erros com um sorriso amarelado, mas a mente da mulher focava-se em uma outra questão.
—Não vai passar a noite? -Questionou.
As mãos dele pousaram em suas coxas enquanto a rainha fechava a porta atrás de si.
—Não. Não hoje. -Respondeu por fim. Sacou um pequeno relógio redondo preso a seu cinto com uma corrente e percebeu que eram nove e meia. -Uma caravana sai da cidade em uma hora. Vim reportar o que vi e pedir novas ordens. Qualquer carona até a floresta é bem-vinda.
Isis Coriant assentiu, nem ao menos pensando em argumentar. Duas batidas suaves foram ouvidas à porta, seguida por uma voz jovem. A rainha passou o corpo pela fresta e pegou a bandeja de ferro que a aia carregava, dispensando-a de maneira educada. Carregou-a até a cabeceira, preocupando-se em não permitir que seu conteúdo, uma garrafa e uma taça de vinho, caíssem. Aylon ergueu uma sobrancelha.
—Só um?
—O que? Acha que sou vidente? E se eu pedir outro agora vão adivinhar que tem alguém aqui e eu não quero lidar com fofocas da corte.
—Compreensível. Mas devo avisar que não é sábio aceitar nada de ninguém. Vivemos em tempos onde a desconfiança é nossa maior arma. O que lhe garante que este vinho não foi envenenado? -Ele pegou a garrafa e encheu o recipiente de vidro. -Por sorte, você tem a mim. Deixe-me descobrir se há algum traidor entre seus empregados. -Ele deu uma longa golada, extinguindo o conteúdo. Olhou para cima por alguns segundos, estalando a boca e degustando. Com uma expressão de falsa insatisfação, preencheu a taça novamente. -Não consigo chegar a uma conclusão, mas não posso desistir. Acho sábio que você peça outra garrafa.
Ela tomou o objeto de suas mãos com uma risadinha e sentou-se na cama, pondo uma perna em cima da outra. Após tomar até se satisfazer, passou a taça para o homem, que fez o mesmo antes de devolvê-la. Tinham a mesma idade, apesar de ele aparentar bem mais velho; talvez vinte anos em um dia ruim. Coincidentemente era a idade com a qual se conheceram treze anos antes, refletia Aylon. Isso fez sua mente olhar para o passado com nostalgia, e com uma certa pontada de dor, até a pose dela chamar sua atenção; pondo os pés descalços no chão e endireitando a coluna. Uma posição formal digna de realeza. Era a hora de conversar sobre trabalho.
—Você disse que tem informação. Informe-me.
O homem se ajeitou na cadeira, se aconchegando e começou a gesticular-se com a manopla.
—Viajei até Lilhac como você pediu...
—Ordenei. -Corrigiu a mulher com um sorriso brincalhão, perdendo a postura por meio segundo.
—Pediu. -Corrigiu a correção no mesmo tom, causando risadas entre os dois. -Descobri que o duque realmente está reunindo soldados e equipamentos, mas não para atacar vocês ou começar uma rebelião, nada do tipo. Ele quer tomar um feudo próximo. É o... -Seus olhos permaneceram entreabertos e ele prendeu a vogal enquanto puxava um papel escondido em um dos bolsos e lia seu conteúdo. -Et...terjkâbb. Etterjkâbb. Já detesto profundamente aquele que criou este nome.
—O “J” é mudo.
—Obrigado. Não ajudou em nada. E levantou mais perguntas.
—E isso é bom saber. Tinha medo de ter que ir à guerra por causa de boatos. Mais um tempo de paz então. -Disse aliviada.
—De nada por ser seu espião.
—Mas não posso permitir esse conflito entre territórios vassalos. Ouviu mais alguma coisa?
—Disse que partiria em cinco dias e chegaria lá após três de viagem. Isso foi anteontem. Então ele...você tem um mapa.
Sem esperar uma resposta para a frase que não fora uma pergunta, ele se levantou com violência, fazendo a outra ter que esticar sua perna e impedir o assento de voar pela noite. O espião se locomoveu até a estante e retirou um grande pedaço de pergaminho, arremessando-o aberto na cama. Em seu canto superior direito estava escrito “Tavian”, e uma cidade de mesmo nome localizava-se no centro da folha; a capital do reino. Seus olhos viajaram por toda a extensão do território passando por símbolos e nomes ligados a estes, até irem de encontro ao desenho de um castelo com a palavra “Lilhac” escrita logo abaixo. Fincou seu dedo indicador neste e o seu dedo do meio no que representava Etterjkâbb, quase colado a este.
—Não é longe. -Comentou ele. -Meio dia a cavalo. Talvez até menos. Sem eles...um dia, talvez. Dois no máximo, mas não três. Eles vão demorar, mas por que?
—Ele vai levar um exército grande. -Concluiu a rainha. -Planeja tomar o feudo rapidamente. Fazê-los desistir ou aniquilar suas forças o mais rápido possível.
Aylon assentiu.
—Não ouvi nenhum número, mas chuto que levará quatrocentos ou quinhentos guerreiros. Iria tentar tomar o lugar sem você ou seu marido descobrirem, é claro. Depois, o duque inventaria alguma mentira numa carta. É o que eu faria.
—Ele não vai. Não vou lhe dar a chance.
Isis Coriant se levantou e o homem fez o mesmo, trocando de lugar com ela e quase deitando no colchão enquanto a outra ajeitava a cadeira para perto da mesa de madeira escura. Suas mãos vasculharam a primeira as das quatro gavetas até encontrar papel e pena. Ela lambeu a ponta de segunda, mergulhou-a em tinta, fez um risco na pele exposta do homem (que retrucou com um alto “ei!”) e pôs-se a escrever, utilizando palavras formais e cordiais.
Uma imagem veio à mente do espião real. Os olhos de sua face a observavam meticulosamente compor a carta, mas outros olhos, olhos mais selvagens, fitavam dois homens arremessando caixas para o interior de uma carroça coberta com panos brancos. Ele viu um idoso se aproximar e trocar algumas palavras antes de subir os degraus de madeira e tomar seu lugar como o primeiro passageiro. Suas mãos foram à bolsa de moeda e os dedos passaram a selecioná-las. Os olhos da face desceram para cumprimentar novamente o relógio. Nove e quarenta. Estavam adiantados, mas não esperariam. Nem ao menos o conheciam.
—Tenho que ir. -Declarou e tomou outra golada. -Mas preciso que me diga para onde ir.
A rainha virou-se na cadeira, parando de escrever no meio da palavra “governante”. Ela esticou o braço e Aylon lhe entregou a taça. Após pensar um pouco, Isis esticou seu braço e pousou a ponta do indicador em um ponto sul do mapa; no desenho que simbolizava uma cidade. Ele precisou estreitar seus olhos para ler, mentalmente culpando a metade da garrafa de vinho que agora amalgamara-se ao seu sangue.
—Torre Branca? -Leu em voz alta e observou atento o aceno da rainha.
—Conhece Manus Gilesbuoi?
—Não.
—Como já percebeu, ele tem um sobrenome, então é um nobre. Mas, não tem terras, nem muito dinheiro; apenas o título. Ainda assim, tem bastante influencia e é bem conhecido mais ao sul. Sabe o porquê?
Isis sabia a resposta, conteúdo não era uma pergunta retórica. O casal gostava de jogar pequenos mistérios durante as conversas para o outro completar o raciocínio. Julgavam um bom exercício mental. Geralmente adivinhavam sem dificuldades, mas Aylon se manteve em silêncio, pensativo, até a rainha dar outra dica.
—E com “mais ao sul”, quero dizer em Quinito.
—Ele é um Caçador. -Bufou.
—Precisamente. Vive na província de Eroeus.
Seu lábio se comprimiu. Não tinha nenhuma simpatia pela Sagrada Caçada e não sentia desejo de se envolver com ela. Começara a ter relevância como uma organização pequena seiscentos anos antes no coração do reino de Quinito, por mais boatos digam que a Caçada estivera lá desde o começo. Eventualmente cresceu o suficiente para encerrar a dinastia Misiec e o conceito de um reino em geral. Agora Quinito é chamado apenas de um estado e o seu líder é chamado de Caçador-Mor.
—Labus, de Torre Branca, enviou-me uma carta mais cedo avisando que Gilesbuoi está indo para lá. Não sabemos suas intenções, formalmente, mas, obviamente, tenho minhas suspeitas.
Aylon soltou um suspiro cansado. Sempre era assim que começava. Um Caçador comparecia a uma pequena cidade vassala de um reino maior e apresentava os objetivos de sua organização. Passava horas pregando sobre a ameaça e os perigos dos Troca-Peles. Praguejava os seres que pertenciam à duas raças simultaneamente, dizendo como tal habilidade quebra a mente dos mais fracos e corrompe as dos mais fortes. Gritava sobre a tragédia que a existência daquelas criaturas causará no futuro caso ninguém os impeça, e divinizava a Sagrada Caçada como a verdadeira e única espada afiada o suficiente para combater aquele mal. Preconizava até, por vontade do duque ou de seu povo, uma caserna ser criada. Isso era o começo do fim para o reino, assim como acontecera com Farshal. Ainda possui uma família real, porém serve a Quinito e o Caçador-Mor fielmente.
—O que você quer que eu faça? Mate-o? -Questionou.
—Observe-o. Estude-o. Descubra o que exatamente quer e como planeja fazer isso. Não posso tomar nenhuma atitude sem provas, então tente arranjar alguma. Labus é esperto, sabe que abaixar a cabeça para Quinito é uma ideia que reside na mente de tolos, mas o resto de sua corte talvez não seja.
—Perfeito. -Respondeu enquanto se levantava e limpava o excesso de sujeira no edredom. Se locomoveu até a janela.
—Espere, você está esquecendo uma coisa. -Isis pôs-se de pé.
—O que?
Aproximou seu corpo do homem e o envolveu com os braços, pegando-o desprevenido. Os lábios de ambos se tocaram pouco antes de Aylon perceber o que se passava. Com a mão direita, tocou o rosto de sua amada. A esquerda, envolvida em sua couraça de metal, planejava pousar em sua cintura antes do homem hesitar. A rainha puxou-a para seu corpo, dizendo que não machucava. Não importava quantas vezes lhe era dito, ele sempre temia.
—Oh, eu e minha esquecida cabeça! -Disse Aylon, após afastar o rosto, causando um ataque de risos vindo da mulher.
Ele aproximou-se da sacada, deu-lhe uma última despedida e saltou para o prédio em frente, usando a manopla para descer em segurança até as ruas abaixo.
O corpo que tocara no chão não era mais Aylon.
Um grande lobo cinzento correu por Tavian enquanto a imensa e próxima lua o observava.
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