Contos do desconhecido...
4 David
Notas iniciais
O meu corpo encontrava-se estendido no chão. As minhas mãos serviam de repouso para a minha cabeça e os meus olhos estavam fixos naquele céu misterioso, mas a minha curiosidade estava voltada para a pergunta que eu ainda não tinha parado de fazer a mim próprio: O que fazer agora?
Não sei quanto tempo já se passou desde que acabei a escola. Marta já tinha começado um curso para se tornar uma professora, enquanto eu continuava sem saber o que fazer…
Em todo o meu tempo de escola nunca tinha pensado no que iria fazer, afinal tinha tanta coisa para descobrir sobre o mundo que nunca me passara pela cabeça. Conclusão: a minha curiosidade tinha-me voltado a tramar.
Tentei reorganizar os meus pensamentos. Primeiro tinha que ver as opções que tinha. Eram poucas por isso podia ir por processo de eliminação. Podia virar professor e ensinar todos os meus conhecimentos e teorias aos novos habitantes… Não. Provavelmente não me iria sair bem. Nem Marta, que tinha sido uma das primeiras amizades que tinha feito, acreditava nas minhas teorias e destruía-las uma por uma. Seria vergonhoso ter as ideias destruídas pelos meus próprios alunos… Além disso por mais que gostasse de aprender mais sobre o mundo, não gostaria de ensinar, pois a minha curiosidade leva-me á procura de novas coisas, algo que estaria limitado com o ensino.
Desisti dessa ideia e parti para outra. Também podia entrar na seita religiosa. Sempre tive curiosidade para saber como aquilo funcionava. Tudo o que se sabia era que adoravam o Criador e que quem entrasse não podia mais sair. Dizia-se que tinham vários segredos sobre o mundo, e outros diziam que aquilo não passava de uma falsidade para enganar pessoas, que não havia Criador nenhum… Muitas eram as teorias sobre o que a seita era e o que fazia, mas não havia nenhuma certeza, pois quem entrasse na seita nunca mais saía… Até a sua localização era misteriosa. Ninguém sabia ao certo onde se instalavam. Todos os que se decidiam juntar desapareciam sem ninguém saber. Era um verdadeiro mistério…
Abanei a cabeça em sinal de negação, tentando tirar a curiosidade da cabeça, e refleti se aquele seria uma boa ocupação. Estar num sítio para toda a eternidade a adorar um ser (que não se sabia de certeza se existia) seria muito aborrecido. Desisti também desta ideia.
Ora, o que havia a seguir? Podia também entrar para o “Grupo Desenvolvimento da Língua”, ou (GDL). Eram estes os principais por a nossa comunicação ser tão boa. Criavam várias palavras novas e novas maneiras de as usar, desenvolvendo ao máximo a nossa comunicação. Mas este estava fora de questão para mim. Não tinha grandes motivos contra esta profissão. Apenas não gostava de me ver a ser um deles.
Havia também os filósofos. Estes eram um pouco mais estranhos, já que colocavam perguntas sem intenção de receber uma resposta, e procuravam o bem para o maior número de pessoas (embora este pensamento fosse debatido e atacado por eles mesmos), como muitas outras coisas.
Este também estava fora de questão. A minha curiosidade não se conseguia encaixar com a dos filósofos. Por mais que se afirmassem como curiosos em relação ao mundo, eu não os considerava como verdadeiros curiosos. Um verdadeiro curioso procurava respostas, não se limitando a colocar questões á toa. Por isso estava mais para os investigadores, que ao contrário dos filósofos procuravam respostas, não se limitando a criar perguntas. De todas as profissões acho que era a que mais se encaixava comigo. Mas por algum motivo não me apetecia aceitá-la como profissão. Talvez houvesse algo a mais para mim…
Mas não havia. A única profissão que me faltava averiguar era a “Companhia do Futuro”, que tentavam ao máximo encontrar novas maneiras para desenvolverem o mundo. Mas já tinha desistido desta profissão. Esta profissão, por mais que se esforçasse não conseguia desenvolver grande coisa, já que não havia grande coisa para desenvolver…
Suspirei, derrotado. Não havia nada que se encaixasse comigo. Tentei-me relembrar dos meus tempos de escola, na esperança de me lembrar de uma profissão que me tivesse esquecido. Após uns momentos uma luz veio-me á cabeça. A professora uma vez tinha-se referido ao facto de que quem não se encaixasse com nenhuma das profissões podia virar um Caminhante, ou seja, um viajante. Ainda havia muito mais do mundo do que se conhecia e eram os Caminhantes que o percorriam, voltando depois a dizer o que havia para além do que se conhecia. Poucos eram os que tinham voltado e esses nada tinham para contar, pois apenas diziam que se via sempre a mesma coisa… Mas mesmo assim queria tentar! Quero partir á descoberta! Como me pude esquecer de ser Caminhante! Era a ocupação perfeita para mim!
Levantei-me, decido, e com um sorriso estampado no rosto — Que desapareceu em milésimas de segundos. Algo que nunca tinha sentido antes estava agora a percorrer-me pelo corpo. Comecei a me sentir desconfortável. Era como se a minha cabeça andasse á roda, com algo a percorrer-me pelo corpo. Não sabia o que estava a acontecer. A minha cabeça começou a ficar leve. Não conseguia pensar. Os meus olhos piscavam. Cada vez mais sentia como se os meus pensamentos me estivessem a escapar, não consegui pensar no que me estava a acontecer… O meu corpo tombou para a frente caindo no chão. A minha visão começou a ficar turva. A última coisa que vi foi uma silhueta bem lá no fundo, não consegui distinguir quem era. Os meus olhos fecharam-se. Tudo que me envolveu foi a escuridão.
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