Contos do desconhecido...
10 David
Notas iniciais
Os meus olhos abriram-se e deparei-me mais uma vez com aquele céu branco, ao qual eu já estava habituado. Á quanto tempo já estaria ali? Sorri ao me lembrar da palavra tempo. Uma das minhas primeiras lições, dadas por Judas, foi a palavra tempo. Cada momento que passava era tempo, e dependendo do tempo que passava podia ser segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos e por aí adiante. Desde que soubera sobre a existência de tempo, tudo se tinha tornado mais simples. Se as escolas soubessem disso não precisavam de andar atrás dos alunos para que viessem para a aula… Se todos soubessem sobre o tempo tudo poderia ser mais simples…
Olhei para o relógio (servia para mostrar o tempo) que se encontrava no meu quarto (o lugar onde dormia). O ponteiro dos segundos movia-se rapidamente, e quando dava uma volta completa o dos minutos movia-se um pouco. O das horas ia-se mexendo muito devagar, e apenas quando o dos minutos dava uma volta completa (algo que demorava muito tempo) é que se passava uma hora. Quando o das horas tivesse completado duas voltas completas então tinha-se passado um dia. O tempo apresentado agora era oito horas e trinta e cinco minutos. De facto o relógio era um objeto fantástico!
Saltei da minha cama (o lugar onde dormia) e observei, mais uma vez, o espaço que me rodeava. Cada dia que passava ia-me fascinando cada vez mais. Quando pensava que já tinha visto tudo, Judas vinha com uma coisa que eu desconhecia e que me acabava por fascinar. Aquele lugar era perfeito para mim, até me tinha esquecido completamente de ser Caminhante! Porque iria eu partir para a descoberta quando tinha tudo o que queria ali? Aquilo era o paraíso para todos os que desejavam saber mais! Sorri, tentando imaginar a Marta naquele local. Provavelmente estaria sempre a disparatar, tentando arranjar sentido para o que havia naquela casa. Mas já há muito que eu tinha deixado de encontrar alguma razão para tudo aquilo. Mentalizei-me apenas ao facto de aquilo ser assim por ser, sem nenhuma razão por detrás de tudo.
Cliquei no interruptor e a luz iluminou o quarto. Às vezes gostava de observar aquela luz que tão rapidamente se mostrava por todo o local, e cuja cor me maravilhava tanto!
O meu olhar fixou-se no espelho á minha frente que mostrava o meu reflexo. Cada vez que me via naquele espelho não conseguia reprimir uma risada, devido a ter pensado que era outra pessoa. Abri um largo sorriso, relembrando os meus primeiros momentos naquela casa. Apenas a descoberta de algo que antes era desconhecido podia mudar as pessoas completamente! E que grande descoberta que fiz!
Saí do quarto e comecei a caminhar até á sala-de-estar, o lugar onde passava mais tempo com Judas. Comecei a percorrer o caminho ao qual eu já estava habituado. Primeiro tinha de seguir pelo corredor, depois entrava pela porta á direita, dando lugar a uma sala onde tudo estava desarrumado devido a ser o local de trabalho de Judas. Havia vários papéis espalhados pela mesa e pelo chão, e estes estavam escritos. Antes não conseguia entender nada do que estava ali, e vendo-me naquele estado, Judas decidiu começar a ensinar-me a escrever e a ler – que segundo ele era uma outra forma de comunicar, só que em vez de falarmos diretamente as palavras para as pessoas, escrevíamos essas mesmas palavras, e outra pessoa podia então lê-las. A princípio pensei que fosse inútil, mas á medida que ia aprendendo comecei a adorar a escrever, conseguindo-me expressar melhor a escrever do que a falar! Embora ainda soubesse apenas o mais simples (e ainda tinha de melhorar a minha caligrafia, pois muitas vezes o que escrevia tornava-se ilegível até para mim e também a minha leitura, pois muitas vezes levava muito tempo para entender algumas palavras) começava a gostar cada vez mais de escrever e de ler, e a paciência de Judas também ajudava, pois não importava quantas vezes falhasse ele apenas dava um sorriso e dizia para tentar outra vez. Algo que eu fazia logo de seguida.
Saí da sala desarrumada e meti-me pela porta á direita, encarando com mais um corredor e muitas outras portas. Ignorei-as a todas e continuei a seguir em frente, dando com uma porta ao fim do corredor, que eu automaticamente abri, e chegando assim ao meu destino.
Judas já estava sentado numa cadeira enquanto se debruçava sobre a mesa, pensativo. Ao me ver chegar, interrompeu os seus pensamentos e virou-se para mim, com um sorriso no rosto:
—Então dormiste bem?
Já estava habituado àquela pergunta que ele me fazia todos os dias, logo depois de eu acordar, por isso também eu já tinha uma resposta na ponta da língua:
—Dormi bem, assim como durmo todas as noites!
Ele sorriu e fez-me sinal para me sentar numa cadeira á frente dele. Assim fiz e reparei num estranho objeto que se encontrava em cima da mesa. Tinha uma forma retangular e havia algumas letras grandes no cimo. Inclinei-me e tentei ler o que dizia. Primeiro um C, depois O, um N, T, O, e S. Contos? Sim era o que dizia a primeira linha. E por baixo de “Contos” estavam escritas duas palavras: a primeira tinha duas letras, um D e um O. Se juntasse á primeira linha então tinha: “Contos do…”. Contos do quê? Tinha que desvendar a última palavra para descobrir. Começava também por um D, depois um E, a seguir um S, um C, um O, depois um N, um H, um E, também um C, um I, depois o D, um O, e para finalizar um S. Então o que aquilo dizia era “Contos do desconhecido”! Era um nome misterioso e que fazia a minha curiosidade a palpitar…
Levantei os olhos para Judas que me fintava com um sorriso matreiro. A minha curiosidade não conseguiu aguentar e tive de lhe perguntar:
—Contos do desconhecido… — Disse, mais para mim do que para ele, como se tivesse a tentar descobrir o significado daquelas palavras misteriosas – O que é isto?
Ele encostou-se para trás na cadeira. Através da reação dele eu sabia que ele esperava aquela pergunta, mas demorou um pouco a responder, provavelmente a refletir sobre por que palavras devia começar a responder. Mas deve ter acabado por desistir de longas explicações e decidiu atalhar dizendo apenas o nome do objeto, algo que me deixou ainda com mais dúvidas:
—Isso é um livro. – Disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Eu fiquei a olhar para Judas á espera de uma explicação um pouco mais detalhada, mas ele limitou-se a encolher os ombros como se aquilo não fosse com ele. Fitei o estranho objeto mais uma vez. Então chamava-se livro…
Levantei mais uma vez os olhos para Judas. Como ele não dava sinais para prolongar a sua resposta, tive de ser eu a perguntar mais uma vez:
—E o que ele faz?
Ele apontou para o livro e, com naturalidade, limitou-se a dizer:
—Abre-o e descobre.
Abre-o? Como assim? Desviei o meu olhar para o livro, á procura de uma resposta, a curiosidade cada vez mais a palpitar. Um impulso tomou conta de mim e acabei por o agarrar entre as mãos, começando a tentar descobrir que segredos guardava. Tinha uma estranha textura e reparei que no lado da frente tinha uma cor preta (com a exceção das letras que estavam douradas) e do outro lado estava todo vermelho, criando um contraste de cores interessante… Mas a frase de Judas ainda me intrigava. Abre-o? Revirei o livro várias vezes, na esperança que me desse alguma pista, algo que acabou por acontecer, quando acidentalmente acabei por o abrir, quando meti o meu dedo no meio do livro, revelando assim o que o livro escondia — Papéis e mais papéis todos escritos! Fitei Judas na esperança que me desse uma explicação. Ele abriu um dos seus largos sorrisos e finalmente me deu uma resposta satisfatória:
—Como podes ver um livro é um monte de papéis, ou melhor, páginas, todas escritas. Mas têm uma particularidade. Cada livro conta uma história, e não há limites para o tipo de história que se possa contar. Tudo depende da imaginação do escritor, a pessoa que escreveu esse livro, e do leitor, a pessoa que lê o livro e que imagina toda a história na sua cabeça. Pode-se dizer que um livro é uma fusão de mentes – a do escritor e a do leitor. Um livro pode levar-te para um mundo diferente, e quanto mais descrito for esse mundo, maior é o impacto na pessoa que se tenta imaginar nesse mundo!
O meu olhar alternava entre o livro e Judas. Então o livro era algo tão fantástico assim?! A minha curiosidade estava a atingir um pico. Mal me conseguia conter! Eu também queria entrar nesse mundo diferente! A minha mente parou por um momento, enquanto tentava imaginar que tipo de mundo aquele livro podia-me trazer… Subitamente, a minha mente voltou ao lugar e, um pouco embaraçado pela minha pergunta, fitei Judas:
—E posso ler este livro?
Ele deu uma sonora risada e respondeu-me, ainda a tentar controlar o riso:
—Claro! Afinal, esse era o meu objetivo! Também é um modo para melhorares a tua leitura!
Estava tão maravilhado que nem conseguia esconder a minha excitação! Queria começar a ler aquele livro agora mesmo! Mas um gesto de Judas fez com que a minha atenção se virasse para ele, reparando que ele estava mais sério que o habitual. Quando viu que tinha a minha atenção, começou então a falar:
—Não sei se terás este pensamento quando acabares de ler o livro, mas mesmo assim eu quero-te dizer na mesma. – Fez uma pausa, como se tivesse a ganhar coragem e retornou ao diálogo – Muita gente, após ler vários livros, começam a imaginar que a nossa vida não passa de um livro. Que está tudo predestinado por algum escritor, que ele escreve a nossa história, e tudo o que nos acontece é por que ele assim quis. Ou seja, nós não temos liberdade nenhuma na nossa vida, pois a nossa vida apenas continua até que esse escritor queira, pois quando se cansar de escrever a nossa história, a nossa vida acaba…
Fiquei pasmado com as palavras de Judas. Tudo o que nós fazemos já está destinado!? Mas então, qual era o objetivo da nossa vida?! Apenas servimos para que algum leitor leia então a nossa história?! Mas, isso é um absurdo! Mas por outro lado…. Ah! A minha cabeça estava uma confusão! Olhei para Judas e reparei que ele planejava continuar a falar. Tentei tirar estes pensamentos da minha cabeça e prestar atenção ao que ele iria dizer:
—Mas eu não gosto de pensar assim! Claro que existe a possibilidade de que algum escritor esteja, neste momento, a escrever a nossa história, mas, mesmo assim, eu não acho que esteja tudo predestinado por esse escritor! Pois, às vezes, até o melhor escritor desconhece o destino de algumas das suas personagens…
Olhei Judas como se ele fosse algum salvador. Sim, era verdade! Para quê preocupar-me se alguém estava a escrever a minha história? Iria continuar a viver a minha vida como se eu fosse o dono dela! Encostei-me na cadeira e olhei para cima, para aquele teto de cor branca. Como seria a minha história daqui em diante?
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