Contos do Vento

1 Treze de Maio


Notas iniciais
Sumário:
1. Treze de Maio
2. Efeito borboleta.
3. Dança para um.
4. A música do coração.
5. Avenida das almas.
6. A fadigada morte.
7. O mar de lágrimas.
8. O inverno esquecido.
9. Lembranças em vidro.
10. Aquele café da meia-noite.

É dia 13 de maio, a friagem de outono entra pelas frestas de minha casa e eu a mandei embora.

Ah, sim, mandei a garota de olhos manchados por lagrimas embora da minha casa. Embora de meu peito. Mas não completamente, pois ainda sinto que ela está ali, em um lugarzinho bem pequeno. A mandei embora, mas ela ainda está deitada em minha cama, os olhos vermelhos e inchados, pela meia hora que chorou em meus lençóis.

Não queria ter que mandá-la embora, mas o fiz assim. Era melhor para mim, melhor ainda para ela, que mesmo assim, está aqui, vestindo minha camisa velha e xadrez.

E eu estou na cozinha, bebericando meu café, me perguntando quando ela vai realmente embora, e se depois que ela for, se vai deixar alguma de minhas meias. Acredito só depois que isso acontecer, saberei dessas coisas.

É um dia frio e ela tem que ir embora, porque foi o que eu a mandei fazer. Expulsei-a de minha casa e de minha mente, pois não a quero mais aqui. É um dia frio e meu aquecedor humano vai embora. Talvez sem ela para puxar o cobertor de meu corpo, eu consiga me esquentar melhor. Talvez não. Só saberei depois que for embora, mas ela permanece aqui.

É dia 13 de maio, meu coração está frio como o vento lá fora e ela me ignora.

Claro que ignora, o que mais ela devia fazer? Conversar comigo depois de manda-la embora? Bem, acho que não. E eu mesmo me ignoraria se pudesse.

Ela saiu da cama e lavou o rosto. A ouvi praguejar quando a água escorria fria da torneira para suas mãos, que iam direto para o rosto. Não era tão frio, mas ela praguejava, não só a água, o outono ou o frio, mas também meu nome. O nome do homem que a mandara embora.

E agora eu estava na sala, a TV em minha frente desligada, minha atenção na mulher que se preparava para ir embora. E por que eu a mandara embora? Nem sei ao certo, só não a queria mais ali, cravando sua bandeirola em meu peito. Sempre fui livre, não seria ela que me prenderia, então, mandei-a embora.

Mas ela adiava sua partida. Colocava roupa por roupa em sua mala, meia por meia — as minhas iam junto, eu tinha certeza. Percebia ela me olhando várias vezes, com seus olhos não mais manchados por lágrimas, me esperando mudar de ideia, mas isso não aconteceria. Eu nunca voltava a trás, por mais que ela estivesse bem escondida em meu peito, esperando o momento certo para sair dali e me trazer dor, porque isso iria acontecer se ela realmente se fosse. Mas estava disposto a sentir isso.

Tudo para ser livre.

Por mais que eu a tivesse mandado embora, ela ainda estava ali quando dormi, cochilei em meu sofá manchado. Manchado não só de café, mas também por momentos. Momentos meu e da garota que não queria ir embora.

É 13 de maio, uma forte chuva se encontra com a janela e ela foi embora.

Ela finalmente foi embora, e levou com ela minhas meias e a cafeteira, deixou pra trás seu violão e um pouquinho de paixão. Acreditei que me sentiria bem, por acordar e não a encontrar, mas tudo que senti, foi vontade de chorar.

Encontrei um pequeno bilhete, escrito de forma rabiscada, e eu fui eu quem possuí os olhos manchados por lagrimas. Ela me dizia que me amava, e que por tal pedido não esperava, mas que não queria que eu voltasse a procura-la. Me arrependi de manda-la embora, mas tinha certeza que conseguiria superar.

Ela foi embora, como eu mandei ou pedi, nem sei. E agora estou livre novamente, em uma cama vazia e sem meias, pois ela as levou, como o esperado. Ela foi embora e levou o seu calor, levou minha fonte de cafeína e não posso nem ficar acordado pensando no que eu fiz, a mandando embora. Porque eu a mandei embora? Que diabos vou fazer com a minha liberdade?

Ela não está mais aqui, não está na cama enroscada em mim, não está na cozinha tomando café, nem tomando banho, nem na sala. Ela não está aqui, mas mesmo assim, está. Está dentro de mim, em um cantinho escuro, como uma pedrinha em um sapato, que incomoda sem deixar se ver. E machuca. Não faz nem uma hora e já doí.

E pra que me serve essa liberdade? O que eu faço com isso agora? Acho que posso voltar a saber o que fazer com minha liberdade com o tempo. Vou voltar ao normal com o tempo, esquece-la com o tempo...

Mas agora, ainda a sinto aqui, dentro de mim, e acho que vou senti-la durante esses dias que vão seguir esse treze de maio qua a mandei embora, mesmo treze de maio que me arrependi, mas que botei em minha cabeça já ser tarde para tê-la.

Minha chama se apagou nesse treze de maio.

Notas finais
Até o próximo conto
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.