Contos do Treinador
3 As Asas Metálicas
O Skarmory emitiu um gralhar estridente e metálico que fez o Fearow recuar diante da nova ameaça. Era possível enxergar o sol do início de tarde refletindo sobre as penas do pokémon, que davam a impressão de ser duras como o aço. Bateu o bico por algumas vezes, analisando o alvo enquanto aguardava ordens de seu treinador, as grandes asas abertas para lhe dar mais imponência diante do adversário.
Tinha de admitir que o Fearow, pelo menos a primeira vista, parecia um inimigo admirável. O longo pescoço se esticou, buscando ganhar mais altura que o outro pássaro a sua frente, como se estivessem disputando seu tamanho. As asas bateram com uma força perceptível, o vento gerado balançava as folhas das árvores ao redor, e logo ele estava planando novamente. O homem misterioso que salvara Nikolas se moveu, apontando o dedo na direção do Fearow em uma ordem silenciosa que pareceu ser compreendida por seu pokémon.
Agindo em uma velocidade impressionante o Skarmory bateu as grandes asas metálicas, fazendo com que uma grande lâmina de vento corresse contra o Fearow, que desviaria com facilidade. Assim que se deslocou no ar para sair da trajetória do golpe de seu inimigo, Nikolas viu o pokémon metálico sair do chão como um raio, deixando apenas uma mancha azulada para seus olhos acompanharem. Em uma armadilha quase óbvia de tão simples, mas ainda assim estupidamente funcional, o Skarmory havia aguardado aquele momento certo para atacar com as garras das patas, que foram rodeadas por uma aura negra antes de atingir o Fearow com força na altura de seu peito.
Os olhos do rapaz brilharam ao assistir a combinação perfeita entre o Air Slash e o Night Slash. Por mais que a distração do golpe a distância fosse óbvio, a velocidade do Skarmory tirava qualquer oportunidade de reação de seu oponente, e isso sem que seu treinador dissesse uma única palavra.
O Fearow se recuperou antes de tombar ao chão, forçando suas asas a levantar o corpo novamente para retribuir a investida do inimigo. Seu corpo pareceu relaxar e, como se ficasse mais leve, avançou em uma velocidade impressionante no que parecia um Agility, Mirou o bico, que emitia um brilho tênue ao encenar um simples Fury Attack, mas foi interceptado violentamente pelas asas metálicas do Skarmory, estas parecendo mais metálicas que nunca, brilhando em uma reflexão perfeita de tudo que o cercava, uma clara demonstração do Steel Wing que fez o oponente cair ferido.
Não precisava ser um especialista para entender que o Skarmory era muito superior ao Fearow em todos os quesitos possíveis. Em mais um ou dois golpes, enquanto evitava os ataques do pássaro, a essa altura já em desespero, a batalha estava encerrada e claramente vencida. O pokémon metálico parou a frente de seu treinador, aguardando futuras ordens enquanto o homem se voltava para Nikolas com um belo sorriso no rosto.
— Parece que apreciamos uma bela demonstração aqui — Esticou a mão, sorrindo abertamente — Sou Rod, espero que não se importe que tenha tomado parte em sua batalha.
O homem era claramente mais velho que Nikolas, mas não tanto, devia ter por volta de seus vinte e cinco anos, mas os olhos emitiam um brilho incomum, uma confiança que só era possível conseguir com anos e anos de prática. Como treinador pokémon, devia ser extremamente experiente, o que ficava óbvio ao ver aquele Skarmory. O rapaz se levantou, apertando a mão de seu salvador em um cumprimento.
— Na verdade eu que agradeço por ter me salvado. Sou Nikolas, acabo de sair em minha jornada de treinador e, sinceramente, achei que ela acabaria hoje mesmo.
— Não seja pessimista, rapaz, sei que depois de uma derrota ou outra você voltaria e derrotaria nosso amigo ali — Completou Rod, entre uma risada simpática — Aliás, ele parece totalmente fora de combate, fique a vontade para o capturar.
Nikolas protestou instintivamente, não havia derrotado o Fearow, não seria justo o capturar apenas, aliás, estava esforçando-se para pegar um simples Spearow que agora já estava muito fora de seu alcance. Após algumas insistências de Rod, alegando abertamente que não havia problema algum, e que Fearows ele já tinha em montes, acabou aceitando a oferta e tomando o pokémon como seu, com um aviso do seu salvador de que devia se tornar um pouco mais experiente antes de tentar treinar aquele Fearow, ele já era forte no mundo selvagem, precisaria ser tão ou mais forte que ele antes de conseguir se impor como seu treinador.
Aceitou o conselho, assim como o convite que veio logo em seguida para o almoço. Rod se mostrou um homem extremamente simpático e prestativo, além é claro, de um excelente treinador e cozinheiro. Montaram juntos um acampamento rápido em uma clareira próxima, Nikolas recebendo dicas e atalhos sobre como fazer as coisas de forma mais prática, nem sempre a teoria do curso seria o suficiente para o livrar dos perigos. O homem ainda acabara curando Argos com uma poção que carregava, ficando maravilhado com os pelos de cor diferenciada do Growlithe. Não demorou muito e já estavam almoçando e conversando divertidamente.
— Está indo a caminho de Saffron, imagino eu?
— Sim, sou de Celadon, e agora que me formei decidi partir em jornada, e que começaria pela cidade vizinha. Não conseguiria me sentir um treinador se ficasse em Celadon até ser capaz de desafiar o Ginásio de lá, tinha que começar imediatamente.
— Entendo, e sei como se sente. Faz dois dias que enfrentei o Ginásio de Saffron e seus Pokémons de tipo psíquico, se fosse você tomaria cuidado e treinaria um pouco mais, eles são complicados de se lidar.
— Vou ficar atento. Então Rod, de onde veio esse Skarmory? Ouvi dizer que são muito raros em Kanto — Nikolas comia algum ensopado que o outro havia preparado apressadamente.
— Imaginei que fosse perguntar algo assim. Sou de Johto, assim como o Skarmory, já tenho as oito insígnias credenciadas de lá, então vim para Kanto atrás de desafios. Celadon vai ser minha terceira insígnia dessa região, já consegui de Vermilion e Saffron, em seguida vou para Fuschia, e assim sigo até completar as oito para poder disputar a Liga — Rod respondeu com um sorriso estampado no rosto, a expressão era de claro divertimento ao observer a admiração que o rapaz demonstrava.
— Isso é incrível! Eu estou apenas começando, mas espero um dia poder ir até Johto desafiar os ginásios, após ter conseguido as insígnias dessa região. Mas já que conseguiu de lá, chegou a ir à Liga?
— Sim, na verdade por duas vezes, mas não ganhei em nenhuma das duas, por isso vim me desafiar em novos ambientes, além, é claro, capturar novos pokémons, como esse Fearow que você arrumou hoje.
Ficaram por ali conversando pelo que pareceram horas, até desmontarem o acampamento improvisado para partirem. Rod havia insistido em levar Nikolas até Saffron, uma vez que poderia partir voando com o Skarmory pela rota principal e chegar em Celadon antes do sol se por. Conversavam sobre coisas simples, e sobre a vida como treinador, Rod vez ou outra discursava sobre as aventuras nas terras de sua região, enquanto Nikolas ouvia admirado, esperando um dia poder ir descobrir quais pokémons Johto escondia. Não demorou mais de uma hora até que estivessem no centro pokémon de Saffron.
A cidade era quase tão grande quanto Celadon, mas ao contrário da outra, não possuía uma área residencial separada da comercial. Ali tudo se misturava entre prédios e casas que resistiam a invasão dos novos tempos e tecnologias. O tão conhecido bondinho passeava pelos trilhos da rua, assim como a bicicleta e os trens, havia se tornado o meio de transporte padrão de toda Kanto. Nikolas aproveitou para ir ao centro pokémon, onde poderia curar todos os pokémons que carregava consigo, mas parou a porta para se despedir do seu primeiro amigo treinador.
— Espero o encontrar novamente por aí, Rod de Johto, e um dia batalharemos um contra o outro.
— Com certeza, se tudo der certo, nos encontraremos na Liga, meu Skarmory contra seu Argos, vamos ver no que dá.
O homem apertou a mão de Nikolas, montando nas costas metálicas do Skarmory, que bateu o bico como se tentasse dizer adeus ao rapaz. Trocaram palavras de despedida e o pokémon bateu as asas, planando antes de levantar voo de fato. Estava prestes a entrar no centro quando ouviu a voz de Rod acima de si.
— Já ia me esquecendo, Nik! — Riu de forma divertida, arremessando uma pokébola na direção do garoto, que a apanhou de susto enquanto assistia Rod se afastar — Vou indo antes que resolva recusar esse presente também!
Não pode sequer agradecer antes que o Skarmory tomasse os céus em uma velocidade impressionante. Pegou-se rindo, parado sozinho na calçada com uma pokébola a mão. Abriu após alguns minutos sem saber como reagir para ver um Pidgey sair de dentro. Era pequeno, o que indicava que deveria ser um filhote, assim como Argos. O pássaro bicou o tênis de Nikolas distraidamente, reconhecendo seu novo treinador. Balançou a cabeça, voltando a rir, aquela seria uma boa aquisição para seu novo conjunto de pokémons.
Ao entrar no centro pokémon e ter certeza de que todos os que carregava estavam devidamente curados, dirigiu-se a ala do segundo andar, onde haviam os computadores. Conectou a PokéGear que carregava consigo no pórtico ao lado do computador para sincronizar os contatos e poder falar com o pai. Não demorou nem dez segundos antes do homem atender, sendo possível ver seu rosto nitidamente na tela.
— Veja só quem completou sua primeira travessia de rota! Demorou rapaz, sua mãe estava preocupada com você, gritando pela casa, consegui a convencer de ir fazer compras e me livrei por alguns minutos disso tudo.
Nikolas riu ao ver o pai e começou a contar sobre a viagem. Falou das batalhas que travou com pokémons selvagens e sobre estar carregando agora seis pokémons consigo, contando Argos. Contou o caso de Rod e seu Skarmory, e o quanto fora incrível na batalha contra o Fearow, até ser interrompido pela mãe, que acabava de chegar do mercado e parou para tomar algum tempo do garoto. Garantiu para ela que estava tudo correndo bem e após algum tempo, voltava a ver seu pai atrás do computador.
— Nikolas, completei essa tarde a configuração da Farm que havia lhe informado que faria, agora você pode transferir os pokémons que não pretende carregar para mim, e eu os deixarei na Farm para serem cuidados da forma devida, e você poderá os pegar de volta a hora que bem entender. Insira o código na PokéGear e ela irá sincronizar automaticamente.
O garoto seguiu as instruções enquanto configurava seu dispositivo. Em cerca de dois minutos, tudo estava pronto. Testou, colocando a pokébola do Fearow sobre a tela azulada do equipamento, que não demorou muito para reagir. A pokébola foi envolvida por anéis azulados e logo um holograma apareceu acima da esfera, assim como acontecia com o mapa e a pokédex. Ali era possível ver um modelo 3D holográfico do Fearow imóvel, assim como os golpes que conhecia e sua experiência.
Transferiu o pokémon para a sua Farm, onde seu pai cuidaria deles enquanto estivessem por lá, seguindo o mesmo procedimento com o Vulpix, Rattata e Meowth, interrompendo-se na última pokébola que carregava, aquela que recebera de Rod. Ao colocá-la sobre a PokéGear constatou sobre o Pidgey. Assim como havia pensado, tinha nascido a pouco tempo, e tinha a mesma experiência de Argos quando o recebeu, porém, um fato lhe chamava atenção, diferente de Pidgeys comuns, esse parecia ser capaz de usar Steel Wing. Assustou-se, questionando o pai.
— Ora, que criaturinha peculiar. Foi dada pelo homem, eu imagino. Entenda, Nikolas, alguns pokémons procriam entre si para aumento de sua espécie, como é comum, porém, caso um pokémon tenha uma cria com um pokémon de espécies diferentes, em alguns casos específicos, aparecem seres como esse. Provavelmente esse Pidgey, que nasceu fêmea como a mãe, é um descendente daquele Skarmory que você presenciou batalhar.
— Entendo, então deixarei que ele fique comigo, poderá se mostrar mais útil do que parece… Obrigado pai, a chamarei de Cherry, vai acompanhar Argos em minhas jornadas. Queria tirar uma dúvida, sobre a forma de montar pokémons para viagem, como Rod fazia com o Skarmory.
— Ah sim, alguns pokémons, e você irá perceber com os dois que carrega, irão crescer e se tornarão fortes o suficiente para que carreguem você. Claro que viagens longas demais irão exigir muito deles, então tem que ter cuidado, mas o próprio Argos, ao se tornar um Arcanine, deverá ser capaz desse feito, assim como Cherry, quando for um belo Pidgeot.
Os dois continuaram conversando por alguns minutos, até o que pareceu ser o fim da tarde, anunciado pelo sol que se punha por trás das colinas e banhava o centro pokémon pela luz alaranjada que entrava pela janela lateral. Despediu-se dos pais, procurando novamente a enfermeira local. Por padrão, como havia aprendido no curso, centros pokémon funcionavam como hospedagem gratuita para todo e qualquer treinador que estivesse viajando e quisesse repousar no local. Não era cobrado absolutamente nada deles, uma vez que o governo alocava verbas específicas para essas acomodações, e assim podiam ficar sossegados quando estivessem em cidades.
Aquela noite jantaria e descansaria de sua primeira viagem. Estava apenas começando sua jornada, e agora, a sua frente, via o desafio de um primeiro ginásio surgir como um obstáculo respeitoso. A batalha seria árdua, mas tinha confiança em si mesmo e em seu pokémon de que triunfaria. Aproveitou o tempo livre para passear e conhecer o local antes de se retirar para dormir, o dia seguinte seria agitado.
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