Contos do Escritor Anônimo
12 Acampamento de férias/ 12#
Notas iniciais
Pois sim, infelizmente meu novo colega de 15 anos que se chama Jimmy teve que ir para casa pois precisava comer. Olhei para os lados. Já tinha caído a tarde e um pôr do sol lindo já reluzia no céu. Dei um sorriso suave e em passos calmos continuei procurando algo interessante para fazer antes de voltar para o apartamento.
Cheguei à um lugar cheio de prédios residenciais e praticamente todas as janelas estavam fechadas. Todos em suas casas, com seus aparelhos eletrônicos, alheios à o resto da vida. Suspirei e andei um pouco mais, chegando à literais casas em uma rua afastada.
Na porta de uma casa, um carro enorme — Uma ferrari prata, devo dizer — tinha sua mala aberta, e um garoto baixinho desesperadamente colocava malas lá dentro. Debaixo do moletom preto, usava uma camisa azul-vivo extremamente chamativa com as palavras “Acampamento de férias”. Parecia com um folheto que recebi meses atrás.
Um garoto ruivo parecia extremamente irritado, poucos metros do outro. Na ponta dos pés, o garoto de cabelos castanhos beijou seu rosto e entrou rapidamente no carro, que passou cantando pneus ao meu lado. Não demorou para que o garoto bufasse e saísse chutando pedrinhas no meio do caminho.
Não evitei rir e continuei andando.
Sabe, acampamentos de férias são uma criação estranha. As crianças ficam dez ou nove meses na escola, e quando chegam às férias, adultos inventam um lugar cheio de casas de madeira no meio do mato para enfurnar as tais crianças, dizendo que vai ser bom para sobrevivência e bastante educacional para as pequenas mentes.
E...as crianças gostam. Pelo menos as da minha época gostavam. Quando recebemos à notícia de um acampamento, minha sala vibrou de alegria. Todos imploraram aos pais, e eles obviamente deixavam, para se livrar logo dos gritos e bagunça dentro de casa.
Quando estava na quinta série, meu colégio organizou um acampamento. Não estava tão animado no começo, mas Mary conseguiu me convencer, dizendo que teria um lago enorme lá, cheio de peixinhos, debaixo do sol de verão…
Sempre amei lagos….e peixes. Pegava meu caderno — o talvez décimo que já lotava de palavras — e me sentava na beira deles, em cima de uma rocha. Sentia o cheiro de natureza, preparava a caneta e a inspiração simplesmente vinha, assim mesmo.
Ah...queria ter um lago agora.
Com aquela pressão toda, acabei fazendo uma pequena barreira com meus amigos para pedir ao meu pai que me deixasse ir. Sim, era necessário uma barreira para pedir algo ao meu progenitor.
Acho que deveria falar dele...Vou falar pouco, posso me aprofundar mais depois.
Meu pai se chama Noah. Naquela época, tinha trinta e nove anos e poucos fios brancos no meio da longa cabeleira negra. Noah criava cabelo. Era tão longo que deveria bater nos cotovelos, sempre preso em um tipo de rabo, bem liso. Tinha um queixo másculo e a aparência rígida, e só quando estava confuso parecia mais relaxado.
Sobrancelhas escuras, olhos amendoados e alto. Ombros e pés largos, usava calças jeans e camisas folgadas, menos quando trabalhava. Era obrigado à usar terno, e sua posição no lugar formal onde trabalhava era tão alta que não comentavam sobre seu cabelo enorme.
Quando cheguei em casa com os cinco nas minhas costas, ele estava deitado em sua poltrona grande e achocolatada, bebericando café (pedira a receira à Lilly, que ainda estava respirando naquela época), assistindo seu programa de culinária calmamente.
Meu pai era agradável com qualquer pessoa mais velha. Não que fosse ruim com crianças, mas sempre foi mais indiferente comigo e meus amigos, tanto que ao decorrer da minha vida, ele nunca se importou com o meio mundo de pessoas que tentavam me matar.
Ele simplesmente se virou para mim, suspirou e deu de ombros. Alegou que na semana do acampamento eu estaria com minha mãe, então a obrigação era dela de dizer se iria ou não me enfurnar na floresta com milhares de fedelhos.
E “milhares” foi uma hipérbole. No máximo umas duzentas e cinquenta.
Assenti. Ah, já estava acostumado com aquele comportamento. Quinze dias na casa do meu pai era como morar sozinho. Ele agia com a empregada, que deixa comida pronta, arruma a casa e acabou. Se vire. “Você vai ser adulto um dia”. É, sei disso, papai.
Peguei o telefone da cozinha e liguei para a senhora progenitora, com ísis e Alec murmurando animadamente no meu ouvido, Marion fuçando minha geladeira e Oliver comendo uma maçã da fruteira, todos lotando o lugar atrás da bancada de mármore claro.
Minha mãe é diferente do meu pai. Ela não é baixinha, mas também não tão alta, porém só usa saltos de dez centímetros para cima, se é que existe. Seu cabelo é mais castanho, com leves ondulações nas pontas, por isso meu cabelo é negro e ligeiramente enrolado. Seus dentes são bastante brancos e ela tem as melhores pernas que já vi na minha vida.
Sem malícia alguma, minha mãe sempre teve as coxas mais torneadas que já vi em toda minha vida, sem exceção. Nas reuniões da escola, ela vinha naturalmente com a roupa do trabalho e a saia de cintura alta pouco acima do joelho...e todos os garotos babavam na minha mãe, na maior pouca vergonha. Já me pediram o telefone dela.
É traumatizante.
Pois então, ela atendeu com a voz arrastada. Era seu dia de folga. Minha mãe, Charllote, era vendedora de imóveis de uma grande agência imobiliária...e era boa no que fazia. Como meu pai, bancário. Com certeza tinha acabado de acordar de uma noite com seu novo namorado.
Sim, Charllote era como Simmone. Tinha um namorado novo toda semana, e depois dos quinze anos eu costumava fazer piada disso sempre que ia passar a quinzena com ela.
Ah, meus pais se separaram quando era um pirralho — Diria Alec- de apenas cinco anos. Ela demorou pelo menos cinco minutos para raciocinar o que estava dizendo. Recebi uma lista enorme de cuidados que deveria tomar, até eu conseguir convencê-la de que o acampamento era semanas à frente. Consegui minha permissão, e no dia marcado para entrar no ônibus e voltar dez dias depois, minha mochila era pesadíssima.
Brincadeirinha, era normal. Descartei boa parte das coisas que minha mãe me mandou levar, exatamente para não ter que levar peso...o que não adiantou, pois fiquei com pena de Marion carregando uma mochila pesada e levei a dele.
Os primeiros dias foram ótimos. O lago era perto do chalé em que fui colocado, então escrevi bastante coisas no décimo caderno, fora as atividades divertidas. Porém, no quinto dia, veio a tão esperada “trilha”. Cada chalé tinha um professor responsável, e se dividiu para fazer a trilha, marcando um ponto de chegada.
Já contei-lhes de um professor de música que tive? Amava cores. Pelos céus, parecia mais um professor de educação artística. Se vestia como um trio elétrico em pleno carnaval Baiano, brilhando nas passarelas que de repente viravam o sambódromo.
Ou simplesmente um hippie que foi vomitado por um arco-íris.
E sim, ele ficou encarregado do nosso chalé. No começo estava ótimo. Fora eu e os cinco, tinha uma garota tímida e um garoto que não parava de comer nunca conosco. Estavam todos se divertindo, apontado pássaros diferentes e borboletas voando por ai…
Uma hora, paramos para assistir o “voo majestoso da grande ave purpurina”, que seria um pássaro com penas brilhantes que encontramos no galho de uma árvore, nomeado por Ísis e a garota tímida, que agora viraram super amigas, deixando a pequena Mary com ciúmes.
De repente, Oliver para, olhando ao redor e cutuca meu ombro, que só rio com a cara estranha do pássaro. Suspiro e olho para ele, que parece muito sério.
“Chris, o profedoido sumiu.”, sim, profedoido é um apelido que demos para ele e...ah, sim. É, verdade. Olhei desesperadamente para os lados e nem sinal do homem que parecia ter sido cuspido pelo mundo da Barbie.
“O que fazemos agora?!”, exclamou o garoto corpulento. Na sua mochila tinham dois pacotes de biscoito e um de salgadinho, então não acho que era da possível falta de comida que ele reclamava.
Marion suspirou, abrindo a mochila.
“Somos oito. Quatro arrumam um lugar para ficarmos, caso a noite chegue, fora os alimentos, e os outros tentam achar alguém, mas levem a bússola.”, ele disse, jogando a mesma para mim.
O que tínhamos ali? Um gordinho em desespero, uma menina igualmente desesperada, um futuro biólogo cheio de decisão, uma garota treinada em artes marciais, um loirinho com certas habilidades com nós, meio-irmãos escaladores de árvores e um pequeno escritor que tentava entender como aquilo tinha acontecido.
Nos separamos. Eu, Simon (o dos biscoitos), Jill (a garota tímida) e Ísis fomos procurar ajuda, enquanto os outros montava uma barraca caso anoitecesse. Procuramos e procuramos, e no máximo achamos um esquilo morto sendo devorado por um tipo de cão da floresta.
E aí é que está. A noite tinha caído que não estávamos na metade do caminho de volta. Acho que minha mente nova não foi capaz de calcular o tempo e distância...mas assim foi. Enquanto os outros dois tremiam de medo, eu e Ísis cortávamos galhos e andávamos em círculos sem encontrar nossos amigos.
Fiquei nervoso. Mas, ouvi sons de água e mergulhando nas árvores, achamos o lago de mais cedo, podendo nos basear por ele. Certo, ótimo!
Só que...lembra do “cão da floresta”? Era um lobo. Um lobo que graças ao acampamento que foi montado perto da sua caça, ficou comendo apenas esquilos e outros animais pequenos, e acredite, estava faminto.
Já viu um lobo magrelo com fome? Seu pelo negro meio vinho é crespo, ressecado. Suas costelas transparecem em sua pele, e a baba escorre. As presas à mostra e uma terrível escuridão com somente a luz de uma lua minguante.
Antes que eu dissesse sem movimentar a boca direito algo como “não façam movimentos bruscos”, Simon correu o mais rápido que conseguia para a floresta. Outro lobo que veio de sabe-se lá onde pulou nele e...bem, o rasgou por inteiro.
Os olhos de Jill estavam arregalados e ela tremia, mas sabia que não deveria se mover. Ísis, coberta com seu cachecol vermelho, andava lenta e imperceptivelmente, e a imitamos. Devagar, devagar...Quando o lobo fez menção de chegar mais perto, o cachecol vermelho foi lançado em seu rosto, o impedindo de ver.
Corremos tanto naquele dia que minhas pernas doem de imaginar.
Acabamos encontrando o acampamento, onde as outras crianças pareciam preocupados conosco. Apontamos onde os quatro estavam e passamos a noite sendo paparicados e rezando pela vida de Simon.
No dia seguinte, voltamos todos para casa e o acampamento do Westmont foi terminantemente fechado, para nunca mais algo como aquilo se repetir. O engraçado foi voltar para a casa de Noah e vê-lo com a pasta na mão, já indo para o trabalho, reiniciando nossa quinzena juntos. Parecia normal em me ver.
“Mas então...se divertiu lá?”, com onze anos de idade, ao ouvir aquilo do meu pai, milhares de coisas vieram à minha cabeça.
“Quase morri, me perdi na floresta, um lobo devorou um garoto na minha frente e não, não aprendi à fazer um nó decente, fora que a roupa do acampamento ficou apertada em mim e Alec não parava de rir dizendo que minha bunda era sexy então…”
“Sim, pai. Me diverti muito.”, suspirei, pegando minha mochila e subindo para o segundo andar, para dar de cara com minha cama macia e dormir pelos próximos três dias.
Nos tempos atuais, simplesmente continuei rindo e balançando a cabeça negativamente e voltei à procurar o meu caminho. Só espero que o garotinho não vá para a mesma floresta que fui anos atrás.
Vai ver aquele lobinho mau ainda está com fome, não?
Ah, e sei que você esperava que terminasse aqui, mas…
“Definitivamente não, Alec, minha bunda não é sexy!”
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