Contos de uma Viajante do Tempo Vol 2- Gene Kelly
4 Capítulo 4
Gene deixou Olívia em casa por volta das 6 da noite. Ele tinha vários compromissos mas abriu mão de todos por causa dela e de quebra, percebeu que estava sentindo renascer velhos sentimentos por ela: um certo sentimento que veio quando a conheceu de longe nos sets de filmagens. Ele percebeu que ela e Judy Garland tinham muito em comum.. Ele gostava de Judy porém respeitou a condição casada mas muitas vezes era impossível esconder inclusive do diretor Vincent Minelli, marido dela, a química da “amizade” que havia entre eles. Vincent era gay e Judy sabia, mas era bom não arriscar.
Gene era bastante impulsivo e se dependesse dele, se casaria amanhã. Ele fez isso uma vez e quebrou a cara. Também, Olívia não parecia do tipo que aceita se casar em pouco tempo. Ele já havia percebido que ela tinha uma personalidade forte, falava o que queria, fazia o que bem entendia e isso estava deixando-o com um grande instinto de caça: dominar quem não quer ser dominada.
Existiam alguns porões em sua vida que ele teria que esconder dela como quando ele era grosseiro com mulheres e por vezes fazendo-as chorar ou xingá-lo e quando seu instinto sexual chamava e Betsy impunha limites pois ele era “selvagem e impulsivo demais”. Como ele iria conquistá-la sem assustá-la?
***
Segunda de manhã, Gene estava mais uma vez pensando em Olívia e queria ter informações sobre ela e Donald e sabia que seu agente poderia ter alguma coisa. Agentes sempre sabem de tudo da vida de todo mundo. Depois do café da manha, foi ao seu escritório e colocou um vinil de Judy Garland. Pegou um pano e começou a desarrumar seus livros de dança, anatomia e sobre a França e limpar. Ele havia adquirido novos livros e já não tinha espaço e colocou alguns livros que não usava em uma caixa de papelão que já estava reservada perto da estante.
Seu trabalho fora interrompido com uma batida seguida da porta se abrindo. Mort Viner, seu agente e amigo de longa data,colocou a cabeça dentro da sala.
— Gene?
— Ei,Mort,entra. Estava pensando em você neste exato momento.Queria te perguntar algo importante.
—Sobre? – disse Mort,fechando a porta atrás de si, carregando sua habitual pasta preta.
— Você conhece uma dubladora chamada Olívia Weiss?
Mort ficou pensantivo por um momento até que rapidamente respondeu.
— Sim, a namorada do James Dean.
— Acho que não estamos falando da mesma pessoa.
— É uma morena, alta, cabelo bem preto que se parece com uma mexicana?
— Sim.
— É ela mesma.Ela estava saindo com o O’Connor por debaixo dos panos e depois de um tempo estava com o James Dean. Eu os vi juntos na Premier de “We are no Angels” antes da morte dele. Porque?
Gene hesitou falar, diante da surpresa da descoberta, mas logo continuou:
— Eu sai com ela ontem e queria saber se você poderia me informar algo sobre ela e o Donald.
— Bom... – ele pigarreou e sentou-se em uma poltrona, largando a pasta na cadeira ao lado – o que sei é que eles estavam saindo desde 1952 e ela ficou sumida dos estúdios por um tempo e reapareceu com o James Dean. Eu sei que eles reataram em 1955 depois da morte de James e não sei o que deu, mas ele já está saindo com outra garota, amiga de Elizabeth Taylor, uma jovem divorciada chamada Gloria Noble.
— Então, é certeza que ela e Donald não estão juntos?
— Posso me informar melhor mas pelo que vi, não estão. Ele passa tempo com a moça nos estúdios. Vai me contar o que aconteceu?
— Eu estou gostando dela e eu queria algo mais sério mas ela só me contou do Donald porque eu forcei a barra mas quero ter a certeza que ele não vai estar entre nós dois.
— Hum... – Mort acendeu um cigarro.
— James Dean? – Perguntou Gene, incrédulo.
— Houve um boato, e somente ela pode confirmar o que eu duvido que vá, que ela estava no acidente que matou James Dean. Ela estava no carro dele e o negócio foi bem mais sério do que se imagina. O “acidente” – ele fez sinal de aspas – não foi o que contaram. Foi tentativa de assassinato do agente dele aos dois. Parece que a moça sabia bem mais do que devia, seja lá que isso signifique, mas os Irmãos Warner livraram ela de aparecer nos jornais e tiraram o nome dela do acidente. Meu palpite? Ela sabia de coisa grossa sobre os carniceiros que cercavam James, você sabe... alguns possuem uma fé estranha.
— Se você me conta tudo isso, então não é boato. Isto é bem sério.
— Não posso confirmar nada, mas ela pode estar na lista negra de alguns grandes de Hollywood por saber demais se e somente se esta história for verdade. James não chegou aqui dançando e cantando, ele passou pelo submundo, se é que me entende.
Ele levantou-se e andou pela sala, fumando e mexendo sem interesse nos livros sobre a mesa.
— Mas se você gosta dessa moça, posso dizer que não há perigo nenhum nela. Muito pelo contrário, acho que ela será uma heroína para você.
Ele voltou-se para a pasta preta e tirou uma revista.
— The Confidential fez de novo, Gene.
***
Na quarta-feira de manhã, Olívia havia terminado seu último trabalho nos estúdios de dublagem e recebera seu pagamento. Informaram a ela que por enquanto não estavam precisando de dublador mas que qualquer coisa ligariam. Isso era um péssimo sinal: ela ficaria sem trabalho. Ela tinha dinheiro para se sustentar por 3 meses ou mais e se até lá não conseguisse nada, teria que correr atrás de um trabalho em qualquer lugar. Ela estava voltando do supermercado naquela mesma tarde e chegou em casa molhada e todo o pacote de papel estava quase se rasgando. Largou as compras na mesa da cozinha e acendeu a lareira. Afastou as cortinas da janela e viu relâmpagos tomarem um céu muito escuro.
Se desfez do casaco e cachecol molhados e os estendeu perto da lareira. Ligou o radio e voltou para a cozinha. Desfez as compras, jogou o papel molhado fora e separou os 3 jornais que comprara para ver as oportunidades de emprego.
Colocou agua no fogo e foi tirar a roupa. Gene não tinha ligado desde domingo e Lúcia havia sumido desde sábado e não apareceu no estúdio nem deu retorno de suas ligações. Serviu-se de um chá, sentou-se na sala de frente para a sua lareira favorita e começou a fazer a contabilidade dos gastos e do que tinha no banco. Ela gastava o equivalente a 500 por mês com aluguel, contas e comida ou quando não, 600 quando precisava comprar absorventes, desodorantes,shampoo: sempre os mais baratos.
Seu trabalho foi interrompido pelo estridente som do telefone. Ela levantou-se e correu na direção do telefone esperando ser Gene Kelly. Vamos combinar: mesmo que ela não morra de amores por ele, ser cortejada e deixada de molho por três dias é sacanagem.
— Alô?
— Oi,amiga, sou eu a Lúcia.
— Minha filha, cadê você? Você sumiu, nem apareceu para trabalhar.
— Tenho tanta coisa para te contar. Você está bem ?
— Estou preocupada, na verdade.
— Como foi seu encontro com o Gene Kelly?
— Proveitoso.
— Proveitoso? Foi ruim?
— Ele me levou para jantar,almoçar,passeios. Nada demais. E Você?
— Eu estou na Grécia.
— GRÉCIA? – Olívia ficou boquiaberta
— Eu estou casada.
— CASADA?- Olívia mais uma vez ficou sem palavras
— Sra.Lúcia Ridley. Ai, Liv! Esse casamento veio em boa hora. Eu estava sofrendo e não podia contar para você. Você lembra da festa do sábado?
— Sim.
— Eu tinha recebido um telefonema da MGM dizendo que eu estava sem papel,sem emprego, sem nada. Tudo o que eu tinha gastei no sábado com o vestido e com o aluguel do carro. Ninguém ia me dar emprego facilmente e eu não podia voltar para casa com a derrota na mala.
Lúcia demorou um tempo para falar e Olívia percebeu a voz trêmula.
— Eu estava assustada e com medo, então eu apostei tudo em Ridley e ele me pediu em casamento no domingo de manhã. Ele disse que queria abrir um jornal em Londres e morar lá. Nós nos casamos ontem de manhã em West Yorkshire e estou na lua-de-mel. Pode parecer ridículo mas foi a única janela que vi e espero que Deus me abençoe porque eu não vou suportar passar fome de novo.
Olívia estava com o coração partido. Lúcia havia contado que ela poderia estar se prostituindo se não fosse a oportunidade da MGM. Ela não poderia julgá-la pela sua decisão porque pela lógica, era melhor do que nada e ela conseguia sentir o medo na sua voz.
Elas ainda conversaram por mais 10 minutos até que Olívia colocou o telefone no gancho. Ela ficou petrificada por uns minutos com um enorme peso no coração. Lúcia não tinha mais trabalho e arrumou um casamento proveitoso que pudesse garantir sua sobrevivência. Olívia ficou encarando o nada com o olhar perdido: E se ela tiver que casar para garantir sua estadia nesta época? Ou pior, casar por ser tão incompetente que não consegue emprego nenhum e precisa de um marido qualquer.
Ela tomou um banho e ficou pensativa debaixo do chuveiro. Pela primeira vez, desde a II Guerra Mundial, ela estava assustada. E se ela for obrigada a voltar para 2017? Ela já estava fugindo dele e de todas as ideologias vãs que estavam implantando. Ela não podia voltar, ela tinha que arrumar um emprego por aqui e com urgência. Ela estava penteando os cabelos usando seu roupão quando alguém bateu à porta.
Ela andou em direção à porta e olhou pelo olho mágico mas já estava escuro e não conseguiu ver quem era, apenas sabia que chovia. Ela cuidadosamente abriu a porta e para sua surpresa era Gene Kelly.
— Oi! – disse ela sorrindo, sem esconder a surpresa.
— Estou atrapalhando algo?
— Não,entra. Acabei de sair do banho.
Ele estava com um ramalhete de flores vermelhas e as entregou assim que ela fechou a porta. Ele estava molhado e visivelmente constrangido por elas estar de roupão, imaginando que ela estava praticamente nua por baixo.
— Muito obrigada. Eu amo flores e elas são lindas! – Ela apontou para a lareira – Deixei meu casaco pendurado perto da lareira, você não quer fazer o mesmo? Eu vou trocar de roupa.
— Claro.
— Não demoro.
Olívia estava estranhamente feliz com a presença dele, em parte porque ajudaria a esquecer os problemas. Ela colocou seu vestido florido favorito , se perfumou e colocou as flores no vaso da cozinha.
— Como você está? – disse ela sentando ao lado dele. Ele parecia sério.
— Estou bem . Eu não te liguei antes por que eu tive coisas sérias a resolver.
— Mas você está bem?
Ele exitou.
— Eu não vim ver você por motivos 100% altruístas, mas preciso da sua ajuda. Você é a única em quem confio agora.
— O que foi?
Ele pegou um papel dobrado do seu bolso e entregou a ela. Ela abriu, com medo de que fosse alguma bomba, ameaça ou uma carta de alguma mulher dizendo que estava grávida dele.
Confidential Magazine – Janeiro de 1956
Betsy Blair Kelly não pôde mais ignorar as evidências.
As meninas suspiram por Gene Kelly mas o que realmente acontece em sua vida privada?
Por Simon Lee Garth
Alguém já notou que Gene Kelly nunca está nas fotos com sua esposa Betsy Kelly? Fontes afirmam que ele se sente confortável na presença de amizades masculinas.
Olívia ficou de boca aberta. Havia uma foto dele sem camisa (bastante rara) expondo todo o seu corpo simetricamente perfeito na praia conversando com alguns homens e outras fotos dele sempre acompanhando de homens jovens e sem a esposa.
Não é de se estranhar que após mais de 10 anos de casamento, ela silenciosamente pediu o divorcio e com a filha foi para a Europa.
— Meu Deus. Gene isso é ... quer dizer... eu não sei o que dizer.
Ele se levantou impaciente
— Eu recebi ligações da MGM e da Paramount querendo saber se aquilo era verdade. Essa revista foi a causa do Rock Hudson ter se casado. Tem um homem aqui que ameaçou expor a homossexualidade dele e ele teve que expor a vida sexual de outras pessoas para proteger a dele e ainda se casou com a secretária da revista para encobrir tudo.
— Por que você não processa?
— Esta revista já foi á julgamento 4 vezes nos últimos 2 anos e continua a todo vapor. Eles expuseram todo o julgamento do meu divórcio. Eu processei a revista por isso e o juiz disse que o único julgamento secreto é a custódia dos filhos e sobre isso eles não divulgaram,logo eles se livraram do processo e eu ainda tive que arcar com as custas processuais. Olívia – ele sentou-se e segurou as mãos dela- eu sei que é errado o que vou fazer e você está no direito de não se submeter a isto mas eu só posso confiar em você. A MGM me pediu para arrumar alguém que me ajudasse a parar este falso boato e disse que pagaria bem.
— Pagar para quê?
— A gente só se conhece há alguns dias mas, você quer fingir ser minha namorada?
Olívia ficou estática.
— Eu?
Olívia tentou falar mas as palavras não saiam. Ela fora pega de surpresa.
—Bom...se for para te ajudar....
Gene relaxou os músculos do rosto. Ele estava grato e aliviado.
— Mas... você não é gay... certo?
— Não! Eu não sou, mas eles não querem saber e isso pode causar a rejeição dos fãs. – ele apertava gentilmente as mãos dela.- Eu não vou forçar você a nada, não se preocupe. Você vai sair comigo e ser fotografada e a MGM vai te pagar bem.
— Eu sei que você deve estar constrangido por falar isso comigo. Eu aceitaria namorar com você de graça, mas como perdi meu emprego, então eu aceito um dote.
— Você perdeu o contrato?
— A Warner Bros e a MGM não têm nada para mim por enquanto então... aceito. – ela deu um sorriso amarelo.
— Posso levar você para jantar para oficializar o namoro, então?
— Ora, mais claro! Deixa eu me maquiar um pouco.
Olívia levantou-se rápido e tentou dar um jeito no seu rosto. Em parte, ela estava feliz porque o dinheiro ia entrar na conta mas estava preocupada com o quanto esse relacionamento ia se aprofundar. Ela tinha receio dele e das coisas que ouvira a seu respeito e ela ainda não tivera a oportunidade de descobrir.
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