Contos de uma Juventude Quebrada.
1 Prólogo
Notas iniciais

Desabando.
Este era o estado dos garotos que sorriam, enquanto corriam no túnel. Eram sete ao todo.
Pularam uma portinhola de ferro, batendo os pés no chão, espirrando a água ali presente uns nos outros. Começaram a correr evitando ser capturados por qualquer autoridade local. Até, porque eles nem deveriam estar ali para começo de conversa.
Pararam numa especie de sala circular empoeirada. Paredes lisas, limpas, exceto por umas teias de aranha. Telas em vazias, prontas a ser preenchidas. Prontas para se tornarem seus sonhos, seus medos, suas metas, anseios, angustias e frustrações. Prontas para se tornarem eles.
Sorriram entreolhando-se, o mesmo pensamento rondando todos.
O menino castanho tirou a mochila das costas, abrindo-a e tirando de lá uma porção daqueles fogos de artifícios que se pode segurar na mão e desenhar no ar, junto ao um montante de latas de tinta spray.
Distribuiu entre os outros seis.
Cada um agitou sua lata, virando se numa direção e começando a rabiscar as paredes antes imaculadas, como que num acordo silencioso.
O garoto com um pirulito nos lábios, cujo o gorro negro escondia os fios platinados cortados em undercut, riscava letras sobre os pré julgamentos ocorridos em razão do Q.I elevado. Detestava aquilo. "Quero ser livre, quero fazer musica. Mas provavelmente não é uma "boa profissão". O ultimo pensamento o fez por a alma enquanto escrevia.
" Mudando as regras, mudando, mudando
Pessoas mais fortes são desejadas, continue
Não é assim que funciona bang, bang
Isto não é normal
Isto não é normal"
Sim. Mudaria as regras! Mostraria a todas que a musica é uma carreira incrível.
Pouco adiante, o garoto com cabelos de um rosa quase branco, com um garrafa de bebida em mãos, escrevia:
Se você sentir que irá bater então acelere mais, seu idiota.
Deixe para lá, deixe para lá
Nós somos muito jovens e imaturos para desistir, seu idiota
Deixe para lá
Lhe doía no orgulho e na alma admitir, mas a desaprovação dos pais destruía dia após dia. Que se ferrasse a faculdade de arquitetura! O que o garoto de vinte e poucos anos amava era o rap! Largara tudo para fazê-lo e agora como estava? Passando fome, morando nas ruas, enchendo a cara de bebida na vã tentativa de esquecer os gritos de "Você não é mais meu filho!" que ouvira do pai assim que anunciou que saíra da faculdade para seguir carreira na musica.
Uma lágrima brotou no canto do olho esquerdo ao lembrar-se disso, ele a enxugou deixando o rosto um pouco sujo com a tinta verde que usava. Quando o garoto das latas de tinta perguntou o que houve ele apenas disse que o cheiro forte o incomodava.
Ah... o tal garoto, ou "alien" como era chamado pelos outros seis, também tinha uma história... digamos que interessante.
Estava de saco cheio. Todo dia, todo santo dia, via a mãe e a irmã sofrerem abusos na mão do pai drogado sem poder fazer nada. Absolutamente nada. Com o perfeito inútil que achava ser. Desenhou garrafas quebradas recobertas de sangue. "Um dia desses, me canso e faço uma besteira, Appa". — Pensou observando um de seus melhores desenhos.
Logo ao lado, o mais baixo do grupo, desenhava um garoto sorrindo enquanto afogava-se. "Esse sou eu, agora. sorrindo, enquanto tudo está despencando. Detestava-se. Detestava seu corpo. Detestava seu tamanho. Toda vez que se olhava no espelho via um garoto de cem quilos com bochechas de esquilo. Pulava refeições, passava horas na academia, vivia a base de pão e água. Coitado. Mal sabia ele que tinha um corpo invejável.
E ele não acreditava nas belas garotas que o chamavam pra sair! Afinal, a única que ele almejava o olhava com desprezo. Isso contribuiu na suas Dismorfia Corporal e Anorexia, que ele escondia com afinco dos olhares alheios. "Ninguém pode saber que tenho os mesmo problemas que uma garotinha de 13 anos"
Também havia a esperança. Não literalmente, apenas era um apelido sarcástico para um garoto depressivo. Ele tateou o bolso esquerdo, envolvendo com os dedos o vidro cor de âmbar, contendo uma unidade de cada um de seus comprimidos, uns 10 ou 15 no total.
"Hipocondríaco,um maldito de um viciado em remédios." Pensou com seus botões ao notar que havia desenhado o mesmo vidro, só que quebrado com as pilulas caindo no chão. Olhou para o vidro. "Vou me livrar desse vício." Afirmou para si, mesmo sabendo que aquilo não passava de uma inverdade.
O mais velho ali, um cara de lábios grossos e ombros largos, observava os outros, enquanto estes ponham suas angustias para fora.
Nunca tivera um problema tão grandioso quanto dos outros ali, mas era atormentado pelo fantasma da solidão. Seus pais? Viviam trabalhando. Desde sempre saindo antes que ele acordasse e chegando quando ele já estava dormindo.
Ele tinha certa condição financeira, mas de que lhe adiantava dinheiro se ninguém o queria por perto? Afinal, para a grande maioria dos conhecidos ele tinha uma "Vida dos sonhos".
Observou os garotos. Eram todos como ele. Solitários. Mesmo que rodeados de gente. "Não posso deixar que fiquem como eu. Eles tem de ser felizes!" Sussurrou baixinho, cedendo ao pedido dos dongsaengs e começando a esboçar um desenho.
Sentiu-se livre ao fazer aquilo.
E por fim, o caçula do grupo; um menino com jeito de homem, que colocava todo o ódio sentido no seu desenho. Por qual razão ela brincaria comigo? Mexeria com meu psicológico sendo que eu lhe fiz nada de mal?
A tal Evil Queen, era uma garota de filha dos amigos dos pais dele. Os dois foram criados juntos e um tempo atrás ela fora embora. Sim, embora. Simplesmente abrira a asas e voara para o exterior. Afinal tinha conseguido a bolsa para Harvard, e, logo em seguida, partindo para longe dele sem pestanejar.
Coitado, não esperava que seus sentimentos fossem unilaterais. Pôs a alma no desenho de um coração sendo rasgado.
Ao terminarem, cada um pegou um dos hanabes colocados no centro da sala pondo-se em posição de corrida, acendendo os fogos e zarpando da sala.
"É o fim." Pensou o esperança deixando para trás os remédios.
"Serei livre." O garoto pensou sem se dar conta da queda do cigarro, doce como pirulito.
"Vou mostrar para eles!" Essas palavras ecoavam na mente do bêbado, que ainda segurava a garrafa.
Isso vai passar. O alien repetia na vã tentativa de se convencer.
Eu vou ser belo. O mais baixo corria.
Vou superar. O mais novo pensava.
Eu vou ser um bom irmão, vou ajudar-lhes. O mais velho, pensava um pouco mais atrás, observado os outros correm, com rostos felizes.
Agora, olhe bem para os desenhos que eles fizeram amigo leitor. Olhe-os com toda a atenção, consegue ver? Sim... Os desenhos estavam interligados. Formavam a pergunta que todos os jovens se fazem num momento ruim. O termo inglês acompanhado de uma interrogação formada pelos lírios, de autoria do mais velho, formando uma unica frase: WHY US?
Por que nós?
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