Contos de Varmar: Do Início

1 Contos de Varmar: Do início ao condado


Conhecido deste jovem por sua benevolência, Varmar, um velho sábio de cabelos alvos e ralos e barba longa, sempre fora avido em aprender. Por ser útil aos deuses, podia andar pelos salões de Jill-rasil, o palácio dos deuses.

As divindades permitiam que ele adquirisse conhecimento para que treinasse soldados mortais para lutarem contra os Inferis, contudo Feltirr, o deus dos deuses, temia que Varmar os traísse, e lançou uma maldição sobre o franzino ermitão, caso este viesse a falhar com os deuses ele se tornaria uma estátua de rocha bruta.

No oitavo ano da Terceira Era do Sol, após a última guerra entre os deuses e os Inferis, Varmar, agora sendo o mago supremo dos mortais, embebido de graça e aproveitando a fraqueza dos combatentes da guerra separou o mundo dos homens do mundo místico criando Sep-Quorum, a muralha do sangue e do frio. Ele assim concebeu Hemitellure, a terra entre as terras, onde os humanos habitariam sem que fossem vítimas ou ferramentas das deidades.

Os poderes do mago possuíam uma limitação, a muralha poderia ser derrubada por um dos seus descendentes que possuísse aptidão para magia durante a próxima era do sol que ocorreria em 600 anos. Após selar o feitiço o mago se tornou pedra, e foi perdido pelos humanos.

Varmar, contudo, não contava que haviam deuses e monstros entre os mortais, escondidos da devastação que a guerra trouxera. Entre os seres aprisionados em Hemitellure estão SigFrirr, deus do fogo e da criação dos homens, banido dos deuses por ter criado os mortais, e o monstro Kraf-kaff, o destruidor das embarcações e senhor dos mares.

Em pouco tempo, tanto a guerra entre as bestas quanto a muralha e mesmo Varmar, se tornaram lendas e mitos contados pelos anciões. E durante 200 anos ninguém mais lembrava dos heróis e deuses antigos que um dia vagaram entre os mortais presenteando-os com relíquias de poder que permitiam ao usuário ter habilidades que são restritas aos deuses, como transformar-se em seres, voo, controle do fogo e da água.

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Tiago San Bento ouve de longe as ordens de seu superior:

— Vá buscar três frangos e um leitão.

— Onde devo buscar senhor?

— Não se faça de parvo, sabes bem onde ir.

Por mais que se esforçasse Tiago estava sempre abaixo das altas expectativas de seu superno. Este se chamava Juleu Bine, o severo mordomo de nariz pontiagudo e feições de mármore, sempre bem vestido com seus trajes clássicos sob medida, servia ao senhor daquela casa movido pela gratidão deste ter salvo sua vida durante um acidente de caça.

Tiago era frequentemente comparado ao seu irmão mais velho Gustavo, o primogênito e predileto, não somente de seus pais como entre todos aqueles que os conheciam. Ao contrário de seu irmão, o jovem de olhos escuros era baixo para a idade de 16 anos, seu cabelo rente devido aos serviços na casa do Conde Teir-Ne. Por ser o terceiro filho de seus pais, em uma família com seis irmãos, pouca atenção era lhe concedida. Por conta disso muitas vezes era tomado de uma profunda melancolia.

Sem grandes ambições e medíocre, era como o Conde lhe definia, teria que se esforçar muito para alcançar o irmão mais velho, que possuía boas relações com o velho de temperamento rude. Em nada se parecem, era como seus pais diziam, o primogênito possuía a fisionomia de seu pai, alto, com cabelos longos e olhos de avelã. Seus pais eram funcionários da fábrica do desagradável senhor assim como metade da cidade.

Trabalhava como auxiliar de Juleu Bine, sendo responsável pela compra dos alimentos e em época de festas, contratar os músicos, entre estes o seu amigo Nettcas, o bardo que cantava para nobres e encantava donzelas, como ele mesmo se proclamava. O bardo possuía a capacidade de alternar entre os cânticos que alegravam as festas às cantigas de escárnio, habilidade essa que lhe colocava em muitas em brigas. Desavenças essas que muito superavam sua baixa estatura e aptidão braçal.

A fábrica do Conde era gerida por seu filho Cian, apelidado de valete vermelho por seus amigos, entre estes o irmão mais velho de Tiago. O valete e sua irmã compartilhavam as características de sua família, ambos ruivos de altura mediana. Contudo, ao contrário de sua irmã Firla, não puxara o temperamento explosivo e bronco de seu pai. Apesar de existir um temor interior de que seus amigos e conhecidos apenas o tratavam bem devido a ser filho do conde, Cian mantinha-se acreditando que era querido por aqueles que o cercava.

— Minha irmã tenha calma, lembre-se dos conselhos de Juleu. – Dizia Cian a irmã sempre que essa tinha acessos de raiva;

— Não comece, Juleu está a um passo de se tornar senil. — Retrucava a jovem;

Firla era de uma beleza arrebatadora, seus curtos cachos ruivos realçavam seus olhos cor de esmeralda, escrita e música eram seus passatempos. Ela, contudo, era facilmente irritável, resultado dos mimos de seu pai. O mordomo, no entanto, responsável pela educação da menina, se esforçava para torna-la uma dama como a falecida condessa fora um dia.

Durante uma noite comum, um grito rompe a serenata do silencio, Firla encontra Cian caído no chão da casa. O rapaz tem a febre kasir, diz o doutor ao pai imóvel, o clima taciturno da sala e rompido pelo choro da moça, todos ali sabem que ao findar da estação ele falecerá. Há, contudo, uma chance de ele sobreviver, diz o médico limpando os óculos, na montanha ao norte da cidade mora um curandeiro que dizem ser capaz de curar qualquer coisa. De imediato o Conde ordenou que Juleu reunisse um grupo para a empreitada.

Dez homens foram reunidos pelo mordomo, entre estes Gustavo San Bento, o irmão mais velho de Tiago. Partiriam em dois dias, tempo suficiente para Tiago decidir que não somente iria junto como seria o responsável por trazer a cura ao filho do Conde e assim conseguiria superar o irmão mais velho. No dia da partida Tiago juntou se ao grupo, ao ser visto por Juleu foi prontamente expulso da comitiva.

— Não és páreo para missão. – Disse Juleu sem mudar a expressão do rosto;

— Mas....

— Não permitirei que atrapalhe, retorne de imediato para suas funções.

Após ter sido retirado abruptamente, Tiago decidiu reunir seu próprio grupo, somente o bardo aderiu. Ao partirem, um dia após a primeira comitiva, encontraram na entrada da floresta uma figura que se proclamava Jubileu, o sábio da floresta do corvo.

— O caminho para a montanha é perigoso para principiantes. – Disse Jubileu ofertando ajuda em troca de algumas moedas.

Tiago respondeu o homem com um sonoro não, que tipo de aventureiro ele seria se aceitasse ajuda de um estranho.

Assim que entraram na floresta, Nettcas com pavor por lembrar das histórias sobre os que ali desapareceram, pergunta a Tiago se não deveriam ter aceito a ajuda que lhes foi ofertada. Um olhar de canto de olho foi a resposta.

Mais adentro no percurso da floresta, bardo diz ter ouvido algo, eles param por um instante e um pedido de ajuda é ouvido ao longe, ao procurarem pela voz, encontraram uma jovem amarrada em uma arvore. Ao liberta-la, Tiago percebe que se trata de Firla, e sendo filha de quem é, exclamou: “como ousam demorar tanto”. Após alguns insultos, eles descobrem que o objetivo deles é o mesmo, e a contragosto de todos decidiram partir juntos. Ao longo do percurso a ruiva de cabelos cacheados diz ter sido atacada por criminosos que a roubaram e amarraram na arvore.

Ao entardecer, montaram acampamento, a fogueira que montaram alertou os criminosos. Antes que percebessem estavam cercados, porém antes que sofressem algum mal um crocitar surge na escuridão. Um bando de corvos atacou os bandoleiros e próximo a fogueira se juntaram. Da nuvem de pássaros surge, Jubileu. Ao verem o sábio fogem para a escuridão da floresta, Tiago então se desculpa e pede ajuda.

Após cinco dias subindo a montanha, e Jubileu explicando como fizera tal proeza, o os quatro chegam na cabana do curandeiro. Sete corpos no chão, eram os homens do primeiro grupo. O clima lúgubre do entardecer só permite a Tiago pensar no irmão. Ao procurarem por algum sobrevivente Firla encontra Gustavo, ferido e inconsciente. Ele dizia coisas desconexas sobre serem atacados monstros.

Ao recobrar a consciência, contou lhes que a cabana estava sob vigília de um monstro semelhante a um lobo de 3 caudas, a criatura logo atacou os homens e levou 3 com ele. Ao perguntarem sobre o curandeiro, um aceno negativo foi a resposta. Tudo que encontraram foi um bilhete dizendo que a vida do curandeiro dependia que fossem para o topo da montanha.

— Devemos voltar já e pedir ajuda. – Disse o bardo temeroso com a situação.

— Não há tempo, tanto a vida de Cian quanto a do curandeiro estão em jogo.

De prontidão e sem pensar duas vezes Tiago, decidiu subir a montanha.

No topo da montanha havia apenas uma mesa com apenas um anel, um chapéu, uma capa e uma placa dizendo para escolherem sabiamente. Nettcas ainda em choque com os corpos que vira prefere não se aproximar. Tiago pegou o anel, Firla a capa e Gustavo o chapéu, junto de cada artefato tinha uma palavra. Quando Tiago a leu, teve uma visão, um homem acorrentado no fundo de um lago, Firla ao fazê-lo viu uma estátua no alto de uma montanha e Gustavo viu o lobo das 3 caudas. Quando voltaram a si, estavam amarrados em uma caverna.

— O que viram? – Pergunta Jubileu.

— Jubileu solte-nos – Diz Tiago sem entender o que estava acontecendo.

— Repontam-me, o que viram?

Após alguns minutos sem obter as respostas desejadas Jubileu mostra Gustavo, preso de ponta cabeça, coloca uma navalha em seu pescoço e repete a pergunta para Tiago.

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Desciam a encosta da montanha, os quatro não se falavam, muito menos olhavam-se, o objetivo nunca lhes pareceu mais longe. O ar pesado do dia competia com abraço frio da noite, podiam sentir o salivar das feras que os cercavam. Estas não tardariam a atacar o grupo desprotegido, só podiam contar uns dos outros. Todos estavam com a fé abalada, perguntavam-se se conseguiriam, se soubessem a resposta para tal antes de terem saído, pobres garotos.

Durante a noite, um bando de corvos sedentos, ataca o grupo. Fugiram o mais rápido o possível, quando perceberam que não estavam mais sendo perseguidos tinham-se afastado da rota definida, o fim da montanha tinha sido perdido. A copa das arvores impediam que o céu fosse visto, lhes restavam orar aos deuses para que um sinal lhes fosse enviado. Talvez a oração tivesse surgido efeito, um grande gato pardo su­rgira da escuridão, era o símbolo de Dars-Tar, o sábio dos percursos. Ao seguirem o felino conseguiram encontrar seus objetos revirados no chão, não esperaram os pássaros voltarem, partiram de imediato.

Ao chegaram no pé da montanha o objetivo estava completo, isto ocorreu no 71° ano da Segunda Era do Sol, o jovem responsável pelo percurso fundou ali Kasir, a cidade sob a sombra da montanha, e recebeu do rei não somente as terras que desbravara como o título de Conde Teir-Ne. Seus companheiros na empreitada não tiveram tanta sorte, foram os primeiros a contrair a febre que leva o nome da região. ­

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No momento em que a navalha toca a pele de Gustavo, os olhos de Tiago tornaram-se brasa ardente, a corda que os prendiam incendiou-se. Ao levantar-se foi atacado por Jubileu, contudo conseguiu esquivar-se do golpe, ao tocar na garganta do sábio suas mãos incendiaram-se, não vendo escapatória ao ataque do jovem, o intelectual da floresta tornou-se um bando de corvos e fugiu. Tiago não suportou o esforço feito e desmaiou, ao acordar estava próximo a fogueira que seu irmão havia feito.

— Devemos partir agora. — Bravejou o bardo;

— Não é obrigado a ficar covarde. -Respondeu Firla;

— Chega! -Disse Gustavo ao ver que seu irmão acordara;

Três horas se passaram enquanto Tiago esteve apagado, ao voltar a si foi logo perguntado sobre como fizera tal artimanha, nenhuma resposta foi obtida. Nettcas, apesar de ser bom com as palavras, ficou em silêncio ao ver que o amigo melhorara.

Uma voz foi ouvida ao longe, um pedido de ajuda. Por mais que todos os instintos sugerissem que poderia ser uma armadilha, poderia ser também o curandeiro que não fora encontrado, sugeriu Gustavo. Foram então ao encontro da voz angustiada, encontraram um idoso acorrentado a uma pedra, tanto Firla quanto Gustavo desconfiaram da situação, estavam certos considerando que acabaram de sobreviver a um ataque de alguém que ainda apouco os havia ajudado.

Tiago ouve um leve sussurro dizendo para liberta-lo, sem perceber o que estava fazendo o soltou. Muito grato, foram as únicas palavras compreensíveis entre as lagrimas e soluços do ancião. Ao se acalmar, fora logo interpelado por Firla:

— Quem é você? Por que estava preso?

— Me chamo Bair, sou curandeiro e vivo nessa floresta deste que me lembro, fui atacado pelo velho espirito que assombra essa mata. – disse o senhor atônito.

— Qual o nome desse espirito? – indagou o bardo;

— Ele já foi chamado de muita coisa, senhor da carniça, mestre da adversidade, o sábio da floresta do corvo.

Ao disser isso, os jovens se olharam, queriam saber mais sobre aquele que havia com uma mão afagado e com a outra apunhalado. Mas não tinham tempo para explicações, cada dia na montanha era um dia a menos para Cian. Após levarem o senhor para sua cabana, Firla, com o típico temperamento que sua casa possuía, ordenou ao ancião que lhe entregasse a cura para a febre. Gustavo, Nettcas e Tiago interviram explicando que a pessoa acometida pela doença era o irmão da garota.

— Eu posso ajuda-los com a cura. Contudo ela deverá ser preparada no momento da ministração. – disse o velho acendendo um cachimbo.

— Vamos então. – disse Gustavo se pondo de pé a porta.

— Antes devo alertá-los, reconheço os artefatos que vocês portam, cuidem bem deles.

— Não são somente objetos, certo? — disse Tiago franzindo a testa

— Eu não sei a origem ou como funcionam, mas sei que o monstro da floresta do corvo sempre os oferta para os vagantes por algum motivo e depois os mata. – disse o velho.

Partiram assim que o ancião juntou os pertences necessários para curar Cian. A floresta, que antes possuía perigos, agora esconde, segundo o bardo, a personificação do mal.

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