Contos de Varmar: Do Início

2 Contos de Varmar: Ao além e ainda mais longe


Todos os anos em Twirch-torr, ao final da primeira colheita, ocorre o festival Mors-Min. Este reúne os clãs das diversas regiões em torno dos anciões para registrarem os fatos ocorridos nestas partes. Durante o Mors-Min, é habitual os sábios contarem as histórias que leram em Twirch-torr para as crianças.

Em volta de umas das fogueiras que iluminam e tremulam ao som das brisas quentes da região, um dos sábios contava aos pequenos a criação de Twirch-torr:

— Há 845 colheitas, haviam vários clãs que eram guiados pelos três maiores clãs até então, estes existem até hoje. Alguém sabe?

— São os clãs: Cirr-thi, Malo-jo e Lasz-ut sábio. – Respondeu uma criança.

— Exato. Estes grandes clãs eram responsáveis por mediar disputas entre os clãs, distribuir as plantações e em tempos de guerra, eram os primeiros a enviar soldados. E foi em uma guerra que ceifou quase um terço das vidas, que perceberam, todo o conhecimento gerado pelos anciões estavam guardados em suas mentes, já que poucos eram alfabetizados. Os líderes então chegaram à conclusão que todos, após uma determinada idade, deveriam se reunir para registrar seus conhecimentos em uma fortificação, que há muito havia sido abandonada, esta era Twirch-torr.

— Sábio, o que era Twirch-torr antes dos clãs o escolherem para abrigar os conhecimentos?

— Twirch-torr era um forte para vigiar os pastos dos boors, grandes animais de corte com 3 pares de pernas. Ela foi usada por muitos anos até que uma praga os atingiu, em pouco tempo todos os boors foram exterminados e hoje já não mais existem. E exatamente por não haver mais necessidade de pastorear ele foi abandonado.

Com o galopar da noite as crianças foram deitar, e alguns adultos, ao contrário, se reuniram envolta do ancião, e pediram para ele contar historias de seus antepassados e um homem, aparentemente desconhecido aos olhos dos demais, perguntou sobre a historia que mais havia lhe marcado em Twirch-torr.

O ancião então começou:

“Fortes ventos inflam as albas velas do navio Magh-Qril. A tormenta, que assustaria qualquer outro capitão, não abalavam a Nobre Caçadora Real Dihm, ela estava acostumada a navegar por estes mares. Como membro da associação dos Nobres Caçadores Reais, ela foi enviada, em nome do rei, para diversas situações um tanto quanto diferenciadas.

Os Nobres Caçadores Reais (NCR) eram enviados para situações anômalas, caçavam monstros, descobriam terras e tesouros, e sempre estavam a mando do rei. Os NCR eram respeitados mesmo por outros países. Claramente era necessário um alto preparo para pertencer a tal grupo, e Dihm se destacava mesmo entre os melhores.

Quando criança ela era frequente pega em pequenos furtos. Já em sua juventude aprendeu a fugir dos policiais, seus cabelos castanhos, longos e enrolados era tudo o que conseguiam ver. Um dia tentou roubar um caçador, claramente ela não conseguiu fugir. Este homem, ao contrário do que ela esperava, ofertou-lhe a oportunidade de ser aprendiz e fazer parte, caso obtivesse sucesso em seu treinamento, dos NCR.

Ao longo do seu treinamento tornou-se, o que diria seus pares, a mais bela entre as moças. Sua determinação e confiança eram sua marca registrada, e quando se tornou NCR ganhou do caçador que lhe ofereceu uma chance, seu navio Magh-Qril.

A chuva que caia na pele dourada de Dihm distraia Dars-Tar. Era inegável que ele, mas não somente ele, era atraído pela caçadora. Já faziam 3 meses que Tiago e Dars-Tar a encontraram em um bar procurando por novos marujos. Eles procuravam alguém que os pudesse levar até as terras de Elarh, para assim então devolver Bair ao seu lar.

A viagem entre o Reino Nork-Qor, ao qual o Condado Teir-Ne pertence, e as terras Elarh duravam, pela rota mais segura, 13 meses ou, caso seguissem pela rota não tão segura, 3 meses. A rota insegura, também chamada de A Rota dos Afogados, era usada frequentemente por mercenários devido a inexistência da fiscalização de qualquer reino.

Com uma espantosa tranquilidade, de alguém que estava acostumada a percorrer pela Rota dos Afogados, e comando firme, Dihm guiou a embarcação para a segurança. A tripulação não compreendia como ela o fizera, sabiam apenas que estavam a salvo, a tormenta desaparecia no horizonte logo atrás de si.

Elarh é um pequeno reino desértico, dunas e tempestades de areia são presentes na paisagem, apenas um rio existe para suprir toda a população. Em certas épocas do ano as areias são capazes de cruzar o oceano e chegar em Nork-Qor, onde os anciões dizem que são os espíritos dos que morreram no mar voltando para casa.

Este pequeno reino é divido entre chefes tribais, cada um obedecendo ao concelho formado pelos chefes. É notória a fama que a população possui, são considerados os melhores curandeiros entre os reinos.

Ao atracarem no porto de Elarh, que estava repleto de mercadores em trajes típicos, foram-lhes oferecidas iguarias, curas e viagens. Contudo, sempre que perguntavam como chegar a Lho-Mi-rho, as pessoas se afastavam.

— Por que querem ir a Lho-Mi-rho? – perguntou um homem maltrapilho sentado ao chão junto de garrafas de quolod, uma bebida de alto teor alcoólico.

— É a cidade em que nosso falecido amigo nasceu. Queríamos levar suas cinzas para lá – respondeu Tiago com Dars-Tar o olhando com desconfiança.

— Sabem como eles chamam a Lho-Mi-rho? Chamam de A Cidadela do Ultimo Dia. Acharam um monólito com inscrições que diziam que um monstro iria causar a destruição do mundo, então para evitar isso, cercaram a cidade e nunca mais voltaram.

— Monstro? – Perguntou Dars-Tar lembrando de Jubileu.

— Um monstro que os locais chamam de Barão do fogo. -Respondeu o estranho. — Caso queiram posso leva-los até lá por uma pequena quantia.

Nesse momento Tiago reparou que teve a mesma conversa com Jubileu antes desse se voltar contra ele. A reação do jovem foi um pulo para trás e tomar postura de luta. O movimento do jovem fez o maltrapilho se levantar com uma navalha nas mãos. Dars-Tar e Tiago estavam prestes a começar a brigar com o homem até ouvirem o comando de Dihm.

— PAREM! O que pensam que estão a fazer?

— Eu me ofereci para os levar a Cidadela mas reagiram com punhos cerrados à minha oferta.

— Ele não é um homem confiável capitã. – disse Tiago com raiva nos olhos.

— Ele é o Rico-Homem Gerônimo Roff’n, ou ao menos foi um dia. Não oferece mal algum eu garanto. Mas já que ir a cidadela é tão importante eu guiá-los-ei, claro que tê-lo-ão que pagar-me. – Disse a capitã.

Após considerarem os pros e contras, discutirem o motivo da capitã usar mesóclise, e lembrarem que fugiram de seu lar, servir no Magh-Qril era uma ótima opção. Partiram logo os três após o entardecer.

****

O seco sol de Elarh castigava as três cabeças, a água era escassa, a comida fracionada. A viagem de poucos dias foi alongada pelas tempestades de vento, a areia que ela trazia cortava as peles dos viajantes. Nem mesmo durante as noites a tempestade abrandava. Seus olhos pouco viam, tanto durante o dia quanto após o sol deitar-se.

Os seus sreimir, animais semelhantes a camelos com seis patas, haviam sido sacrificados devido a falta de alimento, suas peles espessas foram usadas para proteger os viajantes. A capitã, que já havia enfrentado situações parecidas no seu treinamento, os manteve vivos.

Numa noite, a tempestade diminuiu tempo o suficiente para permitir que ela se localizasse pelas estrelas. Não tardaram em seguir rumo ao destino, tinham que aproveitar ao máximo o tempo brando que lhes surgiu.

Com quase duas semanas de atraso o Rico-Homem Gerônimo Roff’n, a sua esposa Helena Roff’n e a capitã Dihm, chegaram em Lho-Mi-rho. Os Roff’n, pessoas de influência e da nobreza no reino de Iber, haviam sido chamados pelo concelho de Elarh para investigar um monólito que havia surgido na cidade.

O casal havia a alguns anos decifrado uma pequena placa encontrada em Elarh 200 anos antes. Devido a esse feito, foram os primeiros a serem chamados para descobrir o que havia no monólito. E para se encarregar de que chegariam bem, a NCR Dihm foi contratada para guia-los.

A população estava em polvorosa quando chegaram. Alguns diziam que era uma mensagem dos deuses e por isso se reuniam em jejum para orar em volta da rocha, já outros achavam que era algo ruim e nem mesmo comentavam sobre.

Levaram uma quinzena para decifrar a mensagem, que era bem simples:

Das terras do além-mar ele vira, trazendo dor e ira, assim como veio a lua consigo ha de levar. Por onde pisar caos, sangue jorrará. Corram, corram, pois as chamas os alcançaram. O barão do fogo está vindo e ele não terá piedade.

Por mais que fosse, à primeira vista, uma placa com inscrições estranhas, possivelmente uma versão do fim dos tempos de alguma civilização que há muito desaparecera, a população da cidade enlouqueceu. A loucura começou lentamente a atingir as pessoas, primeiro com os escavadores e aos poucos avançando.

Dihm imediatamente chamou os NCR para controlar a situação, contudo surgiu entre os mais exaltados a ideia de expurgar os males para evitar a vinda do monstro. Logo estavam em bando recrutando os que aceitavam seus ideais, ou por medo ou por concordarem, e matando os que se recusavam.

Enquanto os NCR levariam duas semanas para chegar, a agitação piorava ao surgirem marcas estranhas nos corpos dos que ficavam próximos do monólito. Marcas estas semelhantes às que estavam presentes na rocha.

Para os exaltados as marcas eram um sinal, significava que foram escolhidos para a salvação, isso agravou ainda mais a situação. Quando em Helena surgiram as marcas, ela, que já havia sido abordada pelos exaltados, fora raptada pelo grupo.

Por mais que tentassem a resgatar do grupo, eles nunca a devolviam. A situação se alongou pelas semanas, até que durante a noite os NCR chegaram. Não ouve conversação por parte dos caçadores, chegaram e exterminaram o grupo exaltado, e com eles Helena.

A mente de Gerônimo não suportou ver sua amada entre os mortos. Passou anos perambulando sozinho, logo gastou sua fortuna em bebidas e com objetos milagrosos que prometiam trazer as pessoas de volta a vida. Para não morrer de fome, começou a guiar as pessoas entre cidades, mas nem sempre era requisitado pelos alardes da população que dizia que ele era louco. Passou então a morar no porto de Elarh, oferecendo todo tipo de serviço que podia fazer.

****

Ao chegarem em Lho-Mi-rho, o que viram foram as construções abandonadas tomadas pelas areias. Ao adentrarem pelas ruas da cidadela encontraram o dito monólito, Dihm, o olhava com raiva ou mesmo um temor, já Dars-Tar reconhecia ali a escrita dos monstros e viu que ali estava um feitiço para aprisionamento, já Tiago foi afetado de maneira diferente algo estranho o atraia para a pedra.

Dihm não queria permanecer mais tempo, logo os levou para o cemitério da cidade. Assim que deixaram as cinzas de Bair, Tiago desapareceu, Dars-Tar e Dihm o procuraram ao longo do dia e o encontraram junto ao monólito.

— O que tens na cabeça? – Disse Dars-Tar à Tiago sem obter respostas.

— Ei garoto, estou a falar contigo! – Disse o deus sem obter resposta.

— Olhe os braços dele Tar. – Disse Dihm percebendo que as marcas haviam tomado os braços de Tiago.

Ao se aproximarem de Tiago o monólito rachou, e da fissura saiu uma fumaça que cercou Tiago. Após poucos segundos de dentro da fumaça surgiu uma chama que fora aumentando de tamanho.

— Corram. – Disse uma voz ao longe.

Dihm reconheceu que era Geronimo, mas ainda sim somente recuou quando Dars a levou consigo.

Geronimo havia conseguido mais informações sobre a pedra, e descobriu que um dia alguém iria libertar algo que estava dentro. E Dars sabia que algo dentro da pedra estava a espera da liberdade.

Geronimo, Dihm e Dars correram para uma casa abandonada. Dars então os revelou o que sabia sobre as inscrições na pedra, assim como os demais. Contudo antes de pensarem em como iriam salvar Tiago, o telhado foi atravessado por um punho descomunal. Já não era mais Tiago, sabia o deus.

— Dars-Tar, sábio dos caminhos, mostre sua cara. – Disse o dono do punho.

— E com quem eu falo?

— Hora, não reconhece um velho amigo? Sou Midja, o senhor dos cães astrais.

— Me lembro agora, você é o dono dos cães que atacaram meu povo.

— Posso ter sido preso aqui, mas não vou mais perder tempo, vou destruí-los a todos.

— Então né, como te falo isso, eu sou o ultimo dos meus, e pelo que sei há um dos seus entre os homens.

— Não acredito em seres fracos como vocês. Cães, venham a mim!!!!.

Minutos de passaram até o silencio ser cortado por Dars:

— Eles não irão vir. Devem estar mortos, assim como os outros.

— Mentira!!! Irmãos, venham a mim!!!

— Quando você se cansar de ser tolo, liberte meu amigo e parta, antes que eu perca minha paciência.

— Como ousa me desaviar!!!

— Dars, controle-se! — Disse Dihm percebendo o conflito se aproximando.

— Calma, eu sei o que estou fazendo. Geronimo, você sabe fazer os ritos antigos, não sabe?

— Sim, mas…

— Então faça em nome de Dars-Tar, senhor dos sábios.

Ao iniciar o ritual antigo, que aprendera lendo as tabuas que decifrará com sua esposa, Geronimo viu Dars tomar feições felinas e atacar Midja. O deus aos poucos ia aumentando não só em força mas em tamanho, e na primeira oportunidade sussurrou palavras em uma língua antiga que fizeram Midja libertar Tiago.

Contudo, Tiago permanecia em chamas e enfurecido, as chamas começaram a avançar pela cidade, enquanto segurava Midja Dars disse para Dihm e Geronimo correrem. Não havia o que pudessem fazer se não correr.

Correram, e pararam apenas uma vez para olhar para trás, o que viram foi Dars e Midja em tamanhos descomunais antes de um explosão de fogo varrer a cidadela. Decidido a mudar de vida Geronimo decidiu mudar sua vida, e voltou a sua casa e la vive.”

Ao acabar a história, os ali presentes estavam atônitos e enquanto saíam, o homem que havia perguntado qual história havia o marcado perguntou-lhe novamente agora na presença de mais duas pessoas que ainda permaneciam ali:

— Qual seu nome ancião?

— Nós não usamos nomes aqui viajante.

— Nem mesmo com velhos conhecidos? – Disse um dos homens.

Ao inclinar-se na direção deste homem, este removeu seu capuz e se revelou ser Tiago. Em sua companhia estavam Dihm e Dars.

— Voces?! – Disse o ancião espantado.

— Ola Gerônimo Roff’n.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.