Um grave timbre com um constante aumento de intensidade parece vir do solo, quando as pessoas da cidade consideram-o irritante ou curioso o suficiente decidem-se por escavar o local demarcado. Eu, como um convidado da cidade, tinha as simples funções de observar e me manter alerta para os prováveis perigos que poderiam surgir. A cada vez que a pá entrava e saia do solo trazendo os resíduos, o furioso som, com ecos de profundidade, se afastava de nossa posse, ou assim parecia.

Logo, o especialista da vila em buracos, que possuía anos de experiências nessa misteriosa profissão, reconheceu que terminada nossa busca ao fugaz desconhecido, já que o som parara, terminou em um grande sucesso, informando que acabávamos de descobrir um buraco. Nesse instante eu me aproximei dos outros curiosos e muito me admirou que no final da recém cavidade havia realmente um buraco, não uma caverna ou um túnel, mas simplesmente um buraco. E apesar de já conhecer os conceitos e os procedimentos, havia sido minha primeira vez assistindo a descoberta de um novo buraco.

O buraqueiro, o especialista da vila em buracos, reconheceu o seu tipo, era um daqueles estranhos que não podem ser preenchidos, daqueles misteriosos que enchem sua atenção, te indagam sobre seus conhecimentos mais básicos e brincam com sua intuição. Um buraco que era algo por si.

O buraco se remexia de quando em quando e me aterrorizava um pouco a naturalidade da situação, o buraqueiro parecia fascinado, disse que esse era o buraco que não aumentava, não diminuía, era um buraco que merecia um nome, chamou-o de Buraco. Repetiu Buraco mais algumas vezes e se jogou, buraco adentro. Todos se afastaram, imagino que com receio de serem convencidos.

No dia seguinte, já que me conheciam pelo meu título de monge, fui encarregado por cobri-lo.

— Monge — disse o prefeito da cidade — Eu bem te convidei porque suas histórias se propagaram por nossa terra, porém, com a morte de nosso único buraqueiro, você deveria ser capaz de cuidar de um pequeno caso como esse, certo?

Apesar da sutil indagação, as induzidas afirmações me encurralaram, como era típico, de pessoas desesperadas com pouca consideração por mim.

— Claro — eu respondi prontamente, provavelmente ignorando outros lamentos que iriam seguir.

Com os outros cidadãos, fiz um pequeno muro quadrangular, e fixei uma tampa lacrada com um cadeado no topo desta, sendo a chave entregue ao prefeito.

Nos próximos dias ainda se falava de como o buraqueiro havia cavado a própria cova, muitas vezes, me parecia que o tom dessas conversas era mais de orgulho do que de chacota. Na última noite de minha curta hospedagem ouvi um longo suspiro, me dirigi a janela de meu hotel e vi o meu anfitrião (o prefeito da cidade) sorrindo esburacadamente para a tampa semi-aberta de minha anterior construção.

Parti, pois muito ainda me esperava, mas admito que queria ter podido olhar mais uma vez aquele buraco.