Contos de Outubro
5 Morte
Por mais que seja algo difícil de se lidar, é fato de que a única certeza da vida, é a morte.
Você pode não gostar mas, algum dia, você e todos os que você ama vão morrer. A ciência tenta, desde os primórdios da humanidade, retardar ou até mesmo reverter esse processo. Utilizando de remédios, procedimentos cirúrgicos, entre outras coisas. Porém, até hoje, a morte continua sendo um fato inevitável.
Apesar de ser algo inevitável, a morte também é imprevisível.
Talvez seja por isso que, mesmo sabendo de seu destino, aquele jovem rapaz não sabia o que esperar daquele infame mês de outubro. Estava com uma doença incurável e desconhecida, em estado terminal, e já havia aceitado que não iria sobreviver até novembro. Já havia passado do período de tristeza e havia aceitado sua sina. Porém, a incerteza de como e quando sua morte viria era o que mais ocupava sua cabeça.
Não tinha nenhuma religião, mas gostava da ideia de um além-vida. Ao menos, era reconfortante pensar que haveria algo a mais depois que sua existência neste mundo se esvair. De qualquer forma, não demoraria para que ele descobrisse isso.
Foi em uma noite de outubro que seu corpo finalmente perdeu suas forças. Seus olhos lentamente se fecharam enquanto ele ia de encontro ao sono eterno.
Para sua surpresa, o rapaz se viu em um lugar muito estranho. Era como um vasto deserto decrépito feito de pedra e lama, com o céu completamente preto como uma noite eterna e sem estrelas ou lua. O cheiro era similar a concreto molhado com um leve toque de enxofre. Não fazia frio nem calor, e a única coisa que podia ser ouvida era o mais puro silêncio, interrompido apenas por eventuais sons de metal se chocando contra o chão. O rapaz estava completamente sozinho, e assim ele iria permanecer por muito tempo.
Não havia passagem de dias naquele lugar desolado, mas ele sabia que estava lá há mais tempo do que deveria. Durante este tempo, seu corpo havia entrado em estado de decomposição, até o ponto em que toda a sua pele, músculos e órgãos internos haviam apodrecido, tudo o que sobrou eram seus ossos que, por algum motivo, continuavam conectados. Ele não sentia fome, não sentia sono, não sentia dor. A única coisa que ele sentia enquanto seu corpo lentamente decaía, era solidão.
Já não se lembrava de sua vida antes daquele lugar. A única coisa que ainda estava presente de sua "vida passada" era o lençol preto que cobriu seu caixão no dia de seu funeral, que o rapaz agora usava para cobrir o que restava de seu corpo. Ao longo de suas andanças, o rapaz encontrou diversos objetos peculiares pelo caminho. Joias, roupas, ferramentas, entre outras coisas. Porém, um desses objetos o chamou atenção; uma grande foice com um cabo de madeira adornado. Ele nunca pegava nenhum objeto, porém decidiu fazer uma exceção neste caso.
Após o que parecia ser uma eternidade vagando por este lugar desolado, utilizando um lençol preto para cobrir seu corpo e sua grande foice para se apoiar como uma bengala, o rapaz encontrou algo deveras intrigante. Um grande arco dourado, adornado de forma semelhante a arquitetura grega antiga, que parecia muito bem limpo, polido e cuidado, circundando algo que só poderia ser descrito como uma espécie de portal mágico, com uma potente luz emanando dele e uma aura de paz e beleza emanando de toda a estrutura. Ao olhar para aquilo, o rapaz soube o que era. Ele finalmente sairia daquele lugar, aquele purgatório, e iria para a luz.
Mas algo o impediu de atravessar aquele arco.
Um baixo choramingar vindo de algum lugar, aparentemente longe dali. Sinais de que ele não estava sozinho naquele lugar.
Ele deu meia volta e, sem pensar duas vezes, foi a procura da origem daquele choro.
O homem ficou um bom tempo procurando, seguindo os ecos daquele som naquele lugar desolado que, depois de tanto tempo, já era familiar para ele. Mas finalmente, ele a encontrou.
Uma pequena garotinha sentada no chão com as mãos cobrindo seu rosto, chorando. Ao ouvir o homem chegando, ela levantou a cabeça em sua direção. Sem dizer nada, o homem — que, agora, não se parecia nem um pouco humano — estendeu sua mão para a garotinha, que a segurou, seguindo aquela criatura estranha.
O homem então a levou de volta àquele arco adornado, onde ela acabou lhe contando que havia vindo junto com sua mãe para este lugar, mas havia se perdido dela. Os dois se despediram, com a promessa de que ele a encontraria, e a garota atravessou o arco para o outro lado.
Desde então, o homem aceitou seu papel. Ele se encarregou de encaminhar as almas que acabavam entrando naquele lugar para o arco dourado, o além-vida.
Em diversas mitologias pelo mundo, ele era o que as pessoas chamavam de "Morte", ou "Ceifeiro". Com a eterna função de ser o guia para as almas perdidas.
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