Contos de Europa
5 Cássio
Notas iniciais
Depois do incidente na floresta, eu percebi que não me preocupava nem treinava as habilidades que possuía. Sendo assim, passei a pensar mais nelas. Concluí que não chegaria nem aos pés de Brisa, se não treinasse, pois ela era bastante poderosa e controlava muito bem os próprios poderes. Já eu só sabia me dissolver nas sombras — habilidade que usava para roubar docinhos da despensa de casa, quando era criança. Brisa foi a motivação para que eu começasse a descobrir e treinar outros poderes, saber do que eu era capaz. Desde o dia que eu a conheci, havia passado a praticar várias horas por dia, sempre com a supervisão de meu pai.
Descobri vários poderes. Eu poderia me orientar muito bem no escuro, sentir ou modificar a aura de algum lugar ou pessoa, invocar objetos ou esqueletos vindos do submundo ou até matar alguém com um simples toque. Esse último exigia muita concentração, tanto para realizá-lo quanto para retê-lo. Felizmente, minhas tentativas de usá-lo foram com plantas ou animais que virariam alimento. Não havia testado com pessoas.
O único poder que eu não me sentia confortável em usar era o que me permitia conhecer, explorar ao máximo e usar os medos das pessoas contra elas próprias. Eu me senti sujo quando testei-o com um dos serviçais de minha casa. Concentrei-me em entrar na mente dele e descobri que ele temia lugares em chamas. Quase não percebi quando provoquei uma ilusão no cômodo. O homem, de aproximadamente uns trinta anos, gritava como uma criança. Meu pai, que sempre acompanhava meus treinos, não entendia o que estava havendo, então percebi que a ilusão do medo era apenas visível para aquele que a executa e aquele que possui o medo. Era como se o homem tivesse contado um segredo apenas para mim, e agora todos, exceto eu e ele, estavam alheios a seu sofrimento. Para mim, isso era invasão, então jurei que não faria, a não ser que fosse estritamente necessário.
Em contrapartida, uma das habilidades que eu mais gostava era a de invocação, pois eu poderia tirar coisas realmente incríveis do Submundo. Certa vez, quando invoquei um pequeno portal para testar minhas habilidades de invocação, peguei uma Flor Negra. Esse tipo de flor pode tanto retardar a morte de uma pessoa quanto adiantá-la, dependendo da pétala que se coma. Mas, para reconhecer a pétala, uma simples pessoa não conseguiria, mas um escolhido de Plutão, sim. Eu conseguia sentir qual pétala levaria alguém à morte. Era fácil para mim. Guardei a flor e decidi usá-la, quando precisasse. Uma outra vez, praticando essa mesma habilidade, peguei uma pedra azul escura. Era linda, e eu suspeitava que teria alguma utilidade no futuro, então fiquei com ela e passei a usá-la como um amuleto.
Eu estava treinando avidamente, todos os dias, e meu pai parecia se impacientar. Ele já não prestava atenção nos meus progressos e ficava sentado, pensativo, enquanto segurava seu medalhão de Comandante. Então, um dia, ele disse:
– Cássio, você está se dedicando demais a esse treinamento. Descanse um pouco, certo?
– Meu pai, eu quero melhorar. — disse eu — Quero superar... — calei a boca, antes que falasse sobre Brisa. Eu não contaria sobre ela, a menos que a própria permitisse.
– Superar...? — tarde demais, ele havia percebido, mas eu enrolei.
– Superar a mim mesmo. — falei.
– Está bem, meu filho. — ele sorriu — Mas não se canse assim, todos os dias. Isso não fará bem. Saia, vá à Floresta, cace. Você vai ver, isso te ajudará. Nada exagerado é bom.
– Sim, pai. — respondi.
– Muito bem. Vá, mas volte antes do anoitecer.
Então me preparei exatamente do jeito que havia me preparado no dia que conheci Brisa: uma mochila com facas e frutas. Só haviam algumas coisas diferentes: na mochila, eu também levava a Flor Negra, e, no pescoço, usava a pedra azul, que estava sendo segurada por uma corda prateada, delicadamente trançada.
Verifiquei tudo e peguei a mesma trilha que sempre pegava. Andei pela Floresta, as facas em punho, procurando presas e deixando algumas poucas armadilhas preparadas, que fiz usando alguns materiais que encontrei pela Floresta, como arames, garfos, pedras, musgo, folhas e flores venenosas.
Quinze minutos depois, tendo dois coelhos abatidos nas mãos, voltei para verificar as armadilhas. Pelo visto, os animais estavam mais espertos, já que, de três armadilhas armadas, uma só havia pego um mísero esquilo. Mas era mais do que o suficiente. Minha família tinha apenas quatro pessoas, só possuíamos oito empregados, sendo que quatro deles não comiam carne. Fora isso, tínhamos queijos, leite, frutas, cereais, verduras e muito mais coisas em casa. De fome nós não morreríamos.
Voltei pelo caminho que levava à trilha. Eu havia marcado as árvores com uma faca, então não me perderia. Mas, voltando para casa, percebi algo que não havia visto antes: um papel estava colado em uma das árvores e tinha escrito "Você Viu Essa Pessoa?". De início, eu não percebi nada de mais na foto da pessoa. Contudo, depois de algum tempo observando, me dei conta de que era uma versão um pouco mais nova de Brisa. Ela usava uma roupa cinza deprimente e estava visivelmente triste, mas também havia raiva em seus olhos.
Levei algum tempo para assimilar as ideias e me dar conta de que aquilo era real. Porém, assim que acordei do meu pequeno transe, fui inundado por uma enorme carga de energia e, antes que eu mesmo percebesse, já havia me transportado através das sombras para perto do abrigo de Brisa.
– Brisa! — chamei — Brisa, você está aí?
Eu sabia que ela estava. Concentrava toda a minha energia em sentir a aura dela. Brisa estava agitada e preocupada, mas, quando eu a chamei, percebi que ela tinha se acalmado.
Alguns segundos depois, ouvi-a responder.
– Estou. — ela apareceu na varanda do terceiro andar do pequeno prédio. Tinha os cabelos desarrumados, as roupas amassadas e estava se enrolando na própria capa. Parecia que havia acabado de acordar, mas, ainda assim, estava bonita — Você pode subir, por favor? Quero falar com você.
Eu não respondi. Apenas me adiantei e, usando o resto de energia e adrenalina que ainda me restava, dei um pulo poderoso e me agarrei na grade da varanda do segundo andar. A partir dali, escalei o lugar e cheguei ao abrigo de Brisa. Não tinha muita coisa, apenas uma mochila jogada num canto, um colchonete perto dela, e, no outro extremo, estavam os suprimentos de Brisa: algumas frutas e o resto da caça. Olhei para o chão e percebi que estava em cima de uma estrutura de madeira, muito bem construída e fixada, que cobria toda a sala do antigo apartamento. Era óbvio que, se o piso caísse devido ao tempo, isso não deixaria nem Brisa nem suas coisas caírem. Era uma boa ideia.
– Brisa... — falei enquanto ainda olhava o pequeno cômodo.
– Precisamos conversar. — ela completou.
Balancei a cabeça de leve e então peguei o papel. Enquanto eu o desdobrava, ela pegou outro papel, também o desdobrou e me mostrou, ao mesmo tempo que eu mostrava o que eu tinha. Para minha surpresa, eram iguais!
– É, eu já sei. — ela falou enquanto inclinava a cabeça para o lado e mordia o lábio inferior — O assunto que quero falar com você tem a ver com isso. Mas, primeiro tenho que contar algo.
"Eu nasci e cresci em Solis, cidade que é mal vista por causa do grande número dos malditos Canalizadores. Quando nasci, minha mãe percebeu que eu era escolhida de Apolo por conta de uma marca que eu tenho nas costas — um Sol. Acredito que você, sendo escolhido de Plutão, deva ter uma semelhante, mas com o desenho do elmo das trevas. Bom, alguns dias depois de eu ter nascido, houve um ataque de Ghouls, lá em Solis, e minha mãe morreu tentando me defender. Então, ficamos apenas eu e meu pai, e ele nunca contou para ninguém sobre eu ser uma escolhida. Mas, um dia, ele resolveu abrigar uma viajante, e ela ouviu uma conversa em que meu pai dizia claramente quem eu era. Eis que essa mulher era ama da Imperatriz e contou o que havia descoberto para sua patroa e amiga. A Imperatriz, por sua vez, decidiu que uma bênção tão rara, quase inexistente como a minha, deveria ser aproveitada, e declarou que eu, provavelmente, seria a próxima Imperatriz. Logo a notícia se espalhou por Solis. Foi assim que apareceram os Canalizadores em minha porta. Eles enrolaram meu pai direitinho e ele permitiu que me levassem. Lá, com os Canalizadores, eu sofri um tratamento terrível e, quando não tentavam fazer com que eu possuísse o poder de mais um deus, me trancavam em um quarto escuro e frio, junto de mais algumas pessoas. Conversando com eles, eu descobri muita coisa sobre os métodos dos Canalizadores e também sobre os Rastreadores. Durante o tempo que eu passava sozinha, eu também descobri e aprendi a controlar os poderes que tinha."
"Depois de sofrer as mais diversas tentativas, eu, finalmente, consegui o poder de Vulcano, mas já estava cansada daquilo e usei minhas novas habilidades para descobrir os mecanismos das fechaduras de portas e janelas e fugir daquele lugar triste."
"Estava tudo bem até eu ter o sonho de hoje. Sonhei que conversei com Apolo, Cássio. Ele foi muito carinhoso comigo e me alertou sobre algumas coisas. Confirmou a informação de que tem Rastreadores atrás de mim, e disse que as pessoas pensam que eu não quero ser Imperatriz. Eu realmente não quero, mas é a única maneira de melhorar esse império, ajudar as vítimas dos Canalizadores, acabar com as coisas ruins que ainda existem por aqui. Sendo assim, ele me disse para fugir dos Rastreadores, para continuar viva por um tempo e tomar meu posto de Imperatriz. Mas ele disse que eu vou precisar de você."
Fiquei calado por algum tempo. A vida de Brisa parecia ter sido muito ruim, mas ela falava com segurança, talvez convertendo a raiva. Ser cobaia de um Canalizador não era algo bom. Eles faziam experiências dolorosas em suas cobaias. Injetavam misturas e mais misturas, que corroíam não algo físico, mas simplesmente a vontade de viver. Os efeitos iam desde a falta de ar e paralisia até a sensação de combustão interna e expansão dos vasos sanguíneos, algo que era realmente extremamente doloroso. Poucas pessoas sobreviviam, e a maioria dos sobreviventes ficava traumatizada pelo resto da vida. Sempre me diziam que os covis dos Canalizadores ficavam abaixo da terra, para que não fossem ouvidos os gritos de dor e desespero das cobaias. Eu acreditava.
Dei minha resposta com firmeza.
– Eu vou.
Brisa sorriu e, novamente, inclinou a cabeça.
– Mas, Brisa... Para onde nós devemos ir exatamente? — perguntei, imitando-a e inclinando a cabeça.
– Bom, sempre que uma Imperatriz ou um Imperador que são escolhidos por algum deus assumem o poder, ele ou ela vai para o templo do deus que a abençoou. Foi assim com Iracebeth, escolhida de Mirana, Ícaro, que era escolhido de Caellum, e Ettore, escolhido de Vita, certo?
– Certo. Então, como você é escolhida de Apolo, terá que ir até o templo dele. Certo?
– Certo.
Para minha surpresa, Brisa me contou que, no sonho, havia conseguido proferir uma palavra do Aeorien.
– Você o quê? – falei, surpreso.
– É. — respondeu ela — Também me surpreendi na hora. O chão do lugar começou a sacudir muito, como se quisesse criar pernas e sair andando, livre. E... aquela única palavra me deixou mal, Cássio. Mal mesmo. Por um tempo, eu não consegui falar, que dirá me levantar. Mas Apolo me ajudou e me disse para tomar cuidado ao falar o vocabulário dos deuses.
– Imagino. — falei.
Conversamos um pouco mais sobre o sonho de Brisa. Ela descreveu o lugar com detalhes, e eu consegui imaginar como ele deveria ser. Também falou do deus e de como ele havia sido bom com ela. Ela sorria cada vez que se lembrava.
Então, quando já estava perto de anoitecer, eu me despedi de Brisa, saltei a grade do apartamento e fui embora, ainda com a garantia de que fugiríamos no dia seguinte.
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