Contos de Europa
2 Cássio
Notas iniciais
Acordei atordoado aos pés de uma árvore. Eu estava em uma clareira, a mesma a qual vi a presa que eu abateria. Não era uma clareira qualquer. Tinha ruínas de construções de antes da guerra, todas destruídas. Havia pedaços de vidro de antigas janelas espalhados em um canto, e madeiras meio comidas por cupins em outro. Algumas paredes de uma antiga casa ainda resistiam ao tempo e permaneciam de pé. Plantas cresciam em volta daquilo tudo: trepadeiras subiam pelos muros, raízes de árvores destruíam antigas calçadas e flores brotavam em todos os lugares. Era um ambiente incomum, no entanto, era intrigante e bonito de se ver.
Fiquei um pouco desnorteado, mas então lembrei do motivo de estar desmaiado ali. Procurei vestígios de sangue em minhas roupas, em meus sapatos, pela grama, mas simplesmente não encontrei. Não havia nenhum sinal de que uma flecha havia acertado meu coração, nenhuma cicatriz, nada. Isso me deixou bastante confuso. Será que eu dormi por muito tempo e o ferimento sarou?, pensei, Não, não é possível. Se ninguém cuidasse de mim, certamente eu já estaria morto. Mas... Minha cabeça começou a dar voltas, porém, não parei os questionamentos até perceber que havia alguém à minha frente.
Ela estava de costas e olhava para cima, para o céu. Do meu campo de visão só dava para enxergar sua capa verde escura que ia dos ombros aos tornozelos, e seu cabelo castanho e longo que tremulava para um lado, dançando com o vento.
Tentei levantar-me sem que ela percebesse, mas a tentativa foi frustrada. De algum modo, a garota me ouviu e virou-se para me encarar. Tinha o arco em punho e bastantes flechas na aljava, e eu sinceramente não queria ser ferido outra vez.
Vi suas roupas com mais clareza: uma blusa branca e leve, aberta na frente, estava sobreposta à uma outra amarela. Usava saia também branca e coturnos marrons. Não sei se era sua roupa, mas parecia que ela emanava luz.
– Quem é você? — perguntei, tentando manter o tom calmo — Foi você que atirou em mim?
– Brisa. — ela respondeu e inclinou um pouco a cabeça para o lado — E não, não atirei em você. Na verdade, ninguém atirou.
Ela se ajoelhou na minha frente e eu pude enxergar seu rosto. Definitivamente, ela era linda. Sua face era harmoniosa, com olhos verdes quase da cor de sua capa, nariz e queixo pequenos, maçãs levemente coradas e lábios rosados e carnudos. Sua pele era parda, de um tom bonito e ela com certeza emanava luz. Era dourada e fraca, porém perceptível, e se misturava perfeitamente com o tom de pele da garota, deixando-a ainda mais bela. Essa luz penetrava em meu olhos como um sensação suave, um equilíbrio que contrastava com minha preocupação inicial e, ao mesmo tempo, me deixava assustado. Como posso me sentir tao calmo e receoso, tudo ao mesmo tempo? , perguntei a mim mesmo.
Parei de analisar suas características e os efeitos de sua luz quando me dei conta do que ela havia dito.
– O quê? — questionei enquanto me levantava — Como assim "ninguém atirou"?
Ela revirou os olhos, como se estivesse entediada de responder a mesma pergunta diversas vezes seguidas.
– Foi só uma emoção em forma de visão. — falou — Chame de E-View. — Brisa entendeu minha expressão de dúvida e continuou a explicação — Você viu a minha emoção quando olhou nos meus olhos. Quando você chegou de repente, a minha primeira intenção era de te matar, para minha própria proteção, claro. Poucas pessoas transmitem as emoções através do olhar e as que transmitem podem ser perigosas.
Eu demoraria algum tempo para assimilar as ideias, porém, Brisa não queria esperar. Ela me encarou e perguntou:
– Quem é você?
– Cássio, filho de Marco.
Ela me olhou de cima a baixo, com a testa franzida e mordendo o lábio inferior. Parecia uma estilista que estava avaliando as roupas que eu vestia. Depois de um tempo, ela falou:
– De Égia, devo supor. E... um escolhido de Plutão, correto?
Ergui o olhar. A pergunta me atingiu em cheio, como uma pedrada.
– Como sabe? — perguntei, incrédulo.
Brisa apontou para um ponto escuro da Floresta. Tinha sido dali que eu havia saído para abater a falsa presa e, para o meu azar, ela viu. Não adiantava mais negar. Balancei a cabeça em afirmativo.
A verdade? Tive uma enorme vontade de matá-la. Senti meus batimentos cardíacos acelerarem e comecei a ofegar enquanto percebia que todos os músculos do meu corpo se contraíam, preparando-me para o ataque. Brisa estava armada, eu não. Mas, quando a adrenalina invadia meu corpo, eu era capaz de fazer coisas realmente horríveis com minhas próprias mãos.
Fechei os punhos e contei até dez. Mesmo que eu quisesse e que toda a adrenalina disponível em mim fosse liberada, uma luta com Brisa não seria nada fácil. Ela era poderosa, e isso eu não tinha como negar. Além do mais, eu tinha muitas perguntas a serem feitas, muitas dúvidas a esclarecer. Brisa não tiraria essas dúvidas se estivesse morta.
Eu queria pegar minha mochila, checar meus suprimentos e armas. Estava indo fazer isso, mas Brisa me ofereceu uma fruta.
– Sente-se e coma. — ela disse e eu obedeci.
A voz dela era firme, porém ela continuava segurando o arco, o que, para mim, indicava medo e precaução. Se ela fosse inteligente teria confiscado minhas facas, mas eu não me atreveria a ir checar essa possibilidade. Admito, eu estava com medo e a luz que emanava dela reforçava isso. Luz...? Aquilo só poderia significar... Mas era muito raro...
– Apolo. — falei sem pensar.
Brisa me encarou e eu tomei o cuidado de não olhá-la nos olhos. Poderia imaginar os vários tipos de morte que ela devia estar preparando para mim.
– O que você disse? — indagou ela.
– Só pode ser isso. Você é uma escolhida de Apolo. O arco, a luz que emana de você, tudo reforça essa ideia. — falei.
Ela assentiu e sua luz começou a se apagar lentamente. Franzi a testa e estava prestes a enchê-la de perguntas a respeito do que estava acontecendo, mas ela entendeu novamente a minha reação.
– Essa luz é uma defesa. Ela reduziria a potência de seus golpes e afastaria suas facas se você, por acaso, resolvesse que era melhor me matar. Ela se ativa quando eu fico tensa ou com medo. Adrenalina. Isso é o que a move.
Ficamos calados por longos e longos segundos, cada um estudando o outro, como se no dia seguinte fosse haver uma prova.
Examinei as flechas dela: eram de metal e pareciam bastante perigosas. O arco também era de metal e eu tinha a impressão de que pesava mais do que parecia. Cerrei um pouco as pálpebras de meus olhos e vi um pequeno símbolo: uma espiral rodeada por sete triângulos, formando um sol. Era o símbolo de Solis, a cidade que ficava a leste da Floresta de Frígia. Eu ia perguntar se Brisa era de lá ou se ela havia roubado o arco, mas uma sensação esquisita invadiu meu peito.
A aura da Floresta tinha mudado drasticamente, de um minuto para o outro. Ainda era dia e, olhando para as sombras que o sol projetava, não passava das doze horas. Contudo, a Floresta pareceu ficar mais escura, mais fria e... mais triste. Era uma aura de morte, eu podia sentir. Brisa também parecia ter percebido. Ela olhava de um canto a outro, para todos os pontos escuros atrás de árvores, de grandes pedras e também de algumas ruínas. Pude ver sua luz aumentando, protegendo-a. Adrenalina., ela havia dito, Isso é o que a move. Eu sentia o mesmo.
Procurei com os olhos por minha mochila. Queria pegar minhas facas, se elas estivessem lá. Tão logo a vi, uma besta enorme pulou em meu peito.
Eu estava desarmado mas tentava manter o bicho longe de meu rosto a todo custo. Brisa foi minha salvação. Ela atirou uma pedra e desviou a atenção do monstro para si mesma. Ainda bem, pois a besta se mexia tanto que até o melhor arqueiro teria dificuldade para acertá-la em vez de mim. O bicho correu em direção a Brisa, que apontou a flecha para seu rosto e o atingiu no olho. Porém, ele continuou avançando. Brisa preparou outra flecha, mas o monstro saltou, abocanhou seu arco e o jogou longe, antes que Brisa o detivesse com sua luz protetora.
Eu precisava ajudá-la e era isso que iria fazer.
Corri até minha mochila e procurei por minhas facas. Elas não estavam lá. Eu estava certo, Brisa realmente as havia confiscado. Eu a ouvi gritar meu nome e virei a tempo de ver minhas facas passando por cima da cabeça do bicho. Peguei-as e atirei algumas na besta, que estava sendo repelida pela luz de Brisa, que parecia ficar cada vez mais forte. Eu estava coberto de suor, mas não desisti. Aquela luz parecia me dar forças.
Joguei mais algumas facas e isso pareceu atrair a atenção do monstro. Ótimo, pensei, objetivo concluído. Corri o máximo que minhas pernas permitiam e me dissolvi em meio às sombras. Quando reapareci, estava do lado do arco de Brisa. Peguei-o, mirei a flecha meio quebrada na besta, fechei os olhos e atirei.
Quando abri os olhos, Brisa estava sentada em uma pedra redonda e, alguns metros longe dela, jazia a besta enorme.
O monstro era um cachorro gigante. Tinha caninos enormes e protuberantes que tinham quase o mesmo tamanho do meu ante-braço e seu pelo era escuro e seboso. Em sua cabeça estava perfeitamente cravada a flecha que eu havia atirado.
Brisa parecia cansada e ofegava bastante. Talvez aquela luz gastasse mais energia do que eu imaginava.
– Ghoul? — finalmente falei, ainda ofegante.
Ela fez que sim com a cabeça.
– Essa não é uma boa caça.
Ela sorriu e concordou novamente. Comer ghouls era perigoso. Eles levavam as infelicidades em sua carne e se você o levasse para o jantar, de certeza ficaria com elas também. Algumas pessoas tentaram essa proeza e o resultado foram isolamentos forçados e mortes. Definitivamente, não era uma boa caça.
Aquilo me deixava pensativo e irritado. Tudo bem que a deusa mãe, Magna, não criou nem criaria uma espécie como aquela, eles simplesmente nasceram do Nada, do Vácuo. Mas ela não poderia simplesmente destruí-los? Seria muito mais fácil para nós, humanos, vivermos em paz, alegria e harmonia. O mal e os maus não existiriam. Tudo seria realmente melhor. Será, Cass?, diria o meu pai, Talvez a grande mãe achasse que eles seriam uma fonte de aprendizado para nós. Lembra-se? Num piano, também deve-se usar as teclas negras. Na vida, devemos aprender com as coisas ruins que nos acontecem. Só assim teremos uma boa música.
Meu pai era um homem bastante sábio, mas eu não tinha tempo para pensar sobre seus ensinamentos. Eu tinha que levar a caça para casa.
Levantamos e fomos caçar. Ao final de uma hora havíamos pego dois coelhos, três patos e um cervo. Eu fiquei com o cervo e dois patos, e Brisa — que provavelmente não tinha quase nada — com o resto.
A despedida foi simples, nada de especial:
– Obrigada por não me matar,... Cássio. — ela disse.
– Não há de quê. — respondi — Digo o mesmo, Brisa.
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