Contos de Europa
11 Brisa
Notas iniciais
– A dor começou fraca, como uma dor de cabeça — eu expliquei.
Cássio queria detalhes do que eu senti quando a Harmonia veio nos fazer uma visita. Ele estava preocupado e me parava a cada cinco minutos para perguntar se eu estava realmente bem, o que era irritante, porque eu estava realmente bem. A dor causada por uma deusa da pureza não causava sequelas, mas meu amigo parecia não entender isso. A única maneira de fazer com que ele não verificasse a minha saúde a toda hora foi falar e falar sobre a experiência, então continuei:
– Depois de um tempo, essa dor começou a aumentar, aumentar e aumentar. Começou na cabeça, depois passou para a parte atrás dos olhos, depois minha língua e minha boca ficaram dormentes, minha garganta passou a doer e as cordas vocais pararam de funcionar ao mesmo tempo que minhas pernas ficavam dormentes e eu não conseguia andar. Nessa parte, eu já tinha certeza de que a Harmonia estava bem perto. Me arrastei pelo chão enquanto sentia meu estômago revirar e todo o resto dos meus órgãos ficarem perto de parar, menos o coração e o pulmão. Foi então que vi a deusa se aproximando e fiquei paralisada por mais tempo do que eu possa me lembrar, apenas encarando-a. Minha garganta doía muito, mas consegui gritar e te acordar. Enquanto você lutava, Cássio, eu sentia como se meu pulmão estivesse diminuindo pouco a pouco. Minha traqueia trambém. A essa altura do campeonato já estava bem difícil respirar, mas tentei aguentar mais um pouco. Eu não estava preparada para aquilo e sabia que, se a Harmonia se aproximasse mais, a dor seria muito mais intensa. Então usei a luz. Não lembro muito do que aconteceu depois. Vomitei, eu acho...
– É — disse Cássio — E eu desmaiei.
Soltei uma risada um pouco alta demais.
– Jura? — perguntei — Eu me arrastei até um sofá e desmaiei logo depois de você.
Ele riu baixinho. Já havíamos andado alguns bons quilômetros, pois estávamos cansados de voar. Lá de cima só víamos árvores, árvores e mais árvores. Isso se olhássemos para baixo. Todos os outros lados eram só nuvens e, por mais que eu gostasse delas, era meio irritante olhar para algo que se repete em todos os lugares.
Andar pela Floresta era totalmente diferente daquilo. De um lado podia-se ver árvores, e do outro um lindo arbusto com flores. Embaixo havia a grama. Em cima, copas de árvores e pedaços de céu. Uma hora ou outra encontrávamos animais com seus filhotes, e isso era um bom presságio. Animais se localizam onde há comida para eles, então, muito provavelmente, se encontrássemos um pássaro que se alimentasse de frutas, poderíamos supor que havia muitas dessas frutas pelas redondezas. Cássio sabia disso porque estava acostumado a caçar na Floresta. Eu sabia porque tinha lido.
– Olha ali — apontei para uma árvore de pelo menos três metros de altura carregada de frutos vermelhos — Maçãs. Muitas, muitas maçãs.
– Quem tá com fome? — Cássio perguntou e eu levantei a mão.
Apostamos corrida até a árvore e vimos quem pegava mais frutas. Cássio escalava com rapidez, mas se desequilibrava muito. Eu era menor, mais leve e ligeiramente mais ágil. Quando acabamos, eu tinha dezessete maçãs, e ele, quinze.
– Ganhei — eu disse, pulando na frente dele — Dezessete contra quinze. Você já era, filho de Marco.
Ele gargalhou. Depois, me olhou de um jeito estranho e sorriu em seguida.
– Percebeu que já nos falamos normalmente? – indagou enquanto se sentava perto de uma grande árvore. Estávamos em uma parte relativamente escura da Floresta, mas os espaços entre as copas das árvores deixavam que pequenos fachos de luz passassem, deixando o lugar mais bonito.
Fiquei admirando as luzes, e quando percebi que Cássio havia feito uma pergunta, estava sorrindo. Olhei para ele e fiz cara de boba.
– Ah, é — me fingi de desentendida, mas sabia do que ele estava falando — Nem percebi.
Em Europa, quando você conhecia alguém novo, era costume ser cortês e falar, digamos, impecavelmente. Era uma questão de respeito para com a outra pessoa. Falando educadamente com ele ou ela, deixávamos claro que estávamos dispostos a sermos amigos ou nos afastarmos, de acordo com o desejo da pessoa. Essa regra só era obrigatória para as pessoas mais velhas que fossem de nossas famílias, como pais, mães e avós, por exemplo. Com eles, tínhamos que demonstrar respeito sempre.
O fato de Cássio e eu estarmos nos falando normalmente era uma prova de que já éramos amigos. Eu gostava disso.
– É legal – ele falou enquanto sorria de um jeito bobo.
– O quê? – perguntei.
– Nos conhecemos há mais ou menos uma semana e já estamos nos falando normalmente – falou.
Concordei. Geralmente, levava bem mais de uma semana para falarmos normalmente com as pessoas que tínhamos conhecido há pouco tempo. Duas ou três semanas era o tempo médio. Mas, geralmente, as pessoas que conhecíamos não conviviam tanto conosco. Cássio e eu estávamos em uma missão juntos, quase não saíamos de perto um do outro. Com essa convivência, era claro que levaríamos muito menos tempo para nos falarmos normalmente.
Porém, mesmo ficando a maior parte do tempo com ele, não o via falar muito sobre seus poderes. Era algo que me deixava curiosa, já que não é todo dia que eu encontrava um escolhido de Plutão. Eu sabia que Cássio podia se locomover pelas sombras e sentir a aura de morte de algum lugar. Fora isso, não sabia mais nada sobre seus poderes. Uma hora ou outra eu perguntaria.
Depois que comemos algumas das maças, guardamos as que tinham sobrado em nossas mochilas, Cássio afiou suas facas e eu conferi minha aljava. Foi então que percebi que Cássio tirava algo de sua mochila. Vi que uma parte bastante escura com desenhos de aparência antiga se assemelhava a uma bainha, então concluí que era uma espada. Quando Cássio removeu a parte desenhada, não pude conter uma exclamação.
– Caramba... – isso fez os ombros de Cássio sacudirem e ele começou a rir. Mas minha surpresa tinha justificativa: a espada era linda. Tão linda quanto a bainha. Era completamente preta, desde o pomo até a ponta, e era decorada com várias palavras do Aeorien, todas pintadas em dourado. O pomo tinha o desenho de dois leões se enfrentando e o guarda-mão era simples e curvo para cima. Tinha um metro de comprimento e parecia bem pesada. Pedi para segurá-la e Cássio a passou para mim. Assim que a peguei, a espada levou meu braço ao chão.
– Deuses, — falei – isso pesa quanto?
– Com certeza, não pesa mais que você – Cássio respondeu, sorrindo, e tomou a espada de minha mão – Essa aqui está na minha família há seis gerações e, por mais incrível e impossível que pareça, nunca tirou a vida de ninguém, a não ser ghouls.
– Nossa... – eu disse. Mas então reparei em algo mais importante – Espera... Repete o que você falou.
– Por mais incrível e impossível que pareça, nunca tirou a vida de ninguém, a não ser ghouls?
– Não, não... Antes disso.
– Essa aqui está na minha família há seis gerações?
– Isso, isso. Seis gerações, Cássio? – perguntei – Você tem certeza?
– Tenho – ele disse.
– Se são seis gerações, essa espada está na sua família há mais ou menos quatrocentos anos, certo?
– Já que o tempo de vida médio da população mundial é de setenta anos... Sim. Pode-se dizer isso. Mas o que é que tem?
– O que é que tem?! – subi na raiz protuberante de uma árvore, tentando ficar da altura de Cássio. Sem êxito – Essa espada tem bem mais de quatrocentos anos, Cássio. Qual foi o evento histórico e catastrófico que fez com que Europa se tornasse um império e que aconteceu há quase trezentos anos atrás?
– A Grande Guerra – Cássio parecia estar entendendo.
– Certíssimo – falei – Essa espada é mais antiga do que a Grande Guerra.
– Mas, essa espada tem palavras do Aeorien gravadas. Há quatrocentos anos atrás, os deuses ainda não tinham se revelado... Pelo que você me disse, eles só vieram a se revelar depois da guerra.
– Isso mesmo. Não há nenhuma prova de que eles tenham contatado a humanidade de antes da guerra. Os únicos contatos eram datados de mais de dois mil anos, antes de uma pessoa chamada Jesus Cristo, que, por sinal, era um cara muito bom.
Cássio me encarou com cara de que já havia entendido tudo. Se os únicos contatos conhecidos eram de mais de dois mil, talvez três mil anos atrás, e os deuses nunca mais haviam se comunicado com humanos até trezentos anos atrás, como uma espada que tinha uma idade cem anos maior que isso podia ter palavras do vocabulário deles?
Cássio tinha conseguido uma explicação:
– Isso quer dizer que... Os deuses falaram com humanos antes de a guerra acontecer. Só pode ser isso.
– Espera, espera... Você está querendo dizer que os deuses tinham escolhidos secretos? – perguntei.
– Não precisariam necessariamente ser escolhidos. Talvez uma guarda...
– Mas pra quê deuses precisariam de uma guarda?
– É verdade... Escolhidos... É a melhor hipótese que temos. Aliás, será que ainda existiam ghouls naquela época?
– Acho que sim – respondi, enquanto descia da raiz da árvore – Não acho que seja possível erradicar os ghouls. O Vácuo criaria mais, com certeza. Eles talvez tenham sido designados para conter os ghouls.
– Espera... Eles? – Cássio perguntou. Agora ele prendia a bainha da espada usando um cinto de couro também escuro – Você acha que havia mais de um?
– Claro. A população na Terra era bem maior do que é hoje. Seis continentes. Não é possível que apenas um escolhido devesse matar todos os ghouls que ameaçassem a humanidade.
– É, faz sentido – Cássio respondeu enquanto embainhava a espada. Ele pegou a mochila e começou a andar. Eu o segui – Você viu o desenho no pomo da espada?
– Os dois leões? Vi sim.
– Sabe o que significa? – ele perguntou com expectativa, e eu respondi.
– É o símbolo de Animália.
– Sim. O antigo dono dessa espada era um escolhido de Animália. Essa espada só é passada para aqueles que são escolhidos de algum deus. A cada novo dono, ela muda o desenho do pomo. Agora ela é minha, mas não mudou o desenho.
Ele disse aquilo com desgosto na voz, o que me deixou triste.
– Talvez você tenha que provar que é o dono dela – falei – Numa primeira luta, quem sabe.
– É, talvez.
– Se eu usá-la, ela poderia mudar o símbolo? – perguntei. Sempre adorei espadas. Tanto que, se um dia estivesse a ponto de ser assassinada, meu último pedido seria morrer por uma espada.
– Muito provavelmente, não. Acho que essa espada deve ter sido forjada por pessoas da minha família. Se foi, com certeza fizeram um pacto de sangue durante a forja.
– Pacto de sangue? Sua família parece ser legal – falei e sorri. Um pacto de sangue significava que o forjador havia colocado, literalmente, seu sangue na forja. Com um pacto daqueles a espada só permitia que aqueles que seus utilizadores fossem da mesma linhagem sanguínea de quem a forjou. Caso contrário, a espada adquiria um peso inimaginável e quem não tivesse o sangue do pacto não conseguiria usá-la.
Lembrei do momento em que segurei a espada pela primeira vez e o peso que me puxou para baixo e confirmei a suspeita de Cássio.
– Com certeza é um pacto de sangue. Lembra de quando segurei a espada?
Ele balançou a cabeça afirmando.
Continuamos andando, só que em silêncio, durante vários metros. Chegamos a um ponto da Floresta em que as plantas eram baixas e muito emaranhadas umas nas outras. Lá era mais claro, pois as árvores eram menores, e suas folhas, bem menores em relação às que tínhamos visto alguns metros atrás.
Cássio foi na frente, cortando com suas facas as plantas que impediam a passagem. Como ele era bem maior que eu, não conseguia ver quase nada e, quando ele parou, me bati sem querer em suas costas.
Murmurei um “desculpe” e me movi para ver o que estava acontecendo na frente dele. E me surpreendi.
A mais ou menos seis metros de distância de nós, havia um lindo riacho de águas azuis. A visão era linda, mas não era para o riacho que Cássio olhava. No meio das águas, em cima de uma pedra, estava uma das meninas mais bonitas que eu já havia visto. Tenho que admitir. Ela tinha olhos azuis claros, nariz pequeno e fino, uma boca fina e cabelos tão escuros que chegavam a ser azuis. Estava bronzeada, usava um vestidinho azul bem leve, que combinava com seus olhos, e estava descalça. Pendurada na orelha esquerda estava uma flor-de-lótus, rosa, bela e delicada. Toda a menina emanava calma, como se fosse o próprio riacho.
Tentamos ficar calados, para que não chamássemos a atenção dela. Afinal, nunca se sabe o que pode acontecer quando se encontra um estranho no meio da Floresta de Frígia. Infelizmente, a menina nos ouviu.
Ela olhou para nós e na mesma hora o riacho se agitou.
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